Queen of Hearts

5 Capítulo 4 - Little Light


Notas iniciais
Hello! Há quanto tempo hein?! >insira um emoji envergonhado bem aqui< Eu não consigo mais escrever com a frequencia de antigamente, mas sempre que der eu apareço por aqui! Aproveitem o capítulo.

And all this shade is illuminating

And all those love lines are taking shape

And all my worries, disintegrating

And I've been waiting, I've been waiting


And all my days were young and wasted

When I was waiting, oh for you

And all the plans that I've been chasing are always fading

But ever since I found you

A little light is breaking through

(Little Light — Lewis Watson)

Oliver Queen

A tinta azul havia saído da minha pele após um banho quente, mas a sensação de que algo estava errado permanecia. Eu estava sentado no sofá, um copo de whisky intocado na mão, enquanto minha mãe falava sem parar sobre detalhes da festa que oficializaria o início da minha campanha para a prefeitura de Starling City. Eu deveria estar interessado, empolgado até. Anos me preparando para esse momento, construindo a minha imagem para seguir o legado do meu pai. Mas minha mente ansiosa divagava para outro lugar. Outra pessoa.

- Laurel estará deslumbrante em seda azul marinho – Minha mãe decretou, gesticulando com uma taça de vinho. — Walter, certifique-se de que a gravata de Oliver seja do mesmo tom exato. A imprensa adora um casal combinando. Isso transmite estabilidade, e além disso ressalta seus olhos. – sorriu para mim com afeto.

Segurei um suspiro e olhei para o relógio de pulso, 19:45. Em algum lugar no Glades, as luzes da escola estariam se apagando. Felicity estaria trancando as portas, ajeitando a bolsa no ombro e caminhando sozinha para casa na escuridão. Enquanto eu desfrutava da segurança do meu lar no subúrbio nobre de Starling City decidindo frivolidades como a cor de uma gravata, Felicity estaria andando por ruas estreitas e escuras. O pensamento me fez levantar tão rápido que quase derramei minha bebida.

- Oliver, está tudo bem? – minha mãe me lançou um olhar preocupado que simplesmente ignorei.

- Eu... Preciso sair para checar uma coisa... Sinto muito. – Me desculpei, sabendo que minha mente estava em outro lugar.

- Filho, nós temos decisões importantes a tomar. – ela tentou segurando-me gentilmente. — Oliver, ainda não decidimos a cor dos guardanapos — me segurei para não revirar os olhos — E tenho um assunto sobre Laurel para discutir com você!

- Confio nas suas decisões. – Dei um beijo em sua bochecha, acenei para Walter e sai em direção à garagem. Eu não queria voltar mais tarde e continuar aquela conversa. – Faça o que achar melhor.

- Leve Diggle com voc...

Fingi não escutar minha mãe, desci as escadas praticamente correndo até a garagem onde Diggle logo apareceu seguindo as ordens da minha mãe, supus. Não lhe dei tempo de me perguntar nada apenas peguei capacete extra e sai de moto em direção ao Glades.

O ar frio cortava meu rosto onde o visor estava erguido, e quanto mais eu me embrenhava no Glades, mais a poeira e o cheiro de asfalto úmido substituíam o sofisticado e cuidadoso perfume de flores frescas da mansão Queen. O bairro não dormia, e embora parecesse bem mais escuro e silencioso ao cair da noite, sombras se moviam em becos sem iluminação, espreitando. Reduzi a velocidade ao me aproximar da escola, sentindo-me um completo idiota quando finalmente consegui parar para organizar meus sentimentos em pensamentos. Qual era o plano? Aparecer do nada e oferecer uma carona?

É claro que a escola já estava fechada quando cheguei. Resolvi dar uma volta nas proximidades enquanto minha mente divagava. Porque afinal eu havia saído da minha casa, num impulso? Porque estava preocupado com a segurança de Felicity, quando ela já estava acostumada a fazer esse caminho para sua casa?

Eu já tinha passado algumas vezes no Glades, quase sempre no banco de trás do meu carro blindado e com Diggle e um Glock para garantir a minha segurança.A única vez que me atrevi a andar com meus próprios pés, numa ilusão estupida de conhecer o bairro que todos do meu círculo social diziam ser um lugar sem esperanças, que na primeira oportunidade deveria ser destruído para que Starling City voltasse a prosperar... nessa única vez eu entendi porque estavam parcialmente certos. Eu havia presenciando um assalto seguido de morte.

