Porque eu demorei tanto tempo para perceber que eu sou uma pessoa abençoada por ter amigos como esses? Esse pensamento demorou tanto para aparecer por quê? Estávamos há alguns meses já no ensino médio, logo o primeiro ano se partiria, e todos iriamos passar algum tempo separados. Embora dessa vez, não fôssemos passar tanto tempo assim longe, não ao ponto de não nos reconhecermos, porque tínhamos duas semanas de praia juntos depois do ano novo, na casa de praia dos pais do Jamal.

Bom, eu pelo menos me sinto feliz que lá podemos fazer quanto barulho quisermos tocando com a banda de garagem, e graças aos céus que a Mari sabe cozinhar, porque se dependêssemos da culinária suspeita da mãe do Jamal eu iria emagrecer um quilo por dia lá.

Não que eu não saiba cozinhar, mas eu tenho uma preguiça colossal pra fazer esse tipo de coisa. Muito embora, provavelmente é de se colocar em dúvida se eu e o Luis, ou se a Mari vencem um concurso de culinária entre nós. Rick é um inútil, que se bobear vai querer acreditar que a temperatura a chama no fogão tem que ser exatamente como a indicada no botão, ou, ele vai procurar nas tabelas de medidas padrão internacionais o que diabos é uma “pitada” de tempero, e tentar explicar pra ele que aquilo não é laboratório de química não adianta, e Jamal, bom, ele tem os mesmos costumes culinários estranhos da mãe dele.

Mesmo que sejamos tão estranhos, nós conseguimos uma coisa em comum, a necessidade de ficarmos juntos. E essa semana de férias que teríamos prometia ser divertida. Não tínhamos nenhum plano de briga por vir, então, poderíamos nos divertir e nos afogar o quanto quiséssemos.

Eu demorei um pouco pra entender porque diabos a Mari tinha trazido tantas melancias pra praia, mas segundo ela, que em uma das férias juntou a viagem da sua família com a do Jamal em uma viagem pro México, esse era um tipo de brincadeira festiva de lá adaptado à praia. Antes dos detalhes técnicos de Rick eu mudei de assunto. Com ou sem os óculos ele continuava sendo prolixo.

A Júlia veio com a gente esse ano, e me perguntei mentalmente que tipo de encrenca isso não daria no quarto delas... Já o Luís parecia estar pensando em outra coisa quando viu elas se encontrarem naquele momento fatídico.

- O que foi, Luís? Eu perguntei.

- Não, nada, mas eu pensei que poderíamos rir da Mari...

- Por quê?

- Porque é insano que da oitava série pro primeiro ano ela tenha ficado com os peitos tão grandes, eu imaginei se não eram enchimentos... A Júlia iria se deprimir e decidir se apaixonar pelo Jamal finalmente... Ele disse ainda olhando as duas brigando na beira da água e ao mesmo tempo rindo da situação ridícula.

- Bom, pelo menos nunca fale da teoria do enchimento pra ela, se pelo visto é mentira, porque a Mari iria realmente te matar... Disse o Rick sinalizando que nós estávamos falando muito alto.

Eu realmente ignorei que o Jamal estava do meu lado quase que literalmente babando pela Júlia de biquíni. Realmente, eu não pretendo ficar olhando pros focos de interesse dos meus amigos, e no caso da Mari, bom, estranhamente ela é quase um menino pra mim, não tem como achar que acontece alguma coisa, porque provavelmente eu levaria um soco só por pensar nisso, apesar de que ela era bonita, inegavelmente. Agora, me pergunto se algum dia ela iria dar uma chance pra algum de nós, ou se passaríamos a vida babando por ela e vendo-a ficar com outro. Ou, se é que na verdade ela não estava esperando que alguém criasse coragem de fazer alguma coisa, o que eu duvido que qualquer um de nós tenha sabendo como é a personalidade dela.

Por fim nós tínhamos churrasco, cervejas e diversão. Por algum motivo estranho os pais do Jamal simplesmente não ligavam pro quanto nós beberíamos, não sei se eles entendiam a parte de “cerveja tem álcool”, mas isso não era comigo. Claro que antes nossos pais se preocupavam, mas como diferente de outros grupos nós sempre nos limitamos a não exagerar, porque afinal, encrencas nós já tínhamos o suficiente, então simplesmente não havia nenhum marcador de controle sobre nós.

