Quem Nós Somos?

10 K - Essa viagem vai demorar muito?


Notas iniciais
Não reviseiii! Qualquer coisa, me avisem! Boa leitura, gostei de escrever esse cap.

"Você só me abraça quando eu durmo. Eu fui feito para caminhar sobre a água, mas agora eu fui fundo demais. Para cada pedaço meu que te quer, há um outro que não.

Porque você me dá algo que me faz sentir medo, isso poderia não ser nada, mas estou disposto a tentar. Por favor, me dê algum sinal pra que algum dia eu possa conhecer o meu coração."

Give me something — James Morrison

Por Kile Woodwork

Estávamos já há algum tempo ali, naquela sala para esperar o embarque do nosso vôo que atrasara — e muito. Volta em meia eu me percebia revirando os olhos ou bufando, meu mal humor de hoje apenas se acentuava. E o pior, uma criança vomitou no meio do chão branco, criando uma gosma nojenta que está, definitivamente, me dando nos nervos. Olhei para o meu relógio de pulso.

Aquilo está lá faz 28 minutos e até agora nada de alguém limpar. Olho de relance para Eadlyn, sentada ao meu lado do banco, e ela parecia não se importar com a demora, parecia até mais calma do que antes. Eu ia desviar os olhos no exato momento em que seu olhar azul pousou no meu rosto. Ela pisca umas duas vezes, e então ergue as duas sobrancelhas. Suspiro pesado, e finalmente volto a minha cabeça para a frente novamente, cruzando os braços e esticando bem as pernas diante do corpo.

— Algum problema? — Pergunta a Schreave. Olho para uma mulher de uns 30 anos que praticamente arrastava uma criança pequena pela a mão. Bem que poderia arrastá-la mais para cá, daí já aproveitava e limpava aquele vômito.

— Nada demais, mas aquilo — e aponto com o dedo polegar para a melecada que a criaturinha deixou no piso claro, — está me incomodando, de certa forma.

Me viro para o lado para fitá-la. Eadlyn aperta os lábios, parecia que queria reprimir um sorriso.

— Ué, vá lá e lambe, e então estará livre desta terrível tortura. — Ironiza ela, lançando-me uma piscadinha em seguida. Eu poderia muito bem retrucá-la, mas sua presença já me cansava o suficiente, então uma discussão seria desnecessária, visto que corria o risco de lhe esgoelar a qualquer momento. Me viro para trás, procurando alguém com um uniforme da equipe de limpeza, quando escuto a voz de Eadlyn mais uma vez, e me dou ao trabalho de olhá-la de solslaio: — Se está procurando por alguém que possoa limpar, está olhando para o lado errado, Woodwork. Tem um homem com um carrinho de limpeza a sua esquerda, praticamente no outro extremo do saguão. — Sigo o seu olhar, e então dou de cara com um homem que esfregava com bastante força algo baixo, acho que era um banco, eu não sei.

Pela a sua velocidade, acredito que demoraria umas 24 horas para chegar até onde eu queria. Coço a lateral do meu rosto, a barba fazendo um barulhinho já conhecido e, de certa forma, reconfortante, quando houve o atrito. Me levanto do banco, minhas costas doíam, meus músculos enrijecidos. Se este maldito vôo não tivesse atrasado, já estaríamos em Londres, quem sabe já estaríamos até mesmo na casa dos Schreave.

— Onde você vai? — Questiona Eadlyn, sua voz autoritária. Odiava quando ela usava esse tom com os outros, e odiava mil vezes mais quando era comigo. Ponho minhas mãos dentro do bolso dianteiro da minha calça jeans, e lhe lanço um olhar maroto. — Se você não me responder, vou fazer um barraco agora, e você vai se arrepender. — Me ameaçou enquanto estreita seus olhos e aponta sua unha de esmalte negro pra mim. Faço uma nota mental, percebendo que gosto de esmalte escuro nas mulheres. Olho para cima e fecho os olhos por uns três segundos, pedindo para Deus me dar paciência e essas coisas que evitam que você acabe fazendo alguma grande merda.

