Quem matou Afonso Dallas?

17 Episódio XVI - Devaneios Opacos


Notas iniciais
Alguém pediu um flashback revelador?

I

19/06/2015, 10h18min.

ALICE E SEU EX-NAMORADO, DANIEL, estavam conversando na rua.

— Eu realmente queria que nosso lance tivesse dado certo — comentou ele.

Daniel era um rapaz metido a playboy, sempre vestindo jaquetas, inclusive no sol quente de São Paulo, e calças rasgadas. Os óculos escuros que lhe cobriam os olhos verdes traziam-lhe a aparência que ele procurava. Adorava o penteado — em forma de topete — e sempre tinha um pente perto de si, para a eventualidade de ele ser bagunçado pelo vento.

— Eu não se daria certo, de qualquer forma. Você é muito superficial, sabe. — Estavam sob uma árvore. — Amizade pra mim tá legal.

— Eu não vou insistir. Porque, você sabe, tenho várias garotas à disposição.

— Fico feliz por você.

Alice ainda não entendia como tinha conseguido dois garotos — Daniel e Rodrigo — que, numa escola imaginária de beleza, estavam muito acima da sua. Os olhos âmbar de Alice eram profundos, mas sem aquele brilho convidativo dos olhos mais claros, como era o caso de Rodrigo e Daniel. Os cabelos dela eram loiros, mas simples, sem serem rutilantes como a cabeleira de uma certa doutora que ela só conheceria mais à frente. E, para completar, ela não tinha o corpo curvilíneo que a maioria das outras garotas de sua idade tinham. Seus seios eram apenas mera protuberâncias.

— Não devia — rebateu ele. — Você pode me perder pra sempre.

— Estou morrendo de medo — escarneceu, revirando os olhos.

— Sabe, não sei o que você vê no Rodrigo.

— De novo esse papo, Daniel? Ele é meu namorado e eu gosto dele.

E, nesse momento, Alice viu que Rodrigo estava se aproximando. Eles moravam próximos, o motivo para terem se conhecido.

— Olha lá quem está vindo — disse Daniel, bufando. — Ele anda todo cheio de marra.

Alice se levantou e beijou Rodrigo, um simples selinho.

— Esse cara tá te incomodando?

— Não, ele já estava de saída.

— De saída? — gracejou o outro. — Não foi isso que você me disse quando me chamou pra ir no seu quarto.

Rodrigo ameaçou de ir para cima dele. Alice segurou-o.

— Ele só está te irritando. Deixa isso quieto.

Uma verdade sobre o temperamento de Alice era que ela queria o bem para todo mundo. Era aquele estereótipo de protagonista de filmes, a menininha sem sal, a humanitária que ninguém gosta e torce para que ela morresse nos primeiros minutos de cena. Ela sempre via o lado do outro primeiro que o seu, mas quando se sentia mal tratado, não poupava o atacante, o que não era o caso — mas que haveria um no futuro, envolvendo um primo de Rodrigo e sua arrogância.

Rodrigo se acalmou.

— Só porque você pediu.

Ao mesmo tempo em que Alice era condescendente e complacente, Rodrigo era muito descontrolado. Agia muitas vezes no calor do momento, esquecendo-se da razão e deixando os sentimentos e emoções dominá-lo. Era um dos defeitos que Alice não gostava no namorado, mas estava disposta a aceitá-los e, posteriormente, moldá-los ao ponto de que se tornassem quase inexistentes — já que ela duvidava que ele deixasse aquela psique por completo. Por sorte, porém, e Alice perceberia isso algum tempo depois, tacitamente, Rodrigo se tornaria uma ótima pessoa, esquecendo-se desse seu lado explosivo em nome da garota que ele amava.

— Isso aí, frangote. Obedece a namoradinha porque senão não vai ter sexo a noite.

Rodrigo virou-se irritado e desferiu-lhe um gancho de direita. Daniel caiu longe. Alice gritou. O ex-namorado da garota se levantou, indiferente ao penteado bagunçado, e partiu para cima do oponente. Tentou socá-lo, mas Rodrigo desviou-o e empurrou-o para trás. Alice pedia para que eles parassem, mas Rodrigo insistia no ato. Socava o rapaz impetuosamente, tirando-lhe sangue e ornando-lhe com cicatrizes e filetes carmesins que fluíam como cobras vagarosas, uma sucuri que acabara de comer. Depois de uma série de golpes, Rodrigo levantou-se e virou para Alice.

