Quem É Você?
10 O Piquenique, o Jogo, as Conversas e o Amor
Notas iniciais
“Passear pelas masmorras num dia frio como aquele era meu passatempo favorito. Eu fazia desenhos nas janelas embaçadas pela neve, sentindo os dedos congelarem com o toque.
Era bom... Me fazia parar de sentir um pouco aquela dor excruciante do símbolo sinistro dos Comensais em minha pele.
Voldemort estava perto. O que só podia significar uma coisa: logo o Potter estaria morto. E toda essa história terminaria, finalmente.
Logo, logo, eu poderia parar de me esconder. Logo, logo, eu não teria mais que voltar à Mansão para prestar contas, para passar por testes... Para torturar trouxas...
Ah, aquele pensamento era pior do que a dor...
Porém, naquele dia... Naquele dia, eu não queria passear nas masmorras.
Eu queria ver com os meus próprios olhos se era verdade o que diziam?
O Potter finalmente estava pegando alguém.
Será?
Pelos boatos, a pequena Weasley tinha acabado de ganhar o seu coração.
Mas eu duvidava muito disso. Todos sabiam que o Potter era gay e que a Weasley queria roubar o sua posição de Apanhador.
As pessoas não entendiam nada mesmo de... Pessoas.
Mas, bom... Ver uma cena daquelas seria, ao menos, divertido.
Então, eu desci até os primeiros andares, onde as pessoas normais ficavam.
– E ai, Lovegood? – eu a cumprimentei.
– Olá, Draco Malfoy. – ela disse, em sua voz fantasiosa, e então saiu andando em pequenos saltos, com um sorriso estranho.
Ok... Talvez não tão normais assim.
Você deve estar ai se perguntando por que eu falei com a Lovegood. E eu te respondo: Qual é o problema? Só porque eu era um monstro, eu não podia ser simpático com as pessoas?
– Ei, Lovegood? Sabe onde está o Potter? – eu perguntei para ela.
– Acho que está lá fora, nos jardins. – ela disse, virando a cabeça.
– Com esse frio? – perguntei.
– Bom, os jardins são belos. É onde todo novo casal gosta de ficar... – ela suspirou e saiu saltitando.
Então era verdade.
Mas, eu duvidava que eles estivessem lá fora.
Então, continuei a andar pelos corredores.
E qual não foi a minha sorte ao vê-los, um pouco mais adiante, sentados no parapeito de uma janela... Fechada.
Eles estavam abraçados... A Weasley tinha a cabeça apoiada nos ombros do Potter, e ele a envolvia pelos ombros e segurava as suas mãos.
Tão... Romântico.
Andando a passos lentos, eu vi quando ela sorriu para ele por algo que ele tinha dito. E quando ele escorregou a mão pelo rosto dela... E quando ele a beijou.
Na boca?
Isso não estava certo...
A Gina era minha! Não podia sair beijando outro cara por aí!
– Solta ela, Potter! – eu berrei.
Os dois pararam o que estavam fazendo e olharam para mim.
– O que você quer, Malfoy? – o Potter perguntou.
– Eu quero que você a solte agora!
– E por que eu faria isso? A Gina é minha namorada. – ele disse.
Aquele cicatriz de meia tigela...
– Você que pensa! – eu disse e ele se levantou para brigar comigo.
Estava prestes a levar umas boas porradas, aquele idiota.
– Harry, deixa... – Gina disse, erguendo-se também e colocando uma mão sobre o peito dele. – É o Malfoy. Esquece ele... Não vale a pena.
E dizendo isso, ela ficou na ponta dos pés e o beijou.
O Potter a abraçou e retribuiu o beijo.
– Ei! – eu berrei, mas nenhum dos dois meu ouviu. – Parem com isso!
Mas não adiantava gritar... Eles continuavam a se beijar, na minha frente...
E a dor em meu braço aumentou furiosamente...”
Eu acordei, sentindo a cabeça girar.
– Alex?
Uma voz chamava ao longe...
– Alex, acorda!
Quem, por Merlin, era Alex?
– Alex!
Então abri os olhos, de repente.
– Ei! – eu berrei, levando uma travesseirada.
– Ah, me desculpa!
Era Gina, ao meu lado, com um travesseiro bem... Suspeito nas mãos.
– Você está maluca? – eu perguntei.
– Por quê?
– Porque você me bateu com o travesseiro!
– Mas você estava sonhando! Gritando! Eu estava tentando te acordar!
– É dessa maneira que você acorda alguém assim?
