Rafa chegou em casa com um sorriso desconhecido no rosto – e uma sensação boa que não tinha há tempos. Tomou um banho e ficou deitado em sua cama, apenas pensando na vida. Não havia conversado com ninguém depois da aula de português, e não sabia se algum deles iria querer ir à festa. Mas tinha certeza de que ele queria. Era estranho como as coisas tinham saído fora do controle, e como isso tinha sido bom. Não lembrava de ter passado algum momento tão bom ao lado de Isabella, ou melhor, nunca tinha passado nenhum momento bom com ela. Então, interrompendo seus pensamentos, o telefone tocou.

– Alô.

– Fala, dude! – Felipe disse animado. – Bora na festa hoje?

– Festa? – Rafa tentou manter um tom desentendido na voz – Do colégio?

– E qual mais seria?

– Por quê? – Rafa estava feliz por não ter que explicar nada. Aquilo estava saindo melhor que o esperado.

– Porque a Cindy, a líder de torcida gostosa que eu passei a aula de português – Felipe riu sozinho – Vai estar lá. Cara, se eu te contar da minha aula você nem acredita...

– AHHHH PEGADOR! – Vitti gritou e Simas riu.

– Ela é muito gostosa, cara. A gente tem que ir.

– Tudo bem, eu vou com você.

– Sério? – Felipe parecia admirado com a resposta – Achei que teria que te subornar pra você vir comigo.

– Opa, eu aceito suborno! – Rafa gargalhou.

– Nem vem, você já aceitou de primeira! Agora eu vou ligar pro Gui, o Arthur não quis ir... – Felipe fez um barulho estranho com a boca – Aquele bicha. Ele teve uma aula péssima com a Maria Joana e... Espera aí. Você tava com a Isabella! – Simas percebeu e Rafa caiu para trás na cama, derrotado. – Seu humor não está tão ruim.

– Nós não nos matamos. – Rafa sorriu para si mesmo.

– Ah, fala sério. Vai dizer que as duas crianças conseguiram passar duas horas sem a ambulância ser chamada? Não creio! – Felipe fez uma voz afetada e Rafa riu.

– Nós podemos ser civilizados de vez em quando. – Rafa queria parecer indiferente, mas mantinha um sorriso idiota no rosto. Ficou feliz daquela conversa estar sendo via telefone, não queria que Felipe visse sua cara.

– Esse é o tipo de coisa que eu só acredito VENDO. – Simas estava pasmo. – Conta como foi. Anda logo.

– Deixa de ser gay, cara! – Rafa riu alto e Simas o acompanhou. – Eu não vou te contar nada. Agora liga logo pro Gui e para de encher meu saco. Eu quero dormir.

– Dormir pra ficar gatinho pra Bella? – Felipe fez uma voz feminina quase perfeita e os dois tiveram um ataque de riso.

– Vai se fuder, Felipe. Passa aqui em casa antes de ir pra festa.

– Fechado. 20h eu to aí.

Felipe desligou o telefone rindo. Não sabia o que havia acontecido, mas tinha certeza que a aula de Rafa e Isabella não havia sido normal e estava bastante curioso. Conhecia muito bem seu amigo, e ali tinha coisa. Discou rapidamente para a casa dos Santoni Hamacek, e logo no segundo toque, Isabella atendeu rindo.

– Alô. – A voz dela estava fraca, mas ela ria alto.

– Bella, é o Felipe. – Ele riu junto – Qual a piada?

– Oi amor! – Bella disse alto e riu de novo – Eu estou assistindo The Big Bang Theory.

– Sua viciada em seriados! – Felipe riu e ela também. – Tudo bem?

– Tudo ótimo e com você amor?

– Também. – Felipe franziu a testa. – Animada pra festa? Eu vou.

– SÉRIO? Que máximo, até que enfim você resolveu dar o ar da graça nos meus discursos micados! – Bella riu verdadeiramente, pensando em seus discursos – Aposto que tem dedo da Cindy.

– Não só o dedo como a Cindy inteira! – Felipe gargalhou.

– TARADO! – Bella fez uma voz indignada e os dois riram em conjunto.

Felipe ia pedir para que ela chamasse Gui quando teve um estalo. Rafa não comentaria nada, mas Bella, essa sim, falaria tudo. A curiosidade tomou conta dele novamente. Isabella estava super animada, o que não seria normal depois de algumas horas ao lado de Rafa Vitti.

– Bella, sabe quem vai comigo? – Simas jogou verde, mas a garota não entendeu.

– A Cindy, lógico. – Ela disse num tom óbvio e Simas riu.

– Além dela. – Felipe sorria para o própria pergunta.

– Hm... Er... Não sei. – Bella levantou-se do sofá e começou a andar de um lado para o outro. “Como você é ridícula, Isabella. Fique quieta! Pare de agir assim. E daí que deve ser ele? Deixe de ser idiota.” Ela pensava, esperando resposta.

– Rafa.

– Ah. – Bella soltou um barulho com a boca e um surto de emoções estranhas começou a tomar conta dela. Algo que ela não queria admitir que estivesse sentindo. – Legal. – Ela disse sem animação.

– Foi legal a aula de vocês hoje? – Simas estava quase rindo.

– Epa, aonde você quer chegar Felipe Simas? – Bella rolou os olhos – Você já falou com o Vitti, então devia ter perguntado pra ele e...

– ... ELE NÃO ME DISSE NADA! – Felipe gritou no alto da sua curiosidade e Bella riu.

– Nós não nos matamos.

– Eu acabei de ouvir isso, que merda.

– Ele disse isso?

– Disse.

– Hm. – Bella franziu a testa. Não sabia mais o que falar.

– Não vai me dizer?

– Não tem nada a ser dito.

– Chata.

