Queen of Hearts
4 Capítulo 3 - Like oil and Water
Notas iniciais
But we play games
And we make shapes
On different sides
And we prefer
All our colors
Outside the lines
We fight each other like oil and water
But you and me got chemistry
And if we scatter, it doesn't matter
'Cause you and me got symmetry
(Symmetry — J.T. Roach)
Felicity Smoak
Eu estava de péssimo humor.
Normalmente eu não acordava assim aos sábados. Me orgulhava de ser uma pessoa matutina e com muita energia pela manhã, principalmente quando eu tinha a motivação certa. O que eu definitivamente tinha. Eu realmente amava a mudança que estávamos fazendo no Glades, não me incomodava nenhum pouco em abrir mão do meu sábado e estar na escola para ajudar outras pessoas a terem a chance de um futuro melhor, eu sabia o quanto isso poderia fazer a diferença na vida de alguém, principalmente de uma criança. E, embora eu não quisesse admitir, hoje eu tinha um motivo a mais para estar aqui.
Olhei com impaciência para o relógio no meu pulso que marcava oito e dez, e suspirei sem esconder minha decepção.
Eu não gostava de admitir, mas parte de mim queria que Oliver provasse que eu estava errada sobre ele.
- Acho que já esperamos demais. Minha turma de alunos já deve estar impaciente e a sua também. – Falei com Helena, que estava ao meu lado, enquanto fechava o portão de entrada da escola com uma força desnecessária, mas bem, eu precisava descontar minha frustração em algo, certo?!
- Então... Oliver não vem? – Helena perguntou, tentando soar casual, mas eu reconhecia aquele tom.
- O senhor Queen deve estar muito ocupado para nos prestigiar com a sua presença. – dei de ombros, tentando soar indiferente, mas a batida dos meus saltos quase ritmada no piso denunciava minha frustração.
- Que pena! – Exclamou num tom quase teatral — Você desperdiçou saltos perfeitamente bons para nada, Smoak. — Ela lançou um olhar cúmplice para os scarpins nos meus pés, mas me forcei a apenas revirar meus olhos.
- Isso não tem a ver com ele! – refutei, alto demais. Helena ergueu uma sobrancelha, e eu desviei o olhar.
Comecei a caminhar pelos corredores do prédio com rapidez, dando-lhe as costas. Mas não fui rápida o suficiente para não ver Helena elevar uma das sobrancelhas ao detectar meu tom ríspido. Eu não iria me explicar. Porque, no fundo, eu sabia que não tinha direito de estar tão irritada assim. Além disso Helena estava correta sobre a minha escolha de sapatos do dia. Pura vaidade.
Eu realmente pensei que ele fosse diferente, depois da nossa conversa semana passada e do que passamos na loja de celulares... Afastei o pensamento, me negando a voltar para aquele lugar. Por um momento eu me deixei levar pelo seu sorriso, pela sensação de conforto que me trazia. Achei que o Oliver Queen pudesse ver o valor do que estávamos fazendo aqui. A verdade é que eu era só mais uma na extensa fila de compromissos vazios dele.
Era óbvio que Oliver Queen não viria.
Claro que não. As manchetes de revistas e jornais, além dos programas de TV local deixaram claro que ele estava muito ocupado esta semana, passeando por toda a cidade e atendendo a cada evento ridículo exibindo sua namorada, modelo de passarela Laurel Lance, como um troféu em seu braço. Talvez eu tenha me deixado levar pelo seu charme na semana anterior, pelo seu sorriso fácil e por aquela pontinha de esperança no meu coração, que insistia em que ele não era só um político rico tentando se aproveitar do que estávamos construindo aqui.
- Você está irritada. – Helena falou o óbvio atrás de mim, me fazendo parar com a mão na maçaneta da sala dos professores, sem terminar de abri-la e virar meu rosto na sua direção – Talvez ele tenha tido um imprevisto, você vai superar esse bolo, Felicity. – Falou docemente.
- Eu não estou irritada porque o arrogante Oliver Queen me deu um bolo! – me defendi elevando a voz. — Estou irritada porque acreditei que o senhor Oliver “Arrogante” Queen separaria um tempo entre as entrevistas e as aparições em restaurantes cinco estrelas, para o nosso projeto. Acreditei que ele tinha visto a importância do que estamos fazendo aqui! Mas aparentemente ele está muito ocupado tentando garantir que seu rosto perfeito esteja na capa de cada maldita revista dessa cidade!
Tropecei em meus pés perdendo o equilíbrio quando a porta das salas dos professores se abriu abruptamente e por sorte divina – ou castigo dos céus — me escorei em algo rígido. Algo não. Alguém.
Oh, merda.
