Quem Nós Somos?

13 E - Um perdida?


Notas iniciais
Não revisei, mals qql erro :(

"O tempo da inocência terminou (...)

Feridas que eu abri, e que jamais fechou...

Vão tentar derrubar, que é pra me ver crescer

E às vezes me matar, que é pra eu renascer

Como uma supernova, que atravessa o ar

Eu sou a maré viva, se entrar, vai se afogar"

Fresno — Eu sou a maré viva

Por Eadlyn Schreave

O dia passou de forma monótona mas, em alguns momentos, me senti ansiosa demais. Meu avô, que desde que me entendo por gente dizia que eu levava jeito para política e que, como era a filha única de seu único filho, seria bom manter a linhagem pública da família, porque eu, supostamente, seria boa nisso... quando criança eu acreditei em suas palavras, saí correndo até o quarto de papai, gritando e sorrindo, só pra lhe dizer que quando crescesse iria ser como ele. Meu pai sorriu e me abraçou, disse que estava orgulhoso de mim e, desde então, me sinto obrigada a pelo o menos me formar no curso de Relações Internacionais, depois da formatura penso em alguma forma de me esquivar. Só não queria decepcioná-los, principalmente papai.

Kile pareceu relaxar conforme o tempo foi passando, volta e meia eu lhe fitava e ele, como se sentisse que eu o observava, me encarava com uma expressão vazia. Tentei me manter o mais quieta possível, não queria ter que inventar nenhuma desculpa, e nenhuma mentira de última hora. Não queria que desconfiassem de mim. Apesar que mamãe não parava de olhar de mim para Kile, o que acabou fazendo o meu coração acelerar um pouco mais dentro do peito. Para disfarçar, fiquei por um momento sentada no colo do Woodwork, que pareceu ter ficado meio tenso e, talvez, incomodado. Torci mentalmente para que ele tivesse recomposto as feições antes que alguém percebesse. Burrice não seria tolerada agora, ainda mais quando a minha cabeça estava em jogo.

Fui incapaz de não fazer um paralelo sobre a reação da minha família quando conheceram Eikko, e agora Kile. Com Kile tudo foi mais fácil, mas claro que o fato dele ter sido criado por Tio Carter e tia Marlee devia ter contato uns bons pontos ao seu favor, mas mesmo assim, ele soube se comportar. É discreto também, isso com certeza agradara meu pai e meu avô. Erik era galanteador, sabia agradar as pessoas, mas não conseguia manter o seu charme por muito tempo, logo começou com suas infantilidades, a tecer comentários sobre a Universidade e outras pessoas que, com toda a certeza do mundo, fez com que meus pais dessem alguns passos para atrás quanto ao seu caráter. Mal eles sabem que eu também não sou flor que se cheire e que já fiz muita coisa errada na Espanha, mas não me arrependo... não fora nada que me fizesse ser uma pessoa má, talvez apenas alguém venenosa, mas nada que prejudicasse os outros. Pelo menos eu acho que nunca prejudiquei ninguém, mas nunca se sabe.

Após o jantar, Kile eu subimos em silêncio para o quarto. Iriamos pegar o avião no primeiro horário da tarde, e logo teríamos um descanso — merecido — um do outro. Assim que passamos pela a porta, eu a tranquei, dei uma olhada geral no quarto para averiguar se alguém havia passado ali e o arrumado. Quando esbarrei com o Woodwork no corredor, estava indo pedir para Lucy ir, pessoalmente, ajeitar o quarto — eu sabia que Kile devia ter deixado resquícios do crime por ali, ou seja, deixou o sofá bagunçado e com os cobertores vísiveis — e que não comentasse nada para ninguém do que visse ali. Claro que ela deve ter pensado que teria algo terrível no quarto, tipo drogas, quem sabe várias camisinha usadas — eca. Gostava muito de Lucy, e minha mãe também, e sabia que era de confiança. A conhecia desde que nasci, afinal.

— Você querer ir tomar banho primeiro? — Kile pergunta ao retirar os óculos e guardá-los dentro de uma caixinha prata com todo o cuidado do mundo, como se fosse cristal.

Deslizo as duas mãos pelos os meus cabelos, desembaraçando os fios, pois não pretendia lavá-los hoje.

— Óbvio, o quarto é meu, então eu vou primeiro — eu disse, sorrindo um pouco. Kile me observa, meio entediado.

Cherie, está certa. Uma pessoa educada diria que as visitas tem prioridade, mas, como eu já devia ter percebido, você não é a criaturinha mais educada e respeitosa que eu conheço — murmura.

Abro um sorriso cheio de dentes para ele.

— Que bom que está ciente, irá nos poupar muitas frases desnecessárias nesses 6 meses de contrato.

— Isso se eu sobreviver ao seu lado durante tanto tempo e não acabar morrendo por infecção auditiva por escutar sua voz chata e seus comentários preconceituosos — retruca com a voz azeda.

