Quem é Tony?

1 O boato, o garoto e a morte


Notas iniciais
Esse capítulo funciona apenas como uma introdução aos personagens, a história terá seu desenvolvimento a partir do próximo. Não quis postar tudo para não ficar enorme.

— Ele é muito estranho!

— Com certeza é louco!

— Ninguém sabe onde ele mora.

— Não tenho coragem de fazer um trabalho com ele.

— Uma vez chamei ele para fazer um trabalho em dupla comigo, mas ele fingiu que não ouviu o que eu disse e saiu. Falou com a professora e fez o trabalho sozinho. Acabei sendo dupla da Michelle.

— Não quero conversa com esse cara.

— Ele é muito inteligente.

— Já percebeu que ele só usa blusa com manga longa?

— Uma vez, vi uma cicatriz no pulso dele. Uma espécie de corte.

— Ele chegou agora, não é da cidade. Ao menos acho que não seja.

— Ele não participa das aulas de educação física. Esse cara não tira a blusa nunca.

— Vi ele coçando uma cicatriz no pulso.

— Ele só senta no fundo, na última cadeira, no canto da sala.

— Acho que ele se corta. Alguma coisa relacionada com depressão.

— O cara só tira nota máxima nas provas e em alguns trabalhos. “Alguns” porque ele não faz nenhum trabalho em equipe.

— Ele é até charmoso, bonito.

— Um psicopata. Deveriam expulsar da escola.

— Ele não sai nos intervalos, passa o tempo todo na sala.

— Ele fica escrevendo ou lendo na mesa dele.

— Nunca vi a cor dos olhos dele, nem quando apresentei a escola para o cara. Ele evita olhar você.

— Tenho certeza que vi ele falando sozinho uma vez.

— Eu tenho medo que a qualquer momento ele puxe uma arma da mochila e mate a gente.

— Vai ver foi ele quem matou aquela garota do primeiro ano.

— Se a primeira morte da escola foi logo quando ele chegou aqui, não deve ser coincidência.

— Ele é psicopata.

— A escola meio que abafou as coisas que envolvem ele.

— Não chega a ser invisível porque ele é muito bizarro.

— Nunca ouvi a voz dele.

— Ele não fala, ouvi dizer que perdeu a voz.

— Vi ele conversando com a diretora uma semana antes de vir aqui.

— Ninguém ousa se aproximar dele.

— Sei lá… ele é estranho.

— Ele é muito estranho.

*****************



Apertei o botão do elevador três vezes. Três malditas vezes, mas as portas insistiam em ficar escancaradas. A risada histérica da garotinha ecoava no fim do corredor do hospital. As paredes brancas exibiam correntes do teto ao piso de linóleo.

HA HA HA HA

A garotinha, que não devia ter mais do que dez anos, dobrou a esquina do corredor e ficou me encarando com aqueles grandes olhos azulados. Segurava dois machados, de seu tamanho, no mínimo, um para acda mão, e vinha atrás de mim usando seus patins.

HA HA HA HA

Eu só poderia me salvar usando o elevador. Estava completamente encurralado pela garotinha. Os patins faziam um ruído que lembravam giz em atrito com a lousa e, quanto mais alto ficava, mais perto aquele par de machados estaria perto de mim.

HA HA HA HA

As lâminas dos machados pingavam sangue das pessoas recém-esquartejadas pela criança. Eu não queria ser o próximo. Naquele elevador, encurralado, eu não teria tanta escolha a não ser me entregar. Pisquei e a garotinha estava na porta do elevador, abriu aquele sorriso macabro e depois abriu minha cabeça enfiando os machados, um em cada lado, nela.

Acordei num sobressalto e sentei na cama. Estava sentindo uma dor de cabeça horrível, as mãos suadas, o lençol jogado de qualquer jeito no chão. Olhei para o relógio: cinco e meia da manhã. Droga. A aula já ia começar.

Era segunda-feira. Minha segunda semana de aula. Meus pais haviam se mudado para um bairro distante da minha antiga escola, fruto de uma valiosa promoção que os dois receberam do trabalho deles, então não adiantou nada reclamar: íamos morar no outro lado da cidade de qualquer jeito! O que um garoto de dezesseis anos poderia fazer contra as ordens severas de seus pais?

Enfim, depois das provas do primeiro período da velha Carlos Villar — minha antiga escola; meus pais fizeram as malas e partimos. Confesso que não gosto do meu bairro novo. Tudo é muito estranho. Moramos no penúltimo andar de um prédio de vinte andares, sete a mais do que no último. O corredor contém quatro apartamentos dispostos lado a lado. Na cobertura, tem um deck com piscina e um pequeno e singelo jardim. O edifício, de nome Sakayo, ficava numa das áreas nobres da cidade e isso era o estranho: poucas pessoas nas ruas, às vezes alguns carros passavam, a pracinha ali perto quase não era ocupada. Bem diferente de antes.