Bella riu do jeito com que Felipe falava. Os dois conversaram mais um pouco, enquanto ele tentava arrancar dela algum detalhe oculto da aula, sem sucesso. Então ela passou o aparelho para Gui, porque já estava atrasada e tinha que chegar bem cedo para preparar algumas coisas que estavam faltando na festa.

– Bella, o Dj já está com o equipamento montado, a fogueira já está quase pronta, eu acho que está tudo certo! – Ana Julia dizia animada.

– Perfeito! – Bella sorriu – Estamos ficando cada vez melhores nisso!

– Também acho! – Majô se intrometeu na conversa. – Eu falei com os nossos fornecedores de bebidinhas impróprias para adolescentes – A menina falou baixo e ria a cada palavra. – Tá tudo no esquema.

– Ah, nós somos ou não somos foda? – Bru disse e as quatro riram.

– SOMOS!

As meninas foram para suas respectivas casas se arrumarem para a última festa antes do verão. Anaju foi junto com Bella para a casa dela, onde passaria aquela noite, após a festa. As duas se arrumaram empolgadíssimas com o som alto. Bella colocou um short curto e uma blusa comprida que deixava um ombro à mostra, assim como suas costas. Ana Julia colocara um vestidinho floral curto que Bella adorava. As duas estavam lindas e matadoras, quando passaram pela sala para irem embora. Eram seis e meia da tarde.

– Já vão? – Gui disse sem ânimo algum, pausando o videogame.

– As organizadoras chegam antes. – Anaju disse e Bella riu.

– Wow. – Gui olhou para as garotas – Vocês estão lindas!

– Obrigada, chuchu! – Bella agradeceu o elogio com um beijo no rosto do irmão, e Ana Julia fez o mesmo. – Tem certeza que você não vai?

– Tenho sim! O Arthur vai vir aqui, a gente vai ficar jogando...

– Programinha loser, hein Gui? – Anaju provocou e Bella riu alto.

– Vocês adoram me chamar de loser, meu deus... – Gui rolou os olhos.

– Você devia aparecer, chuchu. Arraste o chatinho do Aguiar com você – Bella sorriu – Eu vou gostar de ter você lá.

– Se estiver entediante aqui, talvez eu vá. – Gui sorriu verdadeiramente.

– Olha lá hein! – Isabella disse puxando a amiga pela mão – Vamos perua, já estamos atrasadas!

– Tchau Gui! – Ana Julia disse sendo puxada porta a fora.

Isabella e as amigas estavam maravilhadas com o sucesso da festa da praia. A maior parte da elite do colégio estava lá, o que era garantia de muitas fofocas e diversão. Além disso, uma grande parte de alunos desconhecidos também estavam presentes, deixando o local lotado. A grande fogueira ainda não estava acesa, esse era um ritual que aconteceria mais tarde. Bella estava ansiosa e queria simplesmente se afogar por causa disso. Ela não queria, mas de fato estava esperando por ele. E entre uma risada e outra, lembrava disso. Aquilo estava ficando profundamente irritante.

– Meninas, vou pegar mais Cuba, alguém quer? – Bella sugeriu andando por entre as pessoas.

– Eu quero amor! – Bru estendeu o copo para a amiga, que já estava indo para o bar.

Bella encheu os dois copos até a boca com a bebida e olhou mais uma vez em volta. Estava sentindo-se patética.

– Procurando alguém, gata? – Thomas disse ao lado da garota, que deu um leve pulo.

– Que susto, cacete!

– Passou de ano? – Thomas perguntava com uma voz sexy. Já estava bêbado. Isabella reconheceria aquelas atitudes em qualquer lugar.

– Graças a Deus. Ficar de recuperação junto com você seria a destruição completa da minha vida. – Bella disse num sorriso maroto, e Thomas riu.

– Você fica tão sexy brava... – Ele disse acariciando os cabelos da garota.

– Sai pra lá, Portman. Sinto informar, mas você é carta fora do meu baralho. – Isabella disse saindo do bar, quando o garoto a puxou novamente.

– Só mais uma coisinha, Isabella... – Ele sorriu com seus dentes brancos perfeitos – Vai ter volta.

– Nossa, que medo de você Thomas! – Bella riu alto. – Me deixa em paz. – Ela disse, indo em direção as amigas.

Assim que Isabella se distanciou, deixando Thomas sozinho no bar, Matheus amigo dele, chegou a seu lado, eufórico – muitos chutariam a bebida, e sim, esse era um dos motivos. Mas não o único.

– Brow, consegui! – Matheus dizia sorridente e algumas garotas babavam por ele um pouco mais adiante.

– Bom garoto! – Thomas brincou – Então quer dizer que estamos passados? Sem recuperação esse ano?

– Tudo no esquema, já disse! – O garoto dizia orgulhoso – Entrei na sala e mudei as notas, férias garantidas!

– Ah, mas isso merece um brinde! – Thomas disse pegando duas vodkas.

– Calma, ainda tem mais...

– Mais? – Portman estava radiante. – Fala logo!

– Bom, quando eu fui mudar as nossas notas em português...

– É, nunca pensei que ia dizer isso... Mas essa festa tá foda hein Bella? – Felipe apareceu do lado da amiga, que sorriu.

– Felipe, você veio! – Bella disse, pulando em seu pescoço – Cadê a Cindy?

– Foi ao banheiro com as amigas... Porque garotas amam ir ao banheiro juntas? – Simas franziu a testa e Majô riu, aproximando-se com Ana Julia.

– Banheiro feminino é quase como uma sociedade secreta, Simas. – Ela sorriu.

– Por que, está procurando por quem? – Anaju se fez de boba e Isabella riu.

– A Cindy. – Felipe disse presunçoso.

– Ouvi dizer que ela deu pra metade do time. – Anaju revirou os olhos e Bella olhou assustada pra ela.

