Quem Nós Somos?

29 E - Estou liberada do contrato. Droga.


" (...) É assim que você me lembra do que eu realmente sou

Não é do seu feitio pedir desculpas
Eu estava esperando por uma história diferente dessa vez, o meu erro foi entregar a você um coração que valesse a pena partir
E eu estive errado, eu estive deprimido
Andei bebendo todas para esquecer
Estas cinco palavras dentro da minha cabeça gritam, 'Nós ainda estamos nos divertindo?'"

Por Eadlyn Schreave

Acordei cedo naquela manhã; meus olhos se abriram lentamente e quando me dei conta, estava sorrindo. Olho para o lado, afim de procurar o rosto de Kile, que está voltado para mim, mas ele ainda dormia, seus cabelos caindo sobre a testa e os lábios lemente afastados. Fico o olhando por um momento, antes de me levantar lentamente, tentando não fazer muito barulho na cama que tanto tinha rangido... na noite anterior.

E quando já estou indo em direção ao banheiro, o Woodwork dá uma tossida fingida e então assovia pra mim, fazendo com que eu me vire pra ele com uma sobrancelha arqueada e um sorrisinho automático nos lábios.

Coloco as mãos na minha cintura nua, enquanto o garoto me olha da cabeça aos pés.

—Como você consegue, cherie? — Me pergunta ele com a testa franzida.

—Consigo o quê?

—Ser tão maravilhosa — solta ao gesticular com as duas mãos para o meu corpo nu.

Dou de ombros, fingindo estar alheia ao elogio, mesmo que não fosse verdade.

—Oras, já nasci assim — respondo enquanto puxo meus cabelos para a frente, tapando parte dos meus seios que até então estavam à mostra.

Kile sentou-se na cama e deslizou suas duas mãos pelos os cabelos rebeldes, passou a língua pelo os lábios e então me abriu um sorriso torno, de canto.

—Você está fazendo eu ter pensamento malíciosos — diz, uma de suas sobrancelhas se arqueou neste exato momento.

—Mesmo? — Debocho, enquanto me sento em uma poltrona com as pernas cruzadas e cravo um dos meus cotovelos em seu braço, apoiando meu queixo com o dedo indicador e polegar. — Me conte mais sobre isso.

Kile solta uma risada e balança a cabeça de um lado para o outro, antes de me dizer:

—Não vou contar, eu vou é fazer — e aí ele dá um tapinha no colchão com um lençol rosa e bagunçado. — Vem aqui, que te mostro.

—Quer um repeat de ontem? — Questiono, me sentindo satisfeita por isso.

—Cala a boca e vem cá, Eadlyn — fala ao revirar os olhos, mas seu sorriso pra mim era divertido.

E, como não sou boba e nem nada, fui até ele segundos depois.

Hoje o dia está um pouco mais parado do que ontem, não havia tanto movimento na praça e, como consequência, no horário da manhã não arrecadamos muito direito, o que foi muito frustrante. Kile parecia tranquilo com o fato, mas eu não. Simplesmente não queria ter que voltar pra casa agora, e muito menos ter que pedir ajuda pros meus pais. Acredito que já esteja na hora de eu me tornar independente ou, no mínimo, tentar resolver meus problemas por mim mesma antes de recorrer á eles.

Mesmo que eu saiba que os dois sempre estarão ali por mim, não quero mais ser um peso morto pra ambos; no entando, se o movimento continuasse assim, seríamos obrigados a pedir ajuda hoje mesmo, ou no máximo amanhã.

Que merda.

—Estou com fome — Kile me diz enquanto guarda o violão marrom dentro de sua capa e se levanta do banco de mármore branco e meio verde de musgo.

—Vamos na tia de ontem? Lá os salgados são baratos — reflito, enquanto prendo meu cabelo em um rabo de cavalo e sigo em direção à avenida principal, e o Woodwork logo atrás de mim.

—Pode ser... mas a verdade é que queria comer comida de verdade — fala, e quando eu olho pra ele por sobre o ombro, o vejo fazendo uma careta.

—E aquilo que comemos ontem era de mentira por acaso?

—Você entendeu muito bem o que eu quis dizer, cherie, não se faça de burra, porque eu já sei que você não é.

—Sou mais inteligente do que você — resmungo enquanto reviro os olhos e escuto a risada de Kile atrás de mim.

Estamos caminhando por um apinhado de pessoas em uma das calçadas, quando eu escuto uma voz chamar; olho para o lado, pra um restaurante, e dou de cara com o homem que nos alugou o violão. Puxo Kile pelo o braço, e quando ele para pra me olhar, seu cenho está franzido.

—Sim?

—O Henry está nos chamando — eu aviso, olhando sugestivamente para o ambiente bastante cheio ao lado.