– Não grita comigo! – ela disse, e, saindo da cama, bateu os pés no chão.
Então me dei conta de que ela usava um pijama realmente... Indecente. Uma blusa colada e um short que mais parecia uma calcinha.
– Você sabia que está linda hoje? – eu perguntei, me aproximando dela e segurando a sua cintura.
Gina quase se desequilibrou e mudou a expressão de “extremamente irritada” para “alguém convencido”.
– Não... Ainda não me olhei no espelho hoje, sabe? – ela zombou.
De si mesma.
Gina Weasley era a única pessoa que eu conhecia que zombava de si mesma.
Porém, antes que eu pudesse beija-la, ela me empurrou.
Como conseguia prever essas coisas, sendo cega?
– Seu aproveitador! – ela disse, antes de entrar no banheiro e fechar a porta.
Ai, ai... Manhãs com a pequena Weasley. Sempre um desafio.
Porém, a minha curiosidade falava mais alto.
Dando duas batididinhas na porta, entrei no banheiro, bem a tempo de vê-la tirar a blusa sexy.
– Gina?
– Ei! – ela reclamou, exatamente como eu fazia.
Fiquei me perguntando se era uma mania que eu tinha pegado dela ou ela tinha pegado de mim.
– Não se preocupe. Vou só assistir dessa vez.
Ela jogou a blusa na minha direção, mas me esquivei.
– Errou.
– Droga. – ela reclamou. – Eu não erraria isso se enxergasse.
– Eu driblei.
– Eu sei. Eu teria visto isso e te acertado mesmo assim. – ela disse e quando eu estava prestes a discordar, Gina tirou o resto das roupas.
Me deixando boquiaberto.
Então, entrou no boxe.
– O que foi? – ela perguntou. – Até parece que nunca me viu...
Eu ri, um pouco nervoso. Às vezes, eu achava que eu era apenas um menino de quinze anos, vendo a amante nua pela primeira vez na sua frente.
Devia ser aquele sonho...
– Gina... Quem era aquele cara que estava ontem na festa?
– Havia muitos caras ontem na festa.
– Aquele que estava falando com você. Um tal de Dino...
– Dino Thomas? – ela perguntou.
– Esse mesmo.
– É um amigo.
Eu odiava isso nas mulheres... Por que não diziam tudo de uma vez?
– Só amigo.
– Atualmente sim. Mas já foi meu namorado.
Parecia besteira... Mas eu não me sentia bem com isso.
– Quando?
– Hum... No meu sexto ano, acho.
– E vocês...?
Talvez... Eu preferisse que ela não respondesse a essa pergunta.
– O quê?
– Como assim “o quê”, Gina?
Ela riu.
– Como você é bobo. Não, nós não fizemos isso.
Ufa... Acho que eu não precisava saber mais nada.
– Ele deve ter se arrependido muito ontem.
– Por quê? – ela pareceu em pânico.
– Ué... Ver você tão linda naquele vestido que dá vontade de arrancar... Faria qualquer um se arrepender de não ter feito isso quando teve a chance.
– Ele nunca teve a chance.
Eu gargalhei. Realmente, eu poderia acreditar nisso.
Nossa conversa estava bastante satisfatória até agora, mas ainda havia coisas que eu precisava perguntar.
– Gina... Quem é Draco Malfoy?
A água caindo foi o único som por alguns instantes.
– Por que a pergunta? – ela disse, finalmente.
– Curiosidade. É a segunda vez que ouço falar dele desde que a sua família chegou.
Ela pareceu pensar.
– É um garoto de Hogwarts.
Como não disse mais nada, resolvi incentivar:
– Não gosto de ouvir essa resposta... Fica parecendo que era seu namorado também ou algo assim.
– Meu namorado? Não... Ele era da Sonserina!
– E daí?
– E daí que eu era da Grifinória. Nossas casas eram inimigas.
– Os Capuleto também eram inimigos dos Montecchio.
– Mas o Malfoy não era como o Romeu.
– Como assim?
– Ele não era uma pessoa boa. – aquilo fez meu coração parar de repente. – Ele não tratava bem a ninguém, a não ser que o interessasse. E eu soube que fez coisas horríveis... Quando virou um Comensal.
– Ele fez alguma coisa com você? – eu perguntei.
Essa era provavelmente a resposta que eu mais temia ouvir.
– Não diretamente comigo. – ela disse. – Mas ele participou da Grande Guerra ao lado de Voldemort e matou muitos aurores e amigos. E se o Fred, Percy e o meu pai não estão aqui hoje, é por causa de pessoas como ele.
