Quem Sou?
6 Perseguido
Digamos também que a princípio, eu ter surtado uma vez não foi suficiente para que Rodrigo e nossos colegas achassem que as coisas tinham mudado, mas claro, eles ficaram mais prudentes um pouco, fazendo gracejos em público, pensando que assim nenhum de nós compraria encrenca.
Depois de ouvir a Mari resmungando, qualquer um de nós compraria encrenca, afinal, já fomos culpados por tantas que não fazia mais diferença. E possivelmente, se eles vissem que realmente nós não nos importávamos com essas ditas encrencas, se fosse pra fazer eles calarem a boca, talvez eles parassem mesmo. Afinal, isso só se estendeu por tanto tempo por um motivo. Éramos covardes. Ou pelo menos, pacifistas que achávamos que todo mundo seria assim se fossemos.
Só que, uma coisa é fato, nesse mundo, nem todas as pessoas sabem seguir o exemplo certo por bem, e tem algumas que independentemente disso, vão ser desse jeito, por mais que apanhem, isso eu quase estava concluindo. Mas depois de umas três oportunidades desagradáveis, incluindo uma em público, Rodrigo e seus amigos perceberam que não era saudável pros dentes ficar insultando as pessoas de graça.
Eu estava sozinho, voltando pra casa, e me perguntava, se realmente tudo que eu tinha feito até aquele momento estava certo. Digo, não o que eu estava fazendo agora, porque isso, parece que estava certo, de alguma forma, admitir que eu não sou inferior aos outros porque eles decidiram isso. Mas e antes... Desde que os meus problemas começaram eu fui um nada que se escondia atrás do caderno com medo que as pessoas me vissem, como se eu fosse um problema, quando na verdade, elas é que são um problema pra mim. Não que eu não goste delas, mas as situações desagradáveis que elas me fizeram passar e ainda fazem às vezes, isso é que é um problema, porque as pessoas são, inevitavelmente, ignorantes.
E provavelmente, eu sou um covarde. Porque se não fosse a Mari, ela e os outros, eu não teria feito nada.
Eu não via muitas pessoas no caminho da minha casa, poucos moravam pro mesmo lado que eu, então era bom simplesmente poder caminhar e escutar o barulho do pedregulho do chão, a brisa do dia, e a ideia maravilhosa de chegar em casa e ter o almoço me esperando, ah, a ideia de comida nesse momento me parecia o mais importante.
Só que se distrair com o estômago não é algo que alguém como eu possa fazer. Não quando tem uma pessoa seguindo o mesmo passo que você a uma distância segura a pelo menos cinco minutos seguidos. Num centro urbano isso poderia ser simplesmente confusão do meu estômago, em uma rua quase vazia, eu tinha certeza que não era minha imaginação. Só que ao apressar o passo eu escutei outros passos acelerando. E esses passos continuavam atrás de mim.
Mesmo que eu cogitasse chegar em casa logo, eu não chegaria lá em um tempo inferior a quinze minutos, nem mesmo correndo, se é que eu conseguiria correr tanto. Não é que eu esteja sendo covarde com um cara me seguindo, cara esse que eu sabia quem era porque eu já bati nele três vezes esse mês, o Rodrigo. Certo, eu até sou covarde, o que me deixa com uma coragem sobre-humana são meus amigos, mas considerando bem, um contra um é justo, só que era de se imaginar que ele não estaria exatamente sozinho, ele não é esse tipo humanitário de pessoa.
Bom, o que eu poderia dizer, simplesmente, as regras de fora da escola não são as mesmas de dentro da escola, então ele não se preocuparia em me danificar excessivamente, porque isso não aumentaria a sua punição com a diretora da escola, só aumentaria a sua diversão pessoal. Quando eu pensei que poderia virar outra rua para sair do seu caminho, eu vi outra pessoa naquela rua, e não era alguém que eu gostaria de ver. Tudo bem que o Luís derrubaria aquele cara sem dificuldade, mas eu não sou um touro como o meu amigo, então evidentemente que o Carlos era o amigo de Rodrigo que eu menos quereria ver nesse momento.
No pequeno momento que eu parei, eu percebi que eles corriam na minha direção, não deixariam que eu escapasse dessa vez. Afinal, lidar com um de cada vez parecia lógico pra eles, imagino que na lógica deles, como eles nos atormentaram por tanto tempo, não fazia sentido que agora nós reclamássemos respeito.
Eu escapei por pouco de um soco do Carlos, ainda bem, porque é por isso provavelmente que eu estou vivo pra contar a história.
