Notas iniciais
Não tem importância se tu não viu a série. Praticamente nada aqui é canon. Bem, só as falas em itálico, algumas, bem poucas, e eu traduzi da forma que eu queria, então... Elas não possuem o mesmo significado da série daidsjaiosjdoia Enfim~~

Cosimo amou Donatello desde a primeira vez que o viu: na escuridão da noite e iluminado somente pelo braseiro que utilizava para enxergar seu próprio desenho. A tez levemente moura, com a barba por fazer e os olhos brilhantes, o atraíra como moscas à luz. Donatello tinha o jeito despojado; de artista, sonhador. Não possuía a beleza perfeita, mas, para Cosimo, ele era sua perfeição.

Ainda se via jovem quando o conhecera. Apaixonado. Herdeiro de um banqueiro enquanto almejava ser um arquiteto. Desenhava dia e noite, observava, se indagava... Queria finalizar a abóbada da majestosa igreja em Florença, queria compreender as intrincadas construções de Roma. Cosimo era um espírito livre que teve sua primeira paixão em um rapaz, tão moço quanto.

“Você não é ruim. Não é tão bom quanto eu, claro. Mas não é ruim.”

Tinha vontade de sorrir sempre que se lembrava da forma como Donatello se aproximara naquela noite quente. Não havia nada de especial. Assim como qualquer outra desde que chegara ao Estado Papal, Cosimo se esqueirara pela sombras, fugindo de seu irmão. Se aventurara pela cidade, atraído pelas lindas construções, pela arte pintada... Sentia-se livre. E em sua liberdade encontrou seu grande amor.

“Donato di Niccoló di Betto Bardi. Sou chamado de Donatello.”

Cosimo sentia seu coração falhar batidas ao olhar para o corpo nu ao seu lado. Donatello dormia em paz, o cabelo cacheado praticamente tapando-lhe os olhos fechados, o lençol jogado de lado, deixando-o ser banhado pela parca luz do fogareiro que já se apagava. A casa estava em silêncio, a noite quase indo-se. Cosimo tinha seus dedos a centímetros de distância da pele escurecida de seu amante, querendo tocá-lo, mas ao mesmo tempo se recusando a fazê-lo, por medo de acordá-lo.

Deus, como o amava!

A alegria parecia emanar de seus poros, rodeando-o numa bolha de felicidade que nem a careta feia e as reprimendas de seu irmão podiam estourar. Estava feliz como nunca tinha estado. Como nunca esperou estar.

“Você não é daqui, é?” “Florença” “Eu também”

O primeiro beijo trocado ocorrera naquela mesma noite. O primeiro toque, tímido, e, então, febril. A voz de sua mãe que um dia lhe dissera sobre o pecado de se deitar com outro homem, desaparecera de sua mente. Sodomia era somente uma sombra esquecida durante os momentos de regozijo que passara ao lado de Donatello. Cosimo, em sua juventude de quase dezenove anos, constantemente afirmava para si mesmo que não havia como algo tão bom e tão puro fosse pecado. Como amar e ser amado poderia ser uma ofensa perante Deus?

“Senhor...” “Medici” “Medici? Então você é um banqueiro”

Não que lhe fosse fácil. Talvez o fosse ao lado de Donatello, vivendo como um artista, pintando toda a noite, ouvindo o suave dedilhar de Marco e o canto sutil de Leonardo. Mas quando amanhecia, da mesma forma como ocorria naquele instante, e a realidade de ser quem era o puxava de volta para a vida sob os olhares da Sagrada Igreja, enfrentando as miradas cabreiras de seu irmão e as expectativas de seus pais, tudo que lhe restava era acreditar em seu amor. Em Donatello. Porque por mais que a realidade fosse dolorosa, ela nunca lhe trazia culpa. Ou desânimo.

Na verdade, enfrentar diariamente o legado de sua família só lhe dava mais e mais certeza de que não desistiria de ser uma alma livre.

“Um banqueiro que quer ser um artista”

Sim, ele queria. Donatello estava correto. Ele queria e seria um artista. Não importava sua herança, os negócios da família, seus pais... Seria como Donatello: livre.

“Venha comigo”

— Já está na hora? — A pergunta fez com que Cosimo piscasse, percebendo que Donatello já estava acordado e o encarando.

— Quase — sussurrou.

O silêncio os abraçou por alguns minutos. Não havia necessidade de trocarem palavras, elas eram expressas com as suaves carícias que, naquele instante, Cosimo não se restringia a fazer. Ele reverenciava a pele curtida pelo sol; suave como a mais fina seda. Sorria com ternura ao ver como ela se arrepiava. Sentia, mais do que via, como os olhos de Donatello o observavam; adoração escrita neles.