Acho que eu não suportaria ouvir mais.
E acho que nem precisava.
– Vou ligar lá para baixo e pedir algo para o café da manhã. – eu disse, antes de sair.
– Ok.
Pedir a comida foi fácil.
Mas comer não seria. Eu tinha perdido completamente o apetite.
~~~###~~~
O domingo era o último dia da família Weasley na Itália.
E, por algum tipo insano de costume da família, faríamos um piquenique.
Gente, e o ar condicionado? E os insetos? E o ato horroroso de sentar no chão, cheio de grama, terra e bichos quando se pode sentar confortavelmente numa cadeira acolchoada?
Os Weasley não sabiam o que era diversão. Definitivamente não.
Seja lá como fosse, eu acabei fazendo reservas para um jardim do hotel Luna Baglioni. Era próximo, teríamos mesas, uma comida deliciosa e eu poderia entrar no quarto de hotel e me refrescar a qualquer momento.
E foi assim que, na terceira vez que eu saí do quarto do hotel para o jardim, carregando uma garrafa de vinho, eu sofri o pior acidente da minha vida.
A Princesa Leah, agindo como qualquer outra coisa menos uma princesa, pulou em cima de mim!
Foi um daqueles momentos realmente tensos que você não sabe o que salva: aquele pequeno ser de cinco anos ou as garrafas de vinho.
Você já deve ter imaginado o que optei.
Mas a realidade é que eu não tive muita opção.
Eu caí de costas no chão – ou melhor, na grama. Tinha numa das mãos uma das garrafas e a outra mão envolvia o pequeno corpinho da Leah, que na verdade, tinha tido a queda amortecida pelo meu corpo.
Assim que abri os olhos para verificar o meu estado, encontrei seus olhinhos brilhantes.
– Ta tudo bem, tio Alex?- ela me perguntou.
Eu teria tido vontade de socar alguém que acaba me derrubar daquele jeito, mas... Quem é que teria vontade de socar uma Princesa?
– Sim, estou bem. – me rendi. – E você?
– Sim, estou bem. – ela me imitou, enrolando a língua. – Foi muito legal! Vamos fazer de novo?
Garotinha insana.
– Claro que não vamos fazer de novo. É muito arriscado. – eu disse e dei uma olhada na outra garrafa de vinho. Espatifada no chão. Então, fiz um feitiço imperceptível de limpeza.
A baixinha não pareceu se importar muito com a minha resposta. Apenas pegou a minha mão e me puxou em direção ao jardim principal.
– Você está com fome, tio Alex? – me perguntou, mas não deixou que eu respondesse. – Temos muuuuuuitas comidas. Suco de uva, sanduíches de queijo, batata frita... O tio Jorge trouxe bolinhas de sabão para gente brincar... A mamãe trouxe biscoitos de framboesa que são os meus favoritos! E a vovó Molly preparou uma torta de chocolate!
Ao ver o Carlinhos, ela saiu correndo para pular em seu colo.
Gina já tinha me explicado tudo. Eponine era namorada de Carlinhos, mas a filha não era dele. Era do primeiro casamento dela. Eu entendia que a “vovó Molly” não era avó de verdade, mas era a forma que a baixinha tinha de entender mais ou menos o que ela representava.
Na família Malfoy, porém, isso jamais seria aceito.
Estavam todos sentados na grama, em volta de uma toalha repleta de variedades da culinária. Como eu já disse antes, a culinária extensa era um ponto fortíssimo da família Weasley.
– Voltei. – eu declarei e me sentei ao lado de Gina. No chão.
Às vezes, eu não acreditava que ela era capaz de fazer isso comigo.
Mas, inesperadamente, Gina agarrou meu pescoço e me deu um beijo incrível. Pude sentir a língua dela se envolver com a minha numa necessidade arrebatadora e suas unhas arranharem a minha nuca.
Às vezes, eu acreditava sim que ela era capaz de me forçar a fazer qualquer coisa.
– Hum... Gosto de uva. – eu disse, lambendo meus próprios lábios.
Ela sorriu para mim. E eu teria me perdido para sempre naqueles olhos castanhos e ingênuos caso eu não tivesse visto as caras de “mais um segundo disso e você vai morrer!” que os irmãos dela faziam.
– Ei, Jorge, Carlinhos, Rony! Eu trouxe vinho! – eu disse e rolei a garrafa pelo chão até eles. Era a minha passagem para a liberdade.
Pude sentir um aperto da Gina em minhas costelas.
