Quem matou Afonso Dallas?

4 Episódio III - Aparências Baças


Notas iniciais
Continuação da apresentação dos personagens e o início da trama.

I

03/01/2016, 11h47min.

QUANDO O ÚLTIMO FILHO DE AFONSO CHEGOU, o pessoal já estava tomando banho de piscina. Alice ainda não tinha conhecido o poderoso patriarca da família e não sabia decifrar se estava ansiosa para tal.

De biquíni, ela estava estirada sobre uma das várias espriguiçadeiras. Melissa conversava com Lígia que, imaginava Alice, se recusava a expor seu corpo. Ela não entendia bem o motivo, mas também não julgava sua sogra. Em outra cadeira sob o sol, seu sogro, Gabriel, estava deitado, os óculos escuros deixando-o ainda mais bonito. Robson, Rodrigo e Valquíria estavam na água, conversando animadamente. O homem que os havia recebido na entrada mais cedo, de nome Jorge, que depois ela ficara sabendo, molhava algumas plantas do jardim, sendo auxiliado pela menina jovem e bonita, que era sua neta, Gabriela. As outras empregadas deviam estar na cozinha, preparando o almoço, pois Alice não conseguia enxergá-las. Ela havia aprendido os nomes delas, depois que Melissa as tinha apresentado. Virgínia era a mulher robusta que dissera seu nome; Joana, a empregada mais velha de cabelos claros; e Mirian, a mulata bonita, mãe de Gabriela e filha de Jorge.

Os recém-chegados eram uma família mais dinâmica. Dos filhos de Afonso, o homem devia ser Marcelo, o único que ainda não havia chegado até agora. Ele devia ter seus trinta e tantos anos, sendo ainda o mais jovem dos quatro filhos de Afonso Dallas. Sobre o homem, se fosse verdade o que ela ouvira de Rodrigo, ele era ex-usuário de drogas, que havia se internado numa clínica e conseguira se reerguer, depois que começou a trabalhar numa academia. Tinha olhos escuros, inquisitivos, e uma cabeleira que lhe chegava até o ombro.

Ao lado dele, havia uma mulher. Era jovem, com seus vinte e poucos anos. Alice daria vinte e três. Ela era bonita, com um queixo delicado e uma boca rosada e volumosa, que fazia contraste com algumas linhas duras do rosto. Os cabelos ruivos, um pouco pintados, mas naturalmente naquela cor, rebrilhavam à luz solar, que lhe conferia uma aparência incandescente. Vestia uma roupa folgada, costumeira, um vestido rodado que lhe deixava ver o biquíni. O outro rapaz, que devia ser um pouco mais velho que Alice, que tinha dezessete, tinha uma postura altiva. Era um rapaz com um corpo na medida, sem ser muito magro e nem muito musculoso, embora tivesse um rosto muito bonito. O sorriso dele se destacava, somando-se aos olhos azuis, ao nariz afilado, o pequeníssimo brinco na orelha e os cabelos enrolados como os de um anjo. Por sorte, como Gabriel havia comentado, a maior parte da família havia puxado o lado materno, pois o nariz dela sempre foi mais bem desenhado. O de Afonso, segundo ele, era adunco, quase como se fosse um nariz de águia.

Os três cumprimentaram os parentes e, logo, estavam na piscina. Como o sol estava quente, aquela era a opção mais viável. Alice, observando o movimento das outras pessoas, percebeu que havia uma mulher que não conhecia. Ponderou sobre quem poderia ser. Analisou as vestimentas e, só então, lembrando-se do que Melissa dissera mais cedo, percebeu que devia ser a médica que estava cuidando do Sr. Afonso. Ela era bonita. Estava conversando com Lígia e Melissa descontraidamente, rindo e deixando os fios áureos — era um loiro muito reluzente — se remexerem. Alice não conseguiu não perceber o tamanho do busto da mulher. Eram enormes e, claramente, havia a mão de algum cirurgião. Talvez ela tivesse recebido um desconto por ser do ramo.

