Quem sabe isso quer dizer amor?
3 Mais sobre você
Notas iniciais
O barulho dos amigos havia sumido do lado de fora tinha uns cinco minutos. Todos estavam se mobilizando pra tentar achar uma cópia da chave ou pelo menos para achar o número de um chaveiro. Rafa e Isabella não haviam se falado nem se olhado por um segundo sequer. Falaram apenas com Gui, Bruna e Felipe através da porta, mas sem interagir entre si. Fugir pela janela não era uma opção, era tão pequena que uma criança de cinco anos não escaparia. Vitti sentou-se ao lado da pia e ficou olhando para o teto. Bella estava em pé. E foi só aí que ela lembrou das questões. Em um passo rápido ela se aproximou e soltou o fundo da gaveta. Rafa arqueou a sobrancelha quando viu e em segundos estava ao lado da garota.
– Ah, sai de perto Rafa! – Bella fez careta quando percebeu que a guerra ia recomeçar.
– Não vou a lugar algum. – Ele sorriu malicioso.
– Você é tão, tão... – Bella fechou as mãos em punhos de raiva.
– Lindo? – Ele riu alto e a garota rolou os olhos.
– Irritante, imbecil, retardado e agora posso perceber que também é PRETENCIOSO. – Bella sorriu vitoriosa pela cara que ele fez.
Então dois envelopes grossos foram retirados do fundo da gaveta. Rafa tomou um da mão de Isabella, que ficou furiosa, mas já não tinha mais paciência para reclamar. Cada um sentou, a uma certa distância, e abriu o envelope que tinha em mãos em silêncio.
– Er. Rafa... – Bella disse depois de três minutos.
– O que?
– A gente podia trocar de envelope, né? Afinal as perguntas que eu tenho que responder estão na sua mão. – Ela sorriu marota e Rafa riu.
– E porque eu faria isso?
– Porque eu tenho aqui o que você precisa.
– Faz sentido. – Ele riu e quando ia deslizar o envelope pelo chão, parou no meio do caminho.
– O que foi? – Bella franziu a testa.
– Eu não posso entregar o que você quer tão fácil. Você supostamente tem que responder isso aqui. – Ele sorriu torto e Bella revirou os olhos.
– Você quem sabe. Mas vocês vão zerar amanhã, queridinho. – Ela zombou. – Vocês não devem saber nem metade do que está aqui.
– Não me desafie. – Rafa sorriu e Bella fez o mesmo, involuntariamente, tentando se controlar. – Aliás, onde sua mãe descobriu essas coisas?
– Ela deve ter ligado para as mães de vocês.
– Ah. – Ele olhou para o papel. – Com quantos anos seu irmão ganhou o primeiro violão? – Rafa perguntou do nada e Isabella riu, gostando da brincadeira.
– Com onze. Lembro disso. Vividamente. – Ela riu alto e fez uma careta estranha, que fez Rafa rir. – Qual a marca de bolsas preferida da Maria Joana?
– Kipling. – Ele respondeu rápido e Isabella arregalou os olhos. – Ah vai, essa era muito fácil.
– Se você diz. – Isabella riu.
– Qual o único livro que Arthur leu na vida? – Rafa riu para a pergunta.
– A Culpa É das Estrelas. O Gui disse que viu ele chorando. – Bella rolou os olhos rindo. – Vejamos... Bella pesquisava alguma coisa na lista. Não, não vou perguntar nada sobre mim...
– ... Porque não? – Vitti interrompeu.
– Porque você não vai saber. – Bella riu e fez graça da cara de Rafa.
– Eu sei muito mais do que você imagina. – Rafa respondeu em um sorriso tímido e olhou para baixo.
– Duvido.
– Então manda.
– Nome do meu macaquinho de pelúcia.
– Johnny Depp. – Ele fez sinal de vômito e Isabella riu, mas logo fechou a cara de novo.
– Certo. Qual meu personagem de livro preferido?
– Fácil. Maxon Schreave.
– Como você sabe essas coisas? – Bella olhava pensativa.
– É só observar.
– Você me... observa? – Ela olhou nos olhos do garoto que corou imediatamente.
– Não, não. Sei lá. Essas perguntas tão fáceis demais! – Rafa olhou para baixo tentando disfarçar.
– Tá. Porque eu tenho medo de altura? – Bella perguntou vitoriosa. Rafa abaixou os olhos pensativo. Um minuto se passou. Depois mais dois. – Anda, Rafa.
– Er... Sei lá, porque você caiu de uma escada? – Ele riu baixo. – Isso explicaria sua loucura.
