Quem matou Afonso Dallas?
24 Revelações II - Efetuação Etérea
Notas iniciais
* a face do assassino *
Enfim, será revelada a identidade do assassino do patriarca dos Dallas.
03/01/2016, 15h35min.
[...]
— Ela é bissexual como eu? Interessante... — comentou Juliana.
— Não vai me dizer que está a fim dela? — indagou Robson, meio cético.
— Ela até bem bonita. — E, percebendo que Robson temia alguma coisa, ela desconversou: — Se eu for transar com ela, prometo que te aviso pra podermos fazer um sexo a três.
E eles continuaram conversando. Eventualmente, a conversa mostrou-se muito promissora para Juliana, mas ela ainda não sabia disso. Ainda.
I
03/01/2016, 15h56min.
— VOCÊ PARECE MEIO DISTANTE — COMENTOU Juliana, a cabeleira loira espalhada pelo colchão. — Aconteceu alguma coisa?
Robson pensou por algum tempo. Não sabia se podia dizer, mas, cara, ele estava fodendo ela. Tipo, como amantes. Ele achava que poderia dizer qualquer coisa pra ela.
— Valquíria encontrou um papel no cofre — expôs, sussurrando, como se alguém pudesse ouvir no quarto isolado que era o de Juliana. — Acho que o velho colocou lá alguma hora, porque não estava quando a gente chegou. — Juliana encarou-o, cética. — Não sei como ele fez isso. Talvez ele tenha pedido pra alguém, já que não pode sair da cama, sei lá.
— Tá, mas o que estava escrito no papel?
A fala de Robson começou a engrolar. Ele parou de falar. Tentou de novo.
— O velho disse que ia dar o dinheiro pra caridade. Mas que tinha uma forma de fazer a herança ser compartilhada.
Juliana assentiu.
— Sim, eu lembro disso.
— Pois é. No papel tava falando como isso pode acontecer.
Juliana estava interessada. Embora não fosse ganhar nada da herança, ela adorava fuxicos.
— Sério?
— Sim. E adivinha como é: o velho tem que ser assassinado.
Juliana arregalou os olhos.
— Você só pode estar de brincadeira. Isso não é possível.
— Falei a mesma coisa pra Valquíria, mas ela disse que era totalmente possível, vindo de Afonso. Ela disse que ele adorava esses joguinhos psicológicos.
Juliana achou que aquilo não serviria para nada. Ela não ousaria matá-lo e, mesmo se o fizesse, não se beneficiaria da herança, já que não estava com um herdeiro direto.
II
03/01/2016, 16h03min.
GABRIELA PROCUROU POR SUA MÃE. Ela não estava no quarto. A jovem queria perguntar a mãe quando cortariam o cabelo dela, já que estava muito grande e ela não queria retroceder para a escola e ter mais um motivo para ser zuada. Por isso, a garota saiu procurando Mirian. Acabou encontrando-a subindo as escadas. Pela postura e olhares que a mulher mandava para os dois lados, Gabriela soube que o que ela faria — o que quer que fosse isso — era para ser feito com discrição; ninguém poderia saber. Gabriela, muito curiosa, queria de saber o que era. Imitou os passos da mãe, sempre tomando cuidado para que ela não a visse. Mirian chegou à porta do quarto de Afonso e adentrou-o em sigilo. Gabriela estacou. O que ela estava fazendo ali?
Aproximou-se da porta e começou a ouvir o que estavam falando.
— Você devia disfarçar mais — observou Mirian.
— Acho — argumentou ele — que sussurrar “agora” é um tanto discreto.
[...]
— Um pouco. — Mirian deixou escapar um gemido. Gabriela sentiu nojo. — Quanto vai ser hoje? — O quê? Minha mãe é uma prostituta?
— Oh, minha cara, tenha um pouco de respeito com um quase-morto. Você devia estar fazendo isso como uma recompensa depois de todas as transas que tivemos. Te fiz sentir muito prazer. — Isso não é possível!
— Mas eu preciso pagar algumas coisas pra Gabriela. — Mais gemidos.