– Ei, Alex! – Carlinhos chamou. – Venha beber conosco!
Eu forcei um sorriso.
Sabia que era um convite irrecusável.
Então, dando um selinho em Gina, fui em direção aos três.
Bom... Para quem tinha seis irmãos, três era uma enorme vantagem.
Nos encaminhamos para perto de uma árvore, na sombra, a uma boa distância da toalha e das outras pessoas.
Eu sabia que estava ferrado.
– Então, Alex... – Jorge disse, totalmente claro em sua ironia. – Os inocentes bebem, os culpados ficam na seca. Que tal?
Todos riram e me entregaram um copo com vinho.
Beber vinho em copo era um assassinato! Mas bom...
Eles queriam brincar? Bem... Eu sabia brincar.
– Primeira pergunta. – Rony disse. – Alguém está... Usando calcinha?
O quê?
– Não, Rony, você não sabe brincar! – Jorge reclamou. – A pergunta deveria ser: Alguém aqui já usou calcinhas alguma vez?
– Ah, tanto faz!
– Claro que não! Bebam!
Todos beberam... Exceto o Carlinhos. Diante dos olhares espantados, ele disse:
– O que foi? Todas as minhas cuecas estavam lavando! – ele se defendeu.
Mas não adiantou. Todos riram, inclusive eu. Apesar de não ser lá muito engraçado imaginar aquele cara enorme e cabeludo de calcinha.
– Segunda pergunta! – Jorge anunciou. – Alguém aqui já saiu com um homem?
Todos beberam imediatamente.
– Que pergunta fraca... – Rony disse. – A minha é melhor: Alguém aqui está mentindo para a namorada neste exato momento?
Eu fechei a cara no mesmo instante, e observei enquanto todos bebiam.
Mantive meu copo parado.
– O que está fazendo? – perguntei.
– Relaxa... Estou apenas fazendo a brincadeira ficar mais divertida.
– É mesmo? – eu disse. – Então encham os copos novamente! Vou fazer a minha pergunta! – todos preparam os copos. – Quem aqui já ficou com outras garotas porque não tinha coragem de pedir a garota que gostava em namoro por medo de ser rejeitado?
Todos beberam. Exceto o Rony.
– Minha vez: Quem foi que se tornou Apanhador do time de Quadribol da sua casa só porque o papai comprou Nimbus 2000 para todos da equipe?
Todos beberam. Exceto eu.
– Quem foi apelidado de Uon-uon pela namoradinha adolescente?
– Como você sabe disso? – Rony perguntou.
– Todos sabiam! – respondi.
Todos beberam. Exceto ele.
– Quem conversava com a Murta-Que-Geme no banheiro, desabafando sobre a sua triste vida? – Rony perguntou.
Todos beberam. Exceto eu.
Eu estava ficando nervoso. Mas essa, eu não ia perder.
– Quem recebeu uma detenção do Snape quando resolveu xinga-lo por não ter feito nada quando eu enfeiticei os dentes da Granger para ficarem enormes?
Todos gargalharam e beberam. Exceto o Rony.
– Quem aqui já foi transformado numa doninha saltitante?
Ok. Eu acabara de perder o jogo.
– Você virou uma doninha? – Jorge perguntou, incrédulo.
Eu não respondi. Apenas encarei o Weasley, que também me encarava.
– Ei, pessoal!
Era a Princesa Leah, gritando. Minha salvadora.
– O que foi, Princesa? – Carlinhos perguntou de volta.
– A vovó Molly vai cortar a torta!
Ela pulava e agitava os bracinhos finos no alto. Bom, pelo menos o mais alto que aquela baixinha podia alcançar.
– Vamos lá. – Carlinho disse e todos voltamos para o “piquenique”.
– O primeiro pedaço vai para o nosso “anfitrião”! – Molly disse. – Dê ao Alex o pedaço, por favor.
Rony passou o pedaço de bolo para mim.
Mas que clima amigável!
– Você pegaria um copo de suco para mim? – eu perguntei à Gina, assim que me sentei ao lado dela.
Gina sabia onde estavam os copos. Ela esticou as mãos e pegou um, sem erro e sem hesitação.
– Aqui está. – ela disse e o entregou para mim.
– Você é boa nisso. – comentei, dando uma enorme mordida no sanduíche.
– Muita prática. – ela disse. – Você devia ver os primeiros dias de cegueira. Eu me sentia completamente perdida. Achando que poderia abrir os olhos a qualquer momento e ver de novo. Depois, comecei a fazer exercícios para treinar distâncias, sentir mais cheiros, ouvir melhor... E muitos exercícios táteis também. Foi aí que encontrei a arte.