A escola nova era menos estranha do que o bairro da Igualdade. Meus pais me matricularam na sexta e, na segunda, eu já podia ir para as aulas. No meu primeiro dia, eu entrei na sala faltando dez minutos para o início da aula. Procurei algum lugar vago e sentei-me numa das últimas cadeiras. A professora, quando chegou, me apresentou formalmente.

— Temos um novo aluno, Toni Belmarques, ele veio transferido de Carlos Villar. Poderia se apresentar para a gente, Toni?

Um pouco embaraçado, falei rapidamente meu nome e idade. Depois voltei para a cadeira e foquei em ver a minha turma nova. Ver todos aqueles rostos novos me deixou nervoso. Eu sempre fui um pouco tímido. Eu não costumava me abrir nem para os meus amigos mais próximos, mas até esses ficaram por lá. Na verdade, para ser bem sincero, acho que não tenho amigos. Não sei se porque eu sempre fui fechado, conseguindo falar apenas nas aulas e nos intervalos, ou se eles não queriam ser mesmo meus amigos. Esses “amigos” e eu não tínhamos aquela “coisa” que confirma a amizade, aquela aliança que dizem que precisamos ter. Nunca saí com eles fora dos muros do colégio, por exemplo, e acho que só servia para as respostas fáceis das atividades.

Mas tudo bem, nada que me afetasse muito. Quando eu não estava estudando, estava lendo alguma coisa, um livro clássico, uma nova publicação. Quadrinhos também passavam por mim. Quem precisa de amigos quando se tem um livro em mãos? Olhando para a minha nova turma, os alunos conversando milhões de coisas entre si, sorrisos alegres até demais, pessoas correndo para um lado para outro para pegar lugares vagos perto de seus colegas, percebi que eu sabia a resposta para essa pergunta: eu.

Todo mundo procurava ficar perto de alguém… menos do garoto ao meu lado.

Coloquei meus livros em um espaço reservado da mesa e abri meu caderno pronto para a primeira aula ali. Olhei para o lado e vi um rapaz um pouco mais alto do que eu, cabelos castanhos caindo sobre a testa e olhos, sentado no canto do fundo da sala, ao meu lado. Eu não tinha percebido ele ali quando cheguei. O garoto parecia distante, desenhando alguma coisa em seu caderno. Não tive coragem para dizer-lhe nem um “oi”.

Esfreguei minhas mãos e soltei um longo suspiro. Nem precisava lembrar que estava nervoso, não é? A aula correr normalmente. Notei alguns olhares vindo na minha direção e tentei não me importar. Só tentei. Seria legal que não ficassem olhando para mim a cada cinco minutos, era chato, estava me sentindo em um circo, ou em uma loja de exibição.

No fim da primeira aula, uma garota e um cara se aproximaram de mim. Ela usava a blusa branca com detalhes azuis do uniforme com uma saia, lembrando levemente o estilo oriental de usar as fardas escolares. O cara usava a blusa do colégio com um casaco azul por cima por causa do frio. Os dois tinham cabelos extremamente pretos e lisos, os olhos seguiam a mesma cor. Em contraste, a pele de ambos era tão branca como a flor de heléboro.

— Olá — a garota abriu um sorriso esticando a mão para mim — Toni é seu nome ou apelido?

Os outros alunos saíam da classe mais rápidos do que quando entraram. Esbocei um sorriso e apertei a mão da garota.

— Nome — respondi. Era uma pergunta tão comum, mas mesmo assim não imaginava que seria a primeira que fariam para mim. — É mais comum do que você imagina. Qual o seu?

— Juno. Juno Botelho.

Ela falou seu sobrenome como se isso significasse alguma coisa para mim. Não disse nada, estava um pouco envergonhado na verdade, mas odeio quem se apresenta usando o sobrenome. Lembro dos caras que faziam enormes reuniões com meus pais em casa… nossa antiga casa.

— Bem — disse ela tirando a franja da testa — Eu e ele — apontou para o cara ao lado dela — somos os representantes de sala e é uma regra apresentar a escola para novatos.

— Só resta saber se vai querer ou vai ignorar a gente como o último — comentou o outro.

— O outro? Tem outro novato? — perguntei enquanto levantava e começava a acompanhá-los pela sala em direção à saída.

— Não. Arthur se refere ao cara esquisito que estava sentado ao seu lado hoje. Ele não é mais novato, chegou no início do ano. O nome dele é Tony. Com “y” no final.

Olhei intrigado para Juno, que soltou uma leve risada.

— Uma bela coincidência, não acha? Os novos alunos da nossa turma têm o mesmo nome.

— Hum… — foi o que falei. Estávamos passando por um corredor iluminado por uma abertura de mais ou menos um metro e meio de altura, com largura total de toda a extensão do corredor, na parede que dava para o pátio. Uma tela de proteção impedia os alunos de sentarem no batente dessa espécie de janela — Interessante.

— Bem — Juno deu alguns passos à frente e falou para Arthur. — Você poderia apresentar a escola pro novato? Tenho alguns assuntos para resolver com a Lara.

— Tudo bem — percebi que ele deu um longo suspiro, como se fosse fazer a pior coisa de sua vida. Juno correu na frente e desceu as escadas ainda mais rápido.

