Quem Tem Medo do Bicho Papão?
4 A Certeza No Luto
COZINHA
Eunice lava a louça, enquanto Rita guarda os pratos. As duas estão sozinhas na cozinha, mas estão em profundo silencio. A irmã mais velha quebra o silencio.
EUNICE
- Você quer café?
RITA
- Não, obrigado (Responde de forma distante).
Eunice larga o ultimo talher em cima da pia, e vira-se para a irmã.
EUNICE
- Me desculpe pelo que eu disse hoje de manhã.
RITA
- Mal lembro o que você disse, Nice. Tá tudo bem.
EUNICE
- Se tá tudo bem, por que esta assim.
RITA
- Nada, é bobagem.
EUNICE
- Mesmo assim pode me contar.
Rita baixa a cabeça e suspira, olhando em seguida para a irmã.
RITA
- Acho que me lembrei de uma coisa. Algo que Lester disse logo depois que Shirley morreu.
ALGUNS MINUTOS DEPOIS
Rita e Eunice estão sentadas a mesa, cada uma com uma xícara de café em mãos. Rita termina de contar a irmã a ânsia do ex marido em se mudar após a morte da filha, e o incomodo que ele demonstrou pelo excesso de armários que a residência tinha. Após ouvir atentamente, a irmã mais velha pergunta
EUNICE
- O que acha que isso quer dizer, Rita?
RITA
- Eu não sei. Eu posso ter imaginado tudo isso.
EUNICE
- Eu acho que não.
Rita parece surpresa com a afirmação.
RITA
- Sério?
EUNICE
- Pense bem. A paranóia do Lester pode ter começado ali, depois que a Shirley morreu. Então, quando Andy morreu, ele botou pra fora.
RITA
- Acho que é possível.
Eunice se levanta com a sua xícara, levando-a até a pia, começando a lavá-la.
EUNICE
- Você precisa parar de pensar no Lester, Rita. Não te faz bem. Por que a gente não troca de assunto?
RITA
- É, acho que tem razão (diz Rita bebendo o resto de café em sua caneca). Quando fui me deitar noite passada, reparei que tinha uma luz acessa no quarto da Angela. Ela tá tendo problemas pra dormir?
EUNICE
- Mais ou menos (Diz Eunice recolhendo a xícara da irmã). Viu um filme de terror com as amigas e ficou com medo de dormir no escuro.
Rita sorri.
RITA
- Podia ser pior. Lembra quando eu assisti “O Exorcista” na televisão?
EUNICE
- Lembro como se fosse hoje. Você correu pra cama da mamãe pra poder dormir com ela. O pai não queria deixar. Foi uma briga só.
RITA
- E você ficou com ciúmes, dizendo que se eu podia dormir na cama com eles, você tambem podia.
As duas irmãs sorriem pelo momento de nostalgia.
EUNICE
- Vou deixar ela dormir com a luz acessa mais esta noite, mas amanhã eu acabo com isso. Luz não tá barata.
RITA
- Você é quem sabe, Nice. (Diz levantando-se)
QUARTO DE MIKE
A mãe de Mike entra no quarto com uma pilha de roupa nos braços. O recinto esta bagunçado, mas não há sinal de seu dono.
MÃE DE MIKE
- Como sempre, ele não arrumou o quarto.
Ela larga a pilha de roupas na cama desarrumada, e pega uma caixa de sapato vazia que esta jogada no chão, a colocando acima do armário. A mãe de Mike abre a porta do armário, e vira-se para a pilha, pegando um casaco. Mas ao se virar para o armário, a mulher grita ensandecida, e recua para trás, caindo em cima da cama. Dentro do armário, o corpo de Mike esta pendurado por um cinto em uma das vigas. Sua língua esta estirada para fora, a ponta dos seus pés apenas roça o chão do armário.
MAIS TARDE: QUARTO DE RITA
Rita esta deitada em sua cama, olhando para o teto. Embora tenha prometido a irmã, não pensar mais no marido, ele simplesmente não saia de sua cabeça. E não era propriamente em Lester que ela pensava, e sim em Lester na época em que cada um de seus três filhos morreu.
Rita se lembra de uma briga que teve com o marido semanas antes de seu primogênito falecer. Ele reclamava de Rita ter ensinado uma palavra ao garoto. Mas ela não havia ensinado tal palavra, e tambem não se lembrava de ter ouvido Danny dizê-la, mas Lester insistia que Danny havia dito repetidas vezes, “Papão, Papão”.