Minha mãe está fazendo isso por mim? Ela quer ganhar dinheiro pra mim? Por que ele não podia ser simplesmente solidário e dar uma grana extra? Ele não é rico, afinal? Gabriela estava sentindo muita raiva do homem. Tem tanto dinheiro, mas se recusa a ceder um pouco para pessoas que realmente precisam. Fez a minha mãe se sujeitar a isso: ela se tornou uma prostituta pra ele, somente pra ganhar dinheiro pra me dar uma vida boa, como ela sempre falava. Uma lágrima escorreu pelo rosto da garota. Mãe... Você não precisava...
[...]
E aquilo continuou durante algum tempo. Mais gemidos e falas soaram, durante acrescendo a raiva que Gabriela estava sentindo por Afonso. Velho egoísta. Talvez ela estivesse com os pensamentos anuviados; sua mãe também poderia ter parado com isso. No entanto, a condição entre mãe e filha fazia Gabriela enxergar o que era conveniente para ela, esquecendo-se dos fatos e das outras perspectivas que deveriam ser analisadas por ela. A proximidade entre Gabriela e Mirian era tão grande a este ponto.
Gabriela, sentindo muita raiva do homem, quis tirar aquela história a limpo, mas não seria agora; sua mãe ficaria totalmente constrangida. Precisava ter essa conversa sozinha com o Dallas. Ela achava que estava querendo se vingar, mas não faria isso. No entanto, ver aquela estatueta de gárgula flanqueando a porta lhe deu uma ideia. O velho achava que esse bicho era como um amuleto da sorte, que o protegia como uma sentinela divina. Então, se ele estivesse quebrado, coisas ruins aconteceriam a ele. Gabriela sorriu e chutou a estatueta. Era tão frágil que se despedaçou. Porém, o barulho alto se fez ouvir.
Merda. O que eu fiz?
III
03/01/2016, 16h04min.
JULIANA TAMBÉM ESTAVA OUVINDO TUDO, atrás de uma pilastra onde só ela conseguia enxergar Gabriela. Da visão periférica da garota, ela não conseguiria ver Juliana. E, Juliana, que também adorava uma confusãozinha, quis continuar ali, ouvindo tudo. O velho era mesmo paquerador. Ela riu com o fato.
Juliana tinha saído do quarto depois de ficar sabendo que Valquíria era bissexual e que havia uma chance para a herança ser dividida. Agora, a médica estava tentando procurar algum meio que isso se encaixasse e que ela pudesse ser beneficiada de uma forma extremamente bem aventurada. O que ela poderia fazer?
O barulho de algo sendo quebrado retirou-a de seus devaneios. Gabriela havia estilhaçado a estatueta de gárgula de Afonso. Tinha sido de propósito, claramente. Mas por que ela mexeria no objeto que Afonso tinha tanto apreço, que ele julgava até ser uma entidade maior que o protegia? Bem, ela poderia ter ficado com raiva de tudo do homem.
Foi então que Juliana soube o que tinha que fazer. Precisava criar amizade com a garota. E faria isso.
A médica saiu de seu esconderijo.
— Quem está aí? — A voz grave e rouca de Afonso soou de dentro do quarto.
Houve um tempo prolongado antes de surgir um novo barulho, o de passos.
* o que aconteceu nesse meio tempo *
— Saia daqui. Se o velho te ver aqui, vai ficar ruim pra você.
A estatueta jazia no chão.
— Mas... Você vai receber a culpa por isso?
— Você já passou por muita coisa quando ficou sabendo disso.
Gabriela pareceu sinceramente emocionada.
— Obrigada.
— Vai agora.
IV
O SOM DE PASSOS QUE AFONSO OUVIU.
— Quem está aí? — chamou ele de novo. Então a maçaneta girou. Era alguém que tinha a chave do quarto.
— Sou eu — expôs Juliana. — Sinto muito atrapalhar, bem, isso aí. Eu estava vindo checar como você estava. Acabei quebrando sua estatueta.
Juliana estava meio tensa; talvez a ironia e o escárnio funcionassem como autodefesa.
* a autodefesa *
— Legalmente errado — corrigiu ela, arrogante —, você quer dizer. Já que, se formos analisar a ética e a moral familiar que você tanto prega, obviamente as coisas mudarão de perspectiva.
— Eu não irei falar nada porque eu estou aqui profissionalmente. Não quero me meter em picuinhas familiares. Mas não pense que é por causa dessa chantagem barata, meu caro Afonso. Não ache que irei me subordinar a você porque você tem dinheiro.
