Queen of Titans
6 V- Wild Creatures
Notas iniciais
22 de Junho de 2171; Castelo de Balmoral, Escócia
Thomas->
Aquele mundo era frio, escuro, e cruel, e ele me devorava.
Mexendo meus braços em vão, procurando desesperadamente por ar, eu queimava de dentro para fora, afundando cada vez mais rápido, cada vez mais impotente. Logo o sal invadia os meus pulmões e se enrijecia em minhas entranhas, e eu era pedra dura e morta, observando do fundo do mar as ondas rugirem sobre minha cabeça.
—Tom?- uma voz ecoou pela água, abafada e distante- Tom, acorda, cara.
A voz de Henry. Mas que diabos?
—Tom, acorda!- logo a voz era mais alta, mais insistente, e eu podia sentir meu corpo sendo agitado pelas ondas de um lado para o outro.
—TOM!- a voz era um grito, e eu sentia meu tronco sendo balançado com força, a consciência me invadindo de maneira abrupta.
Meus olhos se abriram de repente, e a luz forte daquele mundo mais sólido e menos gelado me cegou momentaneamente. Quando eles finalmente tomaram foco, eu pude ver Henry logo acima de mim, me observando, curioso.
—Outro pesadelo?- ele perguntou assim que me descobriu acordado, parando de balançar o meu ombro.
Eu pisquei algumas vezes, ligeiramente confuso, antes de conseguir responder apropriadamente.
—Como sempre- eu respondi, me assentando na cama- Obrigado por me acordar, eu não acho que eu conseguiria sozinho.
—Não há de quê- Henry respondeu, se levantando- Já passava da hora, de qualquer jeito.
Ele me ofereceu a mão para me dar um impulso, e eu aceitei, me colocando de pé.
—Bem, agora que você está acordado, vou mandar que os criados selem os cavalos- Henry disse, animado, já caminhando até a porta.
Eu percebi que ele já estava completamente vestido em suas roupas de montaria.
—Ei, calma aí- eu protestei, me espreguiçando- Estou com fome, e ainda estou de pijama.
—Ah, verdade- Henry reconheceu, ainda um pouco distraído- Tem comida lá embaixo, vamos lá. Quem sabe eu não coma de novo?
Eu me vesti o mais rápido que pude, e eu e Henry comemos sem muita conversa, querendo terminar logo.
—Pronto, vamos- eu anunciei, virando as últimas gotas de suco garganta abaixo e me erguendo em um salto.
Henry esboçou um sorriso semi-maníaco.
—Finalmente. Anda logo, os cavalos estão prontos- e me puxou pelo braço até o lado de fora.
De fato, lá estava Balerion, meu imponente puro-sangue negro, relinchando impacientemente enquanto tentava se soltar da mão de Justin, o encarregado dos estábulos. Meraxes, cinzenta e ligeiramente menor, se agitava em sua outra mão, animada por ver Henry. Nós havíamos escolhido aqueles cavalos quando ainda éramos crianças, e embora Henry amasse Meraxes, ele às vezes reclamava por ter ficado inadvertidamente com o cavalo menor. Mas ele não tinha o que realmente reclamar, Meraxes sempre foi mais rápida e ágil que Balerion, e bem mais obediente também. Não que ele tivesse como saber quando a escolheu. Apesar dos avanços da engenharia genética, a Família Real inglesa ainda criava seus cavalos à moda antiga, um resquício de tradição que eles insistiam em manter.
Balerion era forte e difícil de lidar, selvagem por mais que conseguíssemos trabalhar juntos, e orgulhoso acima de tudo. Aquele cavalo era uma lição de humildade, porque me ensinou que você não pode controlar tudo, e que, para ser respeitado, é necessário primeiro saber respeitar.
Eu me aproximei dele lentamente, com cuidado e deferência, como sempre, e ele aceitou meu toque com o máximo de calma que um cavalo selvagem poderia aceitar. Logo eu peguei suas rédeas da mão de Justin, e consegui montá-lo, o guiando a princípio lentamente, e então mais rápido até o campo aberto. Henry já havia disparado na minha frente, Meraxes era fácil de lidar e extremamente rápida, e eu sabia que Balerion não aceitaria dar uma arrancada muito veloz logo de cara, mas eu não ligava. Logo Meraxes se cansaria, e diminuiria o passo, e Balerion a alcançaria. Ele podia não ser o mais rápido, mas era bem mais resistente, e cavalgadas longas e estáveis sempre foram no que ele se destacava.