Rita senta-se na cama, e leva as mãos ao rosto. Sente-se extremamente tensa. Ela não consegue entender por que esta se lembrando destas coisas. Lester podia ter ouvido errado, não podia? Ou o pequeno Danny podia ter tentado falar papai, e acabou falando papão.
RITA
- Preciso de um banho (diz ela para si mesma).
Ela se levanta, e vai até o armário. Quando segura a aba da porta de correr, se detêm por um instante. Pôde ouvir novamente a voz de Lester em sua cabeça, dizendo “Esse lugar tem armários demais”.
RITA
- Deixa de loucura, mulher.
Rita abre a porta, e vê apenas pequenas divisórias com roupas, toalhas, e seus pertences pessoais. Ela pega uma muda de roupa e uma toalha, e sai do quarto.
QUARTO DE ANGELA
Angela esta deitada na cama. A única luz acessa é a luz do abajur. Há quase duas horas a menina tenta dormir, sem obter sucesso. A filha mais nova de Eunice esta com as emoções divididas entre medo e vergonha. Já tentou desligar a luz para dormir, mas cada vez que o fez, pensou ter ouvido algo se arrastando no chão, ou visto um vulto se movendo no escuro. Então o medo a invadia, e ela tornava a acender o abajur.
Angela vira-se para a parede, em uma nova tentativa de pegar no sono. De repente, a luz do abajur começa a piscar. Angela vira-se de barriga pra cima, com os olhos arregalados. A luz do abajur continua a piscar, cada vez mais fraca. De baixo da cama, uma garra se arrasta para fora.
Ao ouvir o som da garra batendo no chão, a menina em cima da cama se cobre inteira com o lençol. A luz do abajur pisca uma ultima vez, e se apaga completamente. Ao perceber que a luz se apagou, Angela fecha os olhos. Uma grande massa escura se arrasta de debaixo da cama, se erguendo.
Angela repete mentalmente que os sons que esta ouvindo é só a sua imaginação. Ela não vê a alta figura encapuzada que se encontra de pé na frente de sua cama. A menina se lembra da prece que sua irmã ensinou. A mesma prece que seu pai havia ensinado a Sarah. Angela junta suas mãos em frente ao rosto, e começa sua prece.
ANGELA
- Pra dormir agora eu vou me deitar.
A figura encapuzada anda quase como se deslizasse até o lado da cama de Angela.
ANGELA
- Peço a deus pra minha alma guardar.
CORREDOR
Rita sai do banheiro secando os cabelos com a toalha. Ao passar em frente à porta de Angela, ela percebe que o quarto da menina está completamente escuro. Rita estranha, pois quando foi tomar banho, viu a luz do abajur por debaixo da porta. Rita então dá um sorriso.
RITA
- Menina corajosa.
Ela acha que Angela esta tentando superar seu medo, e por isso desligou o abajur. Rita anda até a porta do seu quarto, e põe a mão na maçaneta, mas não abre a porta. A tia de Angela fica parada, com uma expressão pensativa no rosto.
QUARTO DE ANGELA
A figura encapuzada continua ao lado da cama de Angela. O ser estica o braço lentamente, revelando garras enormes. De baixo do lençol, a menina continua a prece.
ANGELA
- Se eu morrer antes de acordar...
As garras da criatura estão quase tocando o lençol da menina.
ANGELA
- Peço a deus pra minha alma levar.
Angela aperta as pálpebras com mais força. As garras da criatura se fecham sob o lençol. Nesse momento, a porta do quarto de Angela se abre, e Rita entra no recinto. A tia de Angela tem a impressão de ver uma figura encapuzada ao lado da cama da sobrinha. A mão de Rita automaticamente procura o interruptor, e acende a luz. Rita esta pronta para correr em direção a sobrinha para afastá-la do intruso, mas quando a luz ilumina o quarto, não há nada nem ninguém postado do lado da cama. Angela sai debaixo do lençol, e olha para a tia com um misto de surpresa e alegria.
ANGELA
- Tia Rita! A prece da Sarah deu certo!
Rita corre até a cama, e se abaixa. Não há nada embaixo da cama. Rita se levanta, e abraça Angela com força.
RITA
- Você tá bem, querida? Tinha alguém aqui?
ANGELA
- Eu não sei, Tia Rita. Mas eu tava com muito medo. Meu abajur parou de funcionar. Mas então eu rezei e você apareceu. Acho que você é meu anjo da guarda.
Rita beija o rosto da sobrinha. Neste momento, Eunice entra no quarto.