Então sim, talvez estivesse sendo um pouco preconceituoso, mas se uma única vez eu mesmo já correra perigo, o quão insegura estava Felicity que convivia com essa realidade diariamente?

Freei abruptamente ao ver algo estranho, puxei o visor do capacete para cima para enxergar melhor.

A duas quadras da escola, a luz trêmula de um poste iluminou uma cena que fez meu sangue gelar. Uma mulher loira recuava contra a lataria de um carro. Felicity. À frente dela, um homem com um capuz vermelho a encurralava, os braços gesticulando agressivamente. Ela erguia a bolsa contra o peito, como um escudo fútil...

Meu cérebro apenas registrou a ameaça.

Acelerei a moto, parando de forma agressiva sobre a calçada. Chutei o descanso, deixei o motor ligado e avancei. O cara de capuz mal teve tempo de virar a cabeça. Agarrei o colarinho do moletom dele, puxando-o com violência para trás e empurrando-o contra a parede de tijolos do beco adjacente.

- Oliver, não! — O grito de Felicity ecoou pela a rua.

O rapaz praguejou, desvencilhando-se do meu aperto com a agilidade de um animal encurralado. Nossos olhos se cruzaram por uma fração de segundo na penumbra. Havia ódio e medo ali, mas antes que eu pudesse focar no rosto dele, ele girou sobre os calcanhares e disparou para dentro do breu de um beco.

Fiz menção de ir atrás dele, mas duas mãos agarraram meu braço com força desesperada.

- Você está bem? — Me virei para ela, a adrenalina ainda pulsando nos meus ouvidos. Minhas mãos foram automaticamente para os braços dela, checando se havia machucados. Ela estava ofegante, o peito subindo e descendo freneticamente, os olhos arregalados. — Ele te machucou? Eu devia ter quebrado a cara dele.

Ela puxou os braços com força, desvencilhando-se do meu toque.

- O que diabos você pensa que está fazendo?! ­- A voz dela tremia, mas não parecia alívio. Parecia fúria.

Fiquei estático, as mãos ainda suspensas no ar.

- Salvando a sua vida?

- Salvando a minha... — Ela soltou uma risada curta e incrédula, passando as mãos trêmulas pelos cabelos. Ela olhou ansiosamente para a escuridão onde o bandido sumira, como se temesse que a polícia brotasse do asfalto. — Aquele garoto... ele é meu aluno, Oliver!

Pisquei, a confusão atropelando a adrenalina que mantinha meu pulso acelerado.

- Mas ele estava te encurralando!

- Porque eu o forcei a conversar! Você pensou que eu estava em perigo por simplesmente estar com alguém ao meu lado? — Ela cruzou os braços, a postura defensiva erguendo um muro invisível entre nós.

- Quando você fala assim, soa realmente estúpido. — Adquiri uma postura defensiva também, recuando um passo. — Mas não parecia amigável, Felicity.

- Oliver... — Ela apertou a ponte do nariz por trás dos óculos, respirando fundo antes de falar mais calmamente. — O nome dele é Roy. Ele não aparecia as aulas há semanas, com muito trabalho eu o convenci a caminhar comigo até o ponto de ônibus mais próximo para que pudéssemos conversar. Ele não tem ninguém, Oliver. A mãe está doente e o pai está preso e ainda que não estivesse, o cara não presta — sua voz carregava um rancor que nunca tinha visto antes – Roy tem se metido com pessoas perigosas e é arisco como um cão de rua. Eu estava tentando ganhar a confiança dele. Sabe como é difícil convencer um adolescente do Glades a aceitar ajuda? E graças à sua entrada triunfal de justiceiro, é possível que ele nunca mais volte à escola!

Senti o peso da decepção dela arder em mim. Ela tinha razão. Eu me intrometi, li a situação completamente errado.

Fiquei em silêncio encarando os meus pés.

- Eu sinto muito. – Era tudo o que eu poderia dar a ela.

- O que você faz aqui, de qualquer forma? — Ela estreitou os olhos, a suspeita finalmente substituindo o susto.