— Você me faz parecer ruim — observo, surpreendentemente incomodada. Como ele ousa?

Kile dá de ombros.

— Nunca disse que você era ruim.

— Mas dá a entender.

— Você que deve se achar ruim, porque eu nunca falei isso.

— Não diretamente.

Ele revira os olhos.

— Se você não ir tomar banho agora, eu vou ir primeiro — avisa, ao dobrar seu pijama e uma calça e pendurá-las no ombro direito.

Eu bufo alto.

— Você está na minha casa, quem manda sou eu, Kile.

— Vou contar até 3 — e então ele sorriu, um cacho de seu cabelo caindo e tapando uma parte dos olhos. Seus dentes brilharam pra mim, brancos e bem alinhados. Faço cara de tédio, arqueio uma sobrancelha e cruzo os braços. Então, ele continuou, o sorriso abrindo-se ainda mais, que parecia querer se tranformar em uma risada. — Um, dois... — ele dá uma olhada por sobre o ombro para a porta do banheiro.

— Já está decidido, Woodwork, eu vou primeiro e deu, e se eu quiser demorar meia hora antes de entrar, você será obrigado a me esperar, além do mais, o...

— Três — diz, a voz confiante e meio risonha. Estreito os olhos, meu rosto tomando uma coloração avermelhada, indignada. O idiota não ia me desobeder, não é possível. Kile dá duas passas para trás, acenando com a mão para mim antes de me lançar uma piscadela e se virar. Fico paralisada por um segundo, enquanto minha raiva por ele ser tão petulante e não me obedecer fez meu sangue correr mais rápido, assim como as minhas pernas que, mal havia me dado conta, estavam partindo em retirada até a porta do banheiro, tentanto fazer com que eu chegasse antes do imbecil do Kile. Eu tive o fator surpresa ao meu favor, ele pareceu chocado quando me viu correndo e passando por ele.

Estou prestes a abrir a porta do banheiro e me trancar lá dentro, pra toma o banho mais demorado da minha vida inteira, quando sinto uma pressão no meu corpo, e logo após sinto algo sólido e liso atrás de mim. Nem tinha percebido, mas havia fechado os olhos quando fui interceptada no meio do caminho e, quando os abri, encontrei o rosto de Kile a centímetros do meu. Sua respiração estava levemente alterada, e ele pressionava os meus pulsos atrás das costas e prendeu uma das minhas pernas com a sua própria.

— O que você pensa que está fazendo, idiota? — Indago, tentando ignorar o calor que vinha da pele dele para a minha. Kile Woodwork ergue uma das extremidades de seus lábios, seus olhos me encarando fixamente. Tive que me controlar para não desviar o olhar, não queria que ele pensasse que eu estava constrangida, era só o que me faltava — apesar de eu estar, confesso... Deus que me perdoe, mas eu realmente estava, maldito!

— Você é louca, sabia? — Mumura, a voz estável e cheia de humor. Queria lhe mostrar o dedo do meio mas, como no momento eu não podia, me limitei a mostrar a língua, e foi aí que ele começou a rir. O corpo dele se balançou com a risada, fazendo com que eu tivesse ainda mais contato com o seu corpo do que antes.

— Vou ir tomar banho agora, me solta seu ogro dos infernos senão eu vou gritar — ameaço, mas minha voz saindo muito mais baixa e fraca do que eu queria.

Kile franze as sobrancelha, e depois suaviza o rosto, dá mais uma risadinha — que me fez querer morrer, mas sem antes esfregar a cara dele na brita cem vezes seguidas.

— Então grita — murmura, e então revira os olhos.

— Vou cuspir em você — digo, falando extremamente sério. Pra quem já cuspiu uma vez, cuspir duas não custa nadica de nada.

Kile estreita os olhos.

— Então vou ter que tapar a sua boca com alguma coisa — e aí ele finge ponderar um pouco, sua expressão séria.

Sinto meu corpo amolecer e tensionar várias vezes, respiro fundo. Estou zangada, mas ao mesmo tempo... aquilo era bom.

— Com o quê? — Pergunto, minha cara de poucos amigos, mas por dentro vacilei minimamente.

— Com o quê? — Repete ele, a voz soando muito divertida. Reviro os olhos.

— Saía, você está querendo se aproveitar do meu corpo.

— Eu?

— Óbvio, eu é que não sou.

Ele abre um sorrisinho maroto.

— Mas não sou eu que estou arrepiado — retruca. Arregalo os olhos e abro a boca para dizer algo, mas eu estou com muita vergonha agora. — Vou te dar uma colher de chá, vou ir tomar banho agora, e você vai ficar quietinha aí, entendeu?

— Você não manda em mim, nem hoje e nem nunca, nem nos seus maiores sonhos.