– Queria eu ter toda essa capacidade. – comentei.
– É só desenvolver. – ela disse. – Mas acredito que você não precise.
– Eu penso o contrário. – Eponine comentou. Ela tinha aparecido para servir suco de uva. – Acho que se todos desenvolvessem certas capacidades que aparentemente não sejam necessárias, poderíamos ser bem melhores no que fazemos de útil.
– É verdade. – Gina disse. – É isso que a arte faz. Aparentemente inútil, ela trabalha nossas habilidades, raciocínios e sentimentos, de modo que nos tornamos pessoas diferentes e mais capazes em alguns sentidos.
– E não só isso, mas acredito que a gente ainda desenvolva a nossa percepção. – Eponine continuou. – Eu faço questão de ensinar à Leah a dar “Bom dia”, a dizer “Por favor” e “Obrigada”. Não por uma questão de educação, mas porque acredito que dizer tudo isso é um costume, uma habilidade que pode gerar uma noção de nutrir bons sentimentos pelos outros.
Isso era sério? Eu nunca tinha aprendido isso.
E jamais pensara em dizer nada a ninguém, a não ser que fosse por algum interesse.
Ajudar velhinhas a atravessar a rua? Nunca.
Segurar crianças para que não caiam? Jamais.
Guiar cegos na rua? Há, há. Era irônico demais...
– Você cria a sua filha com muita dedicação, Epo. Eu gostaria de ser uma mãe tão maravilhosa quanto você.
Ouvi-la falar daquele jeito fez o meu coração gelar por um instante.
Imaginar a Gina... A minha Gina com uma criança nas mãos...
Uma criança ruiva.
Ou uma criança loira?
Pensar em ter um filho causava uma espécie de náuseas em mim. Eu não queria. Não queria mesmo.
Eu não tinha o menor talento para isso.
Porém, eu não podia deixar de achar linda aquela cena da minha imaginação. De achar puro, delicado.
Mas de puro e delicado eu não tinha nada.
Antes de sequer pensar em respirar, me ergui e saí dali.
Eu sabia que a Gina tinha sentido. Eu a ouvi me chamar, mas a ignorei.
Eu tinha acabado de entrar no salão do hotel quando a Granger apareceu.
– O que você está fazendo? – ela me perguntou e ainda ousou segurar o meu braço.
Você acredita nisso?
– Não é da sua conta, Granger.
– Ei! – ela disse. – Não fala alto! E eu acho que é da minha conta sim, até porque eu posso sair agora e contar tudo para Gina. O que você acha disso?
É... Tudo bem, ela sabia brincar.
Então, eu apenas balancei o meu braço e ela soltou a mão.
– Eu estou indo pegar uma bebida no bar.
– Outra?
Eu apenas lancei um olhar impaciente para ela.
– Ok. – ela disse, suspirando. – Posso te acompanhar?
Eu pensei um pouco. O que tinha demais?
– Se você quiser. – eu disse.
Talvez o Weasley me matasse. Mas e daí? Morrer agora parecia uma boa solução. E ainda ver a cara de raiva do Weasley... Seria um bônus bem merecido.
O bar do Luna Baglioni era impressionantemente luxuoso. Comecei a me perguntar por que eu não me mudava logo para lá...
Então, tirando a minha atenção, Granger se sentou em frente ao balcão.
– Eu gostaria de um coquetel, por favor. – ela pediu, para a minha surpresa.
– E o senhor? – o barman perguntou.
– Ah... Um uísque.
Eu me sentei no banco ao lado.
As duas bebidas chegaram juntas e, após pequenos goles, Granger finalmente olhou para mim:
– Você sabe que isso não vai durar muito, não é?
Pensei sobre o que ela acabar de dizer.
– Por que não?
– Ontem, Dino Thomas. Amanhã, quem sabe alguém mais te reconhece?
– Isso não vai acontecer. – eu disse e bebi meu uísque.
– Draco... – ela começou. É sério? A Granger me chamando pelo primeiro nome? – Por que você não vai até a Polícia Bruxa e conta toda a verdade? Você tem testemunhas.
Ela estava falando dela e do Weasley-melhor-amiguinho-do-Potter?
– Você acha mesmo que eu vou confiar em você e no Weasley?
A Granger fez uma cara que eu odiava. A cara que ela fazia quando estava insultada por alguma pergunta burra ou algo do tipo.