– Anaju!

– Tudo bem... – Felipe sorriu simpático – Eu não me importo. Eu conheço garotas como a Cindy. Mas nós estamos nos divertindo, e amanhã eu vou pra França com vocês. Não tem porque eu me preocupar com a fama dela. – Ele piscou para a garota que riu, sem graça.

– Ah.

– Felipe, sabe se meu irmão vem? – Bella perguntou enrolando os cabelos. Não era isso que queria perguntar. Simas riu.

– Não sei, ele não me disse nada. Mas o Rafa está por aí, nós viemos juntos. – Ele sorriu malicioso e Bella fez um careta que fez as amigas rirem.

– Obrigada pela notícia, mas eu não tinha perguntado isso, Simas.

– Só pro caso de você ficar curiosa sobre isso, mesmo. – Felipe ria – Acho que ele foi pegar uma bebida.

– Eu não perguntei nada, Felipe! – Bella disse com a voz um pouco mais alta, rolando os olhos. Mas sentiu um frio estranho na espinha ao saber que ele realmente tinha vindo. – Eu vou na cabine do Dj ver algumas coisas. Já volto.

– Se quiser me trazer uma bebida... – Felipe disse e Ana Julia riu alto.

– Vá a merda, Felipe Simas!

Rafa andava perdido por entre as pessoas. Algumas patricinhas o encaravam curiosas. Mas em geral, as pessoas estavam dançando, conversando e bebendo, e sua presença não fora muito percebida por lá. Já havia dado duas voltas no local e ainda não tinha encontrado Isabella, e isso o estava deixando nervoso, ainda mais agora que tinha se perdido de Felipe. Então sentiu seu celular vibrar no bolso.

– Rafa, sou eu, Arthur!

– Fala, dude! – Rafa gritou um pouco alto, devido ao som.

– Outch, meu ouvido porra! – Aguiar reclamou e Gui riu ao lado dele. – A festa tá da hora?

– Tá bem cheia – Rafa olhava para os lados – Nada de interessante. Quer dizer, tem muitas garotas aqui.

– Gostosas? – Arthur estava ficando interessado.

– Aham! – Rafa riu, olhando a saia minúscula de uma menina que passou em sua frente.

– Eu e o Gui estamos indo pra aí, ligo quando a gente chegar! – Arthur disse rapidamente e desligou o telefone, antes que Vitti pudesse responder alguma coisa.

Rafa riu sozinho colocando o celular novamente no bolso, e alguém esbarrou com força em seu braço. Antes que virasse pra olhar, a pessoa estava em sua frente.

– Rafael Vitti... – Thomas riu rolando os olhos – Você por aqui.

– Thomas Portman – Rafa riu, sem nenhum humor – Você por aqui. – Vitti ainda se perguntava porque diabos aquele cara sabia seu nome.

– É raro ver você em festas decentes – Portman riu. – Seja bem vindo. Garanto que essa festa será a melhor, especialmente pra você. – O garoto disse, e alguns amigos que estavam ali, riram.

– Como é? – Vitti franziu a testa.

– Na hora certa você vai saber. Ou não. Vai depender do meu bom humor... – Thomas soltou um riso alto e saiu andando na direção de um grupo de garotas perto da fogueira.

– Fique esperto. – Matheus disse rindo, antes de seguir o amigo.

Bella estava voltado ao encontro de suas amigas quando sentiu um braço pousando em seu ombro, e ouviu aquela risada que já era muito conhecida. Pela primeira vez em anos, em vez de ter um surto de raiva, sentiu sua nuca arrepiar ao ouvi-la.

– Difícil achar você por aqui!

Rafa sorriu largamente, fazendo com que a garota em sua frente quase desmontasse. Ele estava vestindo uma bermuda xadrez e uma camiseta preta, sem muitos detalhes. Mas ainda assim estava lindo. Aquele cabelo um pouco desalinhado e o perfume de Vitti fizeram com que Isabella abrisse um sorriso enorme quando viu o garoto. E ela não teve vontade de reprimir esse sorriso.

– É difícil de encontrar qualquer um aqui – Bella sorriu – Que bom que você veio. – Ela sorriu sincera, e Rafa riu.

– Eu disse que viria.

– Está gostando?

– Bom, está tudo muito legal – Vitti torceu o nariz – Só não é muito a minha praia. – Bella riu do comentário.

– Entendo.

– Seu irmão está vindo!

– Sério? Que máximo, todos os losers virão! – Bella bateu palminhas e Vitti fechou a cara. – Opa. Eu não quis te ofender, é que eu estou acostumada a...

– Desencana. – Rafa sorriu levemente – Eu também não me acostumei com essa relação civilizada ainda. – Ele disse e os dois riram.

– Bella, até que enfim te encontrei! – Bru chegou correndo – Tá na hora do discurso garota! E o Gui está aí!

– Ah, meu chuchu já chegou? – Bella disse e Rafa riu – Tudo bem, deveres são deveres. Estarei lá em um minuto.

Isabella disse e Bruna deu uma piscadinha pra ela, indo em direção à fogueira.

– Bom, está na hora do meu mico anual! – Bella riu de si mesma, e Rafa a acompanhou. – Depois do meu discurso, a gente poderia tomar alguma coisa, sei lá... – Ela estava tímida. Rafa sentiu um calor por dentro. Sabia o quanto era difícil deixar Bella naquela situação, e ela ficava uma graça daquela forma. Parecia mais humana, menos intocável.

– Claro – Ele deu seu melhor sorriso – Vou esperar você ali nas pedras, tá?

– Está bem! Me deseje sorte! – Ela riu, como se soubesse que não precisaria daquilo, e saiu correndo, sem esperar resposta. Rafa ficou rindo ao olhar a garota quase tropeçando seguir seu caminho.