— Você devia temer a mim, Juliana. Você não sabe do que eu sou capaz. Minha mente não anda muito certa, e acho que você já deve ter percebido.
— Com a licença da Vossa Excelência, eu me retirarei dos Aposentos Reais.
— Eu sinto muitíssimo, meu Rei, mas isso não é ironia. Quer dizer, até certo ponto, pois isso é o que você acha que é, o que, infelizmente, é uma farsa. Você não passa de um inseto rabugento.
V
03/01/2016, 16h15min.
TUDO TINHA SAÍDO CORRETAMENTE, NO FINAL das contas. Juliana provavelmente havia conseguido a amizade da garota. Agora, ela só precisava conversar com ela.
E, enquanto Juliana era ambiciosa, Gabriela correra para seu cantinho especial. Estava chorando muito, por causa de tudo que acontecera à sua mãe. Ela correu para o bosque e, infelizmente, o que encontrou só aumentou o seu estado de loucura.
Melissa e Virgínia, àquela hora, já tinham feito o serviço delas para corroborar com o que Mirian viria a fazer mais à frente.
Joana, aquela empregada chata que só sabia mandar você fazer as coisas, mas que não fazia nada em troca, estava pendurada numa árvore, se balançando. Gabriela não sentiu pena dela; pelo contrário, adorou. Era quase como se aquilo fosse uma vingança. Pois, pelo que ficara sabendo através da Virgínia, A Fofoqueira da Mansão, Joana tinha uma queda enorme por Afonso. Talvez isso fosse recíproco e o homem estivesse sofrendo agora. Porém, ao lembrar dele, seus pensamentos vaguearam até o que a mãe estava fazendo, tentando dar à filha uma vida boa. E o maldito homem não fazia nada para ajudá-la!
Ela começou a chorar desconsoladamente.
Gabriela voltou para o quarto.
* conversa entre mãe e filha *
— O que foi, Gabi?
— Nada — mentiu.
— Gabriela, eu te conheço melhor do que isso.
Gabriela sabia que teria que falar algo. Não podia deixar claro que sabia sobre a mãe.
— Joana morreu.
— O quê?
— Ela se suicidou.
— Como assim? Como você sabe?
Gabriela teria de mentir.
— Eu fiquei com medo de contar pra alguém. Sabe, vai que eles acham que suspeitam de mim. Então achei melhor esperar até que alguém encontrasse ela, mas acho que não consigo. — Gabriela começou a chorar profusamente, mas não era por causa de Joana; era por causa da pureza da mãe corrompida pela vida. — Fique calma, minha filha, mas me mostre onde ela está.
— Mãe.
— Sim, filha.
Gabriela precisava fingir que as coisas ainda eram simples. Que ela ainda tinha uma vida normal depois de saber daquilo. Ela queria coisas casuais em sua vida. Queria estar cega no passado e apenas deixar a vida fluir entre ela e sua mãe.
— Meu cabelo está muito grande. Precisamos cortar.
— Tudo bem. Hoje a noite eu corto. Mas, vamos, você precisa me mostrar.
VI
03/01/2016, 16h35min.
AGORA TODOS OLHAVAM PARA O CADÁVER de Joana. As únicas pessoas que não estavam presentes eram Juliana, Afonso e Gabriela, que, segundo a mãe, estava abalada demais. As pessoas achavam que Juliana estava com Afonso, mas que estava fazendo era outra coisa. Juliana já havia bolado seu plano: com a aproximação de Gabriela e com aquela notícia desastrosa sobre a mãe e Afonso, Juliana forçaria a situação e colocaria na cabeça da garota alguma coisa para que Gabriela ficasse a ponto de matá-lo. A jovem já parecia ser meio ingênua — e Mirian já havia comentado vagamente que esse era um dos motivos do bullying que ela sofria na escola e que lhe tornara tão introvertida —, então isso seria fácil. Se as coisas corressem como Juliana estava querendo, com Gabriela sendo a assassina, então ela engajaria num romance com Valquíria e se beneficiaria da herança. Tinha de ser essa mulher, pois as outras opções seriam mais difíceis — e inviáveis. Gabriel era estranho demais com aquela mania de ficar isolado de tudo, dormindo no chão; Melissa era a pessoa mais chata da vida, e Juliana nem sabia se ela jogava nos dois times como ela; Marcelo era um ex-viciado em drogas muito apaixonado por Adriana. No fim, sobrara mesmo Valquíria, que era bissexual, algo que facilitaria as coisas.
