Quem matou Afonso Dallas?
16 Episódio XV - Indiferença Nívea
Notas iniciais
I
04/01/2016, 10h00min.
JEFERSON ESTAVA EM DIREÇÃO ÀQUELA mansão isolada. Havia esperado tanto tempo para essa vingança e, finalmente, o tempo se mostrava perfeito. Ele apertou o celular com capinha do Bob Esponja, o desenho favorito do filho, e verbalizou:
— Eu vou vingar você, meu filho. E você também, Brunessa.
II
04/01/2016, 10h01min.
PARECIA A ALICE QUE TUDO AQUILO QUE ELA lido era apenas a transcrição de seus pensamentos em palavras. Ela já tinha suspeitas sobre isso tudo, e até tentara fazer algo por tal, mas fora em vão, como ela sabia.
O corpo de Jorge estava sendo enterrado ao lado do de Gabriel, o último a ter uma cova na mansão. Otávio e Valquíria tomavam banho de piscina, totalmente impassíveis quanto ao que tinha ocorrido mais cedo. A verdade era que a família Dallas não era muito apegada à morte; ela viria de um jeito ou de outro, mesmo que esse tal jeito fosse algo tremendamente mórbido, como foram os casos. Agora, especialmente que um empregado — um mero empregado, na visão deles — havia falecido, a importância era ainda menor. Na sua provável concepção de aristocratas que não eram, ficar chorando e se condoendo pela morte dos outros era perda de tempo; eles não iriam voltar se chorassem ou se mostrassem um pouco de compaixão. Era melhor que eles divertissem, tomando banho de piscina ou jogando vôlei, do que se martirizar por algo incontornável e irremediável.
O esclarecimento da carta pareceu ter pegado todos de surpresa, mas foi um baque efêmero, como fora os desdobramentos do suicídio de Jorge. Mirian e Gabriela se encontravam inconsoláveis, completamente desoladas, sendo assistida por Virgínia, naquela falsa indulgência que Alice conhecia. A verdade sobre a carta era que todos já tinham ideia disso, dada a condição psíquica e quebrantada do velho, e sabiam claramente que ele era capaz disso. Ninguém somente não suspeitava que os papéis que Jorge enfiara no quarto de cada um eram falsos, justamente por causa da mente de Afonso, que tornava tudo muito mais veraz do que poderia aparentar vindo de uma pessoa comum.
Alice estava no quarto de Rodrigo.
— Você está bem, Rô?
— Bem, Alice? Você acha que eu estou bem? Nós estamos presos aqui, meu pai morreu, um cara se suicidou e alguém matou meu avô. — Seu rosto estava vermelho. — Me desculpa. Eu... eu só quero ficar sozinho.
— Tudo bem.
Alice se levantou da cama, beijou a testa do namorado e saiu do quarto.
III
04/01/2016, 10h35min.
QUANDO OTÁVIO SAIU DA PISCINA E VIU QUE Alice havia saído da mansão, ele soube que Rodrigo estaria sozinho em seu quarto. Como conhecia o primo, que era a humanização dos bons sentimentos que a família Dallas dispensava, ele devia estar ruminando sobre tudo, querendo um tempo sozinho para pensar, para refletir e colocar a cabeça no lugar e não fazer nenhuma besteira. Fora exatamente assim que acontecera numa viagem. Rodrigo havia terminado com Alice e precisava um de um tempo para esfriar os pensamentos. Infelizmente, Otávio estava lá. Ele não permitiu que Rodrigo pensasse com coerência e, quando ele ficara bêbado, as coisas foram mais fáceis do que ele pensava. Talvez, agora, nesse momento vulnerável, aquilo poderia se repetir.
— Primo? — chamou Otávio, do lado de fora. — Você tá aí?
— Me deixa sozinho, Ota.
Otávio entrou no quarto da mesma forma. Rodrigo estava deitado, sem camisa. Ele adorava essa visão.
— Você tá bem? — perguntou ele.
— Alice acabou de fazer a mesma pergunta e eu pedi pra ela me deixar sozinho.
— Talvez seja porque ela não dê conta do serviço, de cuidar de um cara como você.
— Não enche, Otávio.
Otávio sentou-se ao lado dele. Rodrigo parecia receoso.
— Naquela viagem, vai me dizer que você não gostou.
— Não me lembre disso, cara. Foi um erro o que aconteceu. Eu estava deprimido, confuso, sozinho, carente. E, acima de tudo, bêbado! Você forçou as coisas.
