Quem Tem Medo do Bicho Papão?
1 Em Tratamento
Notas iniciais
Ainda sim, recomendo que leiam, pois é um otimo conto.
QUARTO DE RITA
Rita abriu os olhos ao ouvir o som do microondas apitando ao longe. A mulher se levantou, e calçou um par de chinelos. Ela foi até a janela, e a abriu, permitindo que a luz do sol entrasse em seu quarto. Rita Billings era uma mulher de vinte e seis anos. Tinha longos cabelos loiros, e olhos castanhos. Entretanto, mantinha uma expressão cansada no rosto.
COZINHA
Rita entra na cozinha. Sua irmã Eunice, cinco anos mais velha que Rita, esta servindo um sanduíche para sua filha mais nova, Angela, uma criança de seis anos de idade. A filha mais velha, Sarah, uma bela garota de quinze anos de idade, servia-se de leite. Todas se viraram para Rita quando ela entrou na cozinha.
EUNICE
- Dormiu bem, Rita?
RITA
- Que nem uma pedra. Bom dia, garotas.
SARAH
- Bom dia, Tia Rita.
ANGELA
- Bom dia, Tia.
A menininha se levanta da cadeira, e vai até a tia, lhe dando um abraço e um beijo, voltando em seguida para sua cadeira. Sarah bebe seu leite rapidamente, e corre para o banheiro para escovar os dentes. Eunice coloca um prato e uma xícara na frente de Rita para que a irmã possa se servir. Ouve-se uma buzina. Sarah sai correndo do banheiro, e pegando sua bolsa no sofá da sala, despede-se da família de longe.
SARAH
- Tchau mãe, tchau tia, até Angela.
EUNICE
- Essa garota não toma jeito. Todo dia é essa correria pra pegar a van.
RITA
- Você era igual na idade dela, Nice (diz com um sorriso).
ANGELA
- Sério mesmo, mãe?
EUNICE
- Claro que não, filha. Exagero da sua tia (Diz Eunice olhando a irmã com reprovação).
Rita já estava vivendo há dois meses com a irmã, que ela sempre admirou. Com dezesseis anos, Eunice engravidou de Sarah. O pai não quis assumir a criança, e fugiu para nunca mais aparecer. O pai a expulsou de casa, mesmo contra a vontade da mãe. Isso, entretanto não impediu que Eunice conseguisse criar Sarah sozinha, se matando de trabalhar para que nada faltasse a filha. Alguns anos depois, ela conheceu Harrison, um sujeito decente, com quem acabou se casando. Eunice e Harrison foram casados por cinco anos, e Angela foi fruto desse casamento. Infelizmente, três anos atrás, Harrison se envolveu em um acidente de carro, e acabou falecendo. Desde então, Eunice cria as duas filhas sozinhas.
Angela termina de tomar o seu café da manhã, e sobe para se arrumar para ir para o colégio, deixando Eunice e Rita sozinhas na cozinha. Rita puxa corta uma fatia de pão e puxa um pote de manteiga para preparar um sanduíche, quando a irmã se senta ao seu lado.
EUNICE
- Como se sente hoje, Rita?
RITA
- Bem Nice, obrigado por perguntar.
EUNICE
- Tomou seu remédio hoje?
Rita ergue a mão, mostrando um pequeno comprimido azul que tem entre os dedos. Ela o coloca na língua, e toma um gole de leite, engolindo o comprimido.
RITA
- Você me trata quase como se eu fosse uma de suas filhas (diz em tom descontraído).
EUNICE
- Só estou cuidando de você, irmãzinha. Você tem médico hoje, não?
RITA
- Hoje as 11h00min.
No andar de cima, Angela chama a mãe
ANGELA
- Mãe, vem me ajudar!
Rita e Eunice se olham, e sorriem.
EUNICE
- Já estou indo.
Eunice se levanta, e vai ajudar a filha.