— Gabi — chamou Juliana, batendo na porta do quarto —, você está bem?
— Pode entrar.
Juliana fingiu que estava triste pela jovem. Precisava plantar a semente da discórdia, o incentivo que faltava para Gabriela querer fazer aquilo.
— Sinto muito.
Gabriela chorava muito.
— Minha mãe ficou fazendo isso pra me dar uma vida boa. Ela sempre falava que queria que eu tivesse uma vida completamente diferente da dela, que meu avô não soubera agir como um pai, mas que ela saberia. — Gabriela abraçou a médica, os seios enormes atrapalhando. — Ela fez isso por mim!
— Sua mãe é uma ótima pessoa. — Que mentira. Aposto que estava adorando aquele vibrador na boceta. — Mas Afonso... Afonso não é. Ele podia ter ajudado ela sem fazer Mirian passar por tudo isso.
Os olhos de Gabriela brilharam.
— É isso mesmo. A culpa é dele. Eu tive o mesmo pensamento. Ele podia ter ajudado a minha mãe, dado um dinheiro. Mas ele quis que ela fosse uma prostituta pra ele.
— Como se já não bastasse a discriminação que ela sofre.
— O quê?
— Afonso tem preconceito com ela. Ele simplesmente abomina a cor dela. Diz que ela parece um macaco e que só serve pra trepar.
Gabriela fervia de raiva.
— Aquele maldito!
Como ela é ingênua... A semente já foi enterrada. Vamos regá-la agora.
— E não é só isso: Mirian às vezes não queria fazer isso, só que Afonso obriga ela. Ele ameaça contar pra todo mundo.
Gabriela emudeceu. Sua mente era um naufrágio de pensamentos raivosos.
— Eu vou te deixar sozinha um pouco. — Juliana se levantou. — Mas lembre-se: a desgraça da vida de sua mãe é por culpa dele.
A semente estava prestes a brotar.
VII
03/01/2016, 23h56min.
ANTES DE GABRIELA SE TORNAR A AUTORA DO crime, outras pessoas tentaram fazer o que ela fez. Quando todos já estavam em seus respectivos quartos, Marcelo se levantou. Queria fazer aquilo. O pai nunca fora bom para os filhos e, sobretudo agora, quando Marcelo precisava tanto do dinheiro, ele falava que não haveria a herança. De qualquer forma, se o papel dizia que, para a herança ser compartilhada, o velho tinha que ser assassinado, então Afonso meio que queria isso, certo? E, para todos os efeitos, ele já estava com um pé na cova; só viveria mais alguns anos. No entanto, era uma jogada muito arriscada que ele teria de ter certeza antes de concluí-la.
— Drica — avisou Marcelo —, vou tomar um ar.
Adriana, que fingia estar dormindo, não disse nada.
Marcelo saiu do quarto e subiu as escadas e foi até a sacada. O vento lambia-lhe o rosto, os cabelos grandes, presos num rabo de cavalo, esvoaçando com suavidade. A piscina era um ponto azul brilhante, refletindo o céu e reverberando o brilho da lua. O jardim com suas plantas exóticas eram o complemento para a sensação de paz que Marcelo não precisava. Ele não conseguiria fazer isso.
Marcelo voltou para o quarto e pegou no sono com facilidade.
VIII
04/01/2016, 00h12min.
ADRIANA SOUBE QUE MARCELO ESTAVA dormindo quando o ouviu roncar. Marcelo só dormia roncando. Levantou-se e já estava convicta do que iria fazer. Se ele fosse viver daquela forma com Marcelo, precisava que as coisas fossem promissoras; eles precisavam de dinheiro, o que não tinham. E, se aquele papel estivesse certo, ela já sabia o que tinha que fazer. Mas tinha medo disso. Eduardo daria a força necessária para isso... Adriana não queria enfiá-lo nessa confusão, mas se sentiria mais protegida com o amor de sua vida. E ela achava que era por isso que não terminava com Marcelo; se Eduardo era o amor de sua vida, ela adorava vê-lo feliz e, se quebrasse com o pai dele, toda a relação de pai e filho se tornaria mais débil do que já era, e isso traria infelicidade para os dois. Adriana podia trair o homem, mas não gostava de ver ninguém sofrendo. Era irônico, mas era Adriana.