— Foi só um boquete, cara — defendeu-se Otávio. — Mas eu tinha certeza que tu ia me comer se o povo não tivesse chegado.
— Vai se foder, porra.
— Me fode, então. — Otávio foi para beijá-lo, mas Rodrigo se desvencilhou e se levantou. — Tu é muito gostoso. Não merece aquela Alice. Ela é tão sem sal. Eu até entenderia se tu quisesse uma peituda, mas, cara, já viu o corpo dela? É uma tábua de passar roupa, quase que literalmente.
— Não fala assim dela. — Rodrigo colocou uma camisa, como se isso evitasse qualquer investida sexual de Otávio. — Ela é perfeita pra mim. Eu amo ela.
Otávio deu de ombros e revirou os olhos.
— Tudo bem, cara. Não vou discutir. Mas aposto que ela não faz boquete como eu faço. Bora lá, ela não precisa ficar sabendo.
— Sai daqui, Otávio, por favor, antes que eu perca a cabeça e...
— E o quê? Vai me bater e me deixar no hospital como fez com o ex da Alice? — Rodrigo emudeceu ao lembrar disso. — Se quiser dar uns tapas na minha bunda, eu até deixo, mas vai ter que enfiar até o talo. — Otávio sabia que não iria conseguir nada. Ele piscou os olhos e fez um muxoxo. — Talvez outro dia.
Isso não vai ficar assim, meu gostosão.
Otávio deixou o quarto e Rodrigo ficou sozinho mais uma vez.
IV
04/01/2016, 10h36min.
LÍGIA, MELISSA E MARCELO CONVERSAVAM à beira da piscina, protegidos do sol escaldante por um guarda-sol.
— A família de vocês sempre foi assim?
Melissa, que não perdia a oportunidade de afrontar alguém, rebateu:
— Não tenho certeza se isso foi uma ofensa, mas te darei o benefício da dúvida. — Ela bufou e passou a mão nos cabelos ralos. Os olhos azuis acinzentados contrastavam com a cor da piscina. — Papai sempre foi meio maluco. Acho que ele passou isso pra gente.
Eu tenho certeza, pensou Lígia, com o terço na mão. Ela fitava aquela planta verdejante — uma erva venenosa que Melissa havia comentado, com aquela arrogância inerente, dizendo sobre como ela sabia sobre ornamentação, já que trabalhava com isso — e fazia uma breve alusão: as aparências enganam. A planta parecia ser convidativa, mas escondia o veneno. Era assim com ela. Será que também era assim com todos?
— É verdade — concordou Marcelo, os cabelos grandes arrostavam com o tamanho dos da irmã. — Eu fiquei surpreso que ele tenha arquitetado isso tudo. Digo, sei que estava perto de morrer, mas ele podia ter sido um pouco mais coerente.
— E esta é uma palavra que não estava presente no vocabulário dele — expôs Melissa, que, dentre todos os membros dos Dallas, conhecia melhor o patriarca. — A única pessoa que conseguia fazê-lo mudar de ideia era a mamãe. Ela só ficava dentro de casa cuidando da gente. Era o estereótipo de mulher submissa, mas muitas vezes conseguia colocar um pouco de juízo na cabeça dele.
— Ela morreu de quê? — perguntou Lígia. Ela sabia superficialmente sobre a história.
— Acidente de carro — respondeu Marcelo. — Papai disse que gostava tanto dela que por isso fez um túmulo dentro da própria casa.
— Eu tenho minhas dúvidas quanto a isso — confessou Melissa. — Ele era muito paquerador. Mamãe sabia que ele tinha várias outras mulheres, mas não largava dele.
— Acho que tinha medo do que poderia acontecer — julgou Marcelo. — Papai era muito frio.
— Entendo — replicou Lígia.
Eles continuaram conversando.
V
04/01/2016, 11h41min.
DEPOIS DE MARCELO DEIXAR O QUARTO, Adriana correu para o do enteado.
— Onde ele está? — perguntou Eduardo, lendo um romance policial, o seu estilo preferido.
— Disse que ia espairecer. Deve estar lá embaixo tagarelando com os outros.
Eduardo jogou o livro no chão.
— Vem aqui, minha gostosona.
Eles se beijaram, mas, como sempre, em comiseração a Marcelo, não passaram disso.
VI
04/01/2016, 11h45min.
