Quelíceras
6 Interrupção
Não foi difícil coletar mais informações sobre as recentes estranhezas em Nueva York. As pessoas ali só não sabiam do que se tratava, tanto que era difícil decidir qual departamento científico nas faculdades locais seriam convocadas para tentar estudar a questão. Miguel sabia que nenhum departamento conseguiria resolver, porém. Nenhum departamento acadêmico, nem divisão governamental seriam úteis, ao menos não tão rápido quanto deveriam. Naquele universo, a Alchemax não existia e o reator, fonte de problemas e também de conhecimento sobre o multiverso em diversas realidades, jamais tinha sido construído.
Seguir o padrão de falhas da realidade era complicado. Ele seguiu por um lado, perdeu o rastro, voltou ao começo e arriscou em outra direção. Pouco a pouco, com os minutos escorrendo na madrugada, uma suspeita formou-se em sua cabeça. Retornou ao primeiro ponto onde chegara ao universo 928B.2, dias atrás: uma rua escura, se não fosse o poste de luz fraca no beco, pelos letreiros neon rosa-choque que mal iluminavam bem o chão. Ainda havia uma marca escura ali, que de dia ninguém iria saber que havia sido sangue a verter naquele local. E não foi só pela atmosfera de morte que Miguel sentiu o ambiente tremular: um glitch mais leve abalou as estruturas de um prédio próximo.
Encarou o ponto onde tinha visto o próprio rosto morto. Naquele instante, o corpo já estava em estágios mais avançados de decomposição, mas ainda teria carne. Mas não estava ali; Miguel tinha deixado o outro Miguel apodrecer em outro universo.
— Então eu tenho que morrer.
Lyla interrompeu seu processamento de dados para questionar o disparate.
— De onde você tirou isso?
— Pode parar de processar petabytes de dados, Lyla.
— Ainda não consegui localizar qual evento ocasionou a quebra do cânone ou se é um conjunto deles. Sem Aranha aqui, fica difícil mapear.
— É isso. Você está na hipótese errada. — Disse ele, resoluto. — Não há um Aranha aqui. Não existem outros eventos acontecendo sequer para serem quebrados por causa disso.
Lyla não suportou ser apenas uma voz naquele diálogo. Materializou-se como um holograma de tamanho normal à sua frente, caminhando em torno da marca de sangue.
— Ele morreu por um acaso. Nenhum vilão provocou isso, interrompendo a trajetória do outro Miguel se tornar herói. Esse evento foi natural. Esse Miguel não seria um Aranha.
— O Aranha não sou eu, Lyla. Eu deveria estar morto, de fato.
— Então, quem…?
Miguel deixou o rosto à mostra, sem a máscara, e encarou-a fundo, o máximo que poderia encarar um ser feito de feixes de luz. Sempre tão positiva, sempre tão espevitada. E ao encará-lo de volta, seus tons de laranja tornaram-se fúnebres. Ela havia entendido.
— Gabriella.
— Sim. Eu… Eu interrompi o que mal tinha começado.
— Bom, é simples de resolver, não? Você tem que deixá-la.
— Como, Lyla? Como eu posso deixá-la?
A holograma diminuiu e flutuou até seu rosto, iluminando-o de forma pálida. No entanto, frente aos seus olhos marejados e voz embargada, Lyla não tinha resposta. Miguel era um homem em ruínas.
***
Quando Miguel idealizara a Sociedade Aranha, o intuito era que ele se tornasse seu principal exemplo: resoluto, disposto a fazer o necessário, racional. Não tinha ilusão de virtude, mas se imaginava mais sensato do que agora. Era o que ele queria para si, para todos que viriam a ser Aranhas como ele. Falhou. Quebrara um Evento Canônico antes mesmo da vida de uma nova Aranha começar.
E agora?
Voltou para casa com o dia quase amanhecendo. Manteve a postura para levar sua filha até a escola e conseguiu sustentar bem o ritmo durante o trabalho na Apotena, ainda motivado pela ruptura circulando em seu corpo. Durante todo o expediente, formulou um plano e pediu que Lyla anotasse um guia: para o bem de Gabriella, Miguel teria que partir. Isto era um fato. Gabi não vivia sem seu próprio mundo, nem imaginava a existência de diversas outras realidades. Por isso, levá-la para a Sociedade Aranha para só deixar aquela dimensão implodir e colocar um relógio multidimensional no pulso da menina, seria tolice. Em perspectivas mais realistas, seria crueldade.
Então, quando chegou antes mesmo de Gabriella voltar da escola, deixou todas as senhas anotadas em um caderno na sala: senha do seu tablet, para que Gabi pudesse acessar os aplicativos do pai; a tal planilha financeira, os documentos da casa e do carro, o banco… E então pediu para Lyla rastrear Gabriel, seu irmão. Ao contrário dos pais dos dois, Gabriel ainda estava vivo — e era distante de Miguel, por mais que morasse relativamente perto: em Jersey. Ainda naquela realidade, durante o começo da juventude, o outro Miguel também tivera escolhas questionáveis. Não seria o primeiro, nem o último. No entanto, aquele foi um dos Miguéis que escolheu se engraçar com a namorada do irmão, Dana D'Angelo. Desde então, Gabriel e Miguel mal se viam, exceto nos aniversários de Gabi. Ele confiava que Gabriel pudesse cuidar dela. Por isso, deixou o contato e a indicação da relação de sangue entre eles anotados. Fácil de Gabi ou outro adulto encontrar.