No terceiro dia de praia fomos ao centro da cidade. Eu realmente estava relutante em ir ao centro da cidade. Afinal era a mesma cidade das praias vizinhas, e em uma delas estava a minha querida mãe e seus apetrechos esquisitos em uma casa que parecia um cone. Eu até hoje me pergunto o que diabos aquela velha tem na cabeça.

O Rick parecia sempre estar se desfazendo de alguma garota, o Jamal ignorava tudo ao seu redor por causa da Júlia, a Júlia ignorava tudo ao seu redor por causa da Mari, e a Mari, depois de socar a Júlia, parecia um radar para pessoas esquisitas, nunca vi a quantidade de gente estranha que aquela menina conhecia, e também, pelo visto, recentemente a quantidade de caras que vinham conversar com ela. Então, de certa forma eu e o Luís éramos seguranças dela, porque no verão ela tinha o dever de parecer uma menina normal ao nosso lado, e nós todos iriamos comprar as brigas por ela.

De todos esses, eu diria que algumas garotas me olhavam, o que não era anormal, só que a parte de que sempre tinha algum afetado da cabeça me olhando como se eu fosse alguma coisa suspeita só porque eu sou um cara de cabelo comprido era irritante, e no caso do Luís, ele se daria bem com uma faixa bem mais ampla de garotas, ele era o maior do grupo, parecia ser mais velho que nós em alguns aspectos.

Eu percebi que tinha algo de estranho quando o Luís deixou a Mari e eu e os outros nem mesmo avisou, e sumiu. Era provavelmente alguma garota muito bonita, do jeito que ele era enjoado para escolher garotas, ela realmente tinha que ser muito bonita, então, eu simplesmente ignorei isso e continuei falando com a Mari, que ainda resmungava sobre nós cuidando dela.

- Então quando é que vocês vão entender que eu posso me defender sozinha?

- Mari, não é que nós não saibamos disso, eu tenho plena certeza disso – disse eu convicto lembrando quantas vezes ela já tinha me vencido em uma briga – mas é verão, tu é uma guria, e tem pelo menos três bons amigos pra darem uma de cavalheiros por ti... Disse eu olhando pro Jamal e excluindo-o do cálculo já que ele estava conversando com a Júlia.

- A Mari está entrando em algum tipo de complexo feminista nos últimos tempos... Provavelmente é aquela propaganda pseudopolítica deplorável do grêmio estudantil da escola... Fala Rick enquanto procurava pelas cerejas do sorvete em algum lugar no meio da meleca de sorvete.

- Eu já disse que eu não sou feminista, Rick!

- Então porque não deixa que nós, logicamente, decidamos as coisas, como sempre foi. Fala ele ainda distraído.

- E porque eu não tenho direito a opinião?

- Porque, logicamente, tu vai ser uma esposa mandona de algum de nós no futuro, assim como a mãe do Luís, então enquanto pudermos mandar em ti, nós faremos. Fala ele concluindo triunfalmente encontrando uma cereja no seu sorvete e erguendo-a em uma colher.

- Eu me pergunto quem teria coragem no nosso grupo de pedir pra casar com a Mari... Eu resmunguei sem perceber que meu pensamento saiu em voz alta, e levei um coice doloroso nas canelas debaixo da mesa.
Realmente, quem casaria com uma mulher assim? Por mais bonita que fosse, eu tinha minhas dúvidas...

- Decididamente eu não teria coragem. — Fala Rick. – Provavelmente para mim o mais adequado seja uma garota não muito independente, que obedeça ordens e não seja inteligente o suficiente para contestá-las.

- Resumindo, ele quer casar com uma loira... Fala Jamal rindo. Eu ri disso, afinal, era raro que Jamal fizesse piadas desse tipo, geralmente ele tinha embates cômicos com o Luís, mas agora ele não estava ali...

Eu olhei de novo para frente e vi-o falando com uma garota de cabelos pretos e longos, e por mais que eu quisesse ignorar isso, eu não poderia.