– Malfoy, o que você fez foi muito importante. Foi isso que nos salvou. Você acha mesmo que nós vamos depor contra você depois disso?
– E os Comensais? – eu perguntei. – Vocês vão depor a meu favor quando eu for pego e ameaçado de morte?
Ela fez uma careta.
Ah, bom. Agora ela me dava razão.
Eu não podia contar para a Gina. Eu não podia contar para o mundo.
Puxando quase todo o conteúdo do coquetel pelo canudo, a Granger limpou a boca com um guardanapo e se virou para mim:
– Tudo o que eu quero que você pense é que isso não vai durar. Mentiras não duram para sempre, Malfoy. E se você contar tudo para a Gina, e contar para ela sobre o seu “segredo de guerra”, ela pode acabar entendendo. Pode aceitar e perdoar. E então, assim que acontecer, vocês podem pensar juntos na melhor opção. Porém, se você não contar a ela... Se você não contar a ela, pode ter certeza que ela vai acabar descobrindo e você pode acabar sendo desmascarado para o mundo inteiro. Se isso acontecer, o que você vai fazer?
Após a última palavra, a Granger deixou algumas moedas no balcão e saiu.
Ela tinha razão.
Como eu odiava dizer isso, mas ela tinha razão.
Mas não havia nada que eu pudesse fazer. Nada.
Tudo o que eu podia fazer era voltar a ser Alex Villard e viver para sempre nessa mentira. Na mentira que tinha trazido a Gina para mim.
A mentira tem perna curta.
Mas eu a alongaria o quanto pudesse.
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Ah, se eu soubesse que a verdade chegaria tão rápido...
Fazia três meses que família Weasley tinha voltado para Londres.
Fazia dois dias que eu e Gina estávamos também em Londres, para o maior evento de todos: a exposição de conclusão de metade do curso da Gina.
No dia anterior, Gina estava prestes a tacar qualquer objeto perigoso na direção de quem quer que ousasse se aproximar.
Para dar veracidade à minha afirmação, posso dizer que quando a levei ao shopping para comprar uma roupa para a exposição, ela experimentou umas cinquenta peças de roupa. E nada parecia estar bom.
Quando eu disse que ela estava simplesmente linda no vestido longo azul marinho, ela quase me mandou para o inferno.
Não que a Gina fizesse esse tipo de coisa. Como eu disse, ela quase fez.
Depois que finalmente conseguiu fazer as compras, voltamos para o hotel e ela passou o dia escrevendo uma espécie de discurso, que ela me garantia que teria que fazer... Tinha muita gente para agradecer e muitas referências artísticas a citar.
Eu também estava nervoso. Mas por motivos que ela não poderia imaginar.
Eu tinha sido chamado para comparecer à delegacia amanhã. Mas eu não iria. Tinha minhas prioridades.
Para tentar me acalmar, tomei dois copos de água e levei um para ela.
Porém, ela o derrubou em cima de mim e brigou comigo.
Então você pergunta: “Ah, deve ter sido sem querer... Ela não vê, não é?”.
E eu te respondo: Gina Weasley, cega ou não, não derruba copos de água assim. A menos que seja de propósito.
Mas O.K. Um Malfoy sabia reconhecer a hora de se retirar.
Fiquei no quarto o dia todo. Tirei os sapatos, soltei alguns botões da camisa, peguei uma taça de vinho, e fiquei lendo revistas de economia. Não era exatamente meu passatempo favorito, mas era bom para pensar no melhor futuro para o meu dinheiro.
Mais tarde, pedi uma pizza. Coloquei num prato e avisei à Gina que estava em cima da mesa. O outro prato, eu levei para o quarto e me deliciei em cima da cama.
Pensar naqueles pequenos prazeres era tudo o que eu podia fazer no momento.
Umas nove horas da noite, Gina entrou no quarto.
Ela inspirou fundo e soube que eu estava ali.
– Oi. – disse, a expressão de “me desculpa” bem clara em seus olhos.
– Oi. – respondi.
Ela se aproximou vagarosamente e se sentou ao meu lado. Ao procurar pelo meu rosto, encontrou meu peito nu. Ela me acariciou.
Eu apenas a olhei. Vestia uma camisa de botões e um short curtinho que ela usava como pijamas.
– Está tentando me seduzir? – perguntei.
Ela riu.
– Não.
– Mas está funcionando. – eu disse e escorreguei uma mão para debaixo do short dela.
Ela inspirou fundo novamente e pulou para cima de mim com uma agilidade digna de uma jogadora de Quadribol.