- Ei, a bichinha está com medo de enfrentar a gente porque não está com seus amiguinhos... Falou Rodrigo sem nem se meter a princípio, assim como eu, ele parecia saber que se eu levasse um murro de Carlos eu simplesmente estaria nocauteado.
Eu não sei de onde ele saiu, eu realmente não sei, mas eu vi a sombra dos seus pés quando eu caí com o murro, eu me distraí. Só que quando eu me refiz disso, eu vi que Carlos estava desacordado, e Rodrigo, como previamente avisado da presença de Rick, estava tentando acertá-lo com uma faca. É, se eu não tivesse a sorte que tive, provavelmente eu morreria ou ficaria aleijado. Só que naquela hora eu precisava colocar o maxilar no lugar e me meter naquela encrenca.
Ossos doem, mas eu não posso deixar que um amigo meu leve uma facada que era pra ser em mim, por mais covarde que eu seja, pelo menos, eu tenho princípios, bom... Alguns.
No fim disso, eu só me arranhei com a faca dele porque eu fui imprudente, mas nada que alguns pontos na minha mão não resolvessem.
- Rick, porque tu tá aqui? Perguntei.
- Pra mim era absolutamente lógico que isso fosse acontecer, três dias depois da suspensão que eles levaram por nossa causa, tu irritou o Rodrigo demais dessa vez, e parece que pra ele o que tu pede como respeito, ele entende como chamado pra briga. É o raciocínio desses seres de intelecto inferior, não que eu esteja necessariamente te excluindo disso. Mas eu vi que eles estavam indo por um caminho diferente do habitual, e percebi o que pretendiam, então eu peguei um atalho e esperei a hora certa de fazer algo.
- Certo, certo... Disse eu tirando um lenço de papel da mochila, pensando em como ele poderia ter mais amigos se não fosse tão prolixo.
- Não faça isso! – ele me interrompeu antes de eu colocar o papel na minha mão que vertia sangue. – tu vai ficar com pedaços de papel grudados na sua mão pra sempre, use tecido.
- Eu não tenho lenços antiquados assim... Resmunguei.
- Por sorte, eu tenho. Fala ele estendendo um lenço de tecido, que logo ficou encharcado, mas pelo menos evitava que o sangue ficasse pingando.
- Tu sempre carrega isso?
- Não, foi só por precaução. Disse ele apressando-me para que eu fosse para casa.
E foi isso, eu tive que resumir isso pra minha mãe como sempre, em uma tentativa de assalto. Ela já estava acostumada a me ver quebrado, e essa era uma desculpa que ela ignorava simplesmente, porque eu já usei tantas vezes que ela meio que adivinhava que eu tinha problemas na escola. Mas eu não sou o tipo de pessoa que vai choramingar pra ela falar com a professora, a diretora, a coordenadora geral ou a psicóloga da escola. Isso é o tipo de coisas que não se deve fazer de cara quando se tem um problema.
Se eu não aprender a lidar com meus problemas, que tipo de pessoa eu vou ser? Se eu não aprender, eu terei que ser enterrado com a minha mãe, porque quando ela morrer, eu inevitavelmente não saberei viver sozinho.
- Então, graças ao Rick, não deu em nada, só uns pontinhos... Disse eu mostrando a mão com oito pontos quando estava contando para os outros sobre isso.
- Mas porque tu não registrou uma queixa na polícia? Perguntou o Luís.
- Não acho que isso vá ajudar em alguma coisa... O que a polícia quer com brigas de alunos do colegial? Eles têm coisas mais importantes pra fazer que ensinar crianças a se comportarem... Disse eu meio desapontado. Era verdade, ninguém poderia fazer nada.
Isso que aconteceu não era necessariamente um problema, pertencia ao passado, o problema era que aquele garoto iria se irritar mais ainda com essa ocorrência. E por algum motivo estranho, ele me detestava mais que aos outros, e francamente, não me interessavam os seus motivos, eu só queria um pouco de paz, e foi por isso que eu, e provavelmente por isso que os outros, concordaram com a Mari. Nós éramos resistentes e tínhamos um pouco de conhecimento que era pelo menos suficiente para salvar a nossa pele na escola. Nós, assim como todos, merecíamos ser tratados igualmente.
Só que, não tínhamos pensado que seria tão difícil fazer os outros entenderem isso. No fim, isso só era um ciclo interminável de briguinhas sem sentido, mas mesmo assim, era necessário por um motivo, ou talvez dois. O primeiro era o motivo mais sem sentido, e como diria o Rick, que não tem lógica, eu ignoro a lógica, eu só sei que é evidente que diante de uma provocação, o instinto básico do ser humano é se defender, não há nada de errado em defender seus princípios, sua dignidade ou, como recentemente, sua integridade física. O segundo é o motivo nobre, que provavelmente se perde no meio de tantas brigas inúteis, é esquecido, não parece fazer sentido, mas é o verdadeiro motivo, e esse é o de que essa, como qualquer luta na vida, é em busca de respeito.
