Quem matou Afonso Dallas?
3 Episódio II - Cumprimentos Agoldoados
Notas iniciais
I
03/01/2016, 10h18min.
O LUGAR ERA MESMO MUITO LINDO! Quando Rodrigo dissera que era uma mansão, Alice esperava que fosse uma casa grande ou uma mansão pequena. Mas, ao se deparar com a imensidão daquela residência, ela sentiu-se arrebatada. Enquanto colocava as mãos sobre a boca, mas tentando disfarçar o deslumbramento, ela fingiu estar fitando o céu, por onde um recorte de pássaros voejava em frente a um floco de algodão dengoso e branquinho. Vívido e pulsante, o sol lançava poças de luz áurea por sobre toda superfície terrestre. A mixagem entre o azul celeste da piscina e o amarelo âmbar do sol na água era ofuscante.
Ela volveu o olhar para Rodrigo, sentado ao seu lado.
— Muito bonito aqui, Rô.
Rodrigo era seu namorado. Eles já estavam juntos há quase dois anos e frequentemente um ia para casa dos familiares do outro. Na realidade, eles haviam, nesse meio tempo, se separado uma única vez. Rodrigo, durante essa época, na visão de Alice, estava sendo muito impulsivo. Acabara que ele esmurrara o ex-namorado de Alice e o levara para o hospital. Por isso, ela achou melhor que eles dessem um tempo, para que Rodrigo pudesse arejar a cabeça. Alice dissera: “aproveita essa viagem pra Belo Horizonte — ele iria fazer uma com sua família — e vê se melhora. Nós não estamos terminando, mas... precisamos de um tempo.” Foi um tremendo baque para o rapaz, sabia ela. Mas, no fim das contas, ele voltou bem e eles reataram.
— Sim — concordou ele —, é mesmo. Eu nunca tinha vindo aqui.
Alice não se impressionou com a afirmação. Embora Rodrigo e sua mãe, Lígia, uma mulher de cabelos na altura do ombro, escuros e lisos, fossem muito próximos com os parentes, ela sabia que a parte do pai era uma linhagem indolente; eles mal se falavam e, quando juntos, pareciam não se dar bem completamente. Parecia haver, ainda, muitas picuinhas envolvendo a herança gordurosa e o inventário. Rodrigo já havia admito que preferia o lado materno, mas tinha de fazer o social, principalmente depois do convite irrefutável de seu avô, que, segundo o rapaz, ele só havia visto poucas vezes, pois ficava isolado aqui, nessa mansão que por si só não era lá um exemplo de localização populosa.
— Papai sempre teve um sonho de morar numa mansão — disse casualmente Gabriel, o pai de Rodrigo. Ele era detetive com uma mania esdrúxula e volta e meia dormia fora para cuidar de casos que viravam a noite. — Acho que ele conseguiu.
A essa altura, o portão de metal estava se abrindo. À frente da garota de cabelos loiros e de corpo sem muitos atrativos, um enorme jardim se estendia. Nele, cavalgando por entre os ramos e arvoredos, uma piscina cristalina jazia plácida. Atrás das alamedas, a casa se assomava com suntuosidade. Era cromatizada sobretudo com tons pasteis, sem aquele chamativo de casas bregas que comumente poderia se ver em cidades comuns. A parte superior era projetada horizontalmente sobre as três portas enormes de entrada, uma sacada banhada pela luz áurica e apurada do sol, fixa ao chão através de várias pilastras cilíndricas e cheias de detalhes minuciosos.
Um homem com a pele brilhante, achocolatada, com uma barriga enorme, acenava.
— Coloque o carro no estacionamento, Sr. Gabriel — informou, o sorriso num misto de simpatia e faustosidade fingida.
Gabriel, aquele homem de cabelos escorridos pela testa num tom acastanhado e um corpo virilmente musculoso, assim como olhos acastanhados e brilhantes, praticamente a mesma aparência do filho — e que atraíam Alice —, colocou a mão para fora do carro e fez algum cumprimento lisonjeiro.
— Obrigado, Jorge.
Eles seguiram por uma estrada composta por brita e terra, que levava até os fundos da mansão. Era um caminho largo, bordejado com uma cerca viva no lado esquerdo e um logradouro de plantas no lado direito. Os flancos naturalmente vivos e imbuindo frescor eram uma bênção naquele clima muito mais que tépido. Deviam estar na escala da superfície solar.