A presença de Oliver me envolveu como uma tempestade silenciosa. Ele estava atrás de mim. Não apenas atrás, seu corpo estava encostado no meu, trazendo de volta lembranças que eu preferia que ficassem escondidas num canto bem escuro da minha mente. Eu sabia que era ele, antes mesmo de ouvir sua voz, antes mesmo de me virar para a montanha de músculos que impediu minha eminente queda. Sua presença preenchia o ambiente tão naturalmente, como se ele fosse algo tão simples e ao mesmo tempo tão essencial quanto oxigênio.
Merda! Eu iria matar Helena na primeira oportunidade.
- Ele está atrás de mim, não está? – minhas bochechas esquentaram, e Helena se limitou a apenas assentir com um movimento de cabeça, mantendo o sorriso zombeteiro no rosto de quem está apreciando o caos alheio.
- Em carne, osso e toda a minha arrogância, senhorita Smoak. – A voz grave ecoou junto a minha orelha, causando sensações estranhas. – E a propósito – continuou em um tom mais íntimo enquanto se aproximava ainda mais, me fazendo quase sentir seus lábios em mim – Acha meu rosto perfeito?
Me afastei rapidamente tentando recuperar o equilíbrio e a compostura e me virei, pronta para dar uma resposta ríspida, mas tinha calculado errado a proximidade de Oliver. Ele não estava apenas perto, ele estava perto o suficiente para que eu pudesse sentir sua respiração quente bater em meu rosto, me fazendo quase sentir o gosto da pasta de dente de hortelã que ele usara naquela manhã.
Eu queria me afastar, mas o orgulho não me deixava.
- O senhor trouxe seu fotógrafo particular hoje? – Desafiei, mas o sorriso de Oliver apenas se alargou, como se ele estivesse se deliciando com a minha desconfortável situação. Antes que eu pudesse formular outra palavra, ele fez uma vénia teatral.
- Não há necessidade de um fotógrafo, senhorita Smoak. Sua expressão de choque é algo que vou guardar na memória para sempre. – um sorriso sorrateiro pendeu em seus lábios.
- Ora, seu... – Senti as mãos de Helena sobre meu ombro, me impedindo de proferir as palavras de ódio que estavam na ponta da minha língua.
- Por mais divertido que seja assistir a vocês dois, nós temos trabalho a fazer. – Helena disse sendo lógica, o que era totalmente fora do personagem para ela – Nossos alunos já estão esperando. E Felicity, por que você não acompanha Oliver até a quadra? Daqui consigo ouvir o barulho das crianças brincando sem supervisão.
- Por que eu? – reclamei como uma criança.
- Porque esse projeto social é seu. — Helena empurrou a prancheta com o quadro de atividades e horários daquele dia contra o meu peito com um leve sorriso, quase como se soubesse que eu não iria gostar do que ela estava prestes a fazer. – E pelo visto, Oliver Queen também — Li a frase em seus lábios enquanto se afastava deixando-me sozinha com o homem que ocupava meus pensamentos mais do que eu gostaria de admitir.
***
Eu ainda estava irritada. O som dos meus saltos ecoava enquanto fazia a longa caminhada com Oliver até o campo de futebol. Cada batida contra o chão parecia amplificar o tumulto dentro de mim. E isso ficava claro a cada passo que eu dava ao lado de Oliver Queen, como se a irritação precisasse ser anunciada para o mundo inteiro.
Mas dessa vez eu não tinha motivos claros para isso. Era apenas Oliver. Oliver e seu jeito de me olhar. Seu sorriso solto. A forma como tudo o que ele falava soava como uma provocação divertida que atiçava um lado adormecido de mim. E principalmente, me irritava como eu parecia que era a única a ser afetada por sua presença.
Não podíamos continuar assim.
Me forcei a ser profissional.
- Se vamos trabalhar juntos, precisamos parar com isso. – Oliver me encarou receoso — Eu sei que não fui exatamente a rainha das boas-vindas. — Admiti — Eu ainda não confio totalmente em você, mas estou disposta a deixar isso de lado — Ele ergueu uma das sobrancelhas se fazendo de ofendido, o que eu apenas ignorei. Eu precisava aprender a ignorar Oliver Queen para o meu próprio bem.
– Eu diria que você me tratou como um Malfoy trataria um Weasley. – Oliver soltou, me fazendo escorregar um sorriso.
– Isso é um exagero. No máximo, eu fui uma Hermione irritada com o Rony. – Rebati.
– Isso quer dizer que em algum momento você vai acabar gostando de mim? – Ele arqueou a sobrancelha, e eu me arrependi imediatamente da comparação.
– Eu quero que isto dê certo. Oliver. – Insisti tentando retomar a seriedade e ignorar seu charme natural — Quero que você possa fazer parte disto e ajudar as crianças.
- Isso é uma desculpa, Felicity? – Perguntou segurando um sorriso.
- Nunca! — respondi mantendo algum orgulho — É só um reconhecimento de que talvez eu tenha sido muito dura com você e não é culpa sua.