— Vou chamar o tio — respondo, entediado.

Eadlyn franze a testa.

— Que tio? — Ela morde o lábio inferior, e fita ao seu redor, parecendo confusa. — Tio Carter está aqui? — E então foca seus olhos nos meus mais uma vez. Na verdade, a garota me encara.

Abro um sorriso divertido, era um pouco engraçado vê-la perdida.

— O tio da limpeza — digo, ainda sorrindo. Observo enquanto a informação afundava em seu cérebro, e seu rosto assumia feições bem humoradas.

Ela solta uma risada rápida.

— Ele não virá limpar só porque você vai pedir. — Avisou, seu tom de voz um tanto prepotente. Dou de ombros, e então ela continua: — Você é beeeeeem estranho, mas até aí nenhuma novidade. — E aí, ela também dá de ombros.

Reviro meus olhos.

— Não que você mereça a minha educação, mas, com toda a licença, cherie. — Murmuro ao me inclinar para a frente, fingindo estar lhe dando uma reverência debochada. Eadlyn faz uma careta que, infelizmente e surpreendentemente, eu já conhecia muito bem. Viro de costas e caminho rapidamente pelo o amontoado de pessoas no aeroporto, meus olhos fixos no sujeito com uma vassoura na mão. Na verdade, não é vassoura... mas parece uma. Tipo, tem um tecido no lugar das cerdas de plástico...

Quando estou prestes a lhe abordar, abro um sorriso simpático, afinal, não queria que o homem pensasse que eu era neurótico ou algo do gênero. Porém, assim que me viu, sua expressão se fechou.

— Boa noite? — Chamo-o, ele para o que está fazendo (passando um pano no mesmo lugar há algum tempo, e que já está mais do que limpo) por alguns segundos, e então me ignora. Franzo o cenho. — Então, tem vômito no outro lado do saguão no chão...

— Estou ocupado. — Me corta com uma voz rouca e grave, quando ele se movimentou, pude sentir um cheiro forte de tabaco.

— ... compreendo, mas na verdade só gostaria que o senhor me emprestasse essa sua vassoura. — Eu digo. Finalmente ele para o que está fazendo, se inclinando para trás ao por suas mãos calejadas na cintura. Houve um estalo vindo de algum lugar de seu corpo.

— Você não quer que eu vá lá limpar? — Indaga, desconfiado.

Abro um pouco mais o meu sorriso.

— Não, posso fazer isso sozinho — afirmo.

Ele dá de ombros, e então mostra-me seus dentes bem alinhados, mas um tanto amarelados. Me entrega a vassoura, e diz:

— Vá logo, garoto, tenho muito serviço ainda. Estou lhe fazendo um favor ao emprestar o meu material de trabalho — e então assume uma expressão séria. Sorrio-lhe sem mostrar os dentes dessa vez.

— Muito obrigado, volto em breve.

Eu praticamente saí correndo, guiado pela a ânsia de finalmente me ver livre da porquisse do menininho, pequena criaturinha do mal, e de seus pais mais relaxados ainda, que não limparam o que o filho fez. Pouco tempo depois, avisto Eadlyn sentada com as pernas cruzadas, e foi aí que reparei realmente em como está a sua aparência hoje. Calça jeans, mesmo com o calor que está hoje e, de acordo com a internet, em Londres também está calor. Sua blusa é de gola redonda, escura, sem decote e com as mangas um pouco mais largas do que já estava acostumado a vê-la usando. Seu cabelo que, geralmente está solto, agora é preso, e, por um milagre, sua maquiagem é leve. Apesar de ficar claro que está bem rebocada.

Assim, meio que de longe, Eadlyn me fez lembrar minha antiga namorada, a Katherine. Mas não que eu morresse de atração pelo o estilo da minha ex (que na verdade nem tinha estilo, vestia-se quase sempre com camisa de banda ou qualquer outra coisa que visse pela a frente), mas mesmo as roupas sendo semelhantes, Eadlyn ainda conseguia dar a impressão de ter saído de um filme sobre rainhas e todo esse escambal. Quando me viu com a vassoura em mãos, ela começou a rir.