Eu sentia o vento passando pelo meu rosto, pelo meu cabelo, e eu nunca entenderia aqueles protagonistas de romance vitoriano que comparavam o toque do vento a uma carícia, aos beijos de uma amante. O vento tinha mãos firmes, que te seguravam com audácia, e que tentavam te derrubar. Cortar através dele era vencer uma batalha, e não era nenhuma sensação de ternura, e sim de triunfo.
Eu decidi testar até onde Balerion estava disposto a ir naquele dia, e o esporeei, um pouco desejoso de ultrapassar Henry, que estava cada vez mais próximo, uma vez que Meraxes começara a se cansar. O cavalo respondeu imediatamente, e com afinco, e disparou em uma velocidade impressionante. Poucos segundos mais tarde, eu olhava Henry nos olhos, e lhe ofereci um sorriso debochado antes de passá-lo completamente.
—Isso não vai ficar assim, Thomas!- eu o ouviu gritar em minhas costas, as palavras distorcidas parcialmente pelo vento.
—Coma minha poeira, Vossa Alteza!- eu respondi, dando uma olhadela atrevida para trás.
Não sei quanto tempo se passou, mas presumivelmente nós corremos por horas, pois quando finalmente decidimos parar, o sol da tarde estava à pino, e minha barriga roncava de fome novamente.
—Eu trouxe sanduíches- Henry anunciou, se assentando à sombra de um grande carvalho. De fato, em suas mãos estavam dois embrulhos de papel alumínio, retirados do bolso da sela de Meraxes antes dele soltá-la para um descanso.
—Excelente, estou morrendo de fome- eu disse, descendo de Balerion e o soltando para passear nas cercanias.
Me assentei ao lado de Henry, e ele me ofereceu um dos embrulhos.
—Espero que a maionese não tenha azedado, está bem quente- ele murmurou, abrindo seu embrulho e cheirando o sanduíche- Acho que está bom. Não quero arriscar passar mal no dia do meu aniversário.
Nós rimos juntos, provavelmente imaginando a visão ridícula de um Príncipe com problemas intestinais no próprio baile.
—Feliz aniversário, cara- eu trombei meu sanduíche contra o dele em um brinde desajeitado, e nós começamos a comer- Ansioso para hoje à noite?
Henry deu de ombros.
—Não muito, acho que vai ser como sempre.
Eu o encarei por um instante, e ele realmente parecia bastante desinteressado.
—Bem, você vai se tornar um adulto agora. Logo será coroado o Príncipe de Gales, cheio de deveres com o reino- eu comentei e Henry soltou um risinho debochado.
—Todos sabemos que meus pais e Justine não deixam muitos “deveres com o reino” para mim, então duvido que algo realmente vá mudar. Mas pelo menos a festa vai ser boa.
Eu parei de comer, e me virei para olhá-lo nos olhos.
—Henry, não fale assim, todos confiam muito em você. Eles só querem o seu melhor, querem te guiar e cuidar de você durante sua trajetória.
Henry não pareceu muito convencido.
—Talvez, mas, de qualquer jeito, eu me tornar um adulto não vai mudar nada.
Eu dei de ombros.
—Sinceramente, bom para você. Queria poder ser um desocupado também- eu provoquei, em um tom brincalhão.
Henry riu, se fingindo de ofendido.
—Diz o desocupado que me acompanha em minhas vadiagens- ele replicou, e nós gargalhamos juntos.
—Bem, é esse desocupado que vai te levar de volta pra casa a tempo da festa- eu disse, mordendo mais uma parte do sanduíche- Prometi à sua mãe que te traria de volta antes das cinco.
Henry fez uma careta.
—Ainda temos um tempo antes disso, caro vadio. Por enquanto, vamos almoçar e fingir que não temos absolutamente nenhuma responsabilidade nesse mundo.
—Nós podemos fazer isso.
O resto da tarde foi passada nas costas dos cavalos, correndo tão rápido quanto era possível, tentando ignorar tudo o que não fosse a eterna batalha contra o vento e o cheiro verde da grama gentilmente tostada pelo sol.