– Cala a boca. – Isabella rolou os olhos, impaciente. – E você está errado.
– Então qual é a resposta certa?
– Ai, seu cotovelo está sangrando. – Bella disse olhando fixamente para o braço do garoto, que fez uma expressão estranha e engraçadíssima.
– Mas o que isso tem a ver com altura e... – Rafa parou e passou a mão no próprio cotovelo. – Aaaaah tá! – Ele disse e Bella riu verdadeiramente. Ele fechou a cara nos dois primeiros segundos, mas não resistiu em acompanhá-la no riso.
– Dói? – Ela perguntou num sorriso tímido e Rafa sorriu sem olhá-la.
– Bom, tendo em vista que eu estou preso com uma garota boni... – Ele parou no meio da frase e tossiu – Com uma garota. Eu poderia dizer que sim, o que obrigaria você a cuidar de mim. Mas como eu tenho medo de você quebrar meus ossos, eu digo que não.
Isabella deu uma risada estranha, algo que misturava fúria e graça, mesmo.
– Espero sinceramente que você tenha que amputar esse braço. – Ela disse olhando para as unhas e ele riu.
– Ah, você é adorável, esquentadinha.
Rafa riu baixo e sentiu um baque na porta atrás de si. Levantou-se, assim como Isabella, e ficaram olhando a porta.
– Aleluia, acharam a chave ou resolveram arrombar? – Rafa perguntou um pouco alto e Bella suspirou de alívio.
– A chave estava comigo. – Sra. Santoni Hamacek respondeu num olhar furioso. – Os dois, fora do meu banheiro.
– Mãe, isso pode parecer estranho, mas não é nada do que você... – Bella estava confusa e atropelava palavras.
– Eu sei que vocês não estão perpetuando a espécie, graças a Deus. Agora SUMAM do meu banheiro. Eu to falando sério. Estou logo atrás de vocês. Teremos uma conversa definitiva. – Ela disse num tom de voz alto e um tanto assustador, para uma pessoa sempre bastante calma. As mãos de Isabella suaram frio ao descer as escadas.
No andar debaixo, estavam todos os outros seis devidamente acomodados nos sofás. Todos com caras de absoluto espanto. Todos querendo fugir dali. Maria Joana deu um espaço para o lado e olhou para Bella, sem dizer nada, e ela entendeu o recado, sentando-se ali. Rafa sentou no chão em frente a Ana Julia.
– Rafa, sente-se no sofá. – A Sra. Santoni Hamacek disse num tom de voz severo. Ele obedeceu prontamente, sentando-se num pequeno sofá de dois lugares entre Arthur e Felipe.
– Er, mãe eu... – Gui tentou dizer alguma coisa, mas seu rosto estava vermelho.
– Silêncio, Guilherme. Agora eu falo, e vocês escutam. – Ela disse andando de um lado para o outro da sala, como uma policial em frente a vários delinquentes. – Muito bem. Tentando roubar o questionário, não é mesmo? – Ela ia dizendo e percebeu que vários deles iam se manifestar ao mesmo tempo. – Quietos. Como eu estava dizendo... Eu arrumei uma maneira muito mais fácil e justa de resolver o problema de vocês, mas ninguém aqui pareceu colaborar comigo, não é mesmo? Pena. – Ela chacoalhou a cabeça. – Eu tentei confiar em vocês, mas vocês traíram isso. E eu tenho algo a dizer: Eu já esperava. Sim, eu esperava que vocês trapaceassem, eu conheço muito bem meus filhos e também os amigos deles. E eu tomei uma decisão.
– Mãe, por favor nos desculpe. Não era nossa intenção e... – Bella ia tentando usar seu poder de convencimento, mas foi interrompida.
– Nós só fizemos isso porque as meninas iam fazer! – Gui disse e Isabella arregalou os olhos.
– O QUE? Você bebeu, Guilherme? Deixa de ser ridículo!
– É isso mesmo, o Arthur ouviu e...
– Grande coisa, como se vocês já não estivessem planejando isso. – Ana Julia interrompeu.
– Não estávamos não! – Gui bateu o pé e as meninas riram alto.
– Ah sim, claro. Vocês são todos SANTINHOS agora, não é mesmo? A-D-O-R-O! – Bella revirou os olhos impaciente e Simas abaixou a cabeça.