- O que foi, Dullius... Dullius, ei... A Mari estranhou a minha cara. E estranhou mais ainda que eu estivesse indo direto para onde estava o Luís e a garota.

Eu não precisei fazer nada, eu sabia que não aconteceria nenhum embate ou briga, só que infelizmente eu tinha sido descoberto do meu esconderijo na praia. Só que quando eu cheguei perto imediatamente eu não sabia mais o que estava me sufocando.

- Me... Lar... Ga! Mãe! Quantas vezes eu já disse que eu preciso de oxigênio pra sobreviver! Eu por um momento esqueci-me do Luís, porque eu sempre me irritava quando ela fazia isso comigo, eu não sei como explicar, mas eu não vou dizer pra minha mãe que ela tem peitos grandes demais...

Até porque, se eu disser algo assim, teria que elogiá-la, e isso não terminaria tão cedo.

Bom, essa era a minha mãe, pouca coisa mais alta que eu, de cabelos como os meus, só que mais compridos, de olhos azuis vibrante, com um corpo que deixou a Mari com inveja, e olhe que isso é difícil, e recentemente, sendo confundida com uma universitária que estava disponível para ser trovada pelo meu caro amigo Luís.

Ah, lembrando disso... Eu virei pro Luís finalmente lembrando o que eu ia dizer.

- Esqueci-me de dizer... – falei puxando um suspiro ainda sem conseguir respirar, e vendo a cara de besta que o Luís fez – Não é permitido trovar a minha mãe.

Depois disso eu acho que todo mundo ficou me olhando meio desconfiado, afinal, quem esperava que a minha mãe parecesse tão jovem...

Eu sempre a chamei de velha... Bom, fato é que ela me teve muito jovem, e aparentemente, ela demorava o dobro de uma pessoa normal pra envelhecer, eu não entendo, e nem vou ficar teorizando sobre isso. Então, de certa forma, parece a todos, que aquela pessoa, de cabelos longos e presos desajeitadamente com um palito, biquíni preto e bermuda jeans, numa sorveteria, sem nem mesmo estar vermelha do sol, mas como eu, estar branca, talvez pelo fato de que nós nos escondíamos do sol na mesma proporção, parece que somos no máximo irmãos...

- Então, pensou que poderia se esconder de mim este ano... Ela começou chegando para a nossa mesa com seu sorvete, ficando ao meu lado e deixando pouco espaço para que eu respirasse ou pudesse me mexer.

- Ei, estranha, quem é tu? Como sempre a Mari tinha que ser muito educada, eu pensava num suspiro.

- Ah, querida, você deve ser a Marianna, vi seu nome nos trabalhos da escola do meu bebê, eu sou a mãe do...

- Mãe! – eu interrompi, ela ignorava o fato que eu não gostava do meu nome – Tu tá se...

- Senhora Dullius, não sei se a senhora está informada das regras no nosso grupo, — começou Rick ignorando a cara de espanto dela quando foi chamada de “senhora” e concentrando-se em sua segunda taça de sorvete – mas aqui, ninguém fala o nome do seu filho, Senhora Dullius... Assim, evitamos que o Dullius tenha problemas em público por causa do seu gosto peculiar para nomes, Senhora Dullius.

Eu realmente pensei como sempre em “prolixo”, mas ele até que foi rápido, mas redundante e em uma explicação tão elaborada como essa, parece que a minha mãe entendeu pelo menos uma coisa, é chato ser chamado de algo que não se gosta, porque ela realmente não gostou de ser chamada repetidamente de “senhora”.

- Devo acrescentar que o meu nome não é “senhora” é Amy .

Depois disso, devo dizer, os meus dias em fuga da minha mãe terminaram. Não é que eu não goste dela, mas não é coisa mais divertida do mundo estar perto de alguém, estranho... Tá, eu sei que não deveria pensar assim, até porque eu também não tenho muita moral pra falar, mas...

Realmente, ver a minha mãe se tornando nossa amiga realmente parecia complicado. Agora só tem mais uma coisa que pode dar completamente errado na minha vida...

- Então, se gosta dessas coisas, porque nunca foi lá em casa? Aquele mal educado do meu filho nunca convidou vocês? Temos que fazer algo divertido quando estiverem na cidade novamente... Eu estou convidando... Amy dizia para Mari e para Júlia, e os outros acharam ótima a ideia.