— Esse cara é um pé no saco.

— Não acredito que você fez isso, Rodrigo.

— Mas ele me irritou! — defendeu-se ele. — Ele estava pedindo pra apanhar.

Alice olhou profundamente o rosto do namorado, analisando. Os cabelos lisos estavam bagunçados.

— Você é muito impulsivo. Você não pode deixar as emoções te dominarem, Rodrigo. Olha o que acontece quando você é fraco.

— Fraco? — ecoou o rapaz, cabisbaixo.

— Fraco. Se você não consegue controlar seus atos, seus atos te controlarão. — Ela havia parafraseado a mãe, e estava orgulhosa de se sentir quase adulta.

Daniel estava gemendo. Alice andou até a sua casa.

— Vou ligar pro hospital.

Rodrigo segurou sua mão.

— E a gente?

— Olha, aproveita essa viagem pra Belo Horizonte e vê se melhora. Nós não estamos terminando, mas... precisamos de um tempo.

II

21/06/2015, 20h01min.

RODRIGO ESTAVA SE SENTINDO MAL PELO que fizera. Tudo bem que, no calor do momento, ele achara que socar a cara daquele playboyzinho muito bom. Mas, agora, depois de saber que ele estava no hospital, todo machucado, ele sentia remorso. Ademais, o tempo que Alice lhe dera não corroborara para ele se sentir melhor; pelo contrário, estava sentindo-se como um caco, um ser primitivo. Ele estava disposto a mudar, deixar de ser impulsivo e tornar-se uma pessoa melhor. Aproveitaria essa viagem para Belo Horizonte, como Alice sugerira, e esfriaria a cabeça. Ficaria refletindo. Rodrigo e sua família iriam para a casa da família de Robson, o esposo da sua tia Valquíria, e um tio de consideração — afinal Rodrigo pedia a bênção para ele também.

Eles já estavam com a mala arrumada e pegariam o vôo em breve. Eram apenas duas família, um total de seis pessoas. E, incluso nesta quantidade, estava Otávio.

III

22/06/2015, 11h19min.

RODRIGO ESTAVA TOMANDO BANHO DE PISCINA. Estava relativamente menos triste do que quando saíra de São Paulo, mas, mesmo assim, ainda se sentia carente e sozinho. O pessoal da casa era bem animado e música estrondava alta. Valquíria, Robson e seus pais conversavam animadamente com os pais de Robson, dois velhinhos sapecas. João, o filho que vivia com eles, assim como Melissa fazia com Afonso, também estava se entretendo com a conversa, mas era o mais calado de todas, uma marca de sua profissão que era necessário ouvir mais do que falar.

Otávio estava mexendo no seu celular.

— Eu tenho uma raiva desse celular — resmungou ele. — Você tem que apertar os botãozinhos igual faz no notebook. Qual é o sentido disso?

Rodrigo ignorou-o.

Enquanto mergulhava, Otávio babava no corpo do primo. Ele sempre o achara muito gostoso; fazia muita academia. Gostoso. Rodrigo saiu da piscina. Estava de sunga vermelha. Gosto do que vejo. Faz um strip-tease pra mim, porra! Como Otávio queria ver o que tinha ali dentro. E ainda vou conseguir. Rodrigo balançou os cabelos negros e lisos, deixando-os espetados, quase como os de Otávio.

— Quer que eu pegue a toalha?

Rodrigo sorriu. Otávio — e Alice — achavam aquele sorriso maravilhoso.

— Por favor.

Otávio se levantou e correu para pegá-la. Entregou para o primo.

— Você...

— O que tem eu?

Otávio ruborizou.

— Você bebe?

— Ainda não tenho dezoito anos...

— Eu também não tenho, mas sou vida louca. Sabe como é, né. — Otávio se virou. — Se quiser saber como é sensação de estar bêbado, vai no meu quarto hoje. Eu tenho várias cervejas lá.