– E aí galera, estão curtindo a festa? – O Dj perguntou e vários gritos animados responderam. – Ótimo, então é hora de dar aquela pausa na música, pra aquela gata ali em frente a fogueira dizer algumas coisas! Vai lá Bella!

Bella riu junto com Ana Julia da introdução que o garoto havia feito. Depois de tantas festas, era de se esperar que ele já fosse amigo delas. Gui, Arthur e Rafa estavam sentados nas pedras com uma visão privilegiada do tal discurso. Felipe havia sumido com Cindy e seus amigos apostavam que os dois já estavam longe dali.

– Hey galera! – Bella deu um grito com um copo na mão – Bem, eu acho que todo mundo aqui quer dançar, e não sei nem porque eu tenho que ficar aqui pagando mico – Ela disse e Gui riu – mas vamos lá, né? Bom, esse ano foi difícil pra muitos de nós! Não vamos negar que aquele colégio é complicado, e sei que muitos espertinhos aqui nem devem ter passado de ano...

– Eu passei! – Matheus gritou e alguns garotos riram.

– Que bom, Ian. Isso é realmente um milagre! – Bella riu alto junto com várias pessoas. O garoto ficou sem resposta. – Mas férias de verão é tudo o que nós esperamos durante o ano todo. E só fazemos aquelas provas difíceis pensando na praia, na pegação e na diversão que teremos um tempo depois! E isso chegou! – Isabella disse em meio a aplausos, em especial das amigas. Rafa olhava para os lados, rindo. – E agora eu vou acender essa fogueira, em comemoração a esse tão esperado momento! FÉRIAS!

Ela gritou e todos aplaudiram. Pegou uma tocha acesa da mão de Bru e acendeu, sob o som de gritos altíssimos, a enorme fogueira montada no centro da festa, com um mar de aplausos.

– É isso aí! Declaro iniciadas as nossas amadas... FÉRIAS DE VERÃO!

Bella desceu do palco improvisado rindo do que tinha dito. Simplesmente achava aqueles discursos horríveis, e tinha ataques de riso todas as vezes que lembrava das coisas que normalmente dizia. Pegou Majô pela mão e puxou-a em direção ao grupo de amigos do irmão.

– Wow, você realmente sabe animar esses animais! – Gui bateu palmas e levou um tapa da irmã, que riu.

– Eu disse que era péssimo!

– Você foi ótima, Bella. – Rafa disse sorrindo e todos pararam para olhar para ele, incluindo Isabella. Droga, havia pensado alto de novo.

– Como é dude? – Aguiar perguntou incrédulo.

– ... Ótima eu digo... no nível que esses animais merecem. – Vitti “consertou” rapidamente e Bella fez uma careta estranha.

– Tava demorando. – Majô reclamou. – Gui, vamos pegar alguma coisa pra beber?

– Okay! – Gui concordou rapidamente, levantando.

– Eu também vou. – Arthur disse rapidamente.

– Eu não te chamei! – Maria Joana retrucou.

– Desculpe, o bar não é seu, até onde eu sei!

– Mas eu organizei e...

– Cacete, andem logo vocês dois! Parecem duas certas pessoas que eu conheço! – Gui disse olhando pra Bella, que riu e mostrou o dedo, quando ele se distanciava.

– Então quer dizer que meus discursos são bons para animais? – Ela disse rapidamente, virando-se para Rafa.

– Desculpe, é que o Arthur...

– ... Tá, esquece. Acho que vai ser sempre assim, mesmo. – Bella murchou e deu de ombros. No fundo havia imaginado que as coisas estavam dando certo. Virou-se para sair quando Rafa segurou seu braço.

– Ei, Bella. – Ele disse com o olhar baixo, ainda a segurando – Me... desculpe.

Vitti disse incrivelmente corado e Isabella se virou para ele. Aquela cena realmente era inédita.

– Você pediu... desculpas? – A garota olhava de rabo de olho, ainda sem acreditar.

– Você não vai aceitar? – Rafa olhou nos olhos dela, que abaixou rapidamente o olhar, com um sorriso quase se formando no rosto.

– Tá. Desculpas aceitas. – Ela sorriu olhando pra baixo.

– Aquele convite pra uma bebida ainda está de pé? – Vitti perguntou com um sorriso animado no rosto, e Bella riu baixo.

– Claro! Vem comigo!

Bella puxou Rafa pela mão e foi correndo na direção oposta do bar. O garoto não estava entendendo muita coisa, mas estava rindo da situação. Ela pegou uma chave no bolso rapidamente e abriu uma Van branca que estava parada no estacionamento. Dentro dela havia um freezer grande. Vitti arregalou os olhos fazendo com que a garota risse mais alto.

– Cerveja, Ice, Vodka, Vinho... Whisky? – Bella perguntava olhando com a luz do celular para dentro do freezer.

– Cerveja!

– Então duas cervejas para nós! – Bella pegou as duas garrafinhas verdes e fechou a Van. – O fornecedor mandou eu pegar mais aqui quando precisasse. É que tem que ser por baixo dos panos, sabe? Se a polícia descobre esse bando de menores de idade bebendo... – Bella riu marota.

– Isabella é da máfia, baby! – Rafa disse mais alto e os dois riram. – Vamos sentar ali? – Ele apontou para algumas pedras que davam visão para toda a área da festa. Bella sorriu e o acompanhou, em silêncio.

– Quem diria... – Ela sorriu, olhando para a fogueira, que estava linda vista de cima – Eu nunca imaginaria que um dia ia tomar uma cerveja com você vendo a festa que eu organizei.

– Nem eu! – Rafa sorriu, olhando para a garota – Um brinde a isso!

Os dois bateram as garrafas e riram, bebendo. Ficaram lá por quase uma hora, conversando como velhos amigos e rindo sobre as coisas que aconteciam na festa. Ninguém parecia perceber a presença dos dois, ali em cima.