Meu cérebro travou. Não podia dizer que não conseguia parar de pensar nela e que agi com impulso. Então simplesmente, usei meu instinto mais básico de autopreservação: exibi o sorriso polido que sempre me tirava de problemas com a imprensa e com a minha mãe.

Felicity não piscou. Torceu os lábios numa profunda indignação, completamente imune à minha maior arma. O sorriso morreu no meu rosto antes mesmo de se fixar.

Eu precisava de uma desculpa. Rápido.

- Eu... – estava preocupado com sua segurança e vim oferecer carona? Hum, a verdade não funcionava. – Eu vim te convidar para a festa de lançamento da minha candidatura a prefeito.

Não me atrevi a sorrir, não funcionava com ela.

Observei seu rosto processar a informação e ir de confuso para desconfiado.

- A festa é na sexta-feira que vem, às 19hrs.

Felicity soltou uma lufada de ar cansada.

- Você veio no Glades para me chamar para a sua festa? Você deveria simplesmente ter me ligado, como as pessoas normais fazem.

Dessa vez meu sorriso veio espontaneamente.

- Eu teria te ligado, mas eu não tenho seu telefone. — observei Felicity morder o lábio inferior, percebendo a brecha que abrira.

Puxei meu celular do bolso do casaco, desbloqueei a tela e o estendi na direção dela. Dessa vez não havia charme no meu gesto, era mais um desafio.

Felicity olhou para o aparelho, depois para mim e suspirou. Com um movimento brusco, arrancou o telefone da minha mão. Seus dedos voaram pela tela com uma agressividade contida, digitando e enviando uma mensagem para si mesma em tempo recorde.

- Me mandei uma mensagem de texto. — Ela devolveu o aparelho, empurrando-o contra o meu peito de forma seca, mas seus dedos tremiam levemente. A adrenalina estava começando a baixar, cobrando o preço. — Agora, boa noite, Sr. Queen.

Ela se virou, fazendo menção de seguir pela calçada escura.

- Felicity, espere. — Dei um passo, bloqueando sutilmente seu caminho. Apontei com a cabeça para o meio-fio. — Que tal subir na moto e eu te deixo em casa? Eu tenho um capacete extra.

Ela parou e olhou para a pesada Ducati preta estacionada na calçada, seus olhos se arregalando ligeiramente por trás das lentes dos óculos.

- Eu não vou subir nessa coisa. — A recusa foi imediata, carregada de uma mistura de desdém e genuína apreensão. — Isso é uma armadilha de metal sobre duas rodas. E eu valorizo muito a minha integridade física.

- É muito mais seguro do que andar sozinha pelas ruas do Glades a essa hora. — Retruquei.

- Eu ia pegar um ônibus...

- Felicity. — Chamei seu nome com um tom mais baixo, a voz mais suave.

Notei o jeito como ela abraçava o próprio corpo. O vento havia se intensificado, trazendo o ar gelado típico das noites de Starling City, mas eu sabia que o tremor nos ombros dela não era apenas pelo frio.

Sem dizer uma palavra, tirei minha jaqueta.

- O que você está fazendo? — Ela recuou um meio passo.

- Você está tremendo. E não tente me dizer que é apenas teimosia. — Dei um passo à frente e, antes que ela pudesse protestar, joguei a jaqueta pesada sobre os ombros dela. – E vai ventar bastante no caminho.

O couro estava quente com o calor do meu corpo. A peça era grande demais para ela, cobrindo-a quase até o meio das coxas, mas o efeito foi imediato. Vi os ombros dela relaxarem uma fração de milímetro ao serem envolvidos pelo tecido pesado.

Ela agarrou as lapelas da jaqueta, puxando o couro instintivamente mais para perto do pescoço. O cheiro da minha colônia estava ali, a poucos centímetros do rosto dela. Ela prendeu a respiração por um segundo, e seus olhos encontraram os meus. A hostilidade defensiva havia rachado.

- Suba na moto. — Pedi, quase num sussurro, estendendo a ela o capacete extra que eu havia trazido. — Prometo que não vou passar dos quarenta por hora. Deixe-me apenas ter certeza de que você chegará segura.

Ela olhou do capacete para o meu rosto. A teimosia travando uma guerra rápida contra a exaustão. Com um suspiro pesado, ela puxou a jaqueta de couro mais ao redor do corpo.