CONSULTÓRIO DO DR. MITCHELL
Rita Billings esta sentada em uma poltrona diante de seu psiquiatra, que tambem esta sentado em uma poltrona. O Dr. Mitchell já tratava Rita há pouco mais de seis meses. Era um bom profissional, em quem Rita realmente confiava.
DR. MITCHELL
- E então Rita, como esta se sentindo hoje?
RITA
- Me sinto bem, eu acho.
DR. MITCHELL
- Por que acha?
RITA
- Foi só uma força de expressão. Quer dizer, às vezes eu me desanimo um pouco, mas já estou bem melhor. E antes que pergunte, sim, eu tenho tomado os antidepressivos.
DR. MITCHELL
- Como esta a convivência com a sua irmã?
RITA
- Ótima. Nice é maravilhosa comigo, e as garotas tambem.
DR. MITCHELL
- Mas sinto que algo a incomoda.
RITA
- Não. É que... Eu sinto que a minha irmã tem se preocupado demais comigo. Acho que estou dando trabalho demais.
DR. MITCHELL
- Você não me disse que a estava ajudando com as despesas? Afinal, você começou a trabalhar no mês passado.
RITA
- Voltei sim. Mas a questão não é financeira. Falo no sentido psicológico mesmo. Ela parece cuidar mais de mim do que da filha pequena.
DR. MITCHELL
- vamos por partes, Rita. Você passou três meses internada em uma clinica de repouso devido à depressão profunda. E não foi pra menos. Você passou por muita coisa junta. O divorcio, a morte da sua mãe, a morte de seu filho.
RITA
- Dos meus filhos, Dr. Mitchell.
DR. MITCHELL
- Tudo bem, dos seus filhos. Mas eu estava me referindo a fatos mais recentes. Passou por muita coisa, Rita. É natural que sua irmã se preocupe com você. Mas se esta achando essa preocupação excessiva, sugiro que converse com ela.
RITA
- Pode ser. Mas ainda sinto que a estou prejudicando. Andei considerando seriamente a hipótese de sair da casa dela.
DR. MITCHELL
- A decisão é sua, Rita. Mas acho que essa sensação que você tem faz parte do sentimento de culpa que você vem carregando. Eu mesmo recomendei, e continuo recomendando que você more com pessoas que sejam próximas e gostem de você. Garanto-lhe que faz bem. Essa sensação que você pode estar prejudicando a sua irmã esta na sua cabeça. Para eliminarmos esse sentimento de culpa temos que voltar atrás, Rita. A Morte dos seus filhos não foi culpa sua. Foram fatalidades.
RITA
- Não foi culpa minha? Que tipo de mãe perde três pequenos em sete anos? Nenhum dos coitadinhos passou dos três anos.
Os olhos de Rita ficam levemente marejados.
DR. MITCHELL
- Todas essas mortes foram acidentes, Rita. Li os arquivos, esqueceu? Seu primeiro filho, Danny, morreu asfixiado ao não conseguir se virar no berço. A “morte de berço” é mais comum do que se imagina em acidentes domésticos envolvendo crianças pequenas. Sua filha Shirley teve uma convulsão, é raro, mas pode acontecer. E seu filho mais novo, Andy, morto no ano passado, faleceu em outro acidente doméstico. Ele caiu do berço, é horrível, mas acontece. E pelo que eu saiba nesta ocasião, você nem estava em casa. Estava viajando cuidando de sua mãe acidentada.
RITA
- É verdade, não estava. Mas o senhor não sabe como é difícil esquecer essa dor. Ter perdido meus três filhos, meus três anjinhos, um por um, todos eles se foram.
Uma lagrima escorre, e Rita rapidamente a enxuga.
DR. MITCHELL
- Você não precisa carregar esse fardo sozinha, Rita. Por isso é importante se cercar de pessoas que gostem de você. Mas me diga uma coisa, como esta sua relação com seu ex marido?
