Notas iniciais
Ayoooow o/ Gente, por favor, me desculpem pela demora ;u; Eu confesso que, em certo ponto, jogar um maldito RPG me pareceu mais atraente do que escrever, isso com toda certeza atrasou o cronograma que eu tinha em mente. Vou tentar ao máximo não tornar a fazer isso T^T Eeeenfim, nesse capítulo teremos a aparição da personagem criado pela leitora Signora Della Notte. Foi bem divertido escrever sobre ela, espero que esteja ao agrado de todos ^-^ Aliás, antes que me esqueça, a história agora tem capa ♥ Deem uma conferida! Ela foi feita pela equipe de uma pessoa só da página "Tháglia Brito Capista", caso precisem de algo do gênero, peçam por lá! Tháglia faz capas sensacionais! Chega de blábláblá e vamos ao capítulo! Boa leitura :3 P.S: Todo o capítulo foi escrito ouvindo Castle of Glass - Linkin Park Caso queiram ler ouvindo-a, este é o link: https://www.youtube.com/watch?v=ScNNfyq3d_w

Capítulo II

Aurora

Houve uma época, não muito tempo atrás, em que a jovem realmente acreditou que as coisas começariam a dar certo. Sua vida nunca se resumiu a grandes luxúrias – isso se possuiu alguma em seus últimos dezenove anos – e jamais passaria a se resumir, ela sempre correu do mundo e da sociedade, se mantendo sozinha pelo que fizeram a ela no passado e, quando por um reles desvio, ela permitiu que alguém se aproximasse, Allyria viu – de novo – como a realidade era incrivelmente cruel e tornou a se isolar em sua casca grossa que a protegia de qualquer um que quisesse explorar de sua raridade.

— Jen eu… – Ally se levantou compulsivamente, esticando a mão esquerda para cima como se estivesse prestes a agarrar algo e retendo-a logo em seguida, percebendo que seus dedos não apalparam nada além do vazio – Jen não está mais aqui, sua idiota.

Ally levou as mãos ao rosto, esfregando os olhos para despertar. Ela não sabia quanto tempo havia dormido, mas desconfiava ser pouco, pegara no sono durante a madrugada da noite anterior e, naquele momento, o sol se levantava no horizonte, quebrando um pouco da tonalidade barrosa que as nuvens de inverno haviam assumido. Ela estralou o pescoço para os dois lados e levantou-se, ficar muito tempo na cama depois de acordada a irritava, ela muito provavelmente começaria a pensar em sua vida e em toda a desgraça que deixou para trás e passaria a odiar ainda mais esse mundo.

Seu acampamento não era uma das melhores coisas que havia construído, mas ainda assim era algo, Ally se manteve segura e quase não teve a necessidade de enfrentar nenhuma criatura que a praga criou. Ela sabia se virar muito bem sozinha e pretendia continuar assim pelo tempo que fosse preciso, mas nem sempre o destino nos dá possibilidade de escolha. Um dos primeiros sinais a se notar para perceber que era necessário procurar outro lugar para se fixar foi a distância, Allyria se estabelecera em uma zona longínqua de qualquer construção que pudesse servir de refúgio em casos emergenciais – na verdade não havia nada que pudesse ser chamado de construção ali por perto sem ser o seu pequeno forte. O segundo fator era nada mais nada menos do que suprimentos, ela mesma podia ir e vir de Londres quantas vezes fosse necessária para pegar água, comida e curativos para si, mas quanto tempo levaria caminhando? Um, dois dias, quem sabe? Não era como ir à panificadora no quarteirão da frente. Isso desconsiderando o fato de que Allyria era apenas uma, não podia carregar grande quantidade de mantimentos.

Hora ou outra ela teria que sair dali, só não sabia quando. Ela, de certa forma, temia permanecer na cidade por muito tempo, sua força vinha da natureza, sem ela por um grande período de tempo seria incapaz de lutar, mesmo para se defender. Era uma questão delicada, ela teria de pensar com calma.