EUNICE
- tudo bem? Por que estão acordadas?(diz cansada).
RITA
- Tá sim. Eu... Eu tive um pesadelo com a Angela, e vim ver se ela estava bem (diz com uma expressão nervosa no rosto)?
EUNICE
- Um pesadelo?
RITA
- Foi. Um pesadelo horrível.
ANGELA
- Mãe, eu quero dormir com a minha tia. Deixa?
EUNICE
- Dormir com ela pra que?
ANGELA
- Eu tô com medo. Tambem tive um pesadelo. Deixa mãe, por favor.
Eunice olha em duvida para filha e para a irmã.
RITA
- Por favor, Nice. Só hoje.
QUARTO DE RITA
Rita e Angela estão deitadas na cama de Rita. A sobrinha esta abraçada na tia. A luz do abajur esta acessa. Rita se lembra da sensação ruim que teve quando estava prestes a entrar em seu aposento. O quarto escuro de Angela a principio pareceu uma mostra de coragem da menina. Mas então Rita se lembrou de seus filhos, e de como todos eles morreram sozinhos em um quarto escuro. O medo a obrigou a conferir se Angela estava bem. Aquela figura encapuzada não saia de sua cabeça. Ela se pergunta se viu mesmo o que achou que viu, ou se tudo não passou de ilusão. Angela interrompe sua linha de raciocínio.
ANGELA
- Tia Angela, quando a luz do meu abajur estragou, eu acho que ouvi alguma coisa embaixo da cama.
Rita permanece em silencio.
- Será que era o bicho papão?
Rita tenta esconder a surpresa em ouvir aquele nome.
RITA
- Por que você tá dizendo isso, querida? (Diz com medo disfarçado na voz).
ANGELA
- Na escola me disseram uma vez que o Bicho Papão se esconde embaixo das camas e dentro dos armários. É verdade, Tia?
RITA
- Eu não sei, querida. Eu não sei.
QUARTO DE SARAH: MANHÃ
Sarah esta dormindo em sua cama. Em cima do criado mudo, o celular da garota começa a tocar. Ela vira para o outro lado, mas o aparelho não para de tocar. Vencida, a adolescente estica o braço, e pega o telefone.
SARAH
- Alo? (Ela ouve a voz de sua amiga Wendy)
WENDY
- Oi Sarah. Já tá acordada?
SARAH
- Tava acordando.
WENDY
- Sarah, eu... Eu tenho uma coisa pra te contar. Fiquei sabendo pela minha mãe agora há pouco. Você tem que ser forte.
Uma expressão de preocupação se forma no rosto da garota.
SARAH
- Fala logo, Wendy. O que aconteceu?
Por um breve instante, ninguém fala do outro lado da linha.
WENDY
- É o Mike, Sarah. Minha mãe foi no mercado e ficou sabendo que... Encontraram ele dentro do armário.
SARAH
- Como assim encontraram ele dentro do armário? (Pergunta a garota tensa).
WENDY
- Parece que... Que o Mike se enforcou dentro do armário. Eu sinto muito, amiga.
Sarah fica segurando o celular, paralisada, enquanto Wendy chama por ela no telefone. Uma lagrima escorre do rosto da garota.
COZINHA
Uma vez mais, as irmãs Rita e Eunice estão na cozinha preparando o café da manhã. Neste momento, Sarah entra na cozinha. Lagrimas escorrem pelo seu rosto.
EUNICE
- O que aconteceu, filha? (pergunta preocupada)
SARAH
- Algo que você queria (diz com raiva). Mike morreu! Esta feliz?! Você esta feliz agora?!
EUNICE
- Ele morreu? Sarah, eu...
SARAH
- Não diga que sente muito! Não minta pra mim! Ele se matou. Esta feliz agora que o filho do marginal se matou?!
Sarah sai intempestivamente da cozinha. Eunice olha para a irmã.
EUNICE
- Rita, eu não queria isso. Eu não aprovava o namoro, mas não desejava mal ao garoto.
RITA
- Eu sei, e ela tambem sabe. Ela só esta nervosa. Sarah gostava mesmo deste tal de Mike.
Eunice abaixa a cabeça.
- Acho que você devia falar com ela.
QUARTO DE SARAH
Sarah esta deitada em sua cama, chorando. Eunice entreabre a porta.
EUNICE
- Filha, posso entrar?
SARAH
- Eu não quero falar com você (Diz magoada).
Eunice entra e se aproxima da filha.