Organizou também a cozinha, as roupas. Nada deveria ser um estorvo.
Quando deitou-se no sofá, contemplou como seria o fim. Ou ao menos, o seu fim naquela realidade. Pelo visto, nem suas pálpebras quase fechadas tamparam a ideia que se formava atrás de seus olhos. Lyla apareceu diante de seu nariz, sem tempo para gracejos ou charme. Quase como uma gênio lendo seus pensamentos — ou tentando.
— Me diga que pensa só em uma encenação da sua… Partida.
— Não sei. Nunca fui bom mentiroso, por mais que minha mãe vivesse dizendo o contrário.
— Há mais pessoas que precisam de você. Um universo realmente seu que pode entrar em colapso.
— Eu sei. Pessoas que precisam de mim. E que não necessariamente me querem lá.
Houve uma pausa. Estava cansado, muito cansado. A ruptura agora cobrava sua dose cavalar de energia, deixando-o amolecido sobre o sofá. Fechou os olhos. Não tinha esperança de aquilo não passasse de um pesadelo.
— Ela vai sofrer. Mas se… Se eu só for embora, será pior. Acho que morte é melhor do que abandono.
— Mas você não precisa morrer de verdade. O Miguel daqui já morreu.
— Ah, Lyla. E eu estarei vivo depois disso tudo?
Silêncio. Gabriella já tinha perdido a mãe. Era injusto, indigno e perverso que as linhas do destino a condenasse a perder o pai também. Miguel não tinha nada exceto seu trabalho como herói, seu fardo. Imaginava que alguém deveria achar muito engraçado vê-lo perder sua única preciosidade. Com pesar, porém, ele sabia que não seriam as únicas pessoas no mundo a não terem o que queriam, o que precisavam.
Acordou assustado, com o corpo sobressaltado sobre o sofá. Não tinha percebido que caíra no sono tão pesado e por tantas horas. Lá fora já estava escuro e as luzes da sala estavam ligadas. Ao checar no relógio, no entanto, viu que não estava tão tarde assim. E do sofá, pôde ver uma figura no quintal, iluminada pelos holofotes.
Sua filha.
Levantou-se e abriu a varanda, caminhou com calma. No meio do caminho, já chamou-a.
— Gabriella. Por que não avisou seu pai que já tinha chegado?
— Te achei cansado de manhã, papá. Deixei você dormir.
Estava com bermuda e camiseta, agachada na grama e vendo alguma coisa. Não moveu-se. Seria um grilo? Um gafanhoto? Ou então um michi? Ela tinha comentado que queria um. Um gato frajola, que ela também chamava de gato-de-terno e gato-vaquilla.
— ¿Y qué estás haciendo ahí?
Enfim, a menina virou-se com uma aranha nas mãos, no centro de sua palma. Nada, de fato, ameaçadora. Não para quem a conhecesse. Mas qualquer um poderia matá-la só por vê-la no lugar errado, enquanto a pobre tentava viver.
— Encontré una arañita.
— E não precisou do seu pai para levar de volta no jardim?
— Não. — Ela sorriu. — Ela tava na cozinha.
— E encontrou quem já não tem medo de quelíceras.
— Isso! E ela não é má. Faz cócegas. Acho que precisa de um pouco de ajuda para voltar para casa, só isso. Em paz.
Miguel ficou com ela até que a aranha estivesse em segurança nas folhagens do quintal, pronta para ir para seu destino, construir teias de novo. E ele abraçou a filha de lado enquanto caminhavam para dentro. Sua menina falava de como tinha criado coragem para pegar a aranha nas mãos, depois de pesquisar por captura de imagem no celular se era peçonhenta ou não. Narrou que lembrava-se direitinho da explicação do pai. Seus olhos brilhavam muito grandes, muito castanhos e Miguel se perguntou se aquela aranha também havia sentido tanto carinho ao encarar Gabriella com os quatro pares de olhos.
Não havia sido morta só por ter sido flagrada onde não deveria. Em segredo, Miguel desejou que o destino lhe concedesse a mesma bondade.
Quando soltou-a, já dentro da sala, sua filha então revelou aquele seu olhar inteligente, quase travesso. Miguel quase esqueceu-se de todos os problemas para só se preocupar como pai com o que ela tinha aprontado. Ela tratou de explicar:
— Vi que você deixou a senha do banco anotada… Daí pedi também hambúrguer pra gente. E sobremesa.
— Gabriella.
— É que você parecia tão…Tão… Cansado. Quase como se não fosse você mesmo.
Ele apertou sua bochecha.
— Dessa vez, passa. É sexta-feira.
— Acho que não é você mesmo. Anda muito mais legal. Não tá doente, né? Vi um frasco na mesa e um outro troço estranho.
— Não, Gabi. Seu velho aqui é… Desajustado, — Por Díos. Conchata estava certa. Ele era um mentiroso terrível. — Mas aquilo era só um experimento do trabalho. Tá tudo certo.
Com ela abraçando-o de novo, Miguel tinha certeza de que infelizmente faria todas as vontades dela; menos, pelo seu bem, a vontade mais fundamental de todas: sua presença.
Fale com o autor