Ainda assim, um pensamento incômodo pinicava fundo na minha mente, e por mais que eu tentasse afastá-lo, ele voltava. Eu não queria diminuir Henry de maneira alguma, mas não podia evitar pensar que ele estava reclamando de barriga cheia. Quero dizer, não havia nada que eu desejasse mais do que alguém para me guiar, para me amparar, para me ensinar o que ser um Duque realmente significava. O título havia sido investido a mim cinco anos antes, assim que eu havia completado dezesseis, e o mais próximo que eu tivera de ajuda fora o pai de Evie, o Visconde de Leeds, para me aconselhar. Mas ninguém nunca havia pegado na minha mão e me ensinado como governar, eu tive que aprender tudo na marra, então me parecia especialmente mimado da parte de Henry reclamar que sua família se preocupava com ele e com seu crescimento como governante na frente de alguém como eu: um órfão.
—Eu preciso de um banho- Henry disse assim que chegamos novamente ao Castelo, tirando seu capacete e passando a mão pelos cabelos suados- Quanto tempo temos?
Eu olhei meu relógio de pulso. Eram três e meia.
—Uma hora no máximo, se queremos chegar no horário que eu prometi à sua mãe- eu respondi, tirando minhas botas enlameadas antes de entrar.
—É mais que o suficiente- ele respondeu- Será que dá tempo de lanchar de novo?
—Henry...
—O que foi? Não me diga que não está com fome.
—O pior é que eu estou.
—Então vamos comer, vai dar tempo.
Eu o encarei, um pouco descrente, mas acabei concordando:
—Está bem.
Foi isso que fizemos, e logo estávamos limpos e de barriga cheia, andando juntos até o jatinho que nos aguardava na parte de trás do jardim. O voo não demorou mais que vinte minutos, e logo estávamos aterrizando no Palácio, dez minutos antes das cinco.
—Eu diria que esse é o maior milagre do século- ouvimos a voz de Justine assim que descemos do jato, e a vimos andando na nossa direção, um raro sorriso no rosto- Acho que nunca os vi chegando adiantados antes. Aproveitaram a escapada dos meninos?
—Foi excelente, quase não consegui convencer Henry a voltar- eu zombei, a puxando para um abraço.
—Mentira, eu que tive de arrastar Tom de volta para o Palácio- Henry replicou, abraçando a irmã logo em seguida.
—Algo me diz que devo acreditar no Tom- Justine riu- Feliz aniversário, maninho. É bom te ter de volta. Agora venham, mamãe já está esperando vocês.
—Eu sabia que estaria. Por que acha que cheguei adiantado?- eu respondi, já a seguindo para dentro do Palácio.
A Rainha Millicent era como uma segunda mãe para mim, até porque eu havia procurado figuras maternais e paternais por todos os cantos da nobreza inglesa desde que eu perdera meus pais. Mas os meus dois preferidos eram sem dúvidas o Visconde de Leeds e a Rainha, que haviam cuidado de mim quando criança, e me ajudado em meus deveres desde que eu fora declarado um adulto. Eu tinha parentesco com a Rainha, era filho de uma de suas primas, mas ela havia me acolhido de um jeito que ia muito além de suas obrigações, e por isso eu lhe seria eternamente grato.
—Tia Millie!- eu a cumprimentei, sorrindo, assim que a vi parada ao lado de uma mesa com papéis e planejamentos sobre o baile.
—Tom, meu querido!- ela me abraçou- Vejo que trouxe Henry de volta inteiro.
Henry riu.
—Por pouco, dessa vez- ele gracejou- Quase caí do cavalo hoje de manhã.
A Rainha fez uma careta.
—Um Príncipe com a perna quebrada no dia do seu próprio aniversário. Encantador- ela disse.
Eu e Henry nos entreolhamos, nos lembrando do episódio com a maionese, e então caímos no riso.
—Bem, eu diria que há coisas piores- Henry disse, se aproximando para cumprimentar a mãe. Ao invés de um abraço rápido, contudo, a Rainha o puxou para um abraço apertado, e Henry sorriu, ligeiramente envergonhado.
—Feliz aniversário, meu filhote!
—Obrigado, mãe.
Eu segurei uma risada, e olhei para Justine, que também parecia conter o próprio riso.
—Bem, agora vocês precisam se arrumar- Tia Millie disse- Quero tirar pelo menos algumas fotos de vocês no Salão antes que os convidados cheguem.
