Quem matou Afonso Dallas?
7 Episódio VI - Conversa Laminar
Notas iniciais
I
03/01/2016, 13h46min.
DEMOROU MUITO TEMPO E O PESSOAL NÃO chegou. Por que será que isso havia acontecido? Por que seus filhos não haviam chegado? Será que Joana não havia dado o recado? Afonso acreditava que não. Mas, para o plano correr certo, precisaria existir aquela conversa que ele havia programado. Todos os passos haviam sido detalhados, sigilados a Rafael, seu advogado, que, embora tivesse ficado contra a princípio, não tivera outra opção senão aceitar. Mesmo com a morte a correr-lhe pelas veias, Afonso ainda tinha muita importância e influência; era fácil para ele conseguir o que queria.
Juliana estava com ele no quarto.
— Se eles não vêm até aqui — entredisse o homem, fitando as costas da loira que lhe preparava uma refeição —, eu vou até eles. — Aumentando os decibéis, o que era um esforço para ele, Afonso verbalizou uma única palavra: — Juliana.
O homem já tentava se levantar da cama.
— Ei, mocinho, não tente fazer isso. Você precisa ficar parado e...
— Cale a boca. Preciso ver meus filhos. Leve-me até eles.
Juliana não podia permitir que ele se esforçasse daquela forma. Ele estava tão lasso...
— Mas você não pode. Se quiser, eu chamo eles.
— Eu já tentei fazer isso uma vez. Não deu certo. — Afonso calçou as pantufas. — Eu vou até eles.
— Mas, senhor, você não pode.
Afonso olhou furiosamente para a loira.
— Faça o que eu mando.
Juliana viu a raiva em seus olhos. Mesmo sabendo que, naquele estado, ele não faria nada, ela sentiu certo medo do homem, e se odiou por isso.
— Certo.
Juliana o apoiou pelos ombros e eles caminharam em direção aos outros.
II
03/01/2016, 13h50min.
O PESSOAL ESTAVA TODO ESPALHADO, mas não demorou muito para eles se aglomerarem na sala. Alice havia reparado que, no tempo livre, a família não ficava junta, como a sua comumente fazia. Era quase como se aquela convivência fosse forçada, que eles não suportassem uns aos outros. Eles mal conversavam e, se sim, não havia aquele clima amistoso que deveria haver entre parentes; era sempre muito compelido, como se fizessem esforço para estar na presença do outro. O pensamento era ruim para Alice, mas lhe parecia um axioma.
Uma pena.
— Todos estão aqui, senhor — informou Mirian, murmurando.
A configuração do grupo era basicamente a seguinte: quem não era da família não tinha o direito, numa ocasião como essa, de ficar sentado à mesa. Portanto, os empregados e a médica estavam em pé, distribuídos aleatoriamente conforme seus próprios gostos — Mirian estava na soleira da porta; Virgínia estava mais atrás, próxima de Gabriela e Mirian, que estavam quase abraçadas; Juliana, por sua vez, estava ao lado de Afonso, para caso ele precisasse de ajuda. Os únicos que não estavam à mesa era Joana e Jorge, que deviam estar cuidando do jardim ou coisa parecida. Os membros da família estavam sentados à mesa. Como ela era enorme, todos tinham um lugar guardado, sem preocupação para excesso de passageiros e falta de cadeiras. Na realidade, estava faltando uma cadeira. Devia haver quinze, mas só tinham catorze.
E, como sempre, reparou Alice, ninguém estava com celular. A verdade era que, depois de perguntar para Rodrigo, ele dissera que era um legado de Afonso. Ele sempre ensinara os filhos a ficarem desapegados de materiais como esse, que poderiam expor as informações ou gravá-las, e que poderia ser usado contra eles. Então, nessa casa onde todos viviam de aparência, manter o sigilo era indispensável. Parecia ser um acordo tácito entre os membros, o que era irrefutavelmente diferente no quesito dinheiro, que Rodrigo lhe deixou claro: Afonso era notoriamente apegado a dinheiro e, embora não tivesse ensinado essa lição abertamente aos filhos, eles acabaram adquirindo o mesmo hábito. Alice sabia disso, e não precisava averiguar com a cena que se seguiria, mas somente intuindo. Era meio óbvio.
