Quem era ela?
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ali, sentada sob uma árvore, Daniela estava longe do mundo, mas o mundo não estava longe dela. Ela ainda ouvia os passarinhos brincando de voar e o vento a chacoalhar as folhas logo acima de sua cabeça castanha. As páginas do seu livro foram mudadas para um novo texto, uma nova cena estava prestes a acontecer, e as lagrimas já tomavam seu rosto.
Ele havia morrido, o pobre Liam, um jovem tão apaixonado havia dado a ultima coisa que lhe restava a sua amada Rosália. O amor, quando descrito, era tão lindo, único, apaixonante. A realidade parecia um oposto desagradável. Traição, ódio e morte. Por quê? O ser humano já não amava mais ao ponto desse sentimento apenas existir em livros?
"— Sempre me perguntei a mesma coisa. —". Daniela saltou com a presença da nova voz, deparando-se com uma garota de cabelos tão loiros que brilhavam como ouro ao serem iluminados pelo sol da tarde. A desconhecida estava sentada, e não a olhava, o céu azul parecia mais interessante. "— O amor existe fora dos livros? —". E com as sobrancelhas arqueadas, ela fitou a morena pela primeira vez.
Daniela pensava estar sozinha, mas outra amante de livros surgiu e a obrigou há pensar um pouco mais no que dizer. "— Não sei. Quer dizer, eu acho que não. Sim e não.—".
A loira riu, graciosa. "— Você está confusa. —".
"— Nunca vi um amor dá certo por aqui. Pessoas namoram por namorar, casam por dinheiro e terminam como se tudo aquilo fosse normal. —". Tentou se expressar com mais clareza. Era complicado se abrir com alguém que nunca havia visto antes.
A outra continuou com seus gentis olhos verdes fixados aos de Daniela. "— Qual sua meta de amor? —".
A questão lhe acertou como um soco, e sua barriga se contraiu como se estivesse sendo ferida. "— Alguém... Que me faça sonhar acordada. —". As palavras saíram baixa, voando junto ao vento e os cabelos de ambas que acompanhavam seu ritmo.
A garota branca como o algodão possuía uma aura diferente, angelical. Daniela normalmente ficaria com medo, no mundo como está hoje poderia ser alguém mal intencionado, só que essa sensação de perigo estava longe de seu corpo. Ela estava gostando de conversar com alguém que não a julgou nos primeiros segundos que trocaram palavras.
"— O amor também não é fácil nos livros. —". Admitiu a recém-chegada, parecendo tentar convencer a garota sonhadora.
Ela a ouvia paciente, no entanto, deixou o livro sobre as pernas cruzadas e apertou levemente sua saia preta. "— Só que parece tudo mais fácil. Ela o ama e ele a ama. No final ficam juntos ou então vivem por anos até um partir. —". Respirou o ar puro do lugar. "— Aqui não é assim. O garoto não vai te respeitar só porque você o escolheu e nem tudo vai parecer tão perfeito. —".
"— Certo. —". Responde-a, sutil. "— Pegue minha mão. —".
Os olhos castanhos da estudante observaram a cor de leite lhe estender uma das mãos. Ficou olhando-a por alguns segundos, a espera de uma risada. Era verdade, ela realmente estava pedindo aquilo. Pegou em sua mão sem esperar por nada, e aconteceu tudo.
Em um piscar de olhos elas estavam lá, no gramado verde e bem cuidado, sentadas em cadeiras de madeira branca com as mesmas roupas de antes. Haviam várias pessoas acomodadas também, mas todas de preto noite. O sol brilhava intensamente enfeitando o céu azulado em forte parceria com vento a balançar as rosas reais e artificiais do lugar. Ninguém ali parecia notar, estavam todos ocupados com os olhos sobre um caixão na frente de um padre.
"— O QUE... O que é isso? Como? Como? —". Entrou em estado de choque.
A garota ao lado não liberou frase alguma, apenas pediu silêncio com o dedo para depois apontar para frente. Daniela seguiu a direção e a viu. Rosália com seus longos cabelos e fofas sardas pelas bochechas, assim como o autor do livro a descrevia. Era uma oração dedicada a alguém, e ela já sabia quem morria naquele livro.
"— Eu o amei. Como nunca vou amar alguém. —". A ruiva estava desolada, sem nada. Daniela sentiu... Dó. "— No começo o achava um idiota. —". Todos riram, até a que antes apenas lia aquela cena, perguntando-se se ali ela podia ser vista ou ouvida. "— Depois tive certeza e, agora, sei. Ele é um idiota, o meu idiota. —". Respirou, limpando as lagrimas que teimavam a cair.
Vendo daquele ângulo Daniela não achou aquilo tão... Simples a aceitar.
"— Amar não é fácil, não é indolor, não é de um dia para o outro. É um longo processo, que às vezes é gasto com a pessoa errada até chegar a certa. —". Rosália aproximou-se do caixão, sorrindo como uma criança boba. "— Não encontramos um amor simplesmente. Pode demorar muito ou pouco. Só que a história é toda sua, e quando aquela pessoa chegar à sua vida e revirar sua cabeça você vai saber que para continuar é preciso lutar. —".
Muitos aplausos surgiram ali. Daniela sabia que agora Rosália deixaria aquele lugar para trás com todas suas dores. Ela leu isso.
"— Posso ser uma personagem Daniela, mas isso não torna essa dor fácil de carregar. —". Desabafou Rosália. A boca da leitora se abriu, espanto era tudo que sentiu quando todos os presente a olharam. "— Amor existe, seja aqui, lá fora. Ele existe, e sempre vai existir. As pessoas apenas confundem esse sentimento. Assim como Liam confundia até eu o encontrar. —". Ela continuou sua explicação, sorrindo fraco no final.
Daniela piscou uma, duas, três vezes e na quarta notou que estava debaixo da mesma árvore, sozinha e totalmente suada. Havia sido um estranho sonho que, no fundo, pareceu tão real que a fez permanecer com a sensação de que havia uma conexão entre ela e o outro mundo. É, amor não era simples em universo algum. Agora ela acreditava.
Procurou pela loira ao redor, a mesma dos seus pensamentos, a mesma que a levou para dentro do seu livro preferido.
Não a achou, ela havia partido e deixado para trás apenas uma dúvida. Quem era ela?
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