Esticando-me para cima, a beijei com todo o meu amor.
Em resposta, ela impulsionou os quadris de encontro a mim, me fazendo gemer alto.
– Gostou? – ela perguntou.
– Você não sabe o quanto...
Então Gina fez de novo. E de novo, e de novo.
Minha calça estava completamente apertada e meu corpo latejava de desejo por ela.
Com pressa, peguei a minha varinha e abri os botões da sua blusa, revelando um sexy sutiã branco que escondiam os seios mais maravilhosos que eu já vira.
Tocando a leve renda branca, senti-a estremecer por inteiro. E ela continuou a reagir assim a cada toque em sua barriga, coxas, pernas...
Eu desfiz o coque que prendia os seus cabelos, revelando aquela cascata vermelha e escandalosa que eu tanto adorava. Depois, puxei sua cabeça para trás e beijei seu pescoço.
Senti a sua respiração instável e as suas mãos avançarem pela minha barriga, tirando a minha camisa.
– Tão delicada... – eu comentei.
Ela riu e me estapeou:
– É você que é um ogro.
Ogro?
– Ah, é, Gina Weasley? – eu segurei a sua cintura com firmeza. – Você vai ver o que esse ogro aqui vai fazer com você.
Então, a segurei nos braços e a deitei na cama, me debruçando sobre ela.
– Oh! – ela exclamou assim que colei meus lábios entre os seios dela.
Gina agarrou meus cabelos e ela mesma soltou o fecho do sutiã.
– Você pode ser mais forte... – ela disse, revelando os seios empinados e nus. – Mas eu sou mais rápida.
Eu não consegui dizer nada, apenas beijei seus seios com todo fervor, achando que eu acabaria me liberando antes do tempo.
Inesperadamente, senti a pequena mão da Gina apertar minha virilidade.
– Ah... – eu deixei escapar e liberei espaço entre os nossos corpos para que ela continuasse.
Me levar à loucura era o que aquela mulher sabia fazer com maestria.
Me controlando ao máximo, puxei seu short para baixo, junto com a calcinha vermelha...
– São cores diferentes... – comentei, me sentindo um pouco idiota.
– É... – ela sorriu. – Decidi inventar uma moda. – ela gargalhou alto com o que disse. – Mentira... Apenas estava com pressa para tatear a certa.
Eu a beijei.
– Bom... Eu gostei.- disse, roçando seu lábios e a toquei profundamente.
– Oh... – ela gemeu e apertou meu membro em reação.
Aquilo estava maravilhoso, mas eu sabia que não suportaria por muito tempo.
Então, a puxei de encontro a mim, sentando-a no meu colo.
Olhando em seus olhos, a penetrei com todo o meu amor. A sua reação imediata foi apertar meus ombros e suspirar.
Eu segurei seus quadris, impulsionando-me ainda mais, o máximo que fosse possível.
Alguns segundos depois, Gina começou a se mover sobre mim. Eu a ajudava, segurando a sua cintura, levando-a para cima e para baixo.
A cada contato, mais prazer sentíamos. A cada movimento, mais próximos estávamos do êxtase.
Quando Gina parou o movimento rápido e fez um único movimento para ir mais fundo, eu percebi que não aguentaria mais.
Mas eu não queria chegar lá sem ela...
Não queria, nunca mais, sentir prazer sem que ela sentisse... Não queria, nunca mais, sorrir sem que ela sorrisse... Não queria, nunca mais em minha vida, amar outra mulher...
Então, segurei sua cintura para que ela parasse de se mover. Ela pareceu incrédula e procurou pelo meu rosto.
– O que foi?
– Você já está chegando lá? – perguntei.
– Falta um pouco ainda. – ela disse.
– Vamos resolver isso... – e sem pensar, diante de toda a adrenalina, eu saí de dentro dela e a deitei na cama.
Rapidamente, abri suas pernas e afundei os lábios lá.
Gina deixou vários gemidos escaparem, enquanto eu movimentava minha língua em seu clitóris vagarosamente, e depois com rapidez.
Por um momento, tive que segurar suas pernas para que não se mexessem demais...
– Eu estou... – ela arfou. – Quase lá...
Eu dei tudo de mim, movimentando a língua com rapidez e firmeza, sentindo-a completamente molhada até que a Gina estremecesse e apertasse os lençóis com força.
Aproveitei o momento para olhar para ela. Não havia coisa mais satisfatória do que ver uma mulher chegar ao orgasmo.
Do que ver a minha mulher chegar ao orgasmo.