Ao chegarem ao estacionamento — um grande espaço com vagas determinados com linhas brancas e pequenas árvores projetando sombras convidativas —, eles escolheram uma vaga tácita para o Gol e o ancoraram. Havia outro automóvel ali, um Celta simples. Havia, depois do estacionamento, um cemitério. Alice não iria questionar novamente, pois já sabia que era onde Heloisa, a matriarca da família, havia sido enterrada, a pedido do Dallas superior. Outro ponto característico no local era a presença de um amontoado de árvores nativas, formando uma espécie de bosque, extremado pela parede que cortava a florestinha com a parte maior dela, que ficava do lado de fora, por conseguinte.
Eles desceram do carro e, instintivamente, Alice foi em direção ao porta-malas, almejando levar suas coisas. Contudo, ao perceber que nenhum dos outros fazia o mesmo, ela estacou.
— Vamos pegar as malas mais tarde?
Gabriel sorriu faustosamente.
— Empregados servem pra isso.
Lígia, cujos olhos pequenos e escuros eram a máscara da religiosidade, pareceu não gostar da atitude do marido. Alice sabia que ela era evangélica assídua, sendo uma pessoa extremamente serena e calma. Ela não suportava atitudes como essas: arrogância e falta de humildade, embora, em contrapartida, aproveitasse o posto de dona de casa para jogar conversa fora com os vizinhos. Alice sabia disso, pois morava na vizinhança, o exato motivo para ter conhecido Rodrigo e começado a namorá-lo.
Ela tomou as chaves das mãos de Gabriel e abriu o porta-malas.
— Nunca mais fale assim.
A mulher, que estava vestida com um simplório vestido, desceu as malas.
— Nós mesmos vamos levá-las.
Gabriel, muito sem graça com o vexame, esboçou um sorriso amarelo.
Alice pegou sua mala — que não estava muito cheia, afinal eram somente alguns dias — e seguiu-os. Vendo-os por trás, Alice reparou nas vestes de seu namorado. Trajava um short simples, que exibia as pernas varonis, além de uma camiseta regata com a mesma característica. Estava um pouco justa, e ela admirou a vista. O pai do homem estava mais simples ainda: uma calça jeans e uma camiseta com estampa de flores havaianas. Lígia, como ela já havia notado, sofria para andar de vestido. Alice, por sua vez, vestia um short jeans de tamanho razoável e uma blusinha acriançada, branca, com algumas linhas abstratas.
Ao colocarem os pés sobre as cerâmicas de uma tonalidade brilhante, Alice avistou quatro mulheres. Estavam postadas com solenidade, nos típicos uniformes aristocráticos, um roupão cinza coberto por um avental branco que lhes chegavam até os pés e, como único acessório excêntrico, um pano branco envolto na cabeça que se assemelhava a um chapeuzinho.
— Iremos levar para os senhores — afirmou uma delas, a que estava à esquerda, se adiantando. Era grande e robusta, com as bochechas redondas e protuberantes. Tinha os olhos claros e cabelos pretos, poucos perceptíveis por sob o manto branco que lhe adornava a cabeça. — Sou Virgínia.
Lígia se antecipou e colocou uma mão na frente da mala estendida de Gabriel.
— Não precisa. Agradecemos a gentileza, mas podemos fazer isso.
Virgínia assentiu.
As outras empregadas — inclusive havia uma jovem na idade, mas estava vestida costumeiramente — ficaram paradas, esperando-os passar. Uma era negra, bonita, com a pele muito brilhante, com feições parecidas com o homem que acenara durante a chegada deles. Tinha cabelos negros e enrolados, grandes, que despontavam pelo aparato branco em sua cabeça. Tinha um corpo esbelto, com curvas sofisticadas e lascivas. A outra, no entanto, era mais velha, na casa dos quarenta, com rugas ornando-lhes os olhos injetados de cansaço e castanhos. Devia ter cabelos num tom castanho claro, mas era difícil de dizer com aquela coisa atrapalhando. A mais jovem, que estava reclusa, sem jeito, era muito parecida com a empregada bonita. O rosto entalhado em ocre tinha linhas dóceis e delicadas, assim como os cabelos cujos cachos eram pueris e volumosos, conferindo-lhe uma aparência deslumbrante. Eles estavam bem grandes, e Alice achava que ela teria de cortá-los em breve. A jovem estava metida em roupas simplórias, de aspecto barato e ordinário.