Ally se aproximou da fraca chama que ainda restava da fogueira e esquentou as mãos, as noites eram ainda mais frias em um campo. Bebericou um pouco de chá – agora gelado – que preparara momentos antes de dormir e respirou profundamente, sentindo o ar cortar seus pulmões com lâminas frias. Momentos como aquele eram raros, curtos e agradáveis, somente ela e seus batimentos, sem pensamentos, sem sentimentos ruins, apenas suas plenitude e uma paz interior que ela temia que se esvaísse. Geralmente momentos como aquele vinham logo antes de uma decisão e sempre a levaram para o caminho certo, Ally esperava que funcionasse mais uma vez.

A garota desejou boa sorte para si mesma e esperou que o tempo respondesse sua pergunta. Ela comeu maçãs escurecidas e um pouco de carne seca que conseguira de um posto no caminho até seu acampamento. O sabor lembrava-a de seus anos dentro do reformatório e da forma como se divertia usando e abusando de seu dom com quem a incomodava, também eram tempos ruins, mas ainda assim eram tempos ruins com menos preocupações, seu único problema era manter o seu próprio espaço e não permitir que ninguém passasse da linha limítrofe que determinara. Ela pediu que as coisas fossem mais simples e que pudessem ser resolvidas com um simples balançar de mãos, jogando rajadas de vento e cortando quem estivesse na sua frente para se livrar de intrigas.

Ela lembrava-se vagamente de alguém ter dito que a “melhor coisa de nossas vidas é ser criança”. Ser criança para Allyria nunca foi uma coisa boa. Era como se todo o mundo houvesse se virado contra ela e jogado fardos de azar para que carregasse, ela não tinha força na época, então simplesmente os rasgava em um milhão de pedaços sem se perguntar duas vezes se deveria realmente fazer aquilo.

Foi aí que uma pequena lâmpada acendeu em sua mente. Por mais que sempre tenha resolvido as coisas da mesma forma desde que se entendia por gente – geralmente envolvendo um ou outro soco, sem contar com um pequeno derramamento de sangue –, ela havia crescido. Não era mais uma criança brigando por seu próprio espaço e sendo julgada por adultos que não compreendiam o que se passava por dentro da cabeça da menina. Ally agora era a própria adulta que julgava a si mesma. Estava na hora de mudar e talvez, só talvez, esse tenha sido seu primeiro pensamento depois de um desses seus momentos de plenitude que possuíssem uma margem de erro para dar errado. Ela descartou essa ideia negativa o mais rápido que pôde.

O sol não havia nascido por completo quando partiu. Ela juntou poucas coisas dentro de sua mochila – um casaco rasgado, arame farpado, munição sem arma, rações de proteína e água – e torceu para que tudo aguentasse, pelo menos, até a periferia de Londres, dali para frente ela podia se virar. Se o tempo colaborasse e as nuvens continuassem retendo sua chuva, chegaria ao anoitecer.

Ela perdeu a conta de quantas vezes parou para descansar, suas pernas exaustas pediam absurdamente por arrego quando os primeiros destroços de Woodford começaram a aparecer. As pequenas casinhas – agora quase completamente desintegradas – uma vez já fizeram parte do seu dia-a-dia, se as coisas não estivessem tão deterioradas muito provavelmente conseguiria identificar o orfanato que a assombrara por tantos anos. Ela ficou grata por ter visto como a construção fora reduzida ao pó, ninguém merecia permanecer naquele lugar por tanto tempo quanto o que esteve lá dentro.

Nenhum ser vivo ousaria viver naquelas condições. O solo cinzento, as árvores secas, manchas de sangue velho, as ruínas do que um dia poderia ter sido o lar de uma família feliz, o esqueleto de comércios… O vento trazia consigo o aroma de lágrimas, era como se todas as esperanças de quem habitava aquela zona de baixa renda em Londres houvessem sido despedaçadas para formar rios de tristeza. Um calafrio percorreu-lhe a espinha quando desviou de um galho torto e afastou esses pensamentos.