- Se você passar dos vinte quilômetros por hora, eu juro que faço você cuidar das crianças menores sozinho. — Ela murmurou, pegando o capacete das minhas mãos.

Segurei um sorriso vitorioso.

Subi na moto primeiro, estabilizando-a. Ela subiu logo atrás, rígida.

- Você vai precisar segurar em mim. — Avisei, ligando o motor. O ronco fez o corpo dela sobressaltar.

- Não abuse da sorte, Queen.

Mas assim que engatei a marcha e a moto deu o primeiro solavanco suave para frente, ouvi um pequeno grito de surpresa e imediatamente senti os braços dela envolverem minha cintura. Mãos pequenas se agarraram à minha camisa com força. O peso do corpo dela encostou nas minhas costas, e, de repente, o ar gelado da noite desapareceu por completo.

Acelerei em direção à avenida, sabendo que, mesmo que eu não tivesse levado o voto de confiança dela esta noite, eu definitivamente havia levado algo muito mais perigoso.

***

Girei a cadeira de couro, ficando de costas para a imensa parede de vidro que dominava o escritório. Do último andar do edifício da Global Merlyn — espaço generosamente cedido por Malcolm para ser a sede da minha campanha — a vista panorâmica de Starling City parecia fria, cinzenta e distante. Embora eu apreciasse o gesto de Malcolm, odiava a sensação de estar dentro de um aquário de vidro, onde cada gesto meu era observado pela equipe ou pela minha mãe.

Eu deveria estar decorando o discurso que Walter me entregara mais cedo, cujas páginas restavam espalhadas pela mesa de vidro. Palavras bonitas e vazias sobre "liderar a cidade rumo a um futuro de prosperidade" pareciam artificiais, sem qualquer vida. Completamente diferentes da notificação iluminada que brilhava no meu celular, trazendo um calor inesperado ao meu peito e um sorriso involuntário aos meus lábios.

Nós vínhamos trocando mensagens todos os dias durante a última semana. Eu comecei enviando um meme sem graça e ela respondeu com um emoji rindo. E de repente estávamos trocando mensagens de bom dia ou provocações sutis. Era simples. Leve. E de alguma forma me fazia desconectar do resto do mundo. A mensagem de agora não tinha um efeito diferente:

Felicity: O convite diz "traje de gala". Isso significa que precisarei vender um rim? Porque eu sou muito apegada aos dois.

Não contive uma risada baixa, mas logo a disfarcei com uma breve tosse. Não queria chamar atenção desnecessária — minha mãe já tinha entrado várias vezes na sala para perguntar se estava tudo bem, ou para tentar discutir detalhes da festa que aconteceria dali a poucas horas. Peguei uma das folhas do discurso e a posicionei atrás do celular, fingindo concentração enquanto meus dedos voavam pela tela:

Oliver: Gala, mas não precisa apelar para o mercado negro. Posso conseguir um vestido para você. (Eu conheço o cara que organiza a festa).

A resposta dela veio rápida.

Felicity: Nem pense nisso, Queen. Eu me viro. Apenas responda: o convite diz "Felicity Smoak e convidado". Isso significa que tenho direito a um "Plus One"?

Não que eu quisesse que ela viesse sozinha — sabia que ela se sentiria deslocada e obviamente eu não poderia passar a noite inteira ao seu lado — mas era impossível ignorar o incômodo irritante que a simples ideia de um acompanhante me trazia.

Oliver: Você pode trazer Helena.

Felicity: Ótimo, ela já está se arrumando. Vai ficar feliz em saber que não precisará entrar de penetra.

Soltei o ar, aliviado.

- Você é um péssimo mentiroso, Ollie. – A voz me assustou, fazendo com que eu deixasse o celular cair sobre a mesa com um baque que atraiu olhares indesejados no corredor. Amaldiçoei mentalmente Tommy, que estava preguiçosamente encostado no batente da porta, ostentando um sorriso zombeteiro. — Deveria reconsiderar essa história de ser político. – completou ele.

- Há quanto tempo você está aí? – resmunguei, sentindo meu bom humor evaporar.

- Tempo suficiente para ver você fingir que lê uma folha de papel enquanto digita descaradamente no celular.

- Como você...?