— Conseguiu um emprego a sua altura? — Questiona, um sorrisinho maléfico brincando nas extremidades de seus lábios.

— Considero um bom emprego, e muito digno. Mais digno do que ganhar mais do que um salário por mês pra não fazer nada, como é o seu caso. — Falo, incomodado em como ela tinha a mania de sempre tentar inferiorizar coisas ou pessoas, ou situações. Eadlyn fechou a cara.

— Você também não trabalha, ganha dinheiro dos seus tios — e revira os olhos.

— Não, muito pelo o contrário. Se você não sabe nada sobre mim, então não fale. Leve este conselho pro resto da sua vida, em boca fechada não entra mosca.

A partir daí, ficamos em silêncio até embarcarmos. Limpei o maldito vômito do chão, e entreguei a vassoura para o tio que descobri se chamar Charlie. Ele disse que gostou de mim e que sempre que eu quisesse aparecer para lhe dar uma forcinha, eu seria bem-vindo. Umas duas horas depois fizemos o chekin do nosso vôo, e quando finalmente (graças a Deus, Senhor Pai, muito obrigado) nos acomodamos em nossos respectivos acentos, comecei a sentir meus músculos tensos.

O avião acaba de decolar, e eu engulo em seco. Fecho os olhos e tento controlar a minha respiração que havia se acelerado de repente. Alguns vários minutos se passaram, e a agonia que rezei para passar logo, ainda parecia estar em seu ápice. Apenas saio do meu transe de nervosismo, quando sinto alguém cutucando o meu braço. Viro a cabeça em direção à Eadlyn, seu rosto está sério e entediado, então as palavras que ouviria a seguir meio que me pegaram de surpresa:

— Você está bem? — Me pergunta. Seus olhos me analisavam atentamente, parecia que não perdiam nada.

— Estou... um pouco nervoso. — Digo, sentindo um certo nó na garganta. Escoro a minha cabeça na almofada do banco e fecho os olhos. Sinto uma presença ao meu lado, e então Eadlyn diz:

— Poderia trazer um copo de água? — Ela pede, provavelmente para alguma das aeromoças.

— Somente isso? — Murmura uma vez desconhecida e simpática.

— Você quer açúcar na água, Woodwork? — A garota pergunta pra mim, e eu concordo com a cabeça. — Bem, coloque... algumas colheres de açúcar na água dele, por gentileza — sua voz conclui.

— E para a senhorita, gostaria de algo? — Questiona a areomoça, que tinha uma voz muito doce, muito bonita.

— Não.

— Então com licença, volto logo.

E não demorou muito, em seguida eu já me encontrava entornando a água de dentro do copo em poucos segundos. Entrego o copo novamente para a jovem de uns 29 anos, que no crachá dizia se chamar Marylin. Ela tem os olhos negros, magnéticos. Minha cor de olhos predileta, apesar que ultimamente tenho começado a ir com a cara das cores claras. Lhe agradeço, e Marylin sorri bonito para mim. Quando se afastou para atender outro passageiro, fora a vez de agradecer à Eadlyn.

— Valeu — falo, enquanto observo o seu rosto à meia luz. Sua pupila está tão dilatada por conta da pouca luminosidade, que parecia que seus olhos eram mais negros do que azuis. Ela abre um pequeno e rápido sorriso.

— Não foi nada, é que você parecia que estava morrendo, minha consciência implorou para eu fazer algo. — E aí Eadlyn dá de ombros, como se não fosse nada.

— Eu estava meio pálido? — Lhe pergunto depois de alguns segundos de silêncio.

— Estava esverdeado — sorriu, fazendo com que seus olhos já pesados de sono se fechassem um pouco. Acabo bocejando.

— Há anos que não pegava avião.

— Tem medo? — Indaga, seu rosto divertido.

— Não exatamente.

— O que é, então? Sério, não vou zoar você se disser que tem medo de voar. — Diz alegremente, e eu duvidei. Com certeza ela iria me zoar pelo o resto do contrato, seu rosto deixava claro, e o seu sorriso também.

