Quem ama trai ?

4 Linha de Laragada


I. O Crepúsculo da Imparcialidade

A manhã de sexta-feira na Avenida Rio Branco exigia o figurino impecável de Dante Sampaio. Vestindo um terno de linho cinza-claro perfeitamente entalhado, sapatos de camurça sem meia e abotoaduras discretas de ouro branco, Dante mantinha aquela postura elegante, fria e impecavelmente polida que era marca registrada dos Sampaio. Ele girava levemente em sua poltrona ergonômica, analisando o documento de revogação na tela do monitor com um sorriso cínico nos lábios.

— Pelo visto, o nosso querido magistrado decidiu fazer caridade jurídica de última hora — comentou Dante, a voz calma e cortante, sem carregar qualquer exagero teatral, enquanto passava os dedos longos pela lapela do paletó. — Revogar um bloqueio de doze milhões com essa velocidade não é apenas incompetência, Clara. É desespero puro. O homem assinou a própria sentença sem perceber.

Clara manteve o semblante gélido, cruzando os braços diante da mesa de vidro.

— Ele não agiu por brilho intelectual, Dante. Ele foi comprado ou acuado. E, conhecendo o histórico de decisões do Salgado, prefiro apostar na segunda hipótese. Homens vaidosos e corruptos como ele cometem erros estúpidos quando estão com a corda no pescoço.

Dante deu um sorrisinho irônico, ajeitando os punhos da camisa branca com movimentos precisos e calculados.

— Sem dúvida. A corrupção institucional tem sempre uma rachadura estrutural. E quer saber? Eu acho ótimo. Se o Heitor acha que encontrou um aliado na toga, vai descobrir muito em breve que comprou uma bomba-relógio. O Doutor Alberto tem mais esqueletos guardados no armário do que o próprio fórum.

Clara levantou-se, o olhar fixo na janela que dava para a agitação da Avenida Rio Branco.

— Exatamente por isso, Dante. Não quero apenas adivinhar. Quero provas. Quero que você use os seus contatos nos bastidores e descubra exatamente o que o Heitor usou para chantagear ou comprar o Salgado.

Dante levantou-se com a elegância natural de quem dominava qualquer ambiente corporativo ou social, ajeitando o paletó com sobriedade.

— Pode deixar comigo, Clara — disse ele, com um brilho frio e analítico nos olhos. — Vou revirar a vida desse juiz até encontrar o ponto exato onde a corrupção dele colide com a nossa estratégia. Se o Heitor quer brincar de jurisdição, nós vamos garantir que a queda deles seja irrevogável.

II.Sunset, Champagne e Especulação de Salão

A quilômetros de distância do cinza corporativo do Centro, a filial da Luxus Imóveis na Barra da Tijuca funcionava sob uma frequência mental completamente distinta, onde o PIB carioca encontrava o veneno de bastidores. O escritório era um verdadeiro templo do design contemporâneo: paredes de vidro inteligente que mudavam de opacidade com um toque, arranjos de orquídeas brancas importadas e o cheiro inconfundível de café espresso gourmet misturado com a essência de bambu da loja.

Em um lounge privativo com vista panorâmica para o canal da Joatinga, duas das corretoras estrelas da casa — Pamela e Ketelyn — revisavam o feed de uma cliente bilionária enquanto degustavam ostras frescas e taças de Veuve Clicquot geladíssimo, servidas por um estagiário que parecia ter saído de uma campanha de alta costura.

— Amiga, você viu a última fofoca do Centro? — disparou Pamela, ajeitando os óculos de sol Celine na cabeça e exibindo um anel de diamantes que brilhava mais do que a claridade do meio-dia. — O juiz lá deu uma canetada e derrubou a liminar dos Sampaio. O Heitor deve tá andando pelos corredores achando que é dono de Hollywood, e a Brenda... bem, a Brenda anda com aquela cara de quem engoliu um limão azedo, mas tenta disfarçar com botox preventivo.

Ketelyn soltou uma gargalhada cristalina, ajeitando o blazer de tweed rosa-choque e cruzando as pernas de maneira impecável.