- Ollie... – Tommy balançou a cabeça seu sorriso se tornando maior, como se achasse a situação muito engraçada. – O papel que você fingir ler estava de cabeça para a baixo.

- Alguém mais viu? – Perguntei em um tom baixo. Tommy riu, puxando a cadeira à minha frente e largando-se nela sem cerimônia.

- Mais importante, com quem você estava conversando?

- Não é da sua conta, Tommy. – Fechei a cara.

Não era exatamente um segredo, mas de alguma forma eu não queria dividir aquilo – fosse lá o que estivesse acontecendo — com mais ninguém. Tommy me observou mais atentamente, os olhos analíticos estudando minha postura em busca de uma brecha.

- Para te fazer sorrir desse jeito eu aposto em uma professora bem charmosa.

- Não era a Felicity. – soltei no automático.

- Ah, então você a acha charmosa?

Me amaldiçoei assim que percebi que havia caído na armadilha mais velha de todas. E para completar meu infortúnio meu celular vibrou, mostrando na tela a notificação de uma nova mensagem de Felicity. Corri para cobrir o celular com as folhas do meu discurso, mas o gesto apressado só fez o sorriso de Tommy se tornar ainda mais vitorioso.

- Incrível como eu tenho o dom de estar sempre certo.

- Não é o que você está pensando.

Tommy se aproximou.

- E o que eu estou pensando, Ollie? – provocou ele, inclinando-se para a frente. – Que você tem uma queda pela professora?

Era isso o que eu tinha? Uma queda por Felicity?

- Não fale besteiras, Tommy. – Dispensei, gesticulando com a mão, como se um simples gesto pudesse afastar aquele sentimento. – É puramente platônico.

- Eu te disse que você mente muito mal, Ollie. — A postura relaxada dele desapareceu, dando lugar à franqueza brutal que só ele tinha permissão para usar comigo. – Eu vi como você é quando está com ela, eu não sei explicar, mas é como se finalmente você se soltasse e aproveitasse a vida. Até mesmo agora você parece uma pessoa de verdade quando está olhando para esse telefone — disse Tommy, os olhos cravados em mim. — É como se o interruptor ligasse. Mas, no segundo em que guarda o celular, você ativa aquele modo robô que só cumpre ordens e faz exatamente o que esperam de você.

Engoli em seco. O diagnóstico dele caiu sobre mim com o peso de uma sentença. Era incômodo o quanto eu vinha lutando para evitar aquela verdade.

- Você precisa decidir qual versão de si mesmo quer ser, Ollie — continuou ele, apontando para o meu peito. — E precisa resolver a situação com a Laurel. Com ou sem a Felicity na história, você tem o direito de estar com quem gosta... mesmo que seja de forma "platônica". — Fez aspas no ar com os dedos.

- Eu não sei o que é isso, Tommy — falei, desviando o olhar para imagem fria de Starling City na janela. Pela primeira vez no dia, abandonei as desculpas polidas. — Pode ser só uma faísca. Mas, independente disso... Laurel e eu... Não há nada entre nós há muito tempo. Mesmo antes de a Felicity aparecer.

Suspirei, passando a mão pelo rosto.

- Eu passei anos me apegando a lembranças. Tentei me convencer de que é natural o sentimento esfriar em relacionamentos longos, mas a verdade é que nos tornamos duas pessoas completamente estranhas.

- Você tem que falar com ela, Ollie. Essa situação não é justa com nenhum dos dois.

- Eu sei, mas não consigo ficar cinco minutos sozinho com ela sem que a minha mãe apareça com uma planilha do cerimonial. Elas estão organizando isso como se fosse um casamento.

- E você está usando a Moira como desculpa para adiar o inevitável. – apontou.

A constatação me atingiu no estômago.

- É apenas até a festa de lançamento passar. — Defendi-me, odiando o quanto minha voz soava patética — Não posso terminar com a Laurel no dia do maior evento da campanha. Seria um massacre na mídia, e a minha mãe me enterraria vivo. Amanhã de manhã, assim que a poeira da festa baixar, eu encerro isso. Acabou, Tommy. É só uma questão de aguentar menos de vinte e quatro horas.

Tommy recostou-se na cadeira, os olhos escuros fixos em mim com evidente desaprovação.