— Ei, amor — chamou Rodrigo, os cabelos molhados e o sorriso tentador —, vem jogar vôlei. — A rede já estava colocada entre uma lateral e a outra. — Eu sei que você é ruim, mas... — Ele sorriu. Alice imaginou se derreteria, metafórica ou literalmente. — Vem logo!

Naquele clima de bonança, Alice olhou para o céu azul e sorriu para Rodrigo.

— Estou indo!

II

03/01/2016, 12h13min.

GABRIELA ESTAVA HESITANTE. Precisa avisar àquele rapaz que o almoço estava pronto, mas ele estava muito entretido olhando o pessoal tomar banho na piscina. Ele estava debruçado sobre a grade que extremava a sacada. Era um rapaz bonito, notou Gabriela. Mas isso não importava; sua mãe sempre dizia que nunca, nunca, jamais, poderia haver um relacionamento entre ela, uma mera subordinada, e uma pessoa da família Dallas.

Ela deixou a timidez conseguida ao longo dos anos de lado. Seus amigos da escola costumavam chamá-la de ingênua, porque acreditava em tudo. E, por causa disso, ela acabou somando essa “virtude” à timidez e resultara nisso: uma garota jovem, com os nervos à flor da pele, que não sabia falar direito com os outros.

Os cachos volumosos estavam balançando ao sabor do vento. Seu cabelo estava grande. Ela precisaria cortá-los.

— Otávio, o almoço está pronto. — Sem o que fazer com as mãos, ela alisava os cabelos. Sem dúvidas, estavam enormes.

Otávio se virou lentamente. As pupilas claras, azuis, a seguiram, avaliando sua fisionomia.

— Você não tem que usar alguma palavra antes de se referir a mim? — Ele olhou profundamente para ela, sardônico. — Algum “seu” ou “senhor”. Sei que não combina com minha idade, mas é um sinal de respeito.

Gabriela ruborizou.

— Me desculpa.

Ele sorriu.

— Claro. Mas que isso não se repita de novo, tudo bem? — Ele falava com um toque pueril, como se estivesse conversando com alguém que não conhecesse sua língua, um forasteiro. — Mas vem cá. — Foi ele quem se aproximou dela. — Olhe. O que você acha desse pessoal? Bonitos, não?

Gabriela, sem saber o que fazer, apenas assentiu.

— Sim, eles são muito bonitos, principalmente... — Ao perceber que estava atingindo um limite da ética, ela se deteve.

— Principalmente...? — incentivou o rapaz. Gabriela não respondeu. — Pode falar. — Ela continuou calada. O sol açoitava ambos. — Pode dizer. — Nada. Ele precisaria mudar a estratégia. — Fala agora, porra! Principalmente quem?

— Principalmente o filho do Sr. Gabriel.

Ele se surpreendeu com a revelação. Iria dizer muitas coisas que lembrava, mas se restringiu apenas a proferir:

— Eu concordo plenamente com você.

III

03/01/2016, 12h15min.

EMBORA FOSSE A HORA DO ALMOÇO, Robson ainda não estava com fome. Seu sogro ainda não havia saído do quarto. Pelo que constava, ele deixava uma geladeira reserva e alguns alimentos para quando ficava isolado; a única pessoa que tinha a permissão para adentrar o recinto eram aquelas que ele convidava ou a médica, aquela mulher peitudona que Robson havia reparado e já estava de olho. Juliana tinha livre acesso para o quarto, pois tinha de verificar o estado de saúde do homem e controlar sua alimentação.

Assim, ela também não estava presente, almoçando. Ela estava no Quarto da Reclusão, como ficara conhecido entre os residentes. E, por isso, Robson se voluntariara — e havia certa malícia no ato — para chamá-la. Ele caminhou até o quarto e, com medo de atiçar a paciência não muito confiável do velho, ele esperou.

De dentro do quarto, a voz alquebrada de Afonso soou.

— Mande chamar Joana quando ela terminar de almoçar — ordenou. Estava deitado em sua cama. Sua aparência era debilitada. Sofria de câncer no fígado.

Juliana, que já estava de saída, aquiesceu, anuindo a cabeça.

— Claro.

— Feche a porta quando sair.