– Wow, acho que tenho que descer! – Bella disse, olhando no visor do celular. – As meninas devem estar loucas atrás de mim!

– Ah! – Rafa resmungou e a garota olhou para ele – Fica aqui. É tão mais legal!

– Eu sei... – Bella disse meio mole – Muito mais legal, mas...

– Não, nada de “mas”! – Rafa disse e os dois riram. – Cinco minutos! Eu ainda acho que aquele cara vai despencar da ponta do palco!

– Tadinho! – Bella disse alto e os dois riram – Tudo bem, cinco minutos!

Os cinco minutos se tornaram mais vinte quando Rafa finalmente se deu por vencido e acompanhou Isabella de volta para a festa. Nesse meio tempo, tinham apostado sobre a queda do garoto do palco, e Bella devia cinco libras para Vitti por causa disso.

– Nossa, essas pedrinhas escorregam! – Bella reclamava enquanto Rafa ria.

– Vem, dá sua mão! – Ele disse sorridente e ela estendeu, sem pensar duas vezes, a mão para segurar na dele. – Cuidado, não pisa ali...

– Tá, eu não vou pi...

Bella ia dizendo quando escorregou, puxando Rafa para baixo. Os dois caíram de bunda no chão e tiveram um ataque de riso.

– Eu disse pra você não pisar! – Rafa segurava a barriga de tanto rir.

Bella não conseguia responder porque estava rindo muito ainda. Thomas estava passando com uma garrafa de Whisky na mão quando viu Rafa e Isabella rindo feito loucos nas pedras. Uma súbita raiva tomou conta do garoto, que já estava completamente bêbado. Portman saiu em passos largos e decididos até a cabine do Dj, arrastando Matheus e mais dois amigos. Esses amigos fizeram com que o Dj parasse a música rapidamente. Isabella ouviu os gritos e reclamações repentinas e saiu correndo em direção a festa. Rafa foi logo atrás.

– O que diabos está acontecendo? – Bella quase berrou com Ana Julia, que deu de ombros.

– Não sei amor, eu acho que deu algum problema na cabine...

– Eu vou ver! – Bella virou-se decidida quando ouviu uma voz conhecida vinda do palco.

– Olá, meus queridos amigos! – Thomas cambaleava e vários olhares assustados o fitavam – Que tal um pouco mais de diversão essa noite?

– Yeah! – Os capangas de Thomas gritaram e Bella saiu com as mãos fechadas em direção ao palco.

– Thomas, desce daí AGORA! – Ela berrou, mas ele apenas riu.

– Nossa gente, calma... Eu tenho uma surpresinha pra vocês.

Gui, Arthur e Felipe se aproximaram de onde Rafa e Ana Julia estavam. Não demorou muito para que Maria Joana também chegasse ali. Bruna foi direto ajudar Isabella.

– O que esse idiota tá fazendo? – Gui perguntou e Rafa franziu a testa.

– Não deve ser coisa boa.

– Portman, eu vou chamar os seguranças! – Bruna gritava ameaçadora, mas o garoto não moveu um centímetro.

– Vamos lá, antes que as pessoas se estressem comigo. Me dá aquilo lá, Ian. – Thomas ordenou e rindo alto, o amigo entregou alguns envelopes em suas mãos. Os envelopes da aula de português.

– Puta merda. – Maria Joana logo reconheceu os papéis, e saiu correndo até as amigas.

– Eu vou falar com a segurança! – Anaju disse prontamente.

– Eu vou com você! – Felipe a seguiu.

– “Kelly Mathias sobre Lucas Andrade” – Thomas começou a ler, presunçoso, e todos agora prestavam absoluta atenção, rindo sobre as coisas lidas.

– Thomas, onde você arrumou isso? – Majô gritou e Matheus prontamente respondeu.

– Ah, um bom mágico nunca revela seus truques, Chiappetta!

– Thomas, deixa de ser ridículo, os seguranças estão vindo, desce daí! – Bella estava absolutamente nervosa.

– Mas estão gostando, não estão? – Thomas perguntou e várias pessoas gritaram – Viu só? Eu também sei chamar atenção! E eu nem cheguei na melhor parte, gatinha! – Thomas riu sozinho e Isabella teve um surto. – Vamos pra outro envelope... “Kate Maciel sobre Lana Mesquita”

Thomas começou a ler o papel e Bella olhou para o lado. Lana estava chorando pelas coisas que a outra garota havia escrito sobre ela. Aquilo não daria certo, não mesmo.

– Chega! Eu vou até a cabine ligar esse som eu mesma, aí esse idiota vai calar a boca! – Bella berrou para as amigas e abriu passagem, passando por Rafa e empurrando algumas pessoas pelo caminho.

– “Isabella Santoni Hamacek sobre Rafael Vitti” – Thomas anunciou alto. Isabella parou, de costas, com as mãos fechadas em punhos. Aquilo não podia estar acontecendo. – Esse envelope é meu preferido! – Thomas continuou sob olhares atentos.

Rafa olhou para trás e viu que Isabella estava paralisada, de costas para o palco. Deu dois passos a frente e juntou-se com Maria Joana e Bru.

– Façam esse cara parar! – Vitti disse um tanto alterado, quando Thomas começara a ler, imitando uma voz feminina. E de repente toda a festa estava prestando atenção.

“Rafa Vitti é um garoto completamente diferente de mim. Diferente do que eu esperava sobre ele... Rafa é o único capaz de entender o que eu realmente penso ou sinto, e acho que é por isso que nós brigamos tanto. Eu simplesmente odeio estar desarmada em frente às pessoas. Eu gosto de ser a Isabella Santoni Hamacek que todos vêem por aí. Mas essa não é a Isabella que ele vê. Quando ele olha pra mim eu tenho absoluta certeza de que ele vê através, e isso me deixa desconcertada...” – Thomas parou para rir – “Agora vou confessar... Eu adoro a risada dele e aquele sorriso tímido, acho que o mundo fica mais leve com isso. O jeito que ele...”