— Ai, Pamela, por favor! Aquela garota apareceu na reunião de diretoria de ontem com um tailleur branco que grita "liquidação de shopping popular". Ela acha que porque assumiu a diretoria virou a dona do Leblon! Mas o que me deixa mais intrigada nessa história toda é o submundo dessa guerra fria entre o Heitor e a Clara, tá muito estranho, um dia o casamento perfeito, no outro, parecem dois estranhos que se odeiam, Ninguém entende o que realmente aconteceu nos bastidores para o juiz virar a mesa da noite para o dia.

— Exatamente! — concordou Pamela, dando uma garfada elegante em uma ostra. — É um verdadeiro mistério de novela das nove! De um lado, a dinastia Sampaio, que tem mais dinheiro que o Banco Central e uma elegância glacial. Do outro, o Heitor e a Brenda tentando segurar a coroa a todo custo. O que será que está rolando embaixo dos panos? Eu daria um ano das minhas comissões na Vieira Souto para ter uma microcâmera na mansão do Jardim Botânico e saber qual foi a cartada mágica que salvou a pele deles.

Nesse exato momento, as portas de vidro deslizantes se abriram. Doiss clientes em potencial — um casal de herdeiros do agronegócio com óculos escuros espelhados e roupas de linho branco — entraram acompanhadas por um corretor júnior que suava frio. Pamela e Ketelyn transformaram instantaneamente suas expressões de fofoca em sorrisos deslumbrantes e acolhedores, dignos de tapete vermelho.

— Meus amores, que prazer! Vieram ver a cobertura duplex de trinta milhões? — cantarolou Pamela, levantando-se com a graça de uma pantera de grife e estendendo a mão manicurada. — Deem uma olhada nessa vista. É o único lugar do Rio onde você pode comprar um imóvel de luxo e ainda tentar decifrar os mistérios da alta sociedade carioca.

Enquanto os clientes olhavam extasiados para a paisagem, Ketelyn aproximou-se discretamente de Pamela, sussurrando por trás da taça de champagne:

— Amiga,... Você acha que a Clara vai deixar isso barato? Eles podem até estar brindando hoje, mas eu sinto no meu cheiro de jasmim que essa trégua não vai durar até o final do mês.

— Com certeza — respondeu Pamela, ajeitando o colar de ouro. — Os Sampaio nunca perdem. Eles só dão um passo para trás para pegar impulso. Agora vem, vamos fechar essa venda antes que a briga deles vire manchete de jornal e assuste os investidores!


III. O Gabinete do Juiz: A Sombra da Toga

Enquanto isso, no décimo andar do Fórum, o Dr. Alberto Salgado limpava o suor frio da testa com um lenço de linho enquanto encarava o monitor do computador. O despacho que assinara pela manhã, blindando Heitor Mello e travando a investida dos Sampaio, parecia agora menos um ato de autoridade e mais uma âncora de chumbo amarrada ao seu próprio pescoço.

A porta de seu gabinete abriu-se sem aviso prévio. O assessor jurídico entrou esbaforido, segurando uma pasta preta.

— Doutor Alberto... O senhor precisa ver isso. A corregedoria acabou de solicitar o desarquivamento de três processos antigos de improbidade da 4ª Vara Cível... e os auditores independentes do conselho acionista pediram uma cópia autenticada do extrato de distribuição de custas da semana passada.

O juiz sentiu o estômago despencar. Ele abriu a gaveta da escrivaninha, onde repousava o bilhete com o número da conta offshore que Heitor utilizara para liquidar suas dívidas de jogo. O papel parecia queimar seus dedos.

— Eles não podem fazer isso... Eu sou a autoridade máxima desta comarca — balbuciou o magistrado, a voz perdendo toda a impostação solene.

— Doutor, não são corretores comuns — respondeu o assessor, com um tom de aviso fúnebre. — É a família Sampaio. E quando os Sampaio decidem que um juiz perdeu a validade, eles não mandam intimação. Eles mandam a fatura.

Salgado recostou-se na cadeira de couro, olhando para o teto do gabinete. Pela primeira vez desde que assinara o acordo com Heitor, ele percebeu a verdade esmagadora: o dinheiro que salvara seu nome nos cassinos da Zona Sul não havia sido um pagamento; havia sido o preço de sua própria execução.

IV. O Escritório de Heitor: A Ilusão do Triunfo

Enquanto os Sampaio traçavam o próximo passo no Jardim Botânico, a sala da diretoria executiva da Luxus Imóveis, na Barra da Tijuca, respirava uma atmosfera de triunfalismo embriagado. As cortinas automatizadas estavam abertas, permitindo que a luz dourada do fim de tarde banhasse o piso de mármore importado e a imensa mesa de jacarandá.