- Eu aceito o seu “reconhecimento” – Pontuou fazendo aspas com os dedos. E simples assim, as coisas ficaram mais leves. – Se ajuda, eu já li o primeiro livro de Harry Potter e estou na metade do segundo. Embora devo admitir, que não me segurei e vi todos os filmes.
- Como? — perguntei sem entender.
- Da última vez que nos encontramos você disse que este era um dos motivos para não gostar de mim. – Pisquei, ainda confusa e encarando seu rosto que parecia um pouco ansioso.
- Eu... o quê?!" — Pisquei, tentando lembrar da conversa, mas a calma dele me desarmava mais do que eu gostaria.
- Não precisa se lembrar. – suspirou, passando a mão pelos cabelos, um gesto nervoso e sorriso encabulado que eu nunca esperaria dele. — Mas eu lembro. Porque, por algum motivo, o que você pensa de mim importa mais do que deveria.
- Oliver... — Me traí, deixando seu nome escapar da minha boca. Minhas palavras saíram mais suaves do que eu pretendia. Eu deveria recuar. Estabelecer limites. Ser racional. Mas então ele sorriu, e qualquer traço de distância evaporou no ar entre nós. — Você não deveria me fazer gostar de você.
Oliver deu um passo para trás, claramente surpreso com minhas palavras.
- Eu não estou exatamente planejando isso, Felicity. — Sua voz saiu mais baixa, quase um sussurro, e, por um momento, o sorriso desapareceu, deixando apenas seus olhos fixos nos meus, como se ele estivesse me desafiando a interpretar o que aquilo significava.
- Bem, chegamos. – Anunciei aliviada por ter um motivo para não olhar para Oliver. – Crianças, venham até aqui conhecer o novo treinador de vocês! – Chamei o pequeno time de futebol americano da nossa escola de pouco mais de quinze crianças que se apressaram a se apresentar em uma linha nenhum pouco reta, se é que poderíamos chamá-los de time. Não tínhamos uniforme, equipamento adequado e nosso campo de futebol mais parecia um campo de golfe com tantos buracos.
— Então... Você decidiu que a melhor forma de eu ajudar seria treinando o time de futebol?
— Bem, você tem tudo isso aí, tem que servir para alguma coisa. — cutuquei seu peitoral duro, sentindo o arrependimento imediato por perceber o quão sólido era. — Vi que ganhou alguns campeonatos de futebol na faculdade. – Completei rapidamente para disfarçar. Oliver olhou para o "campo" e depois para as crianças, que discutiam porque ninguém queria ser quarterback.
— Isso é sabotagem, né? — Oliver me lançou um olhar desconfiado, ajustando a gravata como se ela fosse armadura. — Está se vingando por eu ter te atormentado?
— Talvez só um pouquinho. — admiti dando-lhe as costas e ficando em frente as crianças, meus saltos fazendo mais buracos na grama. – Crianças, que tal mostrarem para o senhor Queen um pouco do que sabem. – Sorri jogando uma bola de futebol surrada que estava ali no chão, sabendo que eles não tinham muito o que mostrar já que o último treinador não era exatamente o maior conhecedor de futebol americano. Para ser honesta, eles nunca tiveram um treinador que soubesse o mínimo de regras do futebol americano.
Observei as crianças se organizarem em pares e passarem a bola de uma para outra. Bem, isso devia ser algo.
— O último treinador não ensinou muita coisa. — me desculpei, observando o desastre que uma mera passagem de bola gerava. — Ray, nosso professor de física até tentou, mas tudo o que conseguiu foi passar horas discutindo o porquê a bola tem o formato oval. O treinador antes dele também não conseguiu avançar muito, acabou sofrendo um acidente e teve que ser afastado. — Tagarelei, mas Oliver permanecia me olhando com um sorriso suspeito. — Você sabe como bolas de futebol podem ser perigosas. – pisquei com um dos olhos, tentando brincar com a mente dele. Mas nada mudou seu sorriso. – O que foi?
— Você me pesquisou no google, Felicity Smoak. – O sorriso de antes se tornou maior e mais convencido, e quis me amaldiçoar por ter deixado isso escapar. – De que outra maneira saberia que eu joguei futebol da faculdade?
— Não é como se eu precisasse disso. – Dei de ombros, obviamente eu havia pesquisado, mas jamais admitiria. — Seu relações públicas faz um trabalho muito bom garantindo que você esteja em cada capa de revista. Mesmo que eu não quisesse saber, é impossível, você está em todos os lugares.
— Ok, vou fingir que acredito em você. – falou encostando suavemente seu ombro no meu, num gesto amigável que me fez relaxar um pouco com ele.
— As crianças têm entre oito e dez anos, o time é misto e a mandona que está segurando a bola com cara de brava e julgando todo mundo é a Zoe Ramirez, ela vai te ajudar em tudo o que precisar. – segurei a prancheta contra o peito e olhei uma última vez para Oliver — Alguma pergunta antes de eu ir?