Quando o viu, Kile acenou para ele.

—O que será que quer com a gente? — Me pergunta, enquanto entramos na no local com um certo ar rústico. As mesas eram dispostas em fileiras verticais, com um longo e largo corredor ao meio, possibilitando uma melhor passagem dos garçons e clientes. Apesar de estar de dia, luminárias charmosas e de vidro pendiam acesas no teto alto.

Quando chegamos perto de Henry, um cara até que atraente, com cabelos louros e bem arrumadinhos em gel, estatura média — é mais baixo que Kile, mas deve ter a minha altura, cerca de 1,74 mais ou menos -, ele abriu um sorriso de aparelho azul pra nós dois.

—Como está o trabalho hoje? — Pergunta pra nós em um espanhol quase perfeito, com sua voz um pouco rouca.

—Está... — Kile parecia procurar as palavras certas, quando o cortei e murmurei com um revirar entediado de olhos:

—Uma porcaria, sério — bufo.

O sujeito solta uma risadinha do meu comentário.

—É uma vida difícil, realmente — concorda antes de passar uma mão pela a sua bochecha esquerda. — Onde vocês vão comer agora?

Kile e eu trocamos olhares de duvida.

—Dona Rosália — ele fala ao pôr as suas mãos dentro do bolso de sua calça jeans.

—Podem almoçar comigo hoje, eu pago — diz, sorridente.

—Ah, graças a Deus, com licença — falo eu, faminta demais pra dar uma de monalisa e dizer que não precisava. Arrasto a cadeira em seguida, e sento em frente ao Henry, que me olha divertido.

Não sou do tipo que disperdiça oportunidades de me dar bem.

E, além do que, posso retribuir o seu favor em outro momento, comprando alguns de seus instrumentos ou algo do tipo. Porém, principalmente, é que no momento não estou com condições de negar auxílio alheio, o que é, definitivamente, uma tremenda novidade pra mim.

Kile me olha com uma expressão de duvida, então eu o puxo para baixo. Ele cede, e arrasta a cadeira para poder se sentar, meio sem jeito.

—Bem, obrigado, Henry — murmura.

—Não tem problema, já estive no lugar de vocês — fala, ao fazer um sinal pra um garçom vir até nós. — Quando vim pra cá, também passei por situações semelhantes — conta.

Pedimos o prato do dia, que não demorou muito pra chegar.

Após alguns minutos agradáveis em silêncio, o homem nos pergunta:

—Então, até quando pretendem ficar por aqui, na França?

—Se durante o dia as coisas não melhorarem, acho que teremos que ir embora mais cedo e pedir ajuda pra voltar pra casa — Kile diz, meio inconformado, eu acho... não sei dizer exatamente a emoção que entonou suas palavras.

—Bem, acho que talvez eu possa ajudar vocês a pelo o menos conseguir o dinheiro pra voltar pra casa — murmura Henry, e eu agradeci mentalmente por isso.

Kile ergue as sobrancelhas, inclinando-se um pouco para a frente e parecendo interessado.

—Como?

—Não sendo nada ilegal... — eu falo, mais para provocar o Kile, do que por receio de que fosse algo contra a lei realmente.

O garoto me olha com uma expressão de tédio, antes de abrir um sorriso divertido. E neste momento, eu me pergunto se nós manteriamos o nosso relacionamento assim... fingindo que nos amamos para os outros, estando presos um no outro por um contrato, e mantendo a parte divertida, que era o sexo. Sério, agora só de olhar pra ele por muito tempo, sinto vontade de arrastar o cara pra um beco escuro — ou em público mesmo, não me importaria... muito. Nossa, pra que tanto? Bem, mas é verdade.

Mas, além disso... tinha outra coisa... outra coisa entre a gente, e eu ainda não sabia o que era, mas o fato é que me sinto estranhamente segura com o Kile, e não porque eu o considero O Fodão, mas sim, porque ele me conhece e mesmo assim parece não se importar, parece gostar de mim...; pelo o menos um pouco.

E eu nunca iria imaginar que sentiria isso, mas eu gosto muito dele. Gosto de verdade, e eu não estou acostumada a me abrir pras pessoas, talvez esse seja um dos motivos pra eu ter tão poucos amigos de verdade, mas não considero confortável contar minhas fraquezas pros outros; mas então o Kile apareceu, e me obrigou, mesmo que, quem sabe, ele não tenha consciência disso, a me mostrar. Porra, o garoto me viu chorando, isso é o máximo de intimidade que eu posso dar a alguém.

Provavelmente quando o contrato acabasse nós não teriamos mais contato, uma porque vou me mudar pra Nova Iork, e isso já está decidido na minha cabeça desde que sai de Londres, e outra porque... seria melhor assim, nós não combinávamos em nada, eu acho.