EUNICE
- Tudo bem, eu já saio. Mas quero que saiba que quando eu digo que sinto muito, não estou mentindo. E sinto ainda mais agora que vejo que você esta sofrendo. Eu sei que às vezes sou dura demais com você, mas por que eu te amo. Então Sarah, qualquer coisa que você precisar, conte comigo.
Eunice se vira, e começa a sair do quarto.
SARAH
- Mãe?
Eunice se vira para a filha.
- Obrigado, e me desculpe por dizer aquelas coisas. Mas eu preciso ficar um pouco sozinha agora.
EUNICE
- Tudo bem, filha (diz a mãe ao sair do quarto).
QUARTO DE ANGELA
Rita entra no quarto de Angela. No momento, a sobrinha esta assistindo televisão no andar de baixo. Rita vai até a cama da menina, e se abaixa, com o celular na mão. Com a luz do aparelho, ela ilumina o local. Aparentemente, não há nada ali alem de um chinelo abandonado. De repente, a luz do celular parece refletir em algo sob o piso.
Rita se levanta e afasta a cama. Ela percebe que há uma estranha gosma esbranquiçada no chão, lembrando catarro. Rita pega um dos lápis de cor da sobrinha, e usando o cabo, mexe na gosma. A substancia parece ter mesmo uma substancia pastosa. Ouvem-se passos atrás de Rita.
EUNICE
- O que esta fazendo?
RITA
- Eu... Tava dando uma ajeitada. Quando achei isso (ela aponta a gosma com o lápis)
EUNICE
- Nossa, que estranho!(diz com certo nojo). Parece um fungo ou coisa parecida, né? Como será que foi parar ai?
RITA
- Não faço a mínima idéia.
EUNICE
- Eu vou pegar um pano pra limpar isso.
Eunice sai do quarto, enquanto Rita encara a gosma, pensativa.
QUARTO DE SARAH (MAIS TARDE)
A jovem Sarah continua deitada em seu quarto. Ela já não chora mais, mas seu rosto esta bastante vermelho. Uma musica triste toca em seu celular. A porta de seu quarto se abre, e Rita entra carregando uma bandeja com um prato de comida.
RITA
- Você disse pra sua mãe que não queria descer pra almoçar. Então trouxe o almoço até você.
SARAH
- Eu tô sem fome, tia.
RITA
- Você precisa comer. Nem tomou café, que eu vi.
Conformada, Sarah ajeita-se na cama, e improvisa o travesseiro para receber a bandeja. A jovem começa a comer, sendo observada em silencio pela tia. De repente, a garota fala, com tristeza na voz
SARAH
- Eu não entendo.
RITA
- O que, querida?
SARAH
- Por que ele fez isso. Eu vi ele ontem. Mike não parecia alguém que queria se matar. Ele veio aqui tão feliz e...
RITA
- Espere (diz Rita surpresa) Ele esteve aqui ontem?
Sarah demora um pouco para responder, como se ponderasse se devia ou não contar.
SARAH
- Sim, Veio. Ele escalou a minha janela para conversar.
Rita pensa em censurar a sobrinha, mas percebe não ser o momento.
RITA
- Ele devia gostar muito de você.
SARAH
- Acho que sim (segurando novas lagrimas que tentam irromper). Como eu disse, não faz sentido. Ele queria conversar com a mamãe e tudo. Ele só não fez isso por que eu não deixei. Fiquei com medo. Ainda mais quando a mamãe quase nos pegou juntos aqui.
RITA
- Ela quase pegou vocês juntos?
SARAH
- Sim. Só não pegou por que eu escondi ele dentro do armário.
Ao ouvir isso, Rita tem a sensação de que jogaram gelo em seu peito.
RITA
- No armário?(diz com apreensão na voz, que não é percebida por Sarah). E depois?
SARAH
- Depois eu desci pra jantar. Mas quando eu voltei, ele não tava mais. Foi a ultima vez que eu vi ele, tia.
Sarah não agüenta, e volta a chorar. Rita abraça a sobrinha, mas é um ato instintivo. Sua cabeça realmente não esta pensando em consolar a sobrinha. Rita Billings tem certeza de uma coisa. Todas as coincidências que a atormentaram nos últimos dias apontam somente duas opções. Ou ela esta completamente louca, ou Lester estava certo. O Bicho Papão matou seus filhos, e agora esta atrás dela e da família de Eunice. Abraçada na sobrinha de luto, Rita rezou para estar louca.
Notas finais
Até o proximo!
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