Agora não faltava mais nada... Realmente, tanto tempo escondendo as esquisitices da minha mãe pra tudo ir por água abaixo agora... Realmente, agora eu poderia pensar que a minha vida deu completamente errado nessas férias.

Eu realmente entendo que as pessoas olhem e achem a minha mãe legal, mas é que ela é um pouco especial. Ela sempre sabe o que te dizer pra te agradar, por algum motivo que eu faço questão de não querer saber. E ver ela com as meninas na praia só parecia mais ainda que ela era só mais uma menina que fazia parte do nosso grupo. Uma um pouco diferente... Ela e seus longos cabelos pretos e lisos, como os meus, os olhos azuis, a tatuagem no rosto, que até hoje eu não sei o que significa, mas deve ser alguma coisa das esquisitices dela, assim como aquele triangulo estranho nas costas, enorme, o círculo mágico que ela me convenceu a deixar colocar no meu pescoço, e o dragão na parte interior da perna esquerda dela. Aquela era uma tatuagem que somente aparecia totalmente na praia. Não entendo porque ela tinha uma tatuagem “normal”, em comparação com as outras... Talvez ela não tenha sido maluca a vida inteira.

Uma coisa estranha, mas que sempre tive por costume, no que ainda bem que o Luís também tem, é de não tirar a camisa em público. No caso dele virou costume porque ele era o menino gordinho quando éramos crianças, no meu caso, eu tenho lá meus motivos, mas como ninguém nunca falou nada, nós mantemos esse costume. Não sei porque ele ainda continua sendo desse jeito, afinal, agora boa parte das meninas diria provavelmente que ele é uma boa visão, embora no meu caso, eu não tenha tanta certeza disso, eu não sou um monstro.

Eu estava no colchão inflável, na beira da água, tentando ficar longe dos respingos deles brincando. Depois teria aquela coisa da Mari e do Jamal com as melancias. Eu realmente não queria participar disso, mas era algo que aparentemente foi decidido e outorgado pela Mari sem consultar a gente antes sobre o ridículo da situação.

Eu dormi. Ou pelo menos eu acho que dormi, porque quando me dei por conta estava muito longe da costa, ou melhor, eu não sabia pra que lado era a costa, e estava praticamente noite. Isso é que dá não querer atacar melancias com tacos ridículos na praia com os amigos. Se o sol estava desaparecendo, então se passaram muitas horas. Se não tivessem notado a minha falta, não notariam mais. Agora, eu voltar sozinho seria impossível, eu poderia ficar a deriva por muito tempo, eu não sabia pra que lado ir. O farol que existia naquela região foi desativado no século XIX, sem chances de eu receber alguma informação de pra que lado eu tinha que ir.

E depois, se notaram que eu desapareci, e a guarda costeira estivesse me procurando, a essas horas já deveriam ter achado, durante a noite eles não iriam procurar, disso eu tinha quase certeza. Agora só tinha uma coisa a fazer, dormir o máximo que eu pudesse, pelo menos assim eu não sentiria sede ou fome, e duraria até talvez ter uma referência de ponto de terra, ou até a guarda costeira me achar, embora eu duvide que eles achem que é sério o pedido para resgatar alguém com o meu nome.

Tudo bem que isso pode parecer ridículo, porque não te resgatariam porque tu tem um nome feio? Certo, isso parece ridículo, mas existe um motivo pra que eu nunca chame a polícia ou peça ajuda. As pessoas não me levam a sério. Então será que levariam a sério uma maluca como a minha mãe pedindo para salvar o seu bebezinho que tem um nome “diferente”? Até mesmo médicos já se recusaram a me atender, dizendo que isso ia contra a ética ou coisa do tipo... Porque acham que a minha mãe não me colocou em uma escola melhor? Talvez porque as instituições mais rígidas e qualificadas não aceitem aberrações, independente de quanto você queira pagar.

Fechei os olhos tentando relaxar e não entrar em pânico. Afinal, eu não sabia se havia algum tipo de peixe gigante monstro carnívoro bem embaixo de mim, e não queria cair do meu único apoio.