Seja no meio intelectual, seja no meio das brigas escolares, nas ruas, em uma guerra, aparentemente as pessoas buscam somente ter o que elas acham justo respeitado. Independentemente de esse justo ser certo ou errado, parece justo, pelo menos na ótica daquela parte na luta. Então, eu não sei se estou certo ou errado, isso não existe. Provavelmente é um paradoxo. Para mim eu estou certo, na ótica dos outros, eu estou errado. É complicado.
Estávamos indo para o intervalo. Provavelmente, eu ainda não tinha me dado conta de algumas coisas, só que, tem coisas que nem sempre a gente quer perceber. O Rick parecia pensativo, e estranhamente, eu ouvi vezes demais aquele videogame com o barulhinho do game over, isso só acontece quando ele está preocupado, o que, segundo ele não tem lógica, e por isso mesmo, eu raramente vi acontecer.
Eu acho que entendo porque ele estava desse jeito. Digo, parando pra pensar, antes nós simplesmente mantínhamo-nos pacificamente, as provocações eram bem mais frequentes que agora, até porque agora, essas coisas geram atrito. Só que antes uma briga não era uma briga no sentido da palavra, porque nós nem mesmo nos defendíamos, simplesmente pensamos que isso não continuaria se eles cansassem disso. Só que agora, evidentemente, considerando que eles não cansaram, nós cansamos. Nós esperamos demais, agora, esperávamos que coma reação que provavelmente eles esperavam de nós todo esse tempo, isso tudo parasse, só que continuou.
O problema não seria ter que socar algumas pessoas eventualmente na escola, agora o problema era, o que aconteceria fora da escola. Era o que eu pensava, mas eu não sou o tipo de pessoa que pediria pra minha mãe andar de mãos dadas comigo na rua por causa de medo. Na verdade, eu acho que faria algum pedido estúpido assim se fosse pra proteger algum amigo meu, mas por mim mesmo, eu não estava ligando muito pra isso.
Essas coisas que me preocupavam, na expressão facial da Mari pareciam algo como “irrelevantes”, e pelo jeito do Luís elas poderiam ser “divertidas”, e nenhum desses pensamentos parecia me deixar prestar atenção na aula. E provavelmente o Rick diria que não tem lógica se preocupar com algo que não está de fato acontecendo em outro lugar que não na minha mente.
Estávamos finalmente saindo da aula, e tínhamos trabalhos pra fazer, isso seria chato. Discutíamos em votação para a casa de quem iriamos, porque aparentemente, todos nós queríamos esconder nossos dedicados pais dos amigos.
Eu conhecia o pai da Mari, fizemos um trabalho em dupla na sétima série, ele é um tanto estranho, mas nem se compara com a minha mãe. Fora que ele é vegetariano, eu diria que ele não parece incomodar muito... Já o Luís foi quem cedeu a garagem da casa no ano anterior pro trabalho da feira de ciências e mostra de talentos. Eu diria que de certa forma, foi perda de tempo nós termos feito um projeto megalomaníaco de seja lá o que for nuclear como o Rick fez, porque só ele sabia explicar aquele inferno de tubos...
Mas, o que foi mais interessante, excluindo a mãe do Luís tentando escolher nossas roupas ou querendo ficar amiga da Mari, que por pouco não agiria com a velha do Luís como age agora com a Júlia, bom, foi realmente incrível que nós tenhamos conseguido em uma semana naquela garagem ensaiar um repertório pro show de talentos, e que o pai do Luís, apesar da cara amarrada de militar, parecia estar querendo fazer mais bagunça que a gente.
Daquela vez, eu me lembro de que a coisa foi muito estranha. A Mari ficou com a bateria, o Jamal com a mixagem eletrônica, afinal ele gostava dessas coisas, então não tivemos problemas com regulagem de som ruim, como em todos os festivais da escola, o Rick tocava violoncelo, o que foi um problema, porque nós não sabíamos como regular o som daquilo de forma eletrônica direito... Francamente, eu pensei que eu era o mais antiquado ali, eu toco piano... Mas o violoncelo destrói... E o Luís é graças a deus uma pessoa normal que toca guitarra.