- É o seu funeral, Ollie. – disse, mas eu sabia que ele desaprovava minha atitude — Eu só acho que seria melhor você arrancar o band-aid de uma vez, antes que mais gente saia machucada com essa história.

- Vamos mudar de assunto... – Pedi, odiando confrontar meus sentimentos — Porque veio aqui?

Tommy abriu um sorriso cínico que fez com que eu me arrependesse de perguntar.

- Ironicamente, eu vim pedir o número de celular da Felicity. – cerrei os dentes.

- Eu não vou te dar.

- Hey! Não é como se eu fosse chamá-la para sair, só queria que ela passasse lá em casa umas duas vezes na semana.

- Tommy...

-Você está possessivo demais para quem tem apenas uma “faísca.” — pontuou — De toda forma não é para mim, é para o William. — O tom de voz dele mudou instantaneamente deixando o ar de provocação e suavizando com o peso da preocupação paternal. — A escola me ligou hoje cedo. As notas dele em matemática estão despencando e ele não consegue focar. A Sara, claro, não perdeu a oportunidade de dizer que a culpa é da minha ausência, de todos nos treinos e nas viagens da temporada, então, eu preciso de uma professora de matemática particular.

Assenti devagar. O casamento de Tommy e Sara Lance havia terminado de forma civilizada na teoria. Eles se casaram assim que ela engravidou, jovens demais. Ela começava a faculdade e Tommy iniciava no futebol profissional. As viagens constantes dele com o time nos campeonatos da NFL enquanto Sara se desdobrava entre a faculdade e um recém nascido foram a receita para tudo dar errado.

Uma pena, os dois eram ótimos juntos.

- A Sara está sendo rígida, Tommy. Ele é só um garoto.

- Ela não está de todo errada. — Ele admitiu, a culpa marcando as linhas ao redor de sua boca. — É por isso que vou anunciar minha aposentadoria no final desta temporada. Acabou, Oliver. Não quero mais ver meu filho crescer através da tela do celular.

Fiquei em silêncio por um instante. Largar o esporte no auge da carreira era uma decisão monumental, mas, ao olhar para o rosto exausto do meu amigo, soube que era a única escolha possível. Havia uma pontada de inveja silenciosa queimando no meu peito. Tommy tinha a coragem de abrir mão de tudo para resgatar o que importava. Ele podia escolher dizer "chega".

Enquanto eu... eu continuava preso em um terno sob medida, decorando discursos escritos por outras pessoas e permitindo que minha mãe desenhasse cada passo do meu futuro.

- E o primeiro passo para mostrar que serei um pai presente é conseguir a melhor professora de reforço de matemática que existir — completou Tommy, apoiando as mãos na mesa com a determinação de quem finalmente tomara as rédeas da própria vida.

Forcei um sorriso disfarçado para esconder o peso daquele pensamento.

- Ainda assim, não vou te passar o número dela. — murmurei, forçando um tom bem-humorado para esconder o peso daquele pensamento

- Você nem conquistou a garota e já está eliminando a concorrência? — provocou ele, franzindo o cenho em um tom de falsa indignação.

- Não tenho medo de você roubá-la de mim, Tommy. Tenho medo dos dez anos de podres meus que você acumula e que jogaria na conversa em menos de cinco minutos.

- Ok. Justo. – ele ergueu as mãos em rendição, rindo enquanto se levantava.

- Mas você pode falar com ela na festa hoje à noite. – concedi, antes que ele cruzasse a porta.

- Obrigado, Ollie. – disse ele, já na porta. Mas, quando se virou de volta para mim, o sorriso zombeteiro retornara ao seu rosto. — Ah, e diga à Felicity que ela vai ficar um absoluto estouro de vermelho.

Baixei os olhos para a tela do telefone, finalmente lendo a notificação da mensagem que eu recebera mais cedo quando Tommy me interrompera.

Felicity: Tudo bem se eu usar um vestido vermelho?

Fechei os olhos por um segundo. A imagem mental de Felicity quebrando a monotonia de um salão cheio de trajes sóbrios usando um vestido vermelho-vivo fez meu sangue correr mais rápido.

Sim, ela ficaria um estouro de vermelho.

Notas finais
Isso é tudo pessoal :) Lembrando que essa história é um slow burn, então temos que ter paciência.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.