Naquele ponto ela começou a considerar a ideia de que, em algum momento, poderia ser atacada, manteve sua guarda levantada para qualquer perigo que surgisse, não exitaria em arrancar sangue. Ally pulou sobre um grande pedaço de concreto e imaginou o momento em que a parede o qual pertencia caiu, se perguntando o que levou seu desmoronamento – muito provavelmente o que causou o estrago de todo o resto. Perguntas idiotas como aquela invadiam cada vez mais sua mente nos últimos dias, desfocando-a do que realmente importava, sua sobrevivência, a procura por um novo abrigo, quietude. Allyria poupou suas energias de serem gastas com coisas desnecessárias e continuou correndo, bebericando um último gole de uma de suas garrafas.

O jato de água quente caiu-lhe perfeitamente bem. Foi uma surpresa ao rodar o registro e descobrir que os geradores de energia da Royal Academy of Arts ainda funcionavam, maior ainda foi deparar-se com os chuveiros em perfeito estado. Há muito tempo não conseguia desfrutar de um banho digno e com toda certeza não se imaginava fazendo isso pelo menos até o próximo ano. Muito provavelmente a academia possuía encanamento e reservatório separados do restante da cidade para casos de emergência e, no instante em que o sistema de água foi cortado, aquele continuou funcionando. Ela teria alguns dias de banhos quentes e energia. Era um bom começo.

Seu corpo relaxou quase que instantaneamente, a tensão deixou os ombros, a dor no pescoço foi-se, seus joelhos cederam. Era o que precisava depois de tanto tempo. Ally ficou parada, sentindo cada partícula das gotas tocando sua pele e, pouco a pouco, renovando-a enquanto a água encardida escorria ralo abaixo.

Quando saiu, Allyria tomou cuidado com as luzes, apagando aquelas que possuíam grandes janelas para o lado exterior da construção. Em suma, a grande maioria dos cômodos não apresentava algo de útil, a ala norte estava completamente preenchida com arquivos de estudantes que não perambulavam mais por terra. Leste e oeste se resumiam em galerias e salas de aula, Allyria encontrou algumas roupas largadas que, com sorte, poderiam ser úteis. A única que realmente oferecera algo bom foi a sul, abrigando a enfermaria e uma espécie de lanchonete com uma quantidade considerável de alimentos congelados.

Era um bom lugar, não havia como negar. Para quem construira um acampamento em uma área rural de Londres e permanecera por lá desde que as tragédias começaram, a Royal Academy of Arts tornou-se um avanço incrível. Ally era capaz de imaginar sistemas de defesa e ataque capazes de aniquilar qualquer um que ousasse procurá-la, poderia facilmente transformar toda a universidade em um outro forte de defesa. Bastava tempo e isso, ela desconfiava, era uma coisa que possuía com sobra.

Ally havia encontrado latas vazias em umas das salas de artesanato, ela podia usá-las para construir um alarmes por aquela noite, e foi o que fez. Isolando-se na enfermaria, Allyria perfurou o fundo de uma das latas com uma de suas adagas e amarrou-a com uma das pontas de uma linha para costurar feridas com um pequeno nó, com a outra passou por detrás da porta e fechou-a, suspendendo o pequeno objeto de metal no ar pela linha. Quem abrisse a porta derrubaria a lata no chão, acordando-a e dando tempo para que fosse capaz de se preparar. Allyria repetiu o mesmo processo várias vezes, pendurando pedaços e mais pedaços de linha na porta para assegurar-se de que funcionaria.

Ao terminar ela se dirigiu rumo a janela, encarando o próprio reflexo. Os cabelos negros caíam como véu sobre seus ombros, os olhos castanhos, o rosto jovem, a pele limpa, a calça skinning, o gorro vermelho, a grossa e grande blusa que lhe caía até metade das coxas, naquela hora ela parecia simplesmente uma garota normal em meio ao fim do mundo. Ally nunca soube o que era realmente uma garota normal, mas ela suspeitava de algo parecido com o que viu nos poucos filmes que assistira ao longo de sua vida. Do lado de fora as coisas pareciam estar quietas, ela imaginava por quanto tempo continuaria assim, nada que envolvia magia permanecia parado por longos períodos.