Só na cama, pelo o que pude constatar...

Sou tirada dos meus pensamentos, quando escuto a risada de Henry, e em seguida ele diz:

—Sua namorada é engraçada.

—Sou demais — corrijo ao enrolar uma mecha de cabelo no dedo indicador.

Kile bufa.

—Chata demais, só se for — provoca antes de me lançar uma piscadela marota.

Reviro os olhos.

—Vocês namoram há muitos anos? — Pergunta, parecendo curioso.

—Por que você acha que somos namorados? — Retruco ao cruzar os braços.

—Porque vocês agem como um, e está claro que... — ele se enrola, e balança a cabeça de um lado à outro. — Desculpem, esqueci a palavra em espanhol...

—Nos odiamos? — Tento, com um sorriso cretino no meu rosto.

—Eu não odeio você — o Kile fala.

Fico supresa com a declaração, até porque eu estava brincando.

—Você me ama, é? — Zombo, e dou uma risada pra tentar disfarçar de mim mesma o meu coração que passou a bater mais rápido e meio descompassado quando fiz a pergunta.

Que diabos era isso agora?

Ele estreita os olhos, mas seu sorriso estava me desafiando.

—Você me ama?

—Perguntei primeiro — rebato.

Ele então me ignora, volta a olhar para a frente e dá de ombros, me deixando no vácuo. Bufo alto, irritada.

—Mas, voltando ao que interessa, como pode nos ajudar, Henry? — Kile pergunta, e eu me viro para a frente, procurando os olhos negros do sujeito.

—Bem, meu amigo que é o dono deste restaurante aqui, precisa de um garçom durante alguns dias, uma ou duas semanas à noite, parece... até ele conseguir funcionários fixos. E você, Kile, pode cantar, eu vi você na praça ontem... garanto que a clientela irá gostar.

—Vou ter que ser garçonete? — Indago, piscando algumas vezes com as sobrancelhas franzidas.

Kile me olha de cara feia.

—Nós aceitamos — diz, dando a palavra final.

—Tá — comento ao cruzar os braços sobre o peito.

Começamos naquela noite mesmo a trabalhar, a partir das 18. Tínhamos acesso livre à comida, que era gratuita, e o dinheiro que o tal de Thalles, dono do restaurante, pagava pra nós dois era bem digno. Nunca tive que trabalhar na minha vida, e nunca imaginei servir mesas, sério... nunca imaginei isso; mas a questão é que se eu queria realmente dinheiro, teria que batalhar por isso, e, apesar de não ser o melhor emprego temporário do mundo, acredito que tenha sido bom pra eu tomar consciência de que, na vida real, as coisas não caem do céu. Se tudo continuasse a correr bem, poderíamos ficar mais umas duas semanas na França, o que é mais do que eu estava pensando que seria possível, dada a nossa falta de dinheiro para nos mantermos ali.

Na terceira noite, estava tudo indo muito bem, Kile estava lindamente em um pequeno palco, tocando violão e cantando algo que uma menina — muito assanhada pelo o que pude ver de longe — pedira pra ele cantar. Ela era romântica, e eu queria que ele a cantasse pra mim... mas só pra mim, quando chegassemos ao nosso hotel furreco mais tarde. Cara, não sabia explicar o que estava sentindo enquanto o observava, mas eu poderia ficar ali durante horas.

Só que, como o que é bom dura pouco, um colega de trabalho me mandou ir trabalhar ao invés de ficar parada como uma estátua no meio do caminho. Eu obedeci, mas obedeci bufando por dentro e com vontade de mandar ele se foder. Ora, quem pensa que é pra falar assim comigo? Não fiz nada porque preciso do dinheiro, então precisava me comportar. Mas, com a situação que ocorreu em seguida, fui incapaz de me conter

Um homem magrelo, vestindo um terno com uma gravata já toda bagunçada, de uns 40 anos mais ou menos, passou a mão em mim. Claramente estava bêbado, e quando ele começou a rir, senti o bafo forte de cachaça entrar pelas minhas narinas. Senti vontade de vomitar... mas vomitar em cima dele.

Cretino.

—Pede desculpa AGORA — eu ordenei.

O tiozão riu mais ainda e aquilo me consumiu por dentro.

—Seu velho nojento, peça desculpa agora — gritei, incapaz de me controlar. Me controlar nunca foi o meu forte.

—Não... gooostou ... gostinha... gotinhinha... — soluçou, e então a palavra saiu certa: — gostosinha.

Mas do que que ele me chamou?! Não creio.

Nessa hora, a atenção de todo o lugar estava voltada pra nós, no entanto não me importei, estava mais preocupada com o fato de tentar não pular em cima dele e bater sua cabeça fedorenta a álcool na mesa.