Heitor Mello servia duas taças de Dom Pérignon com a desenvoltura de quem acreditava ter vencido a guerra contra o sobrenome mais poderoso do Rio. Ele estendeu uma das taças para Brenda, que estava de pé junto à janela, com o olhar perdido na imensidão da Lagoa de Marapendi. O semblante dela, contudo, destoava completamente da festa particular do ex-marido.

— Brinde, Brenda! — exclamou Heitor, rindo com um tom de alívio misturado à soberba. — O juiz Salgado cumpriu o acordo à risca. Os auditores dos Sampaio estão de mãos atadas, o fluxo de caixa voltou a respirar e os investidores já estão esquecendo aquele circo que a Clara armou. Nós vencemos. O pior já passou.

Brenda virou-se lentamente, a taça de cristal intocada em sua mão. Seus dedos apertavam a haste com tanta força que os nós dos dedos pareciam brancos.

— Vencemos, Heitor? É isso que você acha? — a voz dela saiu baixa, cortante e carregada de uma pavor reprimido que fez o sorriso de Heitor congelar no rosto.

— Qual é o seu problema agora? — Heitor franziu o cenho, descruzando os braços com irritação. — O bloqueio caiu, o juiz garantiu a nossa retaguarda e a auditoria foi anulada. Você queria o quê? Um tapete vermelho com pétalas de rosa?

— Eu queria não estar sentindo o cheiro de armadilha a cada metro quadrado deste escritório — retrucou Brenda, dando dois passos firmes em direção a ele, os olhos faiscando de paranoia. — Você realmente acha que a Clara vai aceitar perder doze milhões de reais e ficar sentada tomando chá no Jardim Botânico? O juiz Salgado sumiu do mapa. Ele não atende minhas ligações, Heitor! Ele está acuado. E quando um homem como o Salgado entra em pânico, ele arrasta todo mundo para o fundo do poço com ele.

Heitor deu um suspiro impaciente, balançando a cabeça com desdém e dando um gole em sua taça.

— Você está vendo fantasmas onde só existe competência jurídica. O Salgado sabe que se abrir a boca sobre a nossa transação, ele perde a toga e vai direto para Bangu. Ele tem tanto interesse quanto nós em manter esse segredo enterrado sete palmos abaixo da terra. Agora, por favor, troque essa cara de enterro. Temos um jantar de gala com os maiores acionistas da construtora na semana que vem, e eu faço questão de que você esteja impecável ao meu lado, fingindo ser a rainha do baile.

Heitor deu as costas, ignorando o calafrio que percorreu a espinha de Brenda. Ela permaneceu imóvel, olhando para a porta fechada do escritório. O champanhe na taça de Heitor borbulhava, mas para Brenda, aquilo não passava do som de uma contagem regressiva.

V. As Raízes do Passado: A Promessa Sob a Névoa

O silêncio da noite na ala antiga da mansão do Jardim Botânico guardava segredos que nem as planilhas de auditoria mais complexas de Dante conseguiam decifrar. Afastada de sua mesa de trabalho e do escritório de frieza corporativa, Clara caminhava lentamente pelo corredor de piso de madeira rangente até parar diante de uma pequena escrivaninha de mogno. Ali, oculto entre livros de arquitetura clássica, repousava um porta-retratos de prata que ela raramente tinha coragem de encarar.

A fotografia não pertencia ao mundo dos negócios, dos jantares de gala ou das contas offshore. Era de dez anos atrás, em uma pequena pousada nas montanhas de Petrópolis, em uma noite em que a neblina densa de julho parecia isolar o planeta inteiro, deixando apenas os dois ali.

Naquela época, Heitor não usava ternos italianos sob medida para impressionar acionistas, e Clara não vestia a armadura de gelo que o império Sampaio exigia. Ele usava um suéter de lã grossa, com os cabelos despenteados pelo vento da serra, e ria de uma piada boba enquanto tentava acender uma lareira úmida.

A mente de Clara, com uma precisão dolorosa, viajou de volta para aquela exata noite. Ela lembrava-se do calor crepitante do fogo que finalmente pegou, projetando sombras douradas nas paredes de pedra do chalé, e do som constante da chuva batendo suavemente nas vidraças.