— Edu, acorda. — O rapaz levantou-se sobressaltado. — Você está disposto a fazer algo comigo?
— Amor, eu já disse que só vamos dormir juntos quando as coisas estivessem esclarecidas com meu pai.
Adriana revirou os olhos.
— Não é isso.
Eduardo despertou-se com ímpeto.
— Você não quer matar o velho?
— Como você sabe disso?
— Também vi o papel no meu cofre. — Eduardo se levantou. — Se vamos fazer isso, e eu nem me importo na realidade, precisaremos usar luvas. — Ele se agachou e vasculhou as malas. Havia dois pares de luvas. — Toma. A gente pode estrangular ele e não vai ficar as digitais. Depois, a gente queima elas. Vai ser fácil.
Adriana se impressionou com a velocidade de pensamento do rapaz.
— Vamos fazer isso.
IX
04/01/2016, 00h14min.
LÍGIA SAIU DO SEU QUARTO. A cama de casal estava fria sem a presença de Gabriel, e era exatamente por isso que ela ia acabar com a raça do assassino. O que Lígia estava achando, depois de fazer uma cama de gato na sua mente, vários fios enrolados, laços e nós irredutíveis, era que Gabriel fora assassinado para o caminho ficar livre para o assassino. E isso provavelmente aconteceria nessa noite ou na outra; mas, de qualquer forma, ela estaria acordada nas duas.
Subiu até o quarto do Dallas maior e se escondeu atrás da pilastra que era colada à parede do recinto, o mesmo esconderijo de Juliana. Havia apenas uma pequena brecha entre a parede e a coluna, que permitia que a pessoa que estivesse ali visse quaisquer coisas que estivessem à frente da porta do quarto do homem.
Depois de apenas alguns minutos, ela viu que havia duas figuras. Eram Eduardo e Adriana. Será que eles tentariam? Eles pareciam estar conversando, provavelmente definindo quem iria fazer o trabalho sujo. Lígia achava que, se pudesse conversar com eles, poderia dissuadi-los. E, de qualquer forma, era melhor evitar a morte de Afonso; se a de Gabriel significava isso, ela queria que a porra do assassino de seu marido tivesse furado com essa parte do plano.
— O que vocês estão fazendo aqui? — indagou ela.
Adriana e Eduardo se sobressaltaram.
— Nós só estávamos... — principiou a mulher.
— O que você está fazendo aqui? — objetivou Eduardo.
— Eu estava indo ao banheiro.
— Aqui em cima? Acho que seu quarto é lá em baixo.
— Digo o mesmo de você.
— Não sou quem está usando luvas.
Adriana olhou para as mãos.
— Estamos com frio.
— Nesse calor?
— Temperatura é psicológico — informou Eduardo. — Podemos estar com frio enquanto você, na menopausa, sofre de um calor exacerbado.
— Ora, seu moleque.
Eduardo se virou para Adriana.
— Vamos sair daqui. Essa mulher é paranóica.
Lígia viu os dois se afastarem. Ela estava servindo bem como sentinela.
* eles fizeram barulho *
Ele havia ouvido alguns barulhos vindos de fora, e até alguns burburinhos, mas ninguém ainda entrara no quarto para terminar o serviço.
X
04/01/2016, 00h46min.
MAIS NINGUÉM HAVIA APARECIDO. Lígia estava morrendo de sono e achava que, se alguém fosse tentar matar o velho, faria no outro dia. Ela saiu de seu esconderijo e desceu as escadas, de volta para seu quarto. O do seu filho ficava à esquerda, enquanto o da nora, à direita. Ela passou pelo de Alice e adentrou seus aposentos.
Alice estava acordada e viu Lígia entrando no quarto. Seus sentidos se aguçaram. Lígia podia ter matado Afonso! Alice se levantou em silêncio e encaminhou-se até o quarto do Dallas. Vinha pensando sobre isso desde que ficara sabendo da morte de Gabriel. Já havia percebido a falta de seguranças, o isolamento da casa e até a falta de comunicação com o exterior através dos meios tecnológicos. E, para completar os fatores que propiciariam, além da morte do único detetive da mansão, a presença daqueles papeis os quais Rodrigo havia comentado.