—Andem logo, eu já estou quase pronta- Justine se gabou, o que me levou a reparar melhor nela. Ela realmente estava bem arrumada, com uma maquiagem elaborada no rosto e os cabelos presos em um coque alto- Só falta colocar o vestido e as joias.
—Em meia hora no máximo estaremos prontos- Henry disse, já caminhando para a porta.
—Meia hora?- Justine debochou- Você só tem que vestir o terno.
—O meu cabelo precisa de cuidado especial também, você sabe- Henry retrucou, e Justine arqueou uma sobrancelha.
—Depois as mulheres é que são as vaidosas.
Eu estava pronto depois de quinze minutos, Henry, depois de trinta e cinco, mas eu fiquei enrolando para não denunciar sua demora a Justine, que nos esperava assentada no corredor.
—Onde está Evie?- eu perguntei, quando já estávamos a caminho do Salão- Achei que ela viria esperar com você.
—Ela está ajudando Verena a se arrumar, mas logo ela se juntará a nós para as fotos- Justine explicou, aceitando o braço que Henry havia lhe oferecido. Acabei lhe oferecendo meu braço também, e logo estávamos andando pelos corredores em uma grande corrente humana, como fazíamos quando éramos crianças, ainda que estivesse faltando Evie do meu outro lado.
—Verena?- Henry perguntou, um pouco distraído- Acho que não conheço essa. Amiga nova?
—Sim, nós a conhecemos no almoço que Lady Bertha organizou ontem- Justine explicou- Ela parece legal. Filha de um Barão, mas como esse ano o Baile será maior, suponho que não seja tão estranho que ela tenha sido convidada.
—Legal- Henry disse- Filha de um Barão? Nós o conhecemos?
—Oh, não, a família dela é austríaca- Justine disse- Posso apresentá-la depois, no Baile.
—Tanto faz- Henry deu de ombros- Não é como se eu fosse lembrar de todas as pessoas a quem vão me apresentar nessa noite, de qualquer jeito.
Justine fez uma careta.
—Bem, você deveria ao menos se esforçar. É sua festa, e você é o Príncipe Herdeiro, é natural que todos queiram um pouco da sua atenção.
Eu senti a tensão, que normalmente já era alta entre os dois, chegando a um nível perigoso, por isso decidi intervir.
—Você chegou a ver a decoração do Salão, Justine?- eu interrompi, tentando mudar de assunto- Estou curioso para ver o que eles aprontaram esse ano.
Justine me encarou por um instante, desconfiada. Ela obviamente havia entendido minha intenção com aquela pergunta, mas, para minha sorte, ela decidiu me dar essa colher de chá.
—Vi sim, e está bem bonito. Colocaram aquelas cortinas de veludo que só usam quando a festa é muito chique- ela respondeu.
Eu sorri.
—Então a noite promete- brinquei, e Justine sorriu também.
—Eu suponho que sim. Mas espero que vocês não aprontem que nem da última vez, hoje vai ter muito mais gente para julgar se vocês derem vexame.
Flashes vagos e confusos da festa de aniversário de Evie passaram pela minha cabeça, o que me fez sorrir como um bobalhão.
—Não faço a menor ideia do que você está falando- eu desconversei, e Justine riu.
—Claro que não. Até porque nada que envolva um chafariz, fogos de artifício e o Visconde de Leeds gritando e nos perseguindo pelo jardim aconteceu.
—Exatamente.
Até mesmo Henry se viu obrigado a rir, e eu fiquei feliz por ter conseguido evitar uma crise. Daquela vez, ao menos.
O Salão realmente estava bonito, decorado suntuosamente como eu raramente o havia visto antes. Até mesmo a festa de aniversário de Justine do ano passado não havia contado com tanto luxo, e ela costumava supervisionar o time de decoração pessoalmente. A única ocasião da qual eu conseguia me recordar em que o Salão havia contado com tanta opulência haviam sido as Bodas de Prata do Príncipe Consorte e da Rainha, alguns anos antes, e mesmo assim aquele havia sido um evento bem mais restrito do que o Baile que marcava a maioridade de Henry prometia ser. E ainda haveria a Investidura como Príncipe de Gales na semana seguinte, pensei, percebendo que a Corte estaria em polvorosa no mínimo até o final do mês.