Sentados no tapete felpudo em frente à lareira, com uma taça de vinho barato dividida entre os dois, Heitor tinha a cabeça apoiada no colo de Clara, enquanto os dedos dela deslizavam distraidamente pelos fios castanhos do cabelo dele.

— Você tem algum medo, Clara? — Heitor perguntara de repente, a voz rouca e suave, quebrando o silêncio aconchegante da sala. Os olhos dele brilhavam com um reflexo âmbar enquanto fitavam o rosto dela.

Clara sorrira, parando o carinho por um instante para olhar nos olhos do homem que havia conquistado seu coração avesso a paixões. — Eu sempre tive medo de muita coisa, Heitor. De não ser boa o bastante para o peso do sobrenome da minha família, de construir uma vida inteira baseada em aparências, de amar alguém que só enxergue o cifrão atrás do meu nome. As pessoas como nós... nós nascemos em jaulas de ouro. A gente nunca sabe se quem está ao nosso lado ama a nossa essência ou o nosso CNPJ.

Heitor se endireitara rapidamente, segurando o rosto de Clara com as duas mãos, as palmas quentes contrastando com o frio da montanha. A intensidade no olhar dele era absoluta, desprovida de qualquer sombra de dúvida ou cálculo.

— Olha bem para mim, Clara. Esquece o cimento, esquece o aço, esquece o império dos Sampaio — dissera ele, com uma doçura magnética que fazia o peito de Clara disparar. — Se amanhã tudo desabar, se a gente perder cada centavo, se a empresa falir e nós tivermos que morar em um cubículo no Centro da cidade, comendo pão com manteiga na padaria da esquina... eu ainda vou acordar todas as manhãs olhando para o seu rosto e agradecendo aos céus por ter a mulher mais extraordinária do mundo ao meu lado. Eu amo você, Clara. Não o que é seu. É a sua risada quando você esquece a postura corporativa, é a sua inteligência que me desafia, é a forma como você faz meu coração inteiro bater em uníssono. Se eu pudesse escolher entre toda a fortuna do mundo e passar o resto dos meus dias envelhecendo ao seu lado em uma casinha simples na serra, eu escolheria você um milhão de vezes.

Clara sentira os olhos se encherem de lágrimas naquele momento, não de tristeza, mas de uma felicidade avassaladora e pura que ela jamais havia experimentado. Ela o puxara para um beijo longo, profundo, cheio de uma promessa que parecia eterna, onde cada segundo sussurrava que eles eram intocáveis diante do tempo.

De volta ao presente, Clara fechou os olhos na penumbra do corredor, sentindo uma única lágrima fria traçar o caminho por sua bochecha.

A dor não vinha da perda do dinheiro, dos doze milhões desviados ou da traição nos tribunais. A dor dilacerante era a constatação de que aquele homem — o rapaz que prometera amar a simplicidade de sua alma em um chalé na serra — havia morrido sufocado pela própria ganância, trocando a promessa eterna pelo brilho falso de uma vida de aparências na Barra da Tijuca.

Clara abriu os olhos, enxugando o rosto com um gesto seco e implacável. A mulher frágil que chorava lembrando de promessas antigas dissolveu-se ali mesmo. Ela virou o porta-retratos de bruços sobre a escrivaninha. O passado era um território de fantasmas. E os fantasmas, na guerra que ela estava travando, não mereciam piedade.

VI. A Calmaria Antes do Naufrágio

A noite de domingo cobriu o Rio de Janeiro com um manto de veludo escuro e pesado, refletindo as luzes da cidade na Baía de Guanabara como milhares de lâmpadas trêmulas. Na cobertura em Copacabana, o silêncio não tinha a serenidade de um lar; tinha a densidade sufocante de uma ante Sala de julgamento.

Heitor terminava de ajustar o colarinho da camisa em frente ao espelho do closet, ensaiando o sorriso vitorioso que ostentaria no dia seguinte. Na sala de estar, Brenda caminhava de um lado para o outro sobre o tapete persa, o som dos saltos agulha ecoando como passos de marcha militar. A sensação de pânico que a acompanhava desde sexta-feira havia se transformado em uma náusea constante.

Ela pegou o celular pela centésima vez na última hora. Discagem direta para o número pessoal do Juiz Alberto Salgado.