Bom, de razoavelmente normal ali, eu diria que a Mari, se ela fosse um menino, como baterista, o Jamal, que me surpreendeu, porque eu esperava algum instrumento musical moçambicano que eu nunca tivesse visto, e ele aparece com discos, aparelhos eletrônicos, e coisas que eu até conhecia de vista, e o Luís, realmente muito normal mesmo, guitarras... Depois disso, tinha eu com um piano, o que foi bem difícil de conciliar com o restante do pessoal, e ainda bem que eu não precisei levar o meu, porque o pai do luís tinha um pequeno piano de armário guardado, eu nem precisei afiná-lo, e ele doaria pra escola no mesmo dia do show de talentos.
E Rick que por algum motivo estranho tocava Violoncelo. Bom, ele disse que poderia adaptar isso para qualquer instrumento de cordas que lhes déssemos, porque a lógica era a mesma, mas eu ainda preferiria um trambolho daqueles, porque se não eu seria o único anormal antiquado ali.
Às vezes me pergunto o que deu na gente naquele ano pra fazer aquilo, porque geralmente nós fugíamos de aparições em público, mas, foi divertido, apesar dos erros, poder rir deles depois, e ver que muitas pessoas que não conheciam a gente gostaram, embora isso não tenha durado muito tempo depois dos cochichos... O Jamal fazia um segundo vocal que ficou bom, e a Mari, surpreendentemente, conseguia tocar bateria e cantar normalmente. Ainda bem que não pediram pra eu fazer nada do tipo, apesar de que nos ensaios eu não fui tão mal assim.
Essas eram boas memórias. Eu via isso enquanto chegávamos à garagem da casa do Luís, iriamos passar a tarde ali com os gráficos daquele trabalho. Não que devêssemos fazer isso juntos, mas não conseguiríamos nem entender a matéria sem o Rick por perto, então o arrastamos conosco.
Eu lembro que me senti muito feliz quando conheci a casa do Luís. Eu tinha chego atrasado da primeira vez que marcamos de ensaiar. O pai do Luís simplesmente disse que eu era um preguiçoso e que não deveria me atrasar mais, e me colocou imediatamente na frente do piano para afiná-lo e ver se não estava estragado. A mãe ele depois quando apareceu da oficina de tecidos com alguns lanchinhos pra nós, chegou perto de mim como que me observando, e perguntou bem na cara de todo mundo dirigindo-se pro Luís:
- Ei, filhinho, é esse aqui o estranho?
- Mãe! Ele reclamou, e eu fiquei curioso, nunca ninguém tinha sido tão direto quanto a mim.
- Que bobagem isso que cochicham nas reuniões da escola... Ele parece bem limpinho e educado. Fala ela sorrindo enormemente pra mim e depois disso ela parecia gostar muito de mim.
Depois disso o Luís explicou pra nós o que ela quis dizer com aquilo.
- A velha é meio que médium, apesar de ela ter essas esquisitices, se ela deu um sorriso daqueles é sinal que o Dullius não tem nenhum espírito ruim nele ou que dê azar pra ele.
- Ah, que droga... – eu disse e ele me olhou curioso – Então quer dizer que eu quebro coisas e tropeço porque sou um imbecil mesmo?
- Provavelmente... Comenta Rick.
- Porque ele foi idiota ao ponto de comentar a sua própria incapacidade... Resmunga Mari.
E depois disso, eventualmente tínhamos alguma reunião pra ensaios ali ou na casa da Mari. A casa do Jamal era impossível pra isso, mas pra trabalhos escolares já tínhamos ido lá. A casa do Rick era um mistério ainda, e a minha, bom, eu inventava desculpas, então já tinham cansado de sugerir esse tipo de coisa.
- Ei, Dullius, acorde! Eu vi estalar os dedos da Mari na minha cara, eu tinha me distraído com memórias quando deveríamos estar prestando atenção na explicação do Rick sobre a matéria.
Ele ainda tinha a mania de ajustar o agora imaginário óculos no rosto. As vezes me pergunto se tantas pessoas diferentes seriam amigas sem que houvesse o meu problema no meio de tudo isso. De certa forma, apesar de ser o menor de tosos os problemas, foi o fato de eu existir que reuniu essas pessoas, e foi o fato de todos termos de certa forma agravado nossos problemas com o fato de coexistirmos que fez com que melhorássemos. Nós decidimos ser fortes e não deixar que nos desrespeitassem, de muito tempo antes, nós decidimos que não seriamos sempre só um peso extra pro Rick, que nós deveríamos nos esforçar pra pelo menos ter notas razoáveis perto das dele, e nós conseguimos.
Não sei o que será de nós no futuro, mas agora eu sei de uma coisa...
Fale com o autor