Encontramos Evelyn ajudando Tia Millie a organizar um bom cenário para uma foto. As duas centralizavam um candelabro sobre a mesa principal, bem no meio do enorme Salão, quando nos viram nos aproximar.
—HENRY!- Evie gritou assim que o viu, correndo em sua direção, com um sorriso enorme no rosto. Quando estava perto o suficiente, pulou sobre o Príncipe, passando suas pernas ao redor de sua cintura e se agarrando a ele em um abraço- FELIZ ANIVERSÁRIO!
Henry riu, cambaleando um pouco sob o peso de Evie, mas conseguiu sustentá-la, retribuindo o abraço.
—Obrigado, Evie. Inclusive, também senti sua falta- ele disse, dando tapinhas nas costas dela.
—É claro que sentiu- Evie disse, se soltando dele e voltando a colocar os pés no chão- Tom é uma péssima companhia.
Eu ri, pego de supresa com a provocação.
—Muito obrigado pela confiança, Evie- eu disse, a puxando para um abraço, que ela prontamente correspondeu.
—De nada!- ela respondeu, se desvencilhando assim que o abraço terminou- Agora vamos, precisamos de algumas fotos boas antes que o Salão fique muito cheio!
Tia Millie nos posicionou de frente para a mesa, de modo que o Salão e sua decoração suntuosa estivessem bem visíveis atrás de nós. Ela deu uma ajeitada no cabelo de Henry e jogou a trança de Evie por sobre o ombro dela antes de se dar por satisfeita.
—George, querido!- Tia Millie chamou- Traga o fotógrafo para cá, as crianças já estão prontas.
O Príncipe Consorte era, em grande medida, o assistente pessoal de Tia Millie, o que era bom prara ele, uma vez que ele não parecia ser capaz de agir como um adulto funcional sem ela. Ambos os seus filhos eram mais parecidos com a Rainha em questões de aparência, mas eu suspeitava que Henry tivesse bastante do seu temperamento.
—Meninos!- ele nos cumprimentou com um grande sorriso, surgindo de algum ponto longínquo do Salão atrás de nós, e sendo seguido de perto pelo fotógrafo. Então, ele se aproximou de Henry, e o esmagou em um abraço de urso, tão forte que acabou por erguê-lo um pouquinho do chão- Feliz aniversário, filhão! Estou tão orgulhoso, finalmente meu garotinho é um adulto!
Henry estava vermelho como um pimentão quando o pai o soltou, e com os cabelos que Tia Millie tinha acabado de colocar no lugar completamente bagunçados.
—Obrigado, pai- ele riu, um pouco constrangido, tentando arrumar os cabelos novamente.
Eu olhei para Tia Millie de esguelha, esperando encontrá-la irritada, mas ela sorria, achando engraçada a reação do marido.
—Fique do lado de Henry, George, quero bater uma foto de todos nós juntos, e depois uma só das crianças- ela orientou, o colocando no lugar e parando por alguns segundos para terminar de arrumar os cabelos de Henry.
Nós tiramos diversas fotos em todos os cantos do Salão, algumas mais sérias, algumas mais avacalhadas. Entre as sérias, um retrato de família para ser publicado nas revistas e jornais, e, entre as avacalhadas, uma foto do “quarteto fantástico”, com Evie fazendo careta e eu colocando chifrinhos na cabeça de Henry.
Não pude impedir minha mente de vagar para as recordações do Verão passado, também no aniversário de Henry. Naquele ano, havíamos decidido fazer a comemoração em Balmoral, e de modo bem mais intimista, mas quase todas as minhas lembranças sobre aquela festa estavam impregnadas do cheiro almiscarado do perfume de Theresa.
Theresa girando de mãos dadas com Evie pelo jardim, até que as duas caíssem no chão, tontas. Theresa roubando a cerveja de Henry e saindo correndo com os pés descalços pela grama. Theresa no velho balanço, os cabelos loiros flutuando ao sabor do vento. A voz dela rente ao meu ouvido, surrupiando confidências, o sorriso branco e misterioso iluminando a escuridão da madrugada.
—Ei, Tom, os convidados já vão começar a chegar- Henry me arrancou bruscamente dos meus pensamentos assim que a última foto, somente dele e de Justine, foi tirada- Deveríamos ir para a mesa.
