O fantasma de cabelos alvos continuava a olhar o garoto por trás da janela como se fizesse parte das suas memórias, Luna que no momento não sabia o que fazer, não pode notar o interesse de Akio pelo seu amigo.

— Você fica aqui! Eu preciso ir lá em baixo. — Antes de abrir a porta e descer as escadas, ajeitava seu cabelo em frente ao espelho.

Akio girava seu corpo com sutileza para Luna e a observava paciente sem contestar. No andar de baixo, a garota corria com pressa para a porta, pegando seu casaco e calçando pantufas antes de se retirar para fora.

— O que veio fazer aqui?!— Seus passos eram apressados até Saito e o frio cortava a pele de seu rosto em brisas amenas.

— O que mais eu poderia fazer aqui, a não ser vê-la? — Seu tom de voz era mais alto para que pudesse alcançar Luna e seu sorriso continuava caloroso mesmo naquele temporal — Acho que você não vai ter outra escolha à não ser me deixar entrar.

Luna olhava para os lados se abraçando por conta do ar gélido, vendo que não poderia deixa-lo ali e o chamou para entrar. A menina olhava para as escadas e para os cômodos procurando por Akio, mas não havia sinal dele no andar de baixo.

— S-sente-se, por favor, eu vou preparar alguma bebida quente...

Saito olhava em torno da casa, reparando nos retratos da família e no quão pequena era a moradia, porém apesar de ser pequena, lhe transmitia uma áurea reconfortante. Deixou seus sapatos no genkan e se juntou a mesa redonda que se centralizava na cozinha, logo à sua frente. A chaleira ruía alguns minutos depois e Luna os servia com chá de camomila.

— Obrigado. — Ele tomava seu copo enquanto ajeitava o sobretudo sobre as pernas que se cruzavam — Onde estão seus pais? Eu realmente gostaria de conhece-los.

Luna mordia os lábios enraivecida, evitando o encarar.

—Dormindo... — continuava a tomar seu chá, deslizando os dedos pela xícara de forma agonizante, pelos olhos de Saito pode-se perceber que estava inquieta.

—Então a boa filha está trazendo um garoto para sua casa enquanto seus pais estão dormindo? — Ele levava o cotovelo por cima da mesa, dirigindo seu corpo para frente.

—E-eu... não... — Seu rosto corava e ficava perdida em suas palavras.

Sorrindo e agradecia pela bebida pousando a taça com leveza. — Eu tenho algo para fazer agora, então, preciso ir. Sei que gostaria mais da minha companhia, mas prometo recompensa-la na próxima vez. — Antes de se levantar olhava para seu relógio de pulso.

Luna se levantava e ficava acanhada ao lado da cadeira, seu olhar só se redirecionava para o chão.

— Não precisa se preocupar, não irei voltar tarde para casa — deu alguns passos para se aproximar da menina na intenção de toca-la, mas antes que pudesse ter o feito, ela virava o rosto para o lado.

Saito suspirava e no ato costumeiro de sempre, bagunçava seu cabelo.

—Não precisamos forçar as coisas, vamos com calma. Quando quiser, virei novamente. Sem surpresas! — Ele sorria confiante e partia, a deixando finalmente respirar.

Ao voltar para a cama, Akio permanecia sentado na beirada olhando para a vidraça. A neve caia sutil do lado de fora, deixando a atmosfera sentimental. Ele olhava para Luna ao perceber sua presença e esperava que se pronunciasse primeiro.

—O que?! Não espera que eu dê satisfações, não é? — deixava seu casaco pendurado atrás da porta e se juntava à Akio.

—Quando vai me dizer o que você é? — Seu olhar neutro deslizava para o lado, ignorando a pergunta de Luna e contemplando a paisagem da janela mais uma vez.

—Você parece tão real para mim, as roupas parecem tomar parte de você e quando apareceu... eu pude te sentir... — O olhar de Luna era melancólico e dizia quase que para si mesma.

Aquele momento de conversa entre os dois se passou poucos segundos depois e ambos foram dormir. Akio no chão ao lado de sua cama.

A noite estava gelada e levava seu frio para todo o lugar, inclusive para o chão, onde Akio dormia. Seu estremecer estava tão forte, que Luna acordou com seus gemidos. Ao olhar para o chão, o garoto estava encolhido e tremulo.

—Então você pode até sentir frio... — Luna doava um de seus cobertores e alguns minutos depois Akio recuperava a temperatura normal de seu corpo.

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Ambos conseguiram dormir, Luna com um pouco de dificuldade por ter passado frio sem dois cobertores. Ao amanhecer, o quarto ainda era gelado e a luz do sol miserável, a menina se levantava como se tivesse acabado de enfrentar uma batalha, enquanto Akio era radiante com seus olhos saltitantes e um corpo saudável.

—Isso não vai dar... — Luna o olhava por cima do ombro sem esperanças, ele por sua vez, permanecia sentado à observar. Seu estado irritava Luna, se fosse para ele ficar tão bem assim, talvez não precisasse de um cobertor. Assim que colocou os pés no banheiro, lançou um espirro.

—Maldição...— preparava-se para um banho quente e agradecia aos céus por ser feriado. Quando terminou sua rotina matinal, voltou para o quarto agasalhada.

—Será que você também precisa de um banho?... —Pensou um pouco e decidiu não seguir em frente com essa ideia.

—Eu ouvi uma garota espirrar, você se cobriu direito durante a noite?! — Sua mãe entrava em seu quarto verificando a cama da menina.

— Sim. — A voz de Luna era rouca e entediante.

—Acho que vai precisar de tomar algum remédio, mas por enquanto desça e venha comer, irei fazer algo quente para você tomar.

Depois de arrumar o quarto e dar as ordens para Akio, desceu para a cozinha. Seus pais tomavam o café normalmente, mas uma áurea estranha pairava sobre o cômodo.

— Luna, precisamos de falar com você.