RITA
- Lester? Não nos falamos desde que me mudei para casa de Eunice. Ele simplesmente me manda o dinheiro da pensão em dia, e era isso. Desde que Andy morreu, não tive grande dialogo com ele. Nos últimos meses, nossas conversas têm acontecido basicamente através de advogados.
DR. MITCHELL
- Acredito que seria saudável a senhora tentar manter uma relação saudável com seu ex marido, Rita. Afinal, Lester sofreu as mesmas coisas que você sofreu.
RITA
- Lester é uma pessoa muito difícil, Doutor. Eu amei aquele homem, amei mesmo. Mesmo ele sendo machista e autoritário, eu o amei muito. Mas quando Andy morreu, eu o culpei. E sabe o que ele me disse, Doutor? Que o Bicho Papão havia matado Andy.
DR. MITCHELL
- O bicho papão? (Diz com incredulidade mal contida)
RITA
- Exato. Dá pra acreditar? Disse que não conseguiu salvar Andy do Bicho Papão por que ficou com medo. E disse mais. Disse que o Bicho Papão tambem havia matado Danny e Shirley. Ou seja, ele não apenas delira com a morte de Andy, como reabriu uma ferida de dois anos. Têm idéia de como isso me doeu, Dr. Mitchell? Foi ai que decidi me separar.
DR. MITCHELL
- Inventar esta historia foi o jeito que Lester encontrou para lidar com o trauma, Rita. Criar uma ilusão paranóica em um arquétipo, como o Bicho Papão, é um sintoma muito conhecido diante de grandes traumas. Todos nós encontramos modos de lidar com nossos traumas, Rita. Esses meios nem sempre são saudáveis.
RITA
- Eu sei disso muito bem, não é? (Diz com amargura na voz).
DR. MITCHELL
- Se esta se referindo a sua tentativa de suicídio, Rita, foi um momento de fraqueza seu. Você superou isso, não superou?
RITA
- Sim, superei.
DR. MITCHELL
- Então, é disso que você tem que se lembrar. Alem é claro, que você sempre contara com o apoio daqueles que a amam, como sua irmã e suas sobrinhas. Acho que nosso horário acabou, Rita.
RITA
- Nossa, eu nem vi (diz se levantando e pegando a bolsa). Muito obrigado, Doutor. Até a próxima sessão.
CASA DE EUNICE
Rita esta na cozinha, assando um bolo, enquanto Sarah esta estudando na mesa da sala. Angela esta na casa de uma amiguinha. Rita vai até a sala.
RITA
- Como é que tá indo ai?
SARAH
- Bem. Eu gosto de biologia, sabe? Mas não consigo pegar tudo só nas aulas que nem eu faço com historia. Se eu não der uma estudada antes, eu me ferro.
RITA
- Sei como é. Mas você estudou a tarde inteira. Duvido que se ferre, como você mesma diz. Vai se sair bem. Daqui a pouco eu trago um lanche.
Nesse momento, alguém bate na porta.
RITA
- Deixe que eu abro.
Rita vai até a porta e a abre. Dois homens se encontram parados na soleira. Um deles é um homem negro e alto, usando cavanhaque. O outro é um homem mais baixo, e de olhos esbugalhados. O homem negro enfia a mão no bolso, e mostra um distintivo a Rita.
ALLEN
- Ola. Meu nome é Mackenzie Allen, sou oficial de policia. Estamos procurando Rita Billings.
RITA
- Sou eu mesma. Algum problema, Oficial?
ALLEN
- Sra. Billings, tem tido contato com seu marido?
RITA
- Ex marido. Os papéis ainda não saíram, mas já foram todos assinados. Mas respondendo a sua pergunta, não. Não falo com Lester há meses. Aconteceu alguma coisa?
ALLEN
- Seu ex marido esta desaparecido, Sra. Billings. Ele não é visto há três semanas.
Notas finais
Até!
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