Quem Nós Somos?
2 K - O jogo virou, não é mesmo?
"Entre razões e emoções, a saída é a fazer valer a pena. Se não agora, depois... não importa, por você posso esperar."
Nx Zero — Rezões e emoções
Por Kile Woodwork
Eu ouvi o som do despertador. Ouvi as duas vezes em que ele tocou a música do AC/DC, mas eu ignorei, e pretendia deixar para me sentir culpado depois, quando toda a sonolência tivesse se disspado do meu cérebro por completo e eu finalmente pudesse ouvir a voz da razão. Cara, cabular aula uma vez na vida não matava ninguém, certo?
Errado. Erradissímo. Projeto de Arquitetura 8 não é fácil, e se eu não quisesse reprovar nesta disciplina teria que me levantar agora, em 1, 2... 2,5...
Ok, vou me levantar agora. Com um suspiro, me espreguiço o máximo possível, aproveitando para alongar meus músculos enrijecidos. Já no banheiro, tomo um banho rápido o suficiente para me fazer acordar de vez e escovo os meus dentes. Me visto com minha camisa xadrez de sempre e calças jeans folgadas, e antes de sair do quarto da Universidade, pego minha mochila pesada de tantos livros e meus óculos de cima da cômoda. Enquanto caminho pelo o apinhado de jovens que, assim como eu também estavam atrasados para o primeiro horário, me desligo completamente do que acontecia ao meu redor, tinha que focar na disciplina de hoje.
Porém, mal eu tinha dado poucos passos em direção ao final do longo e cansativo corredor, sinto um baque forte em meu ombro, fazendo com que eu cambaleasse para o lado e quase tropeçasse nos meus próprios pés. Ainda um pouco desnorteado pelo o acontecido, ajeito meus óculos no rosto de forma adequada e percebo exatamente o que havia me acertado, e uma onda de raiva se apoderou de mim. Trinco a mandíbula.
— Oh, Woodwork, não tinha te visto, cara! Foi mal! — Murmura Erik, e assim que escuto a sua voz me sinto enjoado. Céus, quando este inferno iria acabar?
Solto um suspiro áspero. Sua namorada está com ele, e a garota me olha como se eu não fosse muita coisa, mas já a vi lançando esse olhar para mais da metade do campus. O casal perfeito, não tinha mais o que dizer.
— Claro que não viu. — Respondo com um sorriso duro. Ajeito mais uma vez a mochila sobre o ombro e giro nos calcanhares para me afastar de ambos, mas sou impedido pelo o braço típico de um brutamontes de Erik, que me abraça como se fossêmos amigos, coisa que não teria condições de acontecer nesta vida, e nem nas próximas 100.
— Ei, Kile, é sério. — Retruca, seus dentes reluzindo para mim. Estreito os olhos, não digo nada. No fundo eu torcia que ele viesse para cima, daí eu poderia apanhar bastante, mas com certeza ele também saíria machucado. Não gosto de brigas, não gosto de nenhum tipo de violência, prefiro usar a minha cabeça para resolver meus problemas, mas Erik estava começando a me deixar sem opções. Como permaneci de boca fechada, ele me apertou mais contra si de um jeito brusco. — O gato comeu a sua língua? — Provocou, seus olhos brilhando, se divertindo.
— Deixe o garoto em paz, amor, temos coisas mais interessantes para fazer. — Diz a Eadlyn, olhando para mim de cima e logo em seguida puxando seu namorado pela a camisa de forma provocante. Erik hesitou por um segundo, mas logo me deixou de lado, saindo sem dizer mais nenhuma palavra, como se aquilo nem tivesse acabado de acontecer. Fico parado, observando as costas de ambos se afastarem de mim, enquanto que a raiva me corría por dentro. Eu não sei por quanto tempo iria suportar as suas provocações, já fazia anos que o cara pegou no meu pé, e eu nem sei o porquê. Sinto uma presença se aproximando de mim por trás, e me viro para ver quem é.
Era Marcus, um espanhol típico, com a pele morena e cabelos ondulados e escuros que caíam até a altura das orelhas. Marcus também está encarando as costas do casal/celebridade/popular do campus.
— Pensei que o Erik iria te espremer até seu cérebro sair para fora. — Comentou casualmente, como se não fosse nada demais. Dou de ombros e me concentro novamente em seguir rumo a minha primeira aula do dia. Marcus, que é meu colega de quarto, me acompanha em silêncio por apenas 10 segundos. O que é quase um recorde de silêncio vindo dele. — Por que ele te odeia?
Reviro os olhos. Saímos do prédio do dormitório masculino, e dobramos a primeira esquina do campus.
— O cara é louco. Me persegue desde o último ano do colégio.
— Quer saber o que eu acho?
— Não. — Respondi com um suspiro.
— Eu acho que você precisa confrontar o Erik, bater de frente e essas coisas. Sei que você vai sair machucado, quase sangrando...
— Nossa, o seu apoio moral me deixa super entusiasmado para o colocar o plano em prática. — Cortei-o, minha voz soando azeda.
Agora foi a vez de Marcus revirar seus enormes olhos de bolitas cor de avelã.
— Calma, meu! Você nem me deixou terminar de molhar o bico!
Deslizo uma de minhas mãos pelos meus cabelos bagunçados e que já não viam um pente há um bom tempo.
— Continue, por favor. — Ironizei.
— Tipo, sei que você vai sair machucado, mas você vai bater muito também!
Chegamos na área verde, e seguimos reto até a parte da enorme cantina. O sol da manhã já estava quente, e eu estreitei os olhos por conta da luminosidade.
— Não gosto de brigar, você sabe.