Virando-se, Ally agarrou o cabo de uma faca, apagou as luzes e deitou-se em uma das camas da enfermaria, estranhando o fato de deitar-se em um colchão que não fosse o solo no qual pisava. Ela dormiu bem, sem nenhum sonho dessa vez.

Os tiros a despertaram. Primeiramente ela pensou que não passasse de sua imaginação pregando mais uma peça, mas fora real demais, as armas dispararam não muito longe dali, talvez quatro ou cinco quarteirões. Ally não aguardou outro estrondo para se levantar, ela agarrou o punhal da faca e remexeu os lençóis a procura de sua mochila, levantou os travesseiros sujos e jogou-os longe, suas mãos se fecharam, furiosas.

Ela não estava sozinha.

Alguém lhe roubara durante o sono, sem disparar suas armadilhas e a deixara somente com as roupas do corpo, ela ficou de pé e correu apressadamente, jogando as latas no chão, disparando como uma flecha por entre os corredores a procura de qualquer sinal que denunciasse o ladrão. Allyria ouviu mais um tiro e o som de vidro quebrando, dessa vez mais perto, ela olhou por uma das janelas da ala oeste e fitou os prédios naquela direção. O brilho alaranjado que surgira do nada denunciava a posição de quem quer que estivesse lá. Se haviam pessoas por lá, certamente seu ladrão também estaria.

Não havia muito o que carregar. Allyria sentiu a lanterna que deixara no bolso direito e supôs que aquilo seria o suficiente, ela partiu, descendo as escadas da entrada, atravessando a avenida preenchida de automóveis e torcendo para que arranjasse uma boa briga.

Os sons de balas sendo disparadas haviam terminado e, por um certo momento, Ally ficou desorientada, não sabia para onde seguir, foi nesse ponto que antenou os ouvidos e ouviu o alarme dos carros, altas sirenes gritantes que berravam em uma cidade fantasma. Os altos prédios com um ar abandonado traziam a Londres um ar assustador quando ampliavam o som dos ventos, transformando uma simples brisa em um urro da Mãe Natureza.

Em um placa, não muito longe dali, Ally conseguiu ler – com um pouco de dificuldade, considerando que nunca esteve em uma escola com tanta frequência – Queen’s Theatre em uma ortografia floreada, típica da era vitoriana que fora mais forte na capital inglesa, o irritante som partia de veículos em frente ao monumento. Ela esmurrou o parachoque do Grand Siena para que parasse de apitar, fez isso um a um até que o barulho desapareceu por completo.

— Tom cinza combina melhor com ele, sabia? – uma voz murmurou na parte de trás no teatro em um tom zombeteiro, como se quisesse quebrar um clima tenso que se instalara momentos antes.

— Eu quase levo um tiro e isso é tudo que tem a dizer? Você é uma péssima irmã, Lucy.

As vozes femininas permitiram-se a rir, contendo-se. Ally, passo a passo, tentou ser o mais silenciosa ao aproximar-se, ela espiou atrás de um poste, avistando duas figuras posicionadas a menos de um metro de um corpo incinerado. A mais baixa das duas – provavelmente Lucy – encarava uma das janelas estouradas, projetando-se para fora do prédio, quase despencando, estava a arma que ela suspeitava ser a responsável pelos tiros. Seu conhecimentos por modelos bélicos não era extenso, mas Ally sabia que aquela era um protótipo não muito recente de uma sniper.

Allyria tornou a observar as garotas, elas não possuíam nada que se assemelhasse ao que lhe fora roubado, mas não custava continuar seguindo-as até que a levassem para seu destino. Enquanto não descobria quem fez o que fez com ela, Ally continuaria com essas duas. Lucy e a outra não saberiam de sua presença, mas Allyria teria conhecimento de cada passo que dessem a partir dali.

Notas finais
E aí, o que acharam? Por favor, me deixem saber :3 Comentários, críticas, elogios, favoritos e tudo mais são sempre bem-vindos! Até o próximo ^-^ (que espero que saia amanhã q-q)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.