“A sabedoria dos antigos... Salva das ruas”

— O quão pesado é guardar um segredo?

Cosimo piscou para a indagação vinda sem aviso.

— Nada é tão pesado que não possamos carregar, Donatello — respondeu, simples.

Um sorriso fraco se desenhou nos lábios do artista.

— Bertolo divide a cama com um cardeal. — O sussurro veio em tom de confissão. — Tu me disseste que precisava de votos, estou te oferecendo um.

“Vê?” “Eles não têm roupas!” “Você realmente é um banqueiro”

Cosimo piscou. Primeiramente confuso, e então surpreso.

— Sodomia — murmurou mais para si do que para Donatello.

— Sim. — O sorriso ácido adornou a face do artista. — O maior pecado que o homem pode cometer.

Cosimo suspirou. Não poderia nunca entregar Bertolo. Não importava o quanto seu pai já tivesse investido na batalha pelo controle monetário da Igreja.

“Nós não somos feito à imagem de Deus?”

A porta foi aberta, e o barulho dos passo de quem entrava fez com que se silenciassem. Não era incomum o ir e vir dos artistas na oficina de Donatello; assim como o lugar era um refúgio para as noites de Cosimo, outros vinham para se abrigar, sentirem a liberdade tocarem seus dedos. Pelos tecidos que dividiam o leito do resto do lugar foi possível perceber a chegada de três homens. O grupo, ao contrário do esperado, portava o uniforme da guarda da cidade.

— Cosimo de’ Medici — um deles anunciou, a voz alta ressoando por toda a oficina. Donatello pulou da cama ao mesmo tempo em que Cosimo corria para alcançar suas roupas. Dois homens nus em um mesmo leito era a prova necessária para serem acusados do tão horrendo crime da sodomia.

O tecido fino, no entanto, fora rasgado. No lugar dele surgiu um guarda.

“Ao retratarmos a beleza do homem, não retratamos a beleza de Deus?”

Donatello se adiantou para lutar, resistir à prisão. Cosimo o acompanhou; queria lutar pela sua liberdade que escorria aos poucos por entre seus dedos. Não duraram muito. Mais guardas da cidade invadiram a oficina; a comoção estava estabelecida. Eles seriam presos.

Foram arrastados, socados e chutados. Seus punhos amarrados em cordas, puxados por cavalos pelas ruas cheias. A multidão os esperava. Asco e julgamento. Eram pecadores; sodomitas.

Cosimo avistou seu irmão entre eles. Lorenzo o mirava inexpressivo. Não havia surpresa. Não havia repulsa. Somente a fria e dolorosa calma. O queixo erguido, os olhos duros. O lembrava tanto de seu pai...

“Disse que queria aprender”

— Serão mortos pelo fogo — um guarda disse para seu companheiro, sorrindo.

Cosimo quis ignorá-lo, mas como o fazer ao ver a sentença de sua vida sendo exprimida de tal forma? Seus sonhos seriam queimados, sua existência findada. E Donatello...

Cosimo o olhou, esperando encontrar espelhado o desespero que se desenhava em sua própria face. Somente encontrou determinação. Por um momento sentiu o amargo ador da inveja. Porque Donatello era tudo aquilo que ele não conseguira ser em vida e que nunca seria em morte: livre, ousado, seguro, artista, dono de si mesmo.

“Você nos trairía?”

Ambos sabiam seu destino. Não havia mais volta uma vez que fossem acusados de sodomia. Mesmo que um deles assumisse toda a culpa, que tentasse livrar o outro, seriam mortos. Estavam consumidos e manchados pelo pecado. Mereciam a chama. O julgamento seria apenas uma formalidade; a sentença já estava dada. Quem por sodomia peca, pelo fogo será lavado.

“Você só tem dezenove anos. Merece ser morto por sodomia?”

Não.

“Eu mereço?”

Não.

Mas seriam.

Queimariam; arderiam nas chamas da Igreja. Seriam destituídos de sua liberdade, das suas escolhas, dos seus talentos. Do seu amor.

Notas finais
aaaaaaaaaa eu queria final feliz, mas esse tema não deixou aaaaaaaa dijaosjdao Eu já estava louca pra fazer uma fic dessa série. Queria fazer algo mais... Fofinho, mas saiu isso diaojsoidj Fazer o que? Bem, pra quem não entendeu, o irmão do Cosimo já sabia da "sodomia" dele; na real, foi ele quem denunciou :D Enfim~ Deixem comentários e me façam feliz ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!