Alice correu para o quarto do homem. Abriu a porta em silêncio e adentrou o cômodo sem medo. Se ele estivesse morto, não faria nada com ela e o assassino também já não estaria ali. A escuridão era tangível e Alice precisou acender a luz.
* a coroa dourada *
Ele foi acordado pelo barulho da maçaneta girando. Então a luz foi ligada.
Ele viu as luzes serem ligadas e a porta ser batida atrás de si, em silêncio. Assim que ele conseguiu se acostumar com a luz, ele fitou aqueles cabelos. Aqueles cabelos loiros.
Ele conhecia aqueles cabelos loiros. Ele conhecia aquela pessoa.
Era a sua morte? — indagou-se Afonso. Mas não era.
— Que bom que você está bem — confessou Alice.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ele. A voz estava sonolenta.
— Eu poderia muito bem ser assassina, mas não é por isso que estou aqui.
— O que você quer?
— Quero que você tome cuidado. Tranque a porta. — Alice tinha a voz chorosa. — Tudo está muito convidativo, senhor Afonso. A falta de seguranças, o isolamento, a morte do meu sogro, o fato de Juliana não ficar no quarto hoje com você. Alguém vai tentar te matar.
Afonso estava sinceramente feliz pela presença da garota.
— Você é uma boa menina, Alice. Queria ter oportunidade de te conhecer direito, mas as coisas são do jeito que são. Não podemos fugir do destino. Eu não posso fugir do que eu fiz. Eu não volto com minha palavra.
Alice não sabia do que estava ele estava falando. Ela deu de ombros.
— Todo mundo merece uma segunda chance.
* a grande motivação de Alice *
— O que te fez mudar de ideia tão rapidamente?
— Percebi — replicou ela, olhando pensativamente para o horizonte, o vento borrifando-lhe e ela tirando a mecha fugidia de seu cabelo e colocando-a atrás das orelhas —, no final das contas, que a vida é curta demais para ficarmos com raiva por causa de picuinhas.
E todo mundo merece uma segunda chance, pensou ela, com pesar.
Fora isso que João, o irmão de Robson, havia se referido.
XI
04/01/2016, 00h52min.
AFONSO ACHAVA QUE ELE NÃO MERECIA.
— Não quando você manda matar sua própria esposa por puro capricho.
Alice arregalou os olhos. O homem devia estar delirando.
— O quê?
— Meu passado é obscuro, minha cara Alice. Queria que eu fosse tão bom quanto você.
Uma lágrima escorreu pelo rosto da loira.
— Fique bem. — Ela ia saindo do quarto, porém se virou antes de deixá-lo. — Fique vivo.
— Isso não será possível.
XII
04/01/2016, 01h13min.
VALQUÍRIA ESTAVA REMEXENDO NA CAMA QUANDO decidiu se levantar. Ela ia acabar com a festinha do pai. Se ele queria ser morto, que fosse então. Ela saiu de seu quarto e, sabendo do que iria fazer, ponderou sobre qual arma deveria usar. Uma faca seria útil e tornaria as coisas mais rápidas e indolores. Ela precisaria de uma bem afiada. Foi, então, que se lembrou de Jorge amolando uma, algum tempo antes. Era uma em particular, diferente, que tinha o cabo azul e a lâmina reluzente. Seria essa.
Virgínia foi até a cozinha e achou-a com facilidade. Esgueirou-se e galgou os degraus até estar, depois de muitos passos, à frente da porta do pai. Antes de entrar, pensou: “Isso é por ter me preterido. Isso é por ter escolhido a Melissa em vez de mim.”
A escuridão era densa e pesada.
— Achei que você faria isso, Valquíria.
Valquíria sentiu-se ruborizar.
— Do que o senhor está falando? Vim aqui ver como você está.
— Não minta pro seu pai, principalmente quando ele está em seus últimos minutos de vida.
— Pai, eu não queria fazer isso, mas o senhor me obrigou.
Afonso, que não queria que aquele maldito plano chegasse a esse ponto, arrependeu-se.