— Apenas duas. – falou parecendo um pouco preocupado – Que tipo de acidente o último treinador sofreu?
— Não foi nada, apenas uma concussão na cabeça por culpa de uma bolada. – sorri fingindo que aquilo não era nada demais – Pergunta número dois?
— Como eu vou jogar com as crianças de terno e gravata?
— Não é meu problema que você resolveu se arrumar demais, Sr. Queen. — Dei-lhe as costas sorrindo ainda mais. Bem, eu merecia uma vitória. Olhei uma última vez para Oliver apreciando seu desconforto. — Volto em duas horas para ver se tudo está bem. – acrescentei — Espero te encontrar inteiro.
Oliver olhou para as crianças, que haviam desistido de seguir qualquer treinamento prévio e agora tentavam escalar os postes do gol como se fossem barras de playground.
— Se eu sobreviver, vou querer aumento. — murmurou, desatando a gravata e jogando o paletó na grama.
— Bem-vindo ao serviço voluntário, Sr. Queen. — Pisquei, saboreando a pequena vitória antes de me afastar.
***
A sala de informática estava abafada e o zumbido monótono dos computadores antigos quase me fazia cochilar de olhos abertos. Mas eu não podia me dar a esse luxo — especialmente quando estava ajudando a senhora Martinez a entender o básico do excel, e ela já havia fechado a planilha sem salvar três vezes. Pela quarta vez, forcei um sorriso.
— Agora é só inserir a fórmula aqui para somar as duas colunas, senhora Martinez. – Apontei para uma célula da planilha, forçando um sorriso paciente. Enquanto esperava que ela tomasse coragem de mover o mouse, meus pensamentos voaram de volta para o campo de futebol. Eu me peguei sorrindo ao imaginar o trabalho que as crianças dariam a Oliver, e uma pequena parte de mim se alegrou.
— Ah, entendi! – Ela mexeu o mouse e de alguma forma conseguiu fechar a planilha uma quarta vez.
Segurei um suspiro, varrendo a imagem de Oliver e me concentrando na aula.
A senhora Martinez era a mais atrasada na turma, provavelmente por causa dos turnos irregulares de trabalho que a impediam de estar em todas as aulas. Mas eu não me importava em dar uma ajuda extra. Ela era recém divorciada e tinha dois filhos de um pai que não pagava um tostão de pensão, precisava urgentemente de um emprego que pagasse mais e lhe desse mais tempo livre. Seus gêmeos era ótimos alunos, mas com muita energia, ambos estavam no time de futebol, me peguei sorrindo ao pensar no trabalho que dariam à Oliver.
Oliver.
Esfreguei meus olhos tentando afastar a imagem dele afrouxando a gravata e me preparei para restaurar novamente a planilha da senhora Martinez. Olhei para o relógio. Faltava uma hora para o fim da aula, e se continuássemos nesse ritmo a aula de hoje não renderia muita coisa. A Senhora Martinez fechando a planilha e eu com meus pensamentos intrusivos formávamos uma dupla e tanto.
Ajudei a senhora Martinez – dessa vez me certificando de reforçar que ela não deveria fechar o arquivo quando terminasse de incluir todos os dados. Passei em mesa por mesa para checar quem mais estava tendo dificuldade com a tarefa, ignorando meu celular vibrava em cima da mesa. Apenas quando finalizei com todos os alunos peguei meu celular distraidamente, achando que iria encontrar uma mensagem de bom dia da minha mãe. Mas assim que li as mensagens de Helena, meu coração disparou.
[09:24] Helena: SOS — Campo de futebol.
Meu coração disparou antes mesmo de ler o restante.
[09:25] Helena: Corre!
[09:25] Helena: AGORA!
[09:26] Helena: Não viu meu SOS? Está pegando fogo!
— Oh, meu Deus! – Gritei em pânico, sentindo a tensão tomar conta de mim – Eu preciso ir! Senhora Martinez, não mova seu mouse! – Avisei antes de sair correndo pelos corredores, me arrependendo de ter deixado minha vaidade ganhar e escolhido saltos para aquele dia. Seria um incêndio? Helena não era do tipo que exagerava. Se ela estava pedindo ajuda, aquilo não era um bom sinal.
Meu primeiro pensamento foi para as crianças. Será que estavam todas bem?
E, claro, o segundo pensamento que me veio à mente foi Oliver Queen.
Se ele colocou fogo em alguma coisa — ou pior, se ele se queimou — eu juro que vou matá-lo antes mesmo de chamar a ambulância ou os bombeiros.
Virei o corredor e corri para fora do prédio, esperando ver fumaça ou chamas ao longe, mas o céu estava claro. Nenhum cheiro de queimado, nenhuma sirene, nada que indicasse um incêndio de verdade.