Enquanto andava, Alice procurava pelos seguranças. Deveria haver alguns deles por ali, como mencionado por Rodrigo antes de eles virem, mas ela ainda não avistara nenhum.
Eles adentraram o recinto e, lá, esperando solene estava Melissa, a única filha que ainda morava com o poderoso Afonso, dono de toda aquela fortuna e propriedade. Era uma mulher de aparência austera e inabalável, com ares sofisticados pelo rosto. Os olhos num tom azul-acinzentado eram brilhantes e impetuosos. Tinha um cabelo curto, somente uma incipiente de gramínea sobre o couro cabeludo. Vestia um vestido chique, com uma malha que, de longe, se percebia que era de qualidade. Se ela estivesse certa, Lígia já havia mencionado sobre ela, e Melissa seria uma responsável por organizar eventos e festas para pessoas ricas, sendo este seu ganha-pão. Rodrigo também havia falado que outro ponto forte da tia, além de ser inerentemente suntuosa, era que sabia atirar. Havia aprendido com o pai, sendo a única dentre os quatro filhos de Afonso. Parecia meio óbvio que Melissa fosse a filha preferido do patriarca.
Quando falou, sua voz soou como veludo.
— Gabriel, Lígia, Rodrigo, é bom revê-los. — Ela abraçou um a um com simpatia que denotava fingimento. — E quem é essa jovem linda?
Rodrigo segurou a mão da loira.
— É minha namorada, Alice.
Alice sorriu e abraçou-a.
— Prazer em conhecê-la.
— Igualmente — retribuiu Melissa. Ela se virou e apontou para três pessoas que vinham na direção deles. — A família da nossa irmã já chegou.
Devia ser, por eliminação, Valquíria, já que só eram quatro irmãos, sendo dois homens e duas mulheres. Era uma moça de aparência mais despojada que a irmã. Tinha um piercing no nariz, não muito usual para sua idade, e uma tatuagem de estrela no ombro e vários outros desenhos indecifráveis serpenteando pelo pescoço, braços e pernas. Seus cabelos compridos, meio ondulados, eram pintados de um branco fosco, chegando a um cinza lívido. Havia um jovem também, provavelmente um primo de Rodrigo. Tinha uma pele lustrosa, alva, e olhos claros, azuis, puxados da mãe. Os cabelos eram naturalmente espetados, com um corpo meio franzino se comparado ao de Rodrigo. Ele usava um short de tactel e uma camisa com alguns botões abertos. Por fim, o homem mais velho tinha uma barba bem feita e cabelos escuros, com um pequeno vão no início da cabeça, o princípio da calvície, mas muito escondido pelo penteado.
Depois de todos os cumprimentos agoldoados, Alice descobriu que a mulher era mesmo Valquíria, que seu marido era Robson, um personal trainer mineiro, e que seu filho era Otávio.
— Agora — disse Melissa, sentada num sofá acolchoado bege, a cor que estava mais presente ali, sendo seguida pelo amarelo áureo — só falta Agenor chegar para estarmos todos aqui.
A sala onde estavam era um recinto grande, com uma enorme televisão pregada à parede. Havia móveis em mogno e em mármore, além de objetos em pedras preciosas, uma ostentação que, sabia Alice, Lígia não iria gostar, ao se notar a quantidade de pessoas passando fome no mundo.
— E o papai — disse Gabriel —, cadê ele?
Melissa bufou.
— Sabe como ele é... Sempre temperamental e cheio de manias. Disse que queria esperar quando todos estiverem aqui para já vim cumprimentar tudo de uma vez. — Ela pareceu refletir, o cenho reticente. — Agora ele deve estar em seu quarto com a enfermeira que está cuidando dele.
Ao falar na enfermeira, Valquíria, insegura, verbalizou algumas palavras, segurando-as para que não caíssem com um baque muito alto.
— Ele está muito doente, não está?
Gabriel foi quem respondeu. Ele sopesou as palavras.
— É — concordou —, ele não tem muito tempo de vida.
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