De costas para Afonso, a médica deixou os aposentos reais, como ela se referia ao lugar ironicamente. Quando saiu, fechou a porta atrás de si. Notou a estatueta de uma gárgula orlando a entrada e perguntou-se se aquele era o gosto esdrúxulo de Afonso. Era um objeto pequeno, acinzentado, e o mínimo movimento poderia quebrá-la, embora tivesse colada ao chão. Juliana temia por isso, especialmente porque, segundo Afonso, aquele era um objeto que estava salvaguardando sua vida. Bem, ela não acreditava no sobrenatural, mas seria útil em horas como essas, dando esperança onde não existia.

Ela deu alguns passos em direção ao seu quarto. Havia muitos na residência; fora banheiro, cozinha, salas e afins, havia uns quinze dormitórios nos dois pisos. A casa é enorme, pensou ela. Ao chegar à soleira de sua porta, ela pegou a chave e, antes que pudesse destrancá-la, foi abordada por um homem. Era aquele tal personal trainer gostosão que ela vira mais cedo, tomando banho e exibindo os gominhos de sua barriga sarada. Tinha uma barba que lhe cotejava um ar ainda mais avassalador. Era um homem muito bonito mesmo.

Ela sorriu descaradamente ao olhá-lo nos olhos — eram como duas bilocas brilhantes e azuladas, como as do filho Otávio.

— Pediram pra avisar que o almoço está pronto. — O homem se escorou na entrada da porta.

Juliana remexeu os cabelos loiros e cruzou os braços, estufando o peito de propósito.

— Sabe — a voz tinha um tom buliçoso —, eu não estou exatamente com fome de comida.

Ela deixou as segundas intenções no ar. Seu intento era que o homem compreendesse e, se quisesse, que fossem para o quarto. Ela, a princípio, só estava na Mansão Dallas a trabalho, mas não custava juntar o útil ao agradável, principalmente se o agradável fosse um homem daqueles.

— Entendo... — disse o homem, o mesmo tom malicioso. — Eu podia então te fazer companhia, já que também não estou com fome. — Ele colocou os dedos no queixo, fingindo estar pensando. — Quer dizer, estou com fome de outra coisa.

Ele havia aceitado a oferta!

— Acho que posso saciar você.

Robson olhou para os lados. Não havia ninguém. Perfeito.

— Eu tenho certeza de que sim.

Eles entraram no quarto e trancaram a porta.

IV

03/01/2016, 12h27min.

AS COISAS TIVERAM DE SER APRESSADAS. Robson gostava de um sexo mais demorado, mas não podia se dar a esse luxo. Havia muitas pessoas no lugar e qualquer um poderia descobrir aquilo. E embora ele adorasse umas pré-eliminares lentas e prazerosas, que só apimentavam ainda mais a penetração, ainda era mais importante sua relação com Valquíria. Ele não gostava exatamente dela, mas precisava manter as aparências com a iminência da morte do velho e da herança que iriam receber. Ele já a havia aguentado por mais de dezesseis anos, a idade do filho deles, desde quando se conheceram: Valquíria havia sido uma das várias clientes que ele tinha e, eventualmente, eles acabaram trepando e resultando no filho e, por este motivo, Robson fora obrigado a se casar com aquela mulher cheia de tatuagens e piercings. Ele, sem dúvidas, preferia a médica gostosa que estava ao seu lado na cama.

— Eu preciso sair logo; alguém pode sentir a minha falta.

Juliana ponderou as palavras.

— Tipo a sua mulher? — Ele assentiu. — Ela é uma delícia, não acha?

Robson estava meio confuso.

— Delícia? — ecoou. — Você é...?

— Bissexual? Sim, sou — respondeu, indiferente. — Mas fique tranquilo: eu não vou pegar ela não. Os amantes aqui somos eu e você. — Ela engatinhou pela cama e beijou a nuca dele. Robson se vestia. — Agora se apressa.

Ele se virou para trás e mandou-lhe uma piscadela safada.

— Se houver outra oportunidade, não hesite em me chamar. — Ele se levantou. Andou até a porta, mas pensou melhor. — Mas seja discreta, tudo bem?

— Você sabe que eu sou. Ah, e adorei seu sotaque mineirinho.

Robson corou.