— Você não está nem nos meus menores sonhos, quem dirá nos maiores — retruca.

— Melhor pra você, menos uma decepção amorosa pra sua vida patética.

Ele passa a segurar os meus pulsos com uma mão só, e deixa o seu dedo indicador entre os meus lábios.

— Xiu... quietinha, quietinha... — murmura, como se tivesse falando com um cachorrinho. Aquilo fez eu me corroer por dentro, tudo, TUDO o que eu queria agora era dar socos naquela cara de panaca dele. Estou prestes a cuspir nele, quando o Woodwork faz um movimento rápido e preciso, abrindo a porta do banheiro e entrando em um piscar de olhos. Lá dentro, posso escutar a sua risada alta e extremamente humorada.

Dou um chute na porta com o tênis que ainda usava, sem me importar com a dorzinha que senti.

— Eu te odeio, seu animal! — Falo, me controlando para não gritar, mesmo que eu quisesse muito berrar agora, neste exato minutinho.

Fiquei de cara fechada sentada no sofá, os braços apertados contra o peito, e quando Kile saiu do banheiro com sua calça de moletom, os cabelos molhados penteados para trás e, não sei qual a necessidade, sem camisa. Passei por ele bufando, mal olhei pra sua cara, e lhe dei um esbarrão que com certeza me machucou mais do que a ele, mas foda-se. Tomei banho lentamente, e fiz uma maquiagem leve antes de dormir. Segundo o rótulo, ela era hidratante e não prejudicava se dormisse com ela. Também, pelo o preço, devia até promover um peeling durante o sono. Quando finalmente saí do banheiro, não me dei ao trabalho de olhar em direção ao sofá. Tirei o meu roupão, jogando-o no cabideiro e me deitei na cama após apagar a luz do quarto e acender a do abajur. Respiro fundo, ainda estava muito irritada, quem ele pensa que é, sério?? Quem? Bufo embaixo das cobertas.

Mais ou menos uns 30 minutos depois, escuto a voz de Kile:

— Eadlyn?

Finjo que estou dormindo, mas ele me chama de novo, e então decido responder.

— Que que é, infeliz?

— Me desculpe, não devia ter te segurado daquela forma.

— Tá.

— Sério... mesmo sabendo que você gostou, me desculpa mesmo — fala, o sorriso era explícito.

— Eu odiei.

Ele riu.

— De qualquer forma, fui muito impulsivo, mas você me pegou de surpresa.

— Foda-se.

Kile suspirou. Há mais alguns minutos de silêncio.

— Por quê você não cursa Moda? Já te falei que seus desenhos são muito bons.

— Estou cursando Relações Internacionais agora.

— Você gosta?

— Acho que sim.

— Acha?

Agora fora a minha vez de suspirar.

— É... talvez eu não goste tanto, mas é preciso.

— Por quê? — Ele quer saber. Abro os olhos para fitá-lo. Seus braços estavam dobrados abaixo da nuca, enquanto ele fitava o teto.

— Porque sim — me limito a dizer.

— Sei.

— E você gosta de... qual o seu curso mesmo?

— Arquitetura. E sim, eu gosto.

— Que bom pra você — falo, ao fechar os olhos novamente.

— Espero que você se encontre um dia, Eadlyn — diz com a voz séria.

— Quem disse que estou perdida?

— Não sou cego.

Me encolho embaixo dos cobertores, afundando ainda mais o rosto no travesseiro.

— Mas está errado.

— Tudo bem, então — diz de forma tranquila.

— Kile?

— Sim?

— Boa noite — falo, minha voz abafada pelo o travesseiro.

— Boa noite, pentelha.

Duas horas depois, quando finalmente consegui controlar a respiração e os meus pensamentos, peguei num sono sem sonhos.

Estávamos eu, meu pai e mamãe, além de Kile e Lucy na sala principal. Mamãe me abraçara forte, e disse para eu não demorar tanto tempo para vistá-los e, quando fomos pegar algum lanche para ir comendo no caminho até o areoporto, ela disse para eu cuidar bem de Kile, que ele era uma boa pessoa. Concordei com ela, a fingi um sorriso. Papai também me abraçou forte, e deu um soquinho no ombro de Kile, que ajeitou os óculos no rosto em seguida. Ele sorriu para meu pai, um sorriso que parecia verdadeiro.

— Se comportem, crianças — meu pai fala, meio sério, meio divertido. Reviro os olhos.

— Tá, pai, pode deixar.

Durante a viagem de carro com Eduardo até o aeroporto, Kile e eu nos mantívemos quietos, estávamos os dois cansados demais para discutir, ou debater. Nosso sono estava completamente desregulado, e tudo o que queríamos até então, eu acho, era uma folguinha um do outro.

Notas finais
Pessoal que comentava e parou, cadê vcs? :V