— Eu também não queria. Seja rápida. Não vou gritar.
Valquíria ergueu a lâmina, hesitante.
— Você sempre preferiu a Melissa, não é?
Afonso sorriu. Os dentes, outrora brilhantes, eram amarelados.
— Engano seu, minha querida.
— O quê? Então por que você sempre dava as melhores coisas pra ela?
Afonso chamou a filha até a cama. Ele tinha desistido do plano, embora não estivesse fazendo isso para que Valquíria poupasse sua vida.
— Melissa sempre foi descompensada. Você lembra como ela ficava sem ter o que queria, sem ser a melhor em todas coisas? — Valquíria assentiu. Afonso não viu, mas continuou. — Eu e Heloisa já havíamos levado ela pra um psiquiatra. Ele dissera que as chances de Melissa se tornar suicida eram enormes. Ela tinha algum complexo de inferioridade. O cara disse pra gente sempre deixar parecendo que ela era a melhor, a preferida, justamente pra evitar que o pior acontecesse com ela. — Ele olhou nos olhos da filha, mesmo no negrume indecifrável e baço. — Nós nunca tivemos um filho preferido. Gostávamos de vocês igualmente.
* Valquíria, a resiliente *
— Você não sabe de nada. — Eu tenho pena de você, Melissa.
Valquíria começou a chorar e abraçou o pai. A faca caiu, retinindo.
— Me desculpa, pai. Eu amo você! Me desculpa! Eu não queria fazer isso!
Depois de alguns segundos abraçados, Afonso desvencilhou-se.
— Vá dormir.
— Te amo, papai.
— Também te amo, filha.
Valquíria pegou a faca no chão e saiu do quarto. Desceu as escadas e, antes de direcionar-se para seu quarto, guardou a faca no mesmo lugar onde encontrara.
Você não vai ser usada para matar ninguém.
XIII
04/01/2016, 01h17min.
AFONSO ESTAVA ARREPENDIDO DE TUDO QUE fizera. Queria acabar com o plano, falar para todos que a herança seria dividida de qualquer jeito. Ele esperaria até a manhã para fazer isso. Ele estava ligeiramente feliz por saber que havia pessoas que se importavam com ele. Alice, Valquíria e seus outros filhos — eles não haviam aparecido para tentar trucidá-lo. Ou seja, talvez, durante aquela conversa na cozinha no dia anterior, a família estivesse apenas tentando argumentar, e não expondo seu verdadeiro lado. Aquilo não significava que eles queriam matá-lo, mas somente que queriam outra opção. E era isso que Afonso queria. Ele poderia desistir do plano agora.
Levantou-se, então, com muita dificuldade, e trancou a porta do quarto. Afonso não queria que o assassino viesse até ele mais.
XIV
04/01/2016, 05h49min.
OS EMPREGADOS ACORDAVAM UM POUCO depois das seis e meia. Porém, naquele dia, Gabriela soube que precisava acordar antes. Queria conversar com Afonso e, para isso, queria que estivesse sozinho. Se o velho ainda estivesse dormindo, ela o acordaria; aquela conversa era inadiável. Gabriela precisava saber o que se passava entre eles dois. Precisava tirar a história a limpo.
Ela, antes de sair do quarto, fitou a tesoura que jazia na cômoda. Iria levá-la somente para garantir. Não iria fazer nada, mas, se a conversa tomasse um rumo muito ruim, onde Afonso não suportasse as acusações e quisesse partir para cima dela, Gabriela somente iria se defender. Ela não achava de verdade que ele estivesse em condições para fazer isso, mas era melhor garantir.
A garota partiu em silêncio e foi até o quarto do homem. A porta estava trancada.
— Senhor Afonso — chamou Gabriela, em tom neutro e baixo, batendo à porta, a tesoura embaixo da sua blusa —, Juliana mandou te trazer essa bandeja aqui.
Afonso, do outro lado, que estava determinado a aproveitar o pouco tempo de vida que o câncer ainda lhe daria, abriu a porta do quarto. Ele precisava comer o que a doutora receitava para estender esse prazo.
— Precisamos conversar — pontuou Gabriela.
— O quê?
— Deite-se na cama porque a conversa vai ser pesada.