— Olha, cara, não precisa apresentar nada se não quiser. Eu posso me guiar sozinho.

Arthur deixou os ombos caírem junto com as mãos no bolso da calça jeans.

— Olha, eu não vou fazer nada no intervalo mesmo. Vamos na cantina, Beto deve estar lá, aí te falo o básico da escola e toda a baboseira que inventaram.

Deixei escapar um pequeno sorriso e acompanhei o garoto pela escola.

Bem, o básico dele foi realmente um básico.

— A escola tem dois andares. No térreo, fica a sala dos professores, coordenação, biblioteca e tal. No primeiro andar, as salas normais. são quinze, cinco para cada turma do ensino médio. O máximo de lotação é de vinte e cinco alunos por classe. No segundo andar, ficam as salas especiais para artes, teatro e música, uma para dança laboratórios de ciência, como física, biologia e química. Temos uma sala de computadores na biblioteca. Aí tem o pátio, onde estamos. E às sextas temos todos os turnos da tarde livre.

— Eu iria descobrir sozinho. Garanto. — Eu não fui rude com o cara, nada disso, o tom com que ele falou tudo era de uma pessoa que decorou a tabuada à força para recitar para os pais.

— Pelo menos fiz minha parte. Olha ali o Beto.

Arthur apontou para um cara sentado em um banco de pedra próximo a uma árvore encostada ao muro da escola. Beto era alto e magro, estava comendo um sanduíche e ajeitou os cabelos castanhos, como os meus.

Quando Arthur sentou ao lado dele, deu para perceber como era negro o cabelo do representante de sala comparado com o castanho do amigo.

— Olha o novato — disse ele engolindo uma boa parte do sanduíche. Apenas dei um leve sorriso. Parecia que as pessoas dessa escola eram bastantes corteses.

— Minha irmãzinha decidiu deixar até isso para cima de mim.

Então eu era um fardo? Já estava acostumado mesmo. Olhei para os lados procurando algum lugar livre onde eu pudesse ler o livro que trouxe sem ser interrompido. Irmã.. Pensando bem, ele e Juno eram bem parecidos mesmo. Como se lesse meus pensamentos, Arthur olhou para mim e disse em tom de desculpas.

— Não pense que não quero conversa com você, apenas acho chato a Juno jogar todas responsabilidades de representante de classe para cima de mim. É… somos gêmeos. — Eu não sabia se aceitava o pedidos de desculpa ou não. Continuei em pé e Beto afastou-se da ponta do banco me oferecendo um lugar para sentar. Eu não teria nada a perder se continuasse ali e nada também se fosse ler em outro lugar.

Sentei com eles.

— Bem, como é sua escola antiga?

— Você veio de outra cidade?

— Gosta de ver séries?

As perguntas vieram como um raio. Respondi as primeiras ainda um pouco encabulado com a situação, mas depois baixei minha barreira social de aluno novato e tímido. Naquele dia, sentia receios de criar algum tipo de amizade similar a que tive em Carlos Villar, mas deixei me envolver um pouco pelos meninos. Eles pareciam bem legais.

Os da outra também…

A semana passou rápida até. Devido a um feriado, não tivemos aula nem na quinta e nem na sexta. Os garotos me chamaram para sair, mas decidi ficar em casa lendo. Não queria sair com eles ainda, não sentia que estava preparado o suficiente. Nunca estamos, não é? Nos três dias de aula que tive na semana passada, percebi o quão reservado era meu xará. Tony entrava na sala e sumia em alguns intervalos, quando não, ficava desenhando. Não falava com ninguém e realmente a sala parecia evitar.

No terceiro dia, tentei, não sei de onde consegui coragem, falar com ele. Então descobri porque a sala evitava. Assim que cheguei, vi ele desenhando uma garota segurando uma corda indicando que iria passar no pescoço. E parecia muito real. Mas não foi o teor de sua arte que me fez perceber os motivos do isolamento, foi sua atitude.

— Desenho legal — falei assim que sentei na cadeira ao lado dele. Tony não olhou para mim, não fez nenhuma reação com o rosto, mas forçou a ponta do lápis no caderno e, com brutalidade, o puxou para baixo deixando um risco forte no papel. Repetiu o movimento três vezes até rasgar a folha.

Só então olhou para mim. Seus olhos transmitiam raiva. Tony não esboçou nenhuma expressão facial, mas seus olhos denunciavam seus sentimentos.

Voltei minha atenção para a frente. Eu estava sentindo raiva ao mesmo tempo que fiquei constrangido. Não precisava daquela atitude idiota. Não mesmo. Decidi evitar qualquer assunto que envolvesse ele com os meninos, eles mostravam não gostar de Tony nem um pouco e eu ainda estava criando laços com eles.

Mas decidi falar hoje. O motivo, bem, o motivo era que havia uma garota idêntica a do desenho dele enforcada no banheiro feminino.

Notas finais
Espero que tenham gostado e quero ver quem descobre primeiro quem Tony, com "y".
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.