Mas o tumulto estava ali logo na entrada no campo de futebol.
Vários adultos com seus celulares apontando para algo e gritando palavras indistintas e animadas – sobretudo mulheres, reparei. Não consegui ver o que estava acontecendo, e ninguém me deixava passar.
— Por favor, que ninguém esteja morto! Ou gravemente ferido. — Murmurei, empurrando algumas pessoas na tentativa de enxergar melhor. Já me arrependendo de ter confiado em deixar Oliver sozinho com um grupo de crianças hiperativas.
— Helena! O que está acontecendo? – Gritei ao avistar a cabeleira negra da minha amiga.
Helena virou-se para mim, me puxou pela mão abrindo o caminho pela multidão. E finalmente, consegui ver o motivo de tanta comoção
— Eu disse que estava pegando fogo. – Ela sorriu maliciosamente para mim, com os olhos claros brilhando de empolgação.
Demorei a assimilar o que estava acontecendo, meu corpo ainda preso na adrenalina do pânico. As crianças riam, os adultos aplaudiam e tiravam fotos e minha mente tentava acompanhar a mudança brusca de cenário: de um possível incêndio... para Oliver.
Meu olhar sendo puxado em sua direção, se demorando nele antes de assimilar qualquer outra coisa do cenário a minha frente, meu coração dando um salto tão forte que me forcei a desviar e enxergar a cena como um todo.
No centro da bagunça, um homem alto e moreno segurava uma criança em cada braço – literalmente levantando-as como pesos, com um sorriso fácil no rosto. As crianças gargalhavam e outras se se enfileiravam como se aquilo fosse um parque de diversões. E organizando a fila como se aquilo fosse um evento planejado, estava Oliver, com seus cabelos bagunçados, vestindo uma camisa social dobrada até o meio dos braços e ridiculamente à vontade.
Ele ergueu o olhar e me encontrou no meio da multidão. Seu sorriso se alargou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
— Oliver. — Soltei, mais alto do que pretendia.
Helena riu.
— É claro que é nele que você iria focar. — balançou a cabeça – Deixe eu te explicar o que está acontecendo. O seu Oliver Queen simplesmente trouxe Thomas Merlyn, atualmente o maior quaterback da temporada, ele ganhou as duas últimas Super bowls e os Patriots e os Chiefs estão brigando por ele, mas a fofoca é que ele está pensando em se aposentar e voltar para a casa. Ele é divorciado e tem um filho de dez anos e além disso...
Helena continuava falando sobre todas as façanhas de Thomas Merlyn no futebol americano. Eu não ouvi metade. Minhas sinapses ainda tentavam se reconectar, e um Oliver muito sorridente e completamente alheio a comoção que criou, caminhava em minha direção dificultando ainda alguma coesão na minha mente.
— Você... – Precisei fechar meus olhos para concluir uma linha de raciocínio racional — Você trouxe Thomas Merlyn para cá?
— Tecnicamente, ele veio por conta própria. — Oliver deu de ombros, com aquele sorriso provocador que parecia feito sob medida para desestabilizar minha racionalidade. Meu estômago se contraiu. – Só precisei fazer uma ligação. — respondeu, com aquele tom casual irritantemente encantador.
Me virei para a multidão que de alguma forma estava ainda maior, percebi que todos os meus alunos estavam ali também. Inclusive uma senhora Martinez, que segurava o celular e se concentrava em tirar várias fotos de um Thomas Merlyn sem camisa.
E eu achando que ela era completamente alérgica a tecnologia, mas usar a câmera do celular ela sabia! Talvez ela só precisasse de um incentivo maior nas aulas de excel.
Ainda tentando organizar o turbilhão dentro de mim, respirei fundo e encarei a multidão, que agora parecia tão ciente do que estava realmente pegando fogo ali.
- Muito bem, show acabou. Todo mundo de volta para suas salas. — minha voz soou mais firme do que eu esperava.
Me concentrei em despachar todos os adultos de volta para suas respectivas salas – inclusive os professores, para tristeza de Helena, que deixou o campo resmungando sobre como a vida era injusta.
E Oliver… bem, Oliver apenas continuou sorrindo.
— Pode me explicar o que está acontecendo? – Aproximei-me de Oliver, braços cruzados e tentando manter a compostura e o tom de autoridade.
— Eu achei que as crianças precisavam de um pequeno incentivo. – Deu de ombros como se o que ele tinha feito não fosse nada demais – Nada como ver um jogador bem sucedido para entender o quanto o esporte pode mudar a vida de alguém.
— Só isso?