Gina esticou o corpo todo, se deliciando com o que acabara de sentir.
– O que você está esperando? – ela perguntou, ao não sentir nenhum movimento. – Vem logo.
Eu a segurei nos braços, beijando-a com fervor e a penetrei novamente.
Fácil... Escorregadio. Nós nos encaixávamos perfeitamente.
Em poucos e intensos movimentos, senti o frenesi do orgasmo tomar conta de todo o meu corpo.
Uau. Aquilo era maravilhoso.
Como sempre, Gina esperou que eu me recuperasse para se mexer.
Depois, ela foi tomar um banho quente.
Eu fui preparar um chá, que eu sabia que ela adorava, e também que era o tipo de culinária simples que eu dominava.
Nos encontramos na cama, novamente.
Trocando alguns beijos e carinhos, bebemos o chá e nos deitamos.
Eu a envolvi em meus braços, colando nossos corpos.
– É sempre maravilhoso quando a gente faz amor... – ela começou. – Mas hoje foi ainda mais.
Eu só podia concordar.
E quando inspirei o cheiro de morango em seus cabelos e percebi a respiração dela ir se acalmando, eu tive uma imensa certeza de que, seja lá o que fosse acontecer, nós ficaríamos juntos.
Mesmo que ela soubesse de toda a verdade.
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No dia 3 de outubro, o dia da exposição, Gina foi à loja de artes para verificar as obras e acertar os últimos detalhes.
Eu fiquei no hotel, esperando, como sempre, que algum Weasley viesse me ameaçar por eu não ter contado a verdade até agora.
Era mentira. Eu sabia que eles não viriam.
Era o dia especial da Gina.
E foi mesmo.
Eu esperei ansiosamente até a hora de começar a exposição para encontra-la. Eu não podia ser visto andando nas ruas de Londres. Não naquele dia, ao menos.
Assim que a encontrei, ainda na loja de artes, me espantei novamente em como me sentia ao vê-la. E ainda mais, quando eu a via naquela relação inexplicável com a sua arte.
– Você chegou cedo. – ela sussurrou, os olhos ansiosos, e me procurou com os braços.
Interessante. Eu tinha esperado quase uma hora para não chegar tão cedo.
Eu a puxei para perto de mim e afundei o rosto nos fios de fogo. Sua pele queimava na minha, e eu achei que poderia amá-la ali mesmo, na frente de tantas obras de arte.
– Eu imaginei que você fosse precisar de mim.
– Eu preciso de você o tempo todo. – ela disse no meu pescoço.
Logo depois, Elisa, a sua amiga e produtora, veio chama-la.
Como eu já contei no Prólogo dessa história, e você deve se lembrar, assim que entramos na sala de exposição, Gina foi recebida por muitos aplausos. E eu não estou exagerando. Havia muita gente ali para homenageá-la.
E enquanto todos se aproximavam para cumprimenta-la... Enquanto todos a parabenizavam e diziam para ela o quanto era incrível, eu apenas ficava pensando no dia em que tudo chegaria ao fim.
Gina era o amor da minha vida. E o único motivo disso: Ela era cega.
Porque no momento em que voltasse a enxergar, ela descobriria que eu não era Alex Villard.
E que tudo o que seu coração enxergava era uma mentira.
Uma mentira de Draco Malfoy.
Mas a realidade era muito mais dura do que eu poderia pensar.
Gina não precisou voltar a enxergar. Ninguém precisou contar a ela.
Eu jamais contei a verdade.
Mas ela descobriu?
E como foi que ela fez isso?
Os policiais britânicos invadiram a exposição com um mandato de prisão para Draco Malfoy.
– Estamos procurando pelo Sr. Draco Malfoy. – eles disseram.
– Sou eu. – eu disse.
Você acredita que eu disse isso?
Bom, eu não podia mais negar. Todos ali sabiam. Os policiais sabiam.
Menos a Gina.
– Mas, espera, Alex... – ela disse, a voz fraca, enquanto segurava o meu braço.
Eu não podia mais olhar para ela.
Hermione veio até ela e pôs a mão em seus ombros.
– Vem aqui, Gina. – ela disse.
– Por quê? Eles querem o Draco Malfoy, não o Alex...
A sala estava tão repleta de silêncio quanto de pessoas.
– O senhor está preso. – um dos policiais disse e se preparou para me algemar.
E o meu coração estava disparado diante do desespero de pensar que...
Não tinha mais jeito. Não tinha mais volta. Eu precisava dizer...
– Gina... – murmurei. – Eu sou Draco Malfoy.
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