GABRIELA AINDA SOFRIA PELA PERDA DO AVÔ. Estava extremamente abatida por todo o corrido e Mirian sentia a pena da filha. Sempre queria tirá-la daquela mansão, mas nunca tivera como. Agora, mais do que nunca, isso parecia ser necessário. Mirian já estava determinada a sair daquela mansão, sobretudo agora que Afonso, a pessoa que lhe dava o dinheiro extra, havia morrido. Ela não suportaria continuar naquele lugar sendo regido por algum dos filhos mesquinhos e não complacentes. Elas, no entanto, teriam de esperar até o outro dia, quando os comerciantes de sofá chegariam, mais ou menos na hora do almoço, e eles poderiam fazer contato e arranjar um meio de ir para a cidade.
— Eu não entendo por que ele fez isso — ruminou Gabriela, voltando a chorar. — Ele não disse na cara, mãe.
— Eu não sei, minha filha, mas ele deve ter tido os motivos dele.
Jorge até tivera, agora restava saber se a palavra de Afonso era confiável.
VII
04/01/2016, 11h14min.
JULIANA ENCONTROU ROBSON TODO SUJO de terra.
— Cansei, viu — comentou ele, casualmente, como se enterrar uma pessoa naquelas condições fosse a coisa mais comum do mundo. Era típico dele. — Acho que mereço uma recompensa.
— Quem tinha que te dar a recompensa era a Mirian. Você enterrou o pai dela. — E, em pensamentos, Juliana completou: É bem capaz que aquela vadia faça isso. Bem, se pagarem pra ela, há há. — Mas talvez eu possa te recompensar. Tome um banho bem demorado e me encontre no meu quarto. — Ela já estava saindo do terreiro. — Ah, e usa o banheiro comunitário. Não contamine o banheiro do teu quarto.
Juliana saiu rebolando, para deixar as coisas ao menos excitantes para ele. Num dos vários halls da mansão, encontrou Virgínia tirando poeira das coisas.
— Ah, eu não tive oportunidade, Virgínia, mas queria elogiar seu trabalho como atriz — alfinetou ela.
— Do que você está falando? — perguntou a grandalhona.
— Seu choro na morte de Joana, o fingimento de se importar com o Jorge e com o velho. Cuidar da família do empregado é algo muito difícil. — Juliana suspirou. — Conheço pessoas como você. Adora ganhar apreço das pessoas com essas farsas descabidas, mas te dou um conselho: aqui nessa família, tudo que você vai ganhar serão insultos e injúrias. Não adianta pagar de boa moça.
Virgínia arregalou os olhos e fingiu não se importar com o que a doutora dissera.
Vadia escrota. Putona! Tomara que queime no fogo do inferno, desgraçada.
Juliana seguiu, então, para o quarto de Robson, onde tinha visto Valquíria entrar um pouco antes, depois de sair da piscina. Ela chegou à porta e, pela fresta, não encontrou o filho viado dela. Valquíria estava sozinha, tomando banho. Era o momento perfeito para isso. Adentrou os aposentos e trancou a porta do quarto por dentro. Despiu-se com pressa, jogando as roupas brancas em cima da cama. Foi até o banheiro e bateu na porta de mogno.
— Calma aí, Robson, já estou terminando.
— Não é ele. Sou eu, Juliana. Preciso falar uma coisa muito importante pra você.
O barulho da água caindo cessou. A pressa de Valquíria podia ser notada nas coisas sendo derrubadas ao caminho da saída do banheiro.
— Não me diga que outra pessoa mo... — Valquíria admirou o corpo da loira. As curvas acentuadas, os seios enormes, redondos e despencados com graça e suavidade, o brilho malicioso dos olhos castanhos, a resplandecência etérea da coroa dourada de seus cabelos, as pernas torneadas, rijas, a cintura fina, a barriga lisa, a região íntima nítida e convidativa, o rosto sem rugas, a boca fina e rósea, as maçãs do rosto vibrantes e fofas, a pele lustrosa. Que mulher era aquela! — O-o que você tá fazendo?
— O Robson não precisa saber disso.
Valquíria, que já vinha em Mirian, mas que tinha se segurado para não fazer nada, dado seu casamento com Robson e a presença do filho, não conseguiu resistir dessa vez. A toalha caiu no chão. As tatuagens coloridas anelavam, os cabelos molhados daquele branco fosco, acinzentado, estavam pregados à pele. Seu piercing brilhava à luz da lascívia.
— Não precisa mesmo — reforçou Valquíria, puxando a médica para perto de si. Os seios trombaram, amassando-se, enquanto elas se beijavam com voracidade. — Vamos pra cama.
— Claro que sim — concordou a loira.
Juliana havia conseguido o que almejava.
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