16 de março

– Acoooooorda dorminhoca, – Alguém grita atrás da porta – vamos nos atrasar. – Agora eu posso reconhecer a voz de Laura, minha melhor amiga, bem isso é como eu costumo descreve-la, apesar de que nos últimos tempos tenho contestado muito isso. Ela entra no quarto depois de não receber resposta.

– Vai embora, hoje é sábado, se você ainda não notou. – Eu grito e jogo um travesseiro nela, que já está sentada na minha cama. Vejo rapidamente o relógio, são 06h30min. – Como você entrou aqui?

– Bom eu sei exatamente que dia é hoje, é o dia do meu aniversário e você prometeu que ia me ajudar a arrumar as coisas pra festa e como eu entrei aqui não é da sua conta. – Ela parece chateada por eu ter esquecido.

– Não, você só invadiu meu quarto. Isso não é mesmo da minha conta. E que droga de história é essa? Seu aniversário foi quarta. Não me lembro de ter prometido de te ajudar a fazer uma festa que eu nem sabia que teria. A propósito você vai me convidar pra tal festa? – Digo ironicamente. Sento na cama e esfrego os olhos. Agora já posso ver melhor seu rosto. Laura é linda, loira, dos olhos azuis, tem a pele clara e o corpo magro e é um pouco mais baixa que eu, o que sempre me deu a sensação de que eu deveria protegê-la.

– Claro que prometeu, lembra no meu aniversário do ano passado? Quando eu estava chorando pelo desastre que havia sido minha festa e você prometeu que no próximo nós faríamos a melhor festa de todos os tempos. Sorte sua que eu já venho me preparando há semanas e a moda não é fazer no dia correto.

Eu cubro meu rosto com o travesseiro, suspiro, era 14 de março de 2011 quando a mãe de Laura organizou uma festa surpresa de 16 anos e convidou todos os amigos da escola, tudo teria dado certo se a festa não tivesse sido toda decorada de Barbie, foi uma loucura só. Quando Laura chegou e se deparou com a cena, correu pro quarto e se trancou no banheiro, chorou por horas até me deixar entrar, queria deixar a escola então prometi que ajudaria ela fazer a melhor festa de todos os tempos no próximo aniversário. Entristeço-me com a lembrança, me arrependo por dois segundos, então lembro a felicidade aparecendo no rosto dela na época e agora ela está com a aquela cara que sempre arranca o que quer de mim.

– Está bem, o que eu tenho que fazer? – Eu suspiro alto e dou um sorriso forçado.

– Bom, temos que arrumar várias coisas, já está tudo encomendado, só falta buscar e organizar no local. Já tenho o lugar pra fazer, aqui está o endereço. – Ela me passa um papel com algo anotado, minha vista está tão embaçada que não consigo diferenciar nenhuma letra.

– Ué você não vem junto? – Eu pergunto, mas já sei a resposta.

– Na verdade isso vai ficar com você porque vou passar o dia me arrumando pra festa. Os convites também já foram enviados. – Ela sorri como se fosse realmente fácil. Espera ai: é fácil pra ela, EU vou ficar com a parte pesada. Ela sabe realmente usar minhas promessas contra mim, sabendo que na maioria das vezes, ou sempre, eu tento cumpri-las.

– Como eu pensei. Agora você pode...? – Eu aponto para a porta.

– Ainda não acabei. Aqui estão todos os lugares das encomendas, você passa lá, pega as coisas e leva pra casa onde vai ser a festa.

– Ah claro! Só isso. – Eu abro outro sorriso forçado e penso como vai ser divertido carregar essas coisas na minha bicicleta. – Muito grata Srtª Laura. Agora será que você poderia ir? Eu preciso mesmo voltar a dormir.

– A festa é as 19h30min, não esqueça e não tem hora pra acabar. – Eu quase abro a boca pra perguntar como a mãe dela tinha aceitado tal coisa, mas paro antes de começar a frase, de alguma forma isso não me importa nenhum pouco. – Ela abre a porta e vira pra falar mais alguma coisa, eu a interrompo:

– Tchaaaau Laura. – Eu grito, ela murmura alguma coisa e por fim sai. Eu suspiro aliviada e tento voltar a dormir, alguns minutos depois sou cortada pelo despertador que soa às 7 horas. – Aaaaaah eu mereço.

Levanto com muita dificuldade, tomo banho, escovo os dentes e em 10 minutos estou pronta, desço e minha mãe já está levantada, fazendo o café. Passo por ela e beijo seu rosto. Sento-me à mesa esperando pelos ovos mexidos que está com um cheiro ótimo. Por um momento fico admirando seu rosto, meio surrado pelo tempo, mas ainda muito bonito. Pra falar a verdade minha mãe é linda, tem os olhos grandes cor de mel, como os meus. Seu sorriso é lindo, esse já herdado pelo meu irmão, tem os cabeços pretos. Porém não é exatamente isso que acho mais bonito na minha mãe, gosto mais da força que tem por trás desses olhos, dessas olheiras que estão expostas em seu rosto. Talvez venha do tempo que vivia com meu pai ou das noites que passou em claro cuidando de mim e do meu irmão. Eu sorrio pelo pensamento de orgulho. Ela percebe e me encara.

– O que Laura queria? – Pergunta desconfiada.

– Encher minha paciência, como sempre. Você a deixou entrar? – Eu pergunto tentando parecer com raiva.

– Bom ela disse que era urgente e quem segura àquela menina afinal? – Ela ri e volta sua atenção pra panela. – Mas o que ela queria?

– Quer que eu ajude a organizar uma festa de aniversário.

– Aquela que ela vem falando durante todo o mês?