— Não é nada — respondo.

— Medroso.

— Não é isso — digo novamente, começando a ficar irritado.

— O que é? — Pergunta-me de novo, os olhos agora estreitos.

— Talvez seja algum tipo de trauma... — suspiro ao passar as duas mãos pelos os meus cabelos desgrenhados.

A expressão de Eadlyn se suavizou um pouco.

— Você já pegou turbulência? — e então inclinou o seu rosto para o lado, enquanto seus olhos encaravam os meus. O que me incomodava, era meio invasivo.

— Não.

Ela continua me encarando, sinalizando que não desistiria facilmente. Reviro os olhos.

— Perdi meus pais em um acidente de avião — falo por fim, sentindo um certo vazio se apertar dentro do peito. Não dor, nem tristeza... apenas uma lacuna onde tinha algo importante, mas que fora retirado pelo o destino.

Eadlyn engole em seco, finalmente desviando o olhar para as suas mãos sobre o colo.

— Sinto muito — ela murmura, ainda sem me fitar. — Eu sou muito idiota, desculpa mesmo, Kile. Eu já tinha ouvido falar, deveria ter me dado conta antes.

Ponho minha mão sobre a dela, até que seu rosto volta-se para o meu. Imediatamente, coloco-a novamente onde estava, dentro do meu bolso.

— A culpa não é sua se você só presta atenção em si mesma — comento, ansioso por vê-la ficar zangada. Lidava melhor com pessoas irritadas, do que com gente triste, ou arrependida. Porém, ela não retrucou, apenas me olha constrangida. Bom, Eadlyn, então, tem um coraçãozinho lá dentro? Ótimo saber. — Ei, sério, Schreave, eu não me lembro deles muito bem, era muito pequeno. Digamos que considero Carter e Marlee como os meus tios e meus pais também — dou de ombros.

— Entendo, vocês parecem apegados — observa.

— Muito.

Há um momento de silêncio.

— Eu tenho medo de não ser importante o suficiente — solta de repente. Arqueio uma sobrancelha, mas não digo nada. — Não que isso interesse pra você, só estou me sentindo mal por ter tocado no assunto, então achei justo dizer algo sobre mim que seja real.

— Você já me disse algo ao seu respeito que não seja real? — Quero saber, agora curioso.

— Não força, não estou tão constrangida assim para te dar a honra de ter detalhes sobre mim — e revira os olhos. Abro um sorriso pequeno.

— Não que eu queira saber algo sobre você — retruco.

— Você não sabe o que está perdendo.

E eu não sabia mesmo, mas não que eu estivesse preocupado com isso. Já tenho muito trabalho pra lidar com a minha própria pessoa, para ter que lidar com os fantasmas alheios; mesmo quê, às vezes, eu sinta curiosidade em saber quem realmente é Eadlyn Schrave.

— Realmente — murmuro ao me reclinar no banco e fechar os olhos, estou cansado da vida, e dessa viagem que mal começara, fora o sono. Eram 00:00.

— Quando anos você tinha quando seus pais morreram? — Pergunta ela. Suspiro alto.

— Uns 4 anos talvez.

— Ah. Você não deve se lembrar muito deles — comenta, a voz sonolenta.

— Lembro deles cantando, e do dia que meu pai me deu uma guitarra de criança de aniversário. Eles tinham uma banda.

— Eram famosos?

— Não muito, mas a morte deles saiu nos jornais locais, e tem um ou outro vídeo deles na internet.

— Sinto muito — murmura novamente. — Não gosto de sentimentalismo, mas você quer um abraço? Por favor, diga que não. Não quero te abraçar de verdade, é só a culpa falando por mim.

— Cale a boca, Eadlyn, eu quero dormir. — Resmungo, mas tinha um sorriso no meu rosto.

— Seu ogro — balbuciou e, mesmo que eu estivesse com os olhos fechados, sabia que ela também sorria. — Me respeita que eu não sou tuas negas.

Graças a Deus. Eu ri um pouco.