— Ah, e consegui com os patrocinadores do Tommy equipamentos novos e uniforme para todos do time. – Pontuou me entregando um capacete e mostrando todas as caixas com itens novinhos. Senti um pequeno calor em meu coração – As crianças ficaram eufóricas com tudo. Mais uma coisa, que time de futebol não tem um mascote? Nós decidimos fazer um concurso para decidir o mascote do nosso time, as crianças irão fazer desenhos e sugerir nomes, os professores serão os juízes e...
Os olhos de Oliver brilhavam em empolgação enquanto me contava todas as ideias e planos que tinha para o time, e aquele pequeno calor em meu coração se tornou mais forte.
— Como você fez tudo isso em apenas uma hora, Oliver? – Tentei esconder minha admiração. – Eu tentei contato com várias empresas em busca de doações, mas ninguém queria seu nome associado a uma escola do Glades.
— Eu apenas conheço as pessoas certas. – respondeu como se dissesse "pedi uma pizza".
— Eu espero que você não tenha gastado nenhum dinheiro com tudo isso, Oliver. – Falei, tentando esconder a preocupação. A verdade é que o gesto dele me emocionava, mas isso também me fazia sentir pequena, como se meu esforço de meses não valesse tanto quanto o cheque de um milionário.
— E que problema teria se eu tivesse? – Eu não esperava o tom de mágoa na sua voz. Eu estava preparada para o combate, já que Oliver e eu sempre estávamos discutindo, mas não estava pronta para aquela mágoa sincera.
— Oliver, tudo isso deve ter custado uma pequena fortuna. – Apontei.
— Quantas vezes eu preciso dizer que estou aqui para ajudar, Felicity? E eu ajudarei da forma que eu puder, seja com meu tempo ou com meu dinheiro.
— Me desculpe. — respirei fundo. — Eu só estou um pouco admirada, e honestamente com um pouco de inveja. Você conseguiu em uma manhã o que venho tentado fazer em meses. Eu fico dizendo que dinheiro não faz diferença, mas faz. Então... obrigada. De verdade. Só... da próxima vez, me avisa antes de trazer um astro da NFL?
— Ah, então pode ter uma próxima vez? — Ele arqueou uma sobrancelha, e deu um passo mais próximo, a voz propositalmente mais baixa. Eu senti o calor subir pelo meu pescoço, mas mantive os braços cruzados como escudo. Ele sabia exatamente até onde podia se aproximar.
Eu já estava com minha resposta pronta para rebatê-lo, mas nossa usual rodada de jogos foi providencialmente interrompida.
— Então você é a famosa Felicity Smoak. – me vi encarando o rosto próximo do astro de futebol que Helena parecia ter o dossiê completo. E honestamente, após realmente olhá-lo, entendi o porquê do alvoroço. Thomas Merlin tinha aquela beleza calorosa e despretensiosa que encantava. Quase uma mistura de príncipe encantado com modelo da Calvin Klein, e claro, todos aqueles gominhos no abdômen que ele exibia. Para meu alívio, Oliver teve a decência de se manter com a camisa devidamente fechada.
— Se tem alguém famoso aqui é você... – Consegui me recompor a tempo de responder.
— Eu te garanto que Oliver falou mais de você para mim do que eu faço de flexões por dia, e vai por mim, é muito. – Fiquei surpresa e curiosa ao mesmo tempo. Então Oliver Queen andava falando de mim?
— Bem, ele falou de você o mesmo tanto que eu faço de flexões, e vai por mim o total é zero, senhor Merlin. – gargalhou.
— Imagino que ele tem um bom motivo para isso, Oliver nunca gostou muito de... – pareceu pensar um pouco – ...Concorrência— Ele lançou a palavra acompanhada de um olhar lateral afiado, e percebi o canto da boca de Oliver se contrair. — E a propósito, pode me chamar de Tommy, senhor Merlin parece que está falando do meu pai, e cá entre nós eu sou bem mais novo do que Ollie.
Ollie revirou os olhos para o amigo, e não pude deixar de notar seu ligeiro incomodo. Não entendi o porquê, Thomas Merlin era uma pessoa divertida de conversar.
— E o quê Oliver falou sobre mim? – sondei.
— Eu não disse nada demais. – Me surpreendi com a pressa em que Oliver se intrometeu.
— Realmente, nada demais. – seu sorriso era falsamente inocente, era perceptível o quanto ele estava se divertindo — Ele só disse que você é brilhante e capaz de fazer cálculos matemáticos complexos quando está nervosa, é teimosa, desconfiada, e provavelmente a mulher mais difícil de impressionar de Starling City.
— Oliver me descreveu ou lhe deu um aviso?
— Um pouco dos dois. — Thomas disse sorrindo — Mas honestamente, depois de te ver correndo em salto alto como uma super-heroína desgovernada... acho que ele esqueceu de mencionar o lado dramático.
Eu ri.
Ao meu lado, senti Oliver se aproximar um passo, quase imperceptível.