—Sim, deveríamos- eu concordei, forçando uma expressão mais disposta e o seguindo.
Os primeiros convidados a chegar sempre eram os mais próximos da Família Real, geralmente a maioria dos Duques e um punhado de Condes. Depois de contar a Lady Bertha como andavam os cavalos e a Lady Audrey como iam os jardins lá em Balmoral, fomos apresentados a alguns poucos convidados estrangeiros de grande importância que haviam sido convidados naquele ano. Contudo, logo os convidados passaram a chegar mais depressa, e somente os mais notórios eram trazidos à nossa mesa, de modo que em pouco tempo o Salão estava cheio demais para contabilizar todos os presentes.
—Henry, querido- Tia Millie chamou, assim que encerrou uma conversa com uma Duquesa francesa- Você poderia dar uma volta pelo Salão para cumprimentar alguns convidados, não acha? Tom pode ir com você.
Eu vi Henry contendo uma careta, mas eu lhe ofereci um sorriso encorajador.
—Vamos lá, Henry, tenho certeza de que os convidados vão ficar muito satisfeitos- eu incentivei, e ele me fuzilou com o olhar.
—Tudo bem- ele acabou concordando- Vamos lá.
Justine e Evie já haviam saído da mesa mais cedo, para conversar com Lady Bertha e Lady Audrey, então agora só ficariam o Consorte e a Rainha para recepcionar os retardatários quando eu e Henry saíssemos. Achei melhor assim, já que teríamos mais controle quanto a com quem iríamos conversar, e desse modo eu poderia administrar melhor o tédio de Henry.
—Podemos procurar pelo Visconde de Leeds, ou pelo Conde de Bristol, se você quiser- eu disse, conforme íamos nos afastando da mesa e abrindo caminho por entre rodinhas de nobres.
—Aham- Henry concordou, meio distraído- Ou podemos pegar uma garrafa de scotch e fugir da festa com Justine e Evie para os jardins.
Eu olhei por cima do ombro para encará-lo, e vi aquele brilho semi-maníaco começando a se formar em seus olhos.
Eu gostaria de poder atender ao seu pedido. De passar a noite com os meus amigos, sozinhos e longe de todos aqueles olhos famintos da Corte. Mas aquela era uma ocasião única, e era nossa obrigação aguentar firme. E, além disso, eu tinha uma tarefa muito importante a fazer antes que a noite acabasse. Muita coisa estava em jogo.
—Sua mãe nos mataria- eu respondi, me forçando a rir- Vamos lá, Henry, vão ser só algumas horas de suplício, e depois podemos beber juntos no jardim.
Henry pareceu extremamente decepcionado, e eu quase me senti mal.
—Tudo bem- ele murmurou- Vamos achar o Visconde, então.
Enquanto conversávamos com o Visconde, meu olhos começaram a vagar pelo Salão. Eles haviam me dito que um homem com uma rosa inglesa na lapela me entregaria algo importante antes do início da valsa. Eu estava mais nervoso do que eu gostaria de admitir, e provavelmente dando bandeira, mas Henry e o Visconde estavam envolvidos demais na conversa para reparar.
Foi então que, pelo canto do meu olho, eu vi um fantasma. Uma aparição de cabelos dourados flutuando, e um sorriso branco ofuscante.
Uma moça de beleza extrema conversava com um rapaz loiro, que eu presumi ser seu irmão ou primo devido à semelhança física. Ela era, de certa forma, terrivelmente parecida com Theresa. Tinha aquela mesma confiança, aqueles mesmos cabelos dourados, mas havia algo diferente sobre ela, um ar indomável, de alguém que não se curvava para nada nem ninguém, também.
Ela tinha olhos âmbar, eu reparei assim que nossos olhares se encontraram, mesmo que estivéssemos de lados opostos do Salão. Âmbar e elétricos, me avaliando de maneira altiva, mas com a mais leve insinuação de interesse. Sobrancelhas bem desenhadas, que se arquearam por uma fração de segundo, e lábios em formato de coração, que se curvaram em um sorrisinho discreto antes que ela se virarasse novamente para o rapaz loiro e desaparecesse em meio aos convidados.
Eu fiquei encarando o lugar onde ela estivera, assombrado, até que uma rosa inglesa surgiu em minha visão. E o homem que a trazia na lapela estava olhando diretamente para mim. A noite estava longe de acabar.
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