Naquele estado em que Rodrigo estava, ele achava que poderia ser legal esquecer os problemas de uma vez. Estava se sentindo mal pelo que fizera, e a carência a solidão, a saudade de Alice, apenas corroborava com a tristeza que sentia. Estava tão deprimido — ele sabia que dependia da loira para ficar bem, mas não queria admitir isso.

Um pouco mais tarde, assim que saiu da piscina, sem nem mesmo tirar a sunga, Rodrigo esgueirou-se para o quarto do primo, a toalha no ombro. Quando chegou lá, viu que Otávio mexia no celular.

— Não suporto esse troço — comentou ele. — Queria que minha mãe comprasse um bem legal pra mim, mas ela faça que a gente tem que economizar.

Rodrigo estava prestes a dizer alguma coisa como: “e daí? Não te perguntei nada”, mas se segurou. Estava sendo uma pessoa melhor por Alice. Ela iria gostar que ele ficasse calado agora. Ela até teria parafraseado a mãe dizendo: “o silêncio é prata e a palavra vale ouro.”

— Acho que os mais novos nem são tão bons assim. — Alice teria gostado se visse Rodrigo tentando fazer alguém se sentir melhor.

— Bem, isso não importa. — Ele levou a mão para baixo da cama e pegou uma garrafa. — Vamos beber?

IV

22/06/2015, 18h05min.

RODRIGO FICOU BÊBADO RAPIDAMENTE. Ocorreu a ele que Marcelo, um dos tios dele que tinha ficado internado, poderia ter começado dessa forma. Uma desilusão amorosa, o apoio e o incentivo de um primo ou de um parente, e o turbilhão de emoções ruins, zunindo na cabeça dele.

— Sim, cara, eu fiz tudo isso. — A fala de Rodrigo era engrolada. — Eu tirei muito sangue dele. Ele acabou indo pro hospital e a Alice pediu um tempo.

— É uma pena — disse Otávio. A voz, ao contrário da do primo, estava completamente sóbria. — Você deve estar se sentindo tão sozinho. — Otávio estava se aproximando. Ele jogou a toalha para longe. — Eu bem que poderia tentar amenizar essa situação.

Os pensamentos de Rodrigo eram tão baços, tão anuviados. Ele não disse nada.

— Vou aceitar isso como um sim.

Otávio tirou a sunga do rapaz e sentiu-se no paraíso.

V

22/06/2015, 19h43min.

O JANTAR ESTAVA SENDO ANIMADO. Porém, parecia a João, o único irmão de Robson, que Rodrigo não estava gostando. Ele estava cabisbaixo, tristonho, com um muxoxo no rosto. João sabia que, se houvesse uma conversa, ele certamente descobriria o que estava havendo. Mas isso não poderia ocorrer deliberadamente; normalmente, pacientes que estavam nesse estado precisam ser levados e tratados com discrição, para evitar a exposição e o constrangimento que só piorariam a conjuntura já debilitada da cabeça deles. João, pois, esperaria que todos tivessem terminado.

Quando a oportunidade apareceu, João foi até o jovem.

— Aconteceu alguma coisa, rapaz? — Rodrigo sorriu fracamente. — Deixa eu adivinhar. Mulher.

Ele assentiu.

— Acho que não tem mais volta.

— Ei, cara, pra tudo na vida tem um jeito. Não fique assim, não.

Rodrigo acabou contando tudo que acontecera, desde sua impulsividade, os socos no ex-namorado de Alice e o tempo que ela exigira. Então, para completar, omitindo os detalhes sórdidos, dissera que traíra Alice com uma “garota”. Rodrigo explicara a situação, que estava bêbado, deprimido, sozinho, carente. E que tudo foi apenas uma rapidinha, que não chegara ao próximo passo, que a garota tinha apenas ajoelhado na frente dele para fazer um carinho no passarinho até ele vomitar o leitinho.

— Adorei a eufemização.

— O que eu devo fazer?

— Seja sincero com ela.

— Contar isso pra ela? — perguntou Rodrigo, arregalando os olhos.

— Se ela for tão boa como você diz, ela vai entender. Pior será se ela descobrir através de outra pessoa. Acho que, se isso acontecer, essa tal de Alice vai precisar de uma motivação muito grande pra querer voltar com você.

Notas finais
Desculpe, a demora. O próximo deve sair sem uma data específica, mas chegará, fiquem tranquilos.