Afonso se virou. Estava cansado. Deitou-se na cama.
— O que você quer, nanica?
— O que você fez pra minha mãe? Por que você estuprou ela ontem?
Afonso sorriu escarninhamente.
— Eu não a estuprei. Sua mãe é uma prostituta. Ela quis fazer isso por dinheiro.
— Como você ousa falar assim da minha mãe? Ela não é assim!
— Não é? — Afonso estava adorando aquela conversa. Estava sentindo a necessidade de levar alguém ao extremo, aquela sua mania viciosa e perniciosa à vida. — Quando sua avó morreu, ela me deu tantas vezes que eu enjoei da boceta dela. Minha língua ficou dormente porque eu lambi demais.
Gabriela estava queimando de raiva.
— Mentira!
— Sua mãe é uma puta, e provavelmente você vai seguir os passos delas, sua macaca pobre.
Afonso ria rascante na cama, enquanto Gabriela fervilhava de raiva. Ela lembrou-se de tudo que Juliana havia falado, sobre como ele era preconceituoso e de como a vida dela e de sua mãe foram afetadas pela ambição e comportamento do velho.
— Você vai se tornar uma puta igualzinha a sua mãe. Vai ficar abrindo as pernas pra juntar dinheiro pra comprar presentes pros filhos.
Ela não conseguiu se conter. Ela não se ligou às evidências, com tudo corroborando para ela fazer aquilo. Não se importou com o trabalho de Melissa e Virgínia, que fizera tudo que fizeram somente para conseguir a herança que nunca chegariam a ter ou usufruir. Gabriela não sabia que as circunstâncias estavam a seu favor. Não havia segurança, detetive, celular ou carros; nada que pudesse dificultar aquele procedimento. Mas não foi por isso que ela tinha agido. Ela simplesmente não tinha conseguido se conter diante das injúrias proferidas pelo homem. Ela não tinha. Sua emoção era maior que a razão, sobrepujando-a, fazendo-a agir por instinto.
Gabriela avançou contra o velho, que se surpreendeu com a ação. Os cabelos negros, encaracolados, volitavam ao redor da jovem, enormes. A primeira tesourada perfurou-o no peito esquerdo, onde Gabriela havia mirado, justamente para matá-lo. Ela empalou-o mais uma vez, bem perto do último golpe. Continuou desferindo mais quatro tesouradas, todas próximas, orlando o coração, seu ponto-alvo. O sangue respingava em Gabriela enquanto ela retirava a vida do velho. A garota estava queimando de raiva, e aquilo era bom; era como se tudo fosse simples. A vingança era boa, muito boa.
Findo aquilo, a menina viu que tinha matado o velho. Correu para o banheiro e lavou a tesoura. Correu para seu quarto novamente e tomou um banho com roupa e tudo. Se ela fosse um pouco mais inteligente, saberia que a perícia poderia encontrar os resquícios e a presença sangue nas roupas e na tesoura. Ela estava feliz pelo que tinha feito. Refestelava-se pelo feito. Havia matado o homem. Havia efetuado etereamente o que vários haviam tentado.
* alguns pensamentos flutuantes quando encontraram o cadáver *
“É, acho que a semente brotou.” — Juliana.
“Oh, céus! Será que foi com a faca do cabo azul?!” — Valquíria.
“Infelizmente, essa é a minha deixa.” — Jorge.
“Tentamos fazer isso, mas acabou que não tivemos de fazê-lo.” — Eduardo.
“Quem foi o desumano que fez isso?” — Rodrigo.
“Eu tentei avisá-lo.” — Alice.
“Acho que tudo aquilo funcionou, e nem sujei minhas mãos diretamente.” — Virgínia.
“Eu não podia ter ficado com sono!” — Lígia.
“A herança do velho vai ser compartilhada, há.” — Robson.
“E pensar que eu ia fazer isso...” — Marcelo.
“Atrapalharam a minha tentativa, no entanto, aconteceu de qualquer jeito.” — Adriana.
“Meu trabalho foi quase perfeito.” — Melissa.
“Ele podia ser uma crápula, mas não merecia isso.” — Mirian.
“Herança, aí vamos nós!” — Otávio.
“Eu matei ele. Eu matei ele. Eu matei ele!” — Gabriela.
Fale com o autor