—Escuta aqui seu abusado, filho de uma... — estou dizendo isso com o dedo apontado para a cara vermelha do sujeito, quando escuto a voz de Kile ao meu lado.

—O que que houve? — Me corta com uma pergunta.

Viro pra ele irritada.

—Ele passou a mão na minha bunda, Kile!!

Kile olha, parecendo irritado, embora estivesse mais contido que eu.

—Você fez isso? — Pergunta para o homem, se aproximando e levantando o cara pelo o colarinho da camisa. — Peça desculpa para a moça — exigiu ele, a voz baixa e ameaçadora.

Não havia reparado que o dono havia chegado, até que ele puxou o Woodwork pela a cintura, com a ajuda de um dos garçons, e o afastou do cliente.

A partir daí, fomos convidados a nos retirar, mas sem antes receber pelas as nossas horas trabalhadas.

Tivemos que voltar pra casa mas, embora tivessemos dinheiro o suficiente pra isso, teriamos que econimizar. Ou seja, viajariamos de trem até lá. Fomos direto pro hotel, pagamos a nossa diária e pegamos nossas coisas. Eram 3:50 da madrugada quando compramos nosso bilhetes pra voltar pra casa. Nos sentamos em um dos bancos da estação com teto de vidro grossos e desenhados com flores e figuras místicas, que estava vazio.

—Você parece com sono — eu digo, antes de acabar bocejando.

Kile se limita a concordar com a cabeça.

—Obrigada por me defender, foi bem fofo — falo depois de alguns segundos.

Agora ele abriu um breve sorriso.

—De nada, cherie. Disse que estaria com você aquele dia.

—Você disse — falo com um olhar vago, lembrando-me da noite em que havia desabafado com ele. — Por que não tira um cochilo?

—Logo o trem vai chegar, não podemos perder — diz.

—Pode dormir, eu cuido.

—Não.

Reviro os olhos.

—Não confia em mim? — Quero saber ao cruzar os braços.

Dessa vez, Kile vira a cabeça para o lado, na minha direção. Seus olhos traçam o meu rosto e param em seus lábios, antes dos dele mesmo se erguerem em um sorriso cansado.

—Confio, mas eu quero te fazer companhia. Posso?

—Pode — respondo, incapaz de não retribuir o seu sorriso.

Em determinado momento, quando estava tudo silencioso demais e muito propício para uma soneca, ele pegou uma caneta e um bloco de dentro de sua mochila, e começou a rabiscar algo.

—O que está escrevendo aí? — Quero saber, enquanto espicho o olho para o papel.

—Uma música.

—Posso te ajudar?

Ele me olha, surpreso.

—Eu adoraria.

Por volta das 6:15 da manhã, o trem chegou. Diferente da outra vez, sentamos um ao lado do outro, e eu não havia reparado que estava tão cansada, até que acabei pegando no sono em menos de 5 minutos após ter entrado no vagão.

Sonhei com o Kile, o que não era incomum, já que não raro ele os estrelava. Mas dessa vez foi diferente. Ele estava parado na minha frente, e ele dizia algo pra mim mas eu não conseguia compreender... Kile tentava falar algo importante, e eu não conseguia ouvir.

Foi frustrante.

Acordo com a cabeça em seu colo, e quando abro os olhos, vejo os dele me fitando.

E tinha realmente algo diferente entre nós dois.

Tinha algo diferente em mim mesma.

Existia, defintivamente, uma Eadlyn antes e outra depois de Kile Woodwork.

E, no meio disso tudo, me dei conta de que eu não queria perder o contato com ele.

Eu queria que o contrato durasse mais. Durasse a vida inteira, pra ser mais exata.

—Preciso falar com você — me disse, quando eu me ajeitei ereta no assento.

Também preciso falar com você, Kile.

—Tudo bem — digo, ansiosa. Não é possível que somente eu tenha reparado... que somente eu esteja sentindo isso... me recuso a acreditar que não seja recíproco.

—Foi uma das experiências mais interessantes da minha vida ter te conhecido melhor, Eadlyn — ele parecia estranho enquanto dizia isso, e então eu me encolhi no banco. — Mas eu não quero mais este contrato... eu apaguei o vídeo enquanto você dormia... você está livre do acordo, você está livre de mim.

Eu abri muito os meus olhos, e então desvio o olhar pela a janela. Como assim? Kile... está me liberando do contrato, mas por quê? O que isso quer dizer?

Ele não gosta de mim do mesmo jeito que eu... nossa... nossa, sério! Não acredito que fui tão idiota. Claro que ele não faz questão de ficar comigo, quer se livrar de mim o mais rápido possível.

E eu estou me sentindo péssima por dentro mas, mesmo assim, vesti minha melhor expressão de indiferença e respondi:

—Tudo bem, obrigada.