– CHEGA! CANSEI DE VOCÊS. CALEM A BOCA AGORA! – A mãe de Gui e Isabella disse e todos voltaram a sentar. – Escutem bem o que eu vou dizer agora. Eu NÃO VOU mais me preocupar com essa eterna implicância de vocês. Parecem crianças, ora mais! É o seguinte: vou dar duas alternativas pra vocês. Se me interromperem na primeira, eu nem deixo vocês escolherem, ou melhor, a escolha já estará feita: vai ser a segunda opção. – Ela disse severa e ninguém se moveu. – A primeira: Todos vocês vão. Eu estou pouco me importando se vão se matar ou não. – Ela disse todos arregalaram os olhos, mas ninguém disse nada. Não era uma possibilidade a ser considerada.
– E a segunda? – Maria Joana perguntou timidamente e Sra. Santoni Hamacek abriu um largo e malicioso sorriso.
– A segunda, minha querida Maria Joana é essa: Se não forem todos, ninguém vai. Repito: NINGUÉM. Lindo não é? Agora se matem, eu vou tomar um banho com meus novos sais. – Ela disse subindo as escadas enquanto todos permaneceram em silêncio absoluto e caras de espanto. Até ouvirem o barulho da porta.
– SEM CHANCE! – Gui gritou.
– Eu NUNCA vou viajar com vocês. NUNCA! – Bruna gritou e todos começaram a falar ao mesmo tempo.
– Eu já sou obrigada a aguentar vocês o ano todo, e nas férias também? Não mesmo!
– Isso é ridículo, eu não vou.
– Nem eu.
– Eu quero ir. – Felipe disse baixo e todos olharam pra ele. – O que foi? É verdade mesmo, eu quero ir.
– Ah, cala a boca Felipe! – Ana Julia disse e a guerra continuou.
Estavam todos falando ao mesmo tempo. Não dava nem para entender uma pessoa sequer. Isabella sentou-se no sofá contrariada e ficou observando a guerra em sua frente. Ninguém iria ceder. Ninguém iria simplesmente dizer que aceitava. Rafa olhou para ela do meio da muvuca e manteve os olhos fixos. Ela desviou o olhar, sem graça, olhando para Felipe, e então levantou.
– Eu estou com o Felipe. – Disse simplesmente e Rafa arregalou os olhos.
– O que? – Bruna olhou, incrédula.
– Isso mesmo. Eu também quero ir. – Ela disse confiante e olhou para Rafa.
– Você bebeu né amor? Coitada, uma hora presa num banheiro com o Vitti foi demais pra sanidade dela... – Ana Julia disse e Arthur riu.
– Eu estou falando sério. Eu não vou estragar minhas férias por causa dessas briguinhas. Caramba gente, é a Riviera Francesa! Vocês tem noção disso? É um paraíso, e a gente vai ficar aqui sendo que poderíamos estar nos divertindo MUITO lá? Não faz sentido!
– Aleluia, alguém sensata! Amo você Bella! – Felipe disse e ela riu.
– Mas Bella, eu também quero muito, mas eles vão e... – Bru ia dizendo mas a amiga e interrompeu.
– E daí, Bru? Cara, aquilo é uma mansão, se a gente não quiser, nem precisa se ver direito! Mas eu não vou perder minhas férias por causa disso!
– Okay maninha, você me convenceu. Tô dentro! – Gui disse e Felipe riu. E em seguida todos concordaram. Alguns mais a contragosto, outros mais convictos, e imediatamente começaram a bolar planos para que ninguém melasse as férias alheias, para que não precisassem se ver o tempo todo. Sra. Santoni Hamacek sorriu vitoriosa, no topo da escada, vendo que tinha conseguido.
– Ah, que susto Rafa! – Isabella pulou para trás na sala de estar escura, iluminada apenas pela luz da tv. Ela estava de pijama e tinha um balde de pipoca em mãos. – O que você ainda está fazendo aqui? É quase uma da madrugada!
– Fiquei jogando vídeo game com o Gui e esqueci da hora. – Ele sorriu levemente para ela. – É, parece que a gente vai se ver muito mais do que imaginávamos nessas férias, né? Por essa eu não esperava. Isabella Santoni Hamacek me surpreendeu de novo.
– Eu sou uma caixinha de surpresas, amorzinho. – Ela riu presunçosa e ele rolou os olhos.
– Acha que vamos sobreviver? – Ele perguntou com as mãos nos bolsos e ela riu baixo.
– Claro que vamos, Rafa. Só precisaremos de alguns anos de terapia depois que voltarmos, mas isso é básico. – Ela riu e ele também.
– É, acho que vamos precisar mesmo... – Rafa disse pegando um pouco da pipoca. – Boa noite, Isabella. Até daqui a pouco. – Ele sorriu verdadeiramente. Bella sentiu um arrepio estranho na espinha, mas manteve-se inteira.
– Boa noite, Rafa.
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