Chamando... chamando...

Nenhum tom de ocupado. Nenhuma resposta. Apenas a gravação fria da operadora informando que a caixa postal estava lotada. Brenda fechou os olhos, respirando fundo, sentindo o suor frio colar a seda de sua blusa às suas costas.

— Ele sumiu, Heitor — disse ela, aparecendo à porta do closet com a voz trêmula, incapaz de conter o medo por mais um segundo. — O juiz não atende, não responde às mensagens, sumiu da Terra. A casa caiu. Se a gente não sair do país até amanhã cedo, a Clara vai nos triturar vivos.

Heitor saiu do closet, ajeitando os punhos com uma irritação soberba estampada no rosto. Ele bufou, revirando os olhos como se conversasse com uma criança histérica.

— Pelo amor de Deus, Brenda, pare de histeria! O seu problema é que você vê conspiração em tudo. O juiz está de férias, o telefone dele deve ter quebrado, ou ele simplesmente quer paz no final de semana, o que é perfeitamente normal para alguém que acabou de nos dar a maior vitória judicial do ano — retrucou Heitor, cruzando os braços com firmeza. — A nossa festa de gala é amanhã à noite. Os maiores acionistas estarão lá. A Luxus está salva, nós estamos salvos, e os Sampaio já aceitaram a derrota. Agora, por favor, vá tomar um sedativo e ponha aquele vestido azul-cobalto. Eu faço questão de desfilar com você como a mulher que ajudou a salvar o meu império.

Heitor deu as costas e caminhou até a varanda, acendendo um charuto e olhando para o horizonte iluminado da Zona Sul, absolutamente convencido de que o mundo continuava girando exatamente do jeito que ele mandava.

VII. A Notícia que Encerra o Jogo

A manhã de segunda-feira despontou abafada, cobrindo o Rio de Janeiro com uma neblina espessa que parecia sufocar a Zona Sul. Na cobertura em Copacabana, a televisão da sala estava ligada em volume moderado, sintonizada em um canal de notícias matinal. Heitor terminava de abotoar o colete de seu terno de grife, sentindo-se revigorado pelo café forte, enquanto Brenda, pálida e com olheiras profundas, encarava o nada sentado no sofá de couro branco.

De repente, o tom da apresentadora do telejornal mudou, tornando-se grave e urgente. Imagens aéreas de um motel de altíssimo luxo na Barra da Tijuca invadiram a tela, cercado por viaturas da polícia e camburões da perícia técnica.

Atenção, plantão de última hora... — a voz da âncora ecoou pela sala, cortando o silêncio como vidro quebrado. — O Juiz Alberto Salgado, titular da 4ª Vara Cível, foi encontrado sem vida nas primeiras horas da manhã de hoje, em um quarto de um motel de luxo na Zona Oeste do Rio. Segundo as primeiras informações da Polícia Civil e do Instituto Médico Legal, a causa preliminar da morte foi uma overdose de substâncias entorpecentes associada a colapso cardíaco. A corregodoria do tribunal já foi acionada, pois o magistrado estava à frente de processos civis bilionários de grande repercussão econômica...

O controle remoto escorregou dos dedos de Brenda, despencando sobre o tapete com um baque abafado. Ela levou as mãos à boca, os olhos arregalados de puro pavor, o oxigênio parecendo sumir de seus pulmões.

— Não... Não pode ser... — balbuciou Brenda, a voz estrangulada pelo choque. — Ele estava acuado, Heitor! Ele ia falar! Ele ia...

Heitor não gritou. Ele não demonstrou o desespero que seria natural para alguém cuja defesa jurídica acabara de desmoronar na TV. Pelo contrário. Ele parou imóvel diante da televisão, com os punhos da camisa perfeitamente alinhados, enquanto as imagens do motel passavam na tela.

Brenda aproximou-se lentamente, observando o rosto do seu amante e o viu algo tenso no rosto de Heitor. Seus olhos escuros fixavam-se na tela, mas não havia surpresa neles — apenas uma frieza absoluta, implacável e calculista. Os cantos de sua boca se curvaram em um sorriso quase imperceptível, revelando, sem precisar de uma única palavra, que a morte conveniente do juiz não fora um acidente trágico, mas sim a eliminação cirúrgica da última ponta solta de seu império.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.