— Onde está Joana? — murmurou Afonso para Mirian. — Digo, ela, fora seu pai, que vi cuidando das plantas, é a única que não está aqui.
Os outros conversavam indiferentemente. Nem parecia que o patriarca da família estava fazendo todo aquele esforço para estar na presença dos descendentes.
Mirian deu de ombros.
— Todos estavam em seu quartos. Não encontrei ela.
— Ela não precisava estar mesmo aqui — sussurrou para si mesmo. Então, levantou o tom e iniciou: — Eu, primeiramente, quero agradecer a esta família maravilhosa que Deus me agraciou. — Afonso havia esperado tanto por esse momento. Desde a conversa com Rafael, seu advogado, anos atrás, ele ansiava por esta hora. Não porque era boa, mas porque era o Grande Esclarecimento. Tudo dependeria desse momento. — Todos vocês, por mais que eu não conheça como conheço meus filhos, eu já os amo. Vocês moram no fundo do meu coração. — Era um discurso meia boca, mas ele precisava afofar o terreno antes de fincar a espada. — Juliana me pediu para que eu fosse para um hospital, já que minha condição, como sabem, não é das melhores. Mas eu disse a ela que preferia passar o resto do meu tempo com vocês. Acho que não é surpresa pra ninguém que eu seja assim tão meticuloso com as coisas. — As pessoas ouviam atentamente. O ruído abafado da garganta de Afonso incomodava, mas eles relevavam. — Sempre fui muito organizado com minhas coisas, e veja onde eu cheguei. No entanto, como sei que vocês já estão bem da vida, que não precisam de nada, eu imaginei que pudéssemos fazer outra coisa.
“Desde pequeno, eu tive um fraco por pessoas carentes. — Era mentira. — Eu sempre tratei bem, como eu trato os meus empregados e, sempre que tinha oportunidade, eu os ajudava. Então creio que, agora mais do que nunca, preciso deixar um legado da minha supremacia. E não me refiro a vocês, meus caros. Vocês estão bem de vida; não precisam da minha herança. Mas há pessoas lá fora que precisam. São essas que eu irei ajudar. — Os Dallas não estavam entendendo. Ou, se estavam, preferiam não estar. — Eu, em outras palavras, não deixarei minha herança pra vocês. Darei tudo para uma instituição de caridade, desde a minha mansão até as minhas outras propriedades e todo o meu dinheiro, sem distinção.”
A afirmação assustou a todos. Isso não era verdade, era? Não podia ser. Ele não estava louco a ponto de preferir um bando de crianças sem pai, passando fome, ao invés dos filhos dele, o legado direto dele! Era difícil de acreditar nisso, mas vindo do papai era bem possível. Ele sempre fora incoerente e louco. Tão sistemático... Tão rude. Tão ele. Maldito seja Afonso Dallas.
— Mas, pai, você não pode estar falando sério — iniciou Marcelo. — Pai, eu não estou bem de vida.
— Você não passa fome, tem uma casa e emprego. Isso pra mim é estar bem de vida. Vocês, meus filhos, não precisam desse dinheiro. Mas elas, as crianças carentes, precisam, sim.
— Concordo com ele — disse Lígia. — Precisamos ajudar os outros. Precisamos pensar nos outros antes de nós mesmos.
Contrariada, Valquíria bufou.
— Cale a boca, falsa moralista. Você vive falando mal das pessoas e paga de benfeitora. — E virando-se para o pai, gritou: — Você não pode fazer isso! Eu sou uma tatuadora! Eu não ganho tão bem assim! Eu e meu marido, que é personal trainer, não temos condição de comprar o novo iPhone porque ele é caro demais. A gente tem que usar a porra dos celulares que tem que apertar as teclas para fazer uma ligação. Apertar. As. Teclas! Ele não é touchscreen!
— Mas que tamanha futilidade! — enfiou-se Adriana. — Então quer dizer para se ter uma vida boa a gente precisa de um celular bom?