— E eu não gosto de ver você fazendo papel de otáriano.
— Vou usar o cérebro pra dar uma lição nele. — Falo eu.
— Se você dar uns pegas naquela namorada dele... você com certeza dará uma bela lição nele! — Disse, soltando uma risada em seguida, achando graça da própria piada. Permaneço quieto, e quando ele termina de se afogar na própria baba, digo:
— Conheço a Eadlyn, ela jamais namoraria alguém como eu. E eu também não me sinto nem um pouco atraído por ela, não é o meu tipo de mulher.
Marcus bufou alto.
— Cara, ela é o tipo de qualquer homem.
— Ela parece uma boneca de plástico, é assutador de ver. Fora que eu prefiro conteúdo ao invés de uma aparência que todos julgam bonita.
— Eadlyn é gostosa e ponto final. E você não é tipo... parente dela?
Paramos em um corredor e eu cocei a lateral do meu rosto, entediado.
— Não. Os pais dela são amigos dos meus tios, só isso.
— Ela não frequenta a sua casa?
— Eu mal a veja, ela não vai com a minha cara e é reciproco.
Naquele exato momento o sinal tocou, fazendo com que finalmente eu pudesse me esquivar daquele assunto que já começava a me deixar estressado.
— Você deve ir pra aula... e eu também. — Murmuro. Marcus abre um sorriso malicioso e acena com dois dedos para mim.
— Até mais tarde, sr. cérebro.
— E você deveria ter um, mas não tem. — Ele riu e partiu por entre a multidão, que agora praticamente corriam em direção às suas respectivas salas. Entro na turma B3 e durante as 3 horas que durou a aula, consegui me manter quase completamente concentrado no que a professora dizia. Mas, bem ao fundo da minha mente, a vozinha irritante de Marcus dizendo que dar uma lição em Erik usando Eadlyn era uma bela ideia.
No entanto, enquanto eu guardava o meu material na mochila, me dei conta de que eu não tinha nenhuma chance com ela. Eu não era o tipo dela, não tínhamos como ter nenhum tipo de relacionamento. Saio da sala e corto caminho pela a área de trás do prédio C, seguindo rumo ao meu quarto antes de ir para a cantina. O ginásio ficava muito perto, e se eu passasse por dentro dele, poderia encurtar o caminho cerca de 3 minutos. E foi isso que fiz. O ginásio estava praticamente vazio, como sempre era neste horário, a não ser por duas pessoas se pegando ferozmente na parte mais isolada dali. Talvez se eu não estivesse caminhando para o grande portão de trás, eu nem sequer tivesse os visito.
E enquanto mais eu me aproximava do tal casal, mais aquelas silhuetas se tornavam conhecidas por mim. Quando finalmente percebo de quem eram, não pude reprimir o sorriso malicioso que surgiu em meus lábios. Era a Eadlyn e o Sr. González, professor do curso de Relações Internacionais.
Pego meu celular, quase sem pensar, e abro a câmera do aparelho. Clico em 'filmar' e permaneço escondido durante alguns segundos, acho que uns 15, filmando a pouca vergonha que acontecia ali.
Eu definitivamente tinha uma carta na manga. É estritamente proíbido o relacionamento amoroso entre alunos e professores aqui dentro da Universidade, acarretando expulsão de ambas as partes envolvidas se o caso fosse descoberto. Em seguida, quando já tinha material o suficiente, aperto o passo em direção à saída do ginásio, tomando o cuidado de não olhar para trás.
Enquanto eu caminhava meio perdido pelo o campus, minha cabeça girava entre muitas possibilidades. O destino tinha me dado uma chance de me vingar, e seria um erro disperdiçá-la. Eu errro. E eu não sou o tipo de cara que comete erros.
Durante o restante do dia, treinei mentalmente a forma como daria a notícia à Eadlyn, e o que ela teria que fazer para que eu não espalhasse o vídeo nas redes sociais e manchasse a imagem dela na faculdade. Ela teria que ser minha namorada por, no mínimo, 6 meses, e então estaríamos ambos livres um do outro. Dizem que vingança é um prato que se come frio, e eu acabei de tirá-lo da geladeira.
...
No dia seguinte, na cantina, observo Eadlyn almoçando junto com suas amigas. Ela parece contente, e eu quase me senti mal por obrigá-la a fazer isso...
Quase.
Assim que ela se levanta e joga sua bandeja no lixo, me levanto também e corro em sua direção, e quando ela saí para um dos corredores que levava até a saída, chamei o seu nome:
— Eadlyn?
Ela parou imediatamente, e quando se virou para trás e me viu, seu rosto se contorceu em desaprovação. Cruzou seus braços e bateu um dos pés no chão, enquanto suas sobrancelhas franziam-se.
— Você? O que quer? — Seu tom é ríspido, e seu olhar é de superioridade, como se eu fosse menos do que ela somente porque não pertencia ao mesmo nível social que ela e Erik gozavam aqui na universidade. Coitados, isso não duraria pra sempre. Um dia o curso acabaria e eles teriam que viver na vida real. Talvez eu tivesse até mesmo fazendo um favor à ela. Diminuir um pouco o seu ego inflado demais.
— Tenho algo para te mostrar que com certeza vai te interessar.
Eadlyn bufou.
— Duvido muito que eu vá me interessar por qualquer coisa que venha de você.
Eita, vou ter que aguentar essa peste durante 6 meses... mas vai valer a pena, eu sei. Desbloqueio a tela do meu celular e vou direto para a galeria, achando sem dificuldade alguma o vídeo que eu procurava.
— Acredito que dessa vez eu tenha.
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