— Mas não se preocupe, Ollie. Eu não vim roubar seu posto, só se pedirem muito. – Thomas piscou para mim — Eu vou voltar para criançada antes que eles me façam de mascote oficial. Foi um prazer, Felicity. Espero que a gente se encontre novamente. – Thomas se aproximou sorrateiramente e me deu um beijo estalado no rosto, um toque leve e casual. Mas ao se afastar, seus olhos buscaram Oliver e sorriram numa clara provocação.
Fiquei parada, olhando para Oliver, ainda com os braços cruzados — mas agora, com menos resistência.
— Então quer dizer que você me acha brilhante?
Ele apenas sorriu. Aquele sorriso tranquilo, confiante, quase perigoso — como se soubesse exatamente o que estava fazendo comigo. E talvez soubesse mesmo.
— Só disse a verdade — respondeu.
Fiquei em silêncio por um momento. Eu esperava uma nova provocação, algo sarcástico, mas não honestidade. Desviei meu olhar e fiquei observando as crianças correndo pelo campo com seus novos equipamentos, rindo, cheias de energia. Aquilo tudo... não tinha como fingir que não me tocava.
Suspirei e balancei a cabeça.
Eu estava muito errada sobre Oliver Queen.
— Só estou dizendo... — falei, baixando o tom, quase para mim mesma — ... Você complica minha vida, Oliver Queen. E mesmo assim você continua aparecendo nela. — Ele deu um passo mais perto, não o bastante para me tocar, mas o suficiente para me fazer sentir.
Nossos olhares se prenderam por um segundo a mais do que deveriam. Longo o bastante para ser notado. Curto o suficiente para ser negado.
Afastei o olhar, pigarreando.
— Eu tenho uma aula para terminar — murmurei.
— E eu tenho um mascote para aprovar — ele respondeu, ainda sorrindo.
Virei de costas e comecei a caminhar de volta para o prédio, mas, mesmo de costas, sentia o peso do olhar dele em mim. E, pela primeira vez em muito tempo, esse peso não parecia pressão. Parecia... possibilidade.
***
O restante da manhã passou em um borrão. Eu me forcei a finalizar minhas aulas e a evitar o almoço com Oliver Queen e sua camisa social semiaberta e suada grudando em seu corpo em partes que não deveriam ser permitidas, embora Helena tenha feito questão de me fazer uma descrição detalhada daquilo que minha mente tentava tão avidamente não pensar. Infelizmente, eu não conseguiria evitá-lo para sempre.
Suspirei olhando para a prancheta e meus horários enquanto caminhava para a sala de artes em completa negação.
- Eu não deveria ter permitidoque Helena organizasse os horários, era óbvio que ela iria aprontar. – Murmurei para mim mesma.
Parei os pés em frente a porta de madeira maciça com um pequeno vitral central, permitindo que eu visse apenas um esboço do que havia lá dentro. Cores vibrantes, borrões de todas as cores do arco-íris e silhuetas que se moviam em um ritmo frenético. Era um prenúncio do que estava por vir.
- Oi – uma voz rouca e suave me tirou dos meus pensamentos. Oliver estava parado ao meu lado, um sorriso fácil em seu rosto. Totalmente despreparado para o que nos esperava — É essa a porta para a sala de artes? – Perguntou, uma pequena ruga se formando entre suas sobrancelhas.
Eu olhei para ele, para o seu sorriso ansioso e voltei meus olhos para o pequeno vitral de cores dançantes. A imagem que tinha em minha mente não era de artes, mas de uma batalha por sobrevivência.
- Não. – respondi, colocando a mão na maçaneta enquanto me preparava mentalmente — esse é o portal para o caos.
Oliver me encarou sem entender, a pequena ruga entre suas sobrancelhas se aprofundando. Eu apenas dei um sorriso irônico e girei a maçaneta. No momento em que a abri, o caos se tornou uma realidade.
Eu definitivamente não estava preparada para passar a tarde inteira com Oliver e um grupo de crianças de quatro anos.
Não me entenda mal, eu amo crianças.
O que eu não amava era o quão desesperada eu ficava quando cinco delas gritavam “Tia Felicity” ao mesmo tempo, enquanto outra chorava histericamente porque o coleguinha havia pegado seu “tutu”. O que diabos era um tutu? Ou ainda quando precisava evitar que eles comessem massinha, porque “Parece macarrão”.
Depois de lidar com o incidente com o garoto que colocou giz de cera no nariz e descobrir que “tutu” na verdade era a toalhinha de assoar o nariz, o caos aos poucos passou a ser minimamente controlável.
Não foi tão difícil lidar com crianças pequenas depois que passou o choque inicial. A grande maioria delas apenas queria colo, alguém com quem brincar e um pouco de atenção. Então era uma questão de respirar fundo e tentar fazer com que ninguém se sentisse deixado de lado.
Mas era desgastante.