— Não se intrometa em assuntos familiares. Você é uma mera namorada, nem sequer se casou com meu irmão — rugiu Melissa. — Pai, você vai mesmo fazer isso? Você vai fazer isso comigo, que ficou aqui enquanto seus outros filhos saíram de casa? Eu sempre estive aqui com o senhor! Isso é uma injustiça. VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO!
Alice estava com medo de que aquilo pudesse se tornar uma briga. Era um potencial, dado os nervos de todo mundo. Eles pareciam ser muito temperamentais e emotivos, e pessoas assim só significavam ações impensadas e imprudentes, tudo acontecendo no calor do momento, como Rodrigo era antigamente, antes de se transformar completamente, tornando-se uma pessoa inteiramente diferente, e para melhor. Alice achava que essa mudança radical fora causada por algum psicólogo, um suposto irmão de Robson, que haveria no lugar onde Rodrigo iria passar na viagem para Belo Horizonte.
Próxima daquele rebu, Juliana estava adorando.
— Que família... — confidenciou a Mirian, que apenas assentiu, entretida.
— Você, Melissa, é uma egoísta — disse Gabriel. — Você diz isso da gente, mas, se estou certo, você quem deu a ideia de contratar a Juliana. Provavelmente porque não queria cuidar dele.
— Eu contratei ela porque ela seria melhor para o papai do que uma leiga que não sabe nada sobre medicina.
— Não — disse Afonso, balançando o dedo. — Você trouxe ela logo que a doença apareceu. Eu ainda nem precisava de alguém. Você sempre foi relapsa comigo. Você nunca cuidou de mim. Quem sempre fez isso foram os empregados. Não seja hipócrita, Melissa.
— Gente, acho que isso não é pra tanto — tentou apaziguar Rodrigo. Ele segurava a mão de Alice firmemente. — Não vamos criar uma confusão. Vamos ficar calmos e...
— Ficar calmos? — quem disse foi Otávio. — Como você fica calmo quando sabe que o vovô não vai deixar a herança gorda dele? Isso é inadmissível. Eu já estava me preparando para viajar para os parques da Disney. Eu ia comprar tantas coisas... Eu não consigo acreditar nisso.
— Vô, você está falando sério? — perguntou Eduardo. Por sob a mesa, ele acariciava a coxa de Adriana, que estava ao seu lado. — Isso é mesmo verdade?
— Por que, meu netinho? Você queria minha herança?
— Quem não queria? — disse Virgínia, se intrometendo. E, percebendo que sua psique estava falando mais alto que a racionalidade, ela se calou. — Desculpa. — Ela olhou para Gabriela, que estava abraçada à mãe. — Eles são loucos — murmurou. Gabriela riu genuinamente. Virgínia percebeu que os cabelos cacheados da jovem precisavam ser cortados.
— Acho — disse Robson, tentando parecer apaziguador — que o senhor pode estar, não sei, não pensando direito. Digo, não sei se a doença...
— Eu estou certo do que irei fazer. — Eles estavam indignados com aquilo. — Mas há um forma de se conseguir que eu reparta a herança normalmente.
Quando ele disse isso, os olhos de todos brilharam. Valquíria sorriu abertamente e alisou a estrela no ombro, a tatuagem que julgava lhe dar sorte. Otávio gargalhou baixinho e lambeu os lábios. Robson bufou, aliviado. Melissa passou as mãos pelos cabelos curtíssimos. Gabriel colocou as mãos sobre a mesa. Lígia apertou o terço em suas mãos, um TOC que acabou criando de tanto repetir o mesmo ato. Alice segurou as mãos do namorado, que estavam suadas. Rodrigo olhou para ela e sorriu inocentemente. Adriana balançou a cabeleira ruiva enquanto sentia arrepios com a mão de Eduardo percorrendo suas coxas nuas. Marcelo, por sua vez, afagou o ombro da namorada. Juliana, ao lado de Afonso, fingia não estar gostando da situação, ao contrário de Mirian, Virgínia e Gabriela, que não escondiam a admiração pela cena incomum entre a família.
Afonso se deliciou ao ouvir a voz da pessoa que quebrou o silêncio.
— E qual é? — indagou Alice, menos temerosa do que achava que estaria.
Afonso apenas sorriu e deixou a pergunta no ar.
— Juliana, me leve pro quarto. Estou muito cansado.
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