As lágrimas escorriam pelo rosto de Bella, que estava parada, agora olhando para Thomas, que ria a cada palavra da maldita carta da aula de português. Rafa olhou para trás e seu olhar se encontrou com o de Isabella. Foi quando ele percebeu que ela estava chorando. Em meio segundo, deu mais alguns passos e puxou Thomas para baixo do palco, dando um soco certeiro em seu rosto. O garoto caiu na areia.

– Filho da puta! – Thomas gritou e acertou outro soco em Vitti, que cambaleou. — Você vai ser só mais uma vítima na mão dela!

Vitti nada respondeu, mas tinha raiva no olhar. Virou outro soco na barriga de Portman. Isabella já estava ao lado das amigas gritando por socorro quando Matheus também partiu pra cima de Vitti, derrubando-o no chão. Então Felipe, Gui, Arthur e outros garotos conseguiram apartar a briga com algum esforço.

– Eu disse que ia ter volta, vadia! – Thomas gritava tentando se soltar dos braços de um desconhecido. – Me solta, porra! Eu ainda quero acertar uma no olho desse...

– Solta, deixa ele vir! – Rafa provocava, chamando-o com o dedo, enquanto também tentava se soltar de Felipe.

– Rafa, fica na sua! – Simas segurava o amigo com mais força.

– Já chega vocês dois! – Bella gritou com os olhos vermelhos. – Você é podre, Thomas. Muito pior do que eu esperava!

O som alto de uma música do Strokes tomou conta da festa e as pessoas abriram espaço para que Isabella saísse correndo dali.

– Ela não está em lugar nenhum! – Bru chegou correndo ao lado de Arthur. Gui colocou a mão na cabeça, preocupado.

– A Majô também não achou nada. O Felipe e a Ana Julia estão procurando ainda. – Ele colocou as mãos nos bolsos – Caralho! Eu vou quebrar esse Portman!

– Você não vai nada, Santoni Hamacek. – Bruna logo advertiu – Tudo o que nós não precisamos agora é que você se machuque. E o Rafa?

– Ainda está procurando. – Gui disse desanimado.

– Vai ficar tudo bem, dude. – Aguiar consolou o amigo, que forçou um sorriso.

– É verdade, Gui. Eu conheço a Bella... Ela só deve estar por aí pensando na vida. Não vai fazer nada de errado! – Bru sorriu e Gui ficou mais aliviado.

Rafa estava andando ao longe na praia, já pensando em voltar, quando avistou Isabella sentada próxima ao mar. Antes que ela o visse, pegou o celular rapidamente e discou para Gui.

– Achei, cara. Vou lá falar com ela. Mas relaxa que ela está bem. – Ele disse simplesmente, e desligou o aparelho.

Vitti andou devagar com as mãos nos bolsos até onde a garota estava. Bella estava distraída, desenhando na areia.

– Hey. – Ele disse, sentando-se ao lado dela – Posso ficar aqui?

– Aham.

Ela respondeu olhando pra baixo e dois minutos de silêncio pairaram ali. Rafa estava olhando para o mar, quando Bella virou-se bruscamente para ele.

– Me desculpe, você deve ter se machucado! – Ela parecia lembrar-se disso somente agora. Vitti riu.

– Está tudo bem...

– Deixa eu ver! – Ela acendeu a luz fraca do celular para iluminar melhor o rosto do garoto – Ele te bateu aqui... Ah Rafa, sinto muito...

– Ei, já disse que está tudo bem! – Ele sorriu olhando nos olhos vermelhos da garota – Deve estar doendo mais nele. – Ele riu e Bella sorriu, rolando os olhos.

– Metido.

– Realista.

– Ah, fica quieto! – Ela riu baixo.

Rafa olhou para Bella novamente e sentiu um arrepio na espinha. Estavam longe da orla, o local era pouquíssimo iluminado, mas ela estava incrivelmente linda ali. Era realmente estranho tudo aquilo.

– Posso falar uma coisa? – Rafa sorriu tímido e Bella assentiu. – Eu fiquei curioso pra saber o resto da carta... Não me bate! – Ele disse rapidamente e Bella tentou não rir.

– Você e o resto do colégio... Eu não precisava disso.

– Eu sei, desculpe.

– Não tem porque se desculpar. – Ela suspirou abraçando os braços.

– Frio? – Rafa perguntou e sorriu, quando ela afirmou com a cabeça. Então ele tirou o casaco fino que estava vestindo e colocou nas costas dela.

– Você não estava vestindo isso. – Bella franziu a testa e ele riu.

– Peguei no carro depois da briga.

– Ah. – Bella abaixou os olhos ao lembrar da cena – Obrigada, de qualquer forma.

– Por nada.

– Rafa, promete uma coisa pra mim? – Isabella perguntou do nada e Vitti franziu a testa, sem entender.

– O que?

– Não vá ficar se achando pelas coisas que você ouviu. Aliás, finja que não ouviu nada. – Ela pediu com um olhar suplicante e Vitti sorriu levemente.

– Eu não posso fingir que não ouvi, Isabella... – Ele disse calmo e ela o olhou – Até porque eu gostei do que eu ouvi, de verdade.

– Mas...

– ... Mas relaxa, eu não vou ficar me achando. Eu não vou comentar mais nada sobre isso, prometo. – Rafa sorriu, fazendo com que Bella o acompanhasse.

– Obrigada. E desculpe pelo o que Thomas fez com você. Eu juro que vai ter volta! Ele não perde por esperar! – Bella estava ficando nervosa novamente. Fechou as mãos e os olhos já estavam marejando de novo, enquanto ela olhava para o nada.

– Bella, eu já disse que está tudo bem! – Rafa disse olhando nos olhos da garota – De verdade.

– Eu não precisava passar por isso. Muito menos você. Eu fico me perguntando porque eu fiquei com esse cara... – Uma lágrima do rosto da garota. Rafa, sem pensar duas vezes, a enxugou num toque leve, e Bella olhou nos olhos dele, involuntariamente.

– Não pense assim. – Ele sorriu passando a mão de leve nos cabelos da garota – Ele que devia ter orgulho de... – Vitti parou para medir as palavras – Orgulho de ter namorado uma garota como você.

Bella olhava fixamente nos olhos de Rafa, que estavam refletindo a pouca luz do lugar e o silêncio tomou conta do lugar. Só podiam ouvir o quebrar das ondas mais adiante. Ela simplesmente não sabia o que dizer, mas estava sentindo-se reconfortada. Apenas por estar ali, com Rafael Vitti, que poucos dias antes era motivo de sua fúria.

– Rafa...

– Eu...

– Eu posso... – Bella olhava para baixo com um sorriso quase infantil no rosto – Ah, esquece.

– Ah não! – Rafa virou de frente pra ela, curioso – Agora fala.

– Não! – Isabella riu.

– Ah, por favor! – Rafa fez cara de cão sem dono e Bella rolou os olhos, rindo.

– Eu não sei porque eu estou pedindo isso, que fique claro – A garota voltara a olhar para os pés, visivelmente tímida – Isso é estranho.

– Você ainda não pediu nada.

– Você vai achar estranho.

– Tente.

Bella rolou os olhos numa risada baixa e sincera. Sentou-se de frente para Rafa e sorriu.

– Posso abraçar você? – Bella olhou para baixo e não viu o sorriso que Rafa abriu – É que não sei, fiquei com vontade. Eu preciso abraçar alguém e...

Bella ia atropelando as palavras tentando consertar o que acabara de dizer, e tinha a sensação que não devia ter dito nada. Estava falando sem parar quando Rafa soltou uma risada muito alta.

– O que foi, tá louco? – Bella parou do nada vendo o garoto rir. – Para de rir, Rafa Vitti! O que aconteceu?

– Caramba, você fala demais! – Ele riu e continuou, antes que ela pudesse se manifestar – Vem cá!

Rafa a puxou para mais perto e abraçou com força. Bella respirou fundo sentindo o perfume do pescoço do garoto. Pousou sua cabeça sobre o peito dele, o segurando com toda força que podia. Vitti mantinha os olhos fechados ao acariciar os cabelos e o rosto frio de Isabella. Ficaram ali, sem dizer nada por alguns minutos, mas sentindo-se incrivelmente bem. Com um pouco de esforço, Bella saiu dali, contra a própria vontade. Estava com vergonha, mas sentia-se muito bem. Era como se nada tivesse acontecido. Aquele momento havia apagado todos os outros daquela noite. Rafa abriu um sorriso encantador e a garota quase teve certeza que suas pernas nunca mais obedeceriam.

– Você não precisa pedir. – Vitti disse, ainda sorrindo.

– Bom saber.

Bella sorriu mais largamente e apoiou sua cabeça no ombro de Rafa, que envolveu sua cintura com a mão. Ficaram olhando o mar sem dizer nada, por mais um tempo, ignorando o quanto estranha era aquela situação para os dois.

– Eu acho que tenho que ir pra casa. – Bella disse, quebrando o silêncio.

– Porque?

– Porque eu tenho casa! – Ela respondeu e os dois riram.

– Mas você não precisa ir agora!

– É, acho que não... – Bella sorriu meio torto – Mas ainda tenho algumas coisas da bagagem pra ver e...

– Eu vou te levar pra casa. – Rafa disse levantando.

– Não, não precisa Rafa! – Bella continuava sentada, estendendo a mão para que ele a ajudasse – Não precisa se incomodar.

– Eu faço questão. – Rafa sorriu – Vou ficar com você até a noite terminar. Só pra ter certeza.

– Certeza de que? – Bella já estava em pé, olhando desconfiada.

– Certeza de que isso realmente está acontecendo. – Ele riu, tímido, e Bella sentiu as pernas bambearem de verdade.

– Já que é assim... – Ela sorriu – Aceito sua carona.

Isabella e Rafa foram conversando sobre coisas aleatórias no caminho até o carro. A festa estava sendo desmontada, devia ser tarde, mas Bella não se preocupou em conferir. Não estava com cabeça para aquilo, mas estava feliz. Em alguns minutos pararam em frente ao carro de Rafa. Bella sentou-se e olhou de rabo de olho para o rádio. O caminho era curto, chegariam rápido. Mas mesmo assim uma música cairia bem.

– Posso? – Ela perguntou, já ligando o aparelho. Rafa riu.

Um Cd do Beach Boys começou a tocar e Bella sorriu.

– Sem chance de Snow Patrol ser sua banda favorita! Ela disse e Rafa riu.

– Não é. – Ele disse, batucando no volante – Mas aquela música estava pedindo pra ser ouvida.

– Faz sentido! – Bella riu baixo – Eu adoro essa música!

Isabella fez da própria mão um microfone e começou a cantar junto com o Cd. Rafa teve um ataque de riso olhando para a garota balançando a cabeça de um lado para o outro ao seu lado.

Wouldn't it be nice if we were older? (Não seria legal se nós fossemos mais velhos?)

Then we wouldn't have to wait so long (Então nós não teríamos que esperar tanto)

And wouldn't it be nice to live together (E não seria legal se vivêssemos juntos)

In the kind of world where we belong (Em algum tipo de mundo em que nós pertencemos)

Bella olhava para Rafa rindo junto da própria cena. Afinou a voz e continuou cantando.

You know it's gonna make it that much better (Você sabe que vai ser muito melhor)

When we can say goodnight and stay together… (Quando pudermos dizer "boa noite" e ficar juntos)

Rafa ainda ria quando voltou a batucar no volante. Bella estendeu seu “microfone para ele, e os dois começaram a cantar juntos.

Wouldn't it be nice if we could wake up (Não seria legal se pudéssemos acordar)

In the morning when the day is new (Na manhã de um dia novinho em folha)

And after having spent the day together (E depois de termos passado o dia juntos)

Hold each other close the whole night through (Ficaríamos abraçados a noite inteira)

– Ah, eu preciso respirar! – Rafa estava em meio a um ataque de riso. Bella gargalhava mais ao olhar para o garoto.

– Fala se eu não sou a melhor cantora que você já ouviu? – Ela abaixou um pouco o volume do rádio, arfando.

– Nossa, você deveria ganhar o Grammy! – Rafa riu sarcástico e levou um tapa no ombro – Outch! Eu não sou saco de pancadas, dona Isabella!

– Tudo bem, você já apanhou por hoje!

Bella virou os olhos, rindo. Rafa estacionou em frente ao jardim da casa dela, devagar.

– É, eu acho que é isso. – Ele parecia desanimado com a ideia, o que fez a garota sorrir.

– Obrigada por esta noite, Rafa. – Bella sorriu sincera e ele a acompanhou.

– Acho que todas as coisas boas tem que ter um final, não é mesmo? – Rafa sorriu desanimado. – Mas nos vemos na França! – Ele riu.

– É, a França que nos espere! – Bella e Rafa bateram as mãos, e riram. – Vou entrar. Obrigada, de verdade. – Ela disse, estalando um beijo no rosto do garoto, que sorriu.

– Até mais tarde!

Rafa esperou Isabella entrar em casa e acelerou o carro, extremamente feliz. Voltou algumas faixas do Cd para a Wouldn’t it be Nice e foi cantando e rindo, até chegar em casa.

Isabella fechou a porta atrás de si e estava tudo escuro. Sua mãe já estava dormindo e Gui provavelmente estava ajudando Ana Julia e as garotas com a arrumação da festa, coisa que ela devia estar fazendo. Mas não estava se importando. Colocou as mãos nos bolsos e subiu as escadas, sorridente. Só quando chegou ao quarto percebeu que ainda vestia a blusa vermelha que Rafa havia emprestado. Riu sozinha e não tirou a blusa, jogando-se para trás na cama. Aquele perfume estava lhe fazendo bem.

A casa de Rafa estava vazia – sua mãe havia saído com algumas amigas – Então ele se jogou no sofá ainda com um sorriso besta no rosto. Ficou olhando para o teto, sem acender a luz, quando sentiu o celular vibrar no bolso da bermuda. Pegou o aparelho rapidamente, e com um sorriso ainda maior no rosto, leu a mensagem que Bella havia enviado.

“Todas as coisas boas têm que ter um final, mas algumas coisas nem sempre tem fim.”

Rafa estava se preparando para digitar uma resposta a altura quando uma nova mensagem chegou. Ele riu ao olhar para o texto.

“Ah, devolvo sua blusa na França... Ou não. Eu gostei dela, hahaha. xoxo, Bella :*”

Bella estava jogada na cama com o celular na mão quando ele vibrou. Achou que seria uma mensagem, então se assustou quando viu que era uma ligação. De Rafa. Respirou fundo e atendeu, sorridente.

– Mas já está com saudades de mim? – Bella brincou e Rafa riu de verdade.

– Pretenciosa.

– REALISTA.

– Fica quieta. – Os dois riram juntos para a eterna piada entre eles. – Recebi seu SMS. E antes que você me zoe por ter ligado ao invés de ter respondido – Rafa disse e Bella riu – Eu só liguei para dizer que vamos ter problemas sobre essa blusa, eu gosto muito dela. – Rafa gargalhou.

– Ah, é realmente uma pena! – Bella enrolava os cabelos, rindo baixo – Ela fica melhor em mim do que em você.

– Isso é o que nós veremos, na França! É tão legal dizer isso! – Rafa riu empolgado fazendo a garota sorrir e rir ao mesmo tempo.

– Melhor do que dizer vai ser ESTAR lá, esquentadinho. – Bella fez uma voz afetada e os dois desataram a rir.

– Com certeza!

Bella ouviu o barulho do carro de Gui estacionando e fez uma careta estranha.

– Droga, vão descobrir que eu fugi da limpeza! – Ela murmurou e Rafa riu. – Tenho que desligar Rafa! Vou tentar fingir que estou dormindo! – Ela disse rapidamente.

– Boa sorte com isso! – Vitti disse rindo. – Ah, só mais uma coisa!

– O que?

– Se algumas coisas não tem fim... – Rafa parou no meio da frase e soltou um longo suspiro – Essa será uma delas. É só um novo começo. O nossocomeço.

Bella voltou a sentar na cama e teve a nítida sensação de que tinha esquecido de respirar [n/a isso é tão Bella hahahaha] ou que suas pernas iriam fazer com que ela despencasse. Fechou os olhos, sorrindo, e ficou em silêncio até conseguir pensar algo suficientemente bom, ou pelo menos aceitável, para responder.

– Eu tenho certeza disso. – Ela disse com a voz baixa, e Rafa abriu um imenso sorriso. – Não vou esquecer o que você acabou de dizer, dica. Eu vou cobrar. – Ela riu e ele também.

– Pode cobrar. – Ele sorriu.

– Boa noite, Rafa. Obrigada... De novo.

– Boa noite, Bella. Durma bem.