Tantos pequeninos querendo atenção, e Oliver e eu tendo que nos dividir. Brincamos de blocos de montar e Oliver fingiu ser o gigante que aterrorizava a cidade. Tomamos chá com princesas, e fomos juízes de uma competição de massinha em que quase todos tiraram o primeiro lugar.
- O que acha? – Um Oliver ansioso me entregou a sua escultura de massinha. Oh, sim! Ele havia entrado na competição também.
- As crianças de quatro anos fazem um trabalho melhor que o seu – Respondi. – Você fica em terceiro lugar. — Declarei
- Mas ninguém ficou em segundo! – Reclamou.
- Você não merece. – Dei de ombros.
- Tia Felicity... -um dos pequeninos puxou a barra da minha blusa. – Eu dou o meu prêmio para o Tio Ollie, para ele não chorar. – falou, entregando a fita azul de primeiro lugar que improvisamos.
Se todos os momentos tivessem sido fofos assim, eu não teria do que reclamar. Mas ao final do dia, tivemos a brilhante ideia de fazer pintura de dedo. Eu não sei como não previ isso, mas uma guerra de tinta se instaurou.
A sala de artes que no início parecia o portal do caos agora era apenas um espaço onde Oliver e eu nos agachamos, recolhendo os blocos, as tintas e os pincéis. O ar, antes preenchido por choros e gritos, era agora silencioso e tranquilo.
— Você tem o dom para lidar com crianças, Felicity. – Oliver disse com seriedade e eu apenas gargalhei.
— Eu não diria isso.
— Você deu todas as ideias de brincadeira. – pontuou.
— Mas foi você quem sentou e brincou com todos eles, garantindo que todos tivessem sua atenção.
Oliver sorriu. Eu me aproximei para ajudá-lo a recolher os pincéis. A mancha de tinta guache azul em seu cabelo e em sua bochecha ainda estava lá, e eu me peguei pensando em como ele parecia mais humano e menos perfeito com ela. A mancha o fazia parecer real.
— Você está sujo de tinta – eu apontei para a tinta azul que manchava seu cabelo e o seu queixo.
Ele não se incomodou. Apenas sorriu.
— E você está limpa. – franziu o cenho — Como está limpa? Eu tenho certeza que vi um pote de tinta guache voando em sua direção;
— Um mágico nunca revela seu truque. – Pisquei um dos olhos.
Eu peguei um lenço umedecido e me aproximei. Oliver me permitiu limpar a tinta de seu rosto. O ar na sala mudou. Ficou mais denso, carregado. Oliver fechou os olhos brevemente ao meu toque. O silêncio era profundo, mas estranhamente confortável. Nossos olhos se encontraram, e por um instante, o mundo exterior desapareceu. Havia apenas nós dois, a bagunça, e a tensão entre nós. Ele ergueu uma das mãos em direção ao meu rosto, os dedos roçando levemente a linha do meu maxilar. O toque dele me fez suspirar.
— Felicity... — meu nome saiu arrastado, um sussurro rouco que vibrou na minha pele. Eu estava perdida. Queria me inclinar em sua direção... Eu ia me inclinar.
Passos ecoaram no corredor. A porta se abriu num estrondo.
— Sr. Queen, a Sra. Moira está ligando pela terceira vez, algo sobre a festa de início da campanha. Precisamos ir. – John Diggle entrou na sala, sua voz séria e profissional quebrando o feitiço.
Nos afastamos abruptamente, como adolescentes pegos fazendo algo errado.
Oliver suspirou pesadamente, a frustração evidente na postura dos ombros enquanto se levantava.
— Foi um prazer, Felicity. – Oliver me deu um sorriso que não alcançou seus olhos. Ele estava chateado, eu percebi. Por termos sido interrompidos? Afastei o pensamento intrusivo, não, com certeza não era por isso.
- Estranhamente, foi um prazer também Oliver. – aceitei sua mão.
– Acha que poderia me dar o prazer da sua companhia? Eu posso te levar para casa. – E ali estava, olhos ansiosos acompanhados de um sorriso cauteloso e ainda caloroso o suficiente para fazer algo em meu coração derreter. Num reflexo, mordi meu lábio inferior.
Eu queria dizer sim, queria prolongar um pouco mais a nossa existência nessa bolha. Mas a interrupção de Diggle foi um lembrete brutal de quem ele era e de quem eu era, e que bolhas de sabão foram feitas para durar apenas um instante.
- Talvez um outro dia. – menti, protegendo meu coração – Eu ainda tenho aulas de reforço para adolescentes. Não saio daqui antes das oito.
Oliver assentiu, resignado.
- Cuide-se, Felicity.
- Você também, Oliver.
Assisti-o sair da sala, levando consigo toda a energia do ambiente. E tive a estranha e assustadora certeza de que, embora ele tivesse saído pela porta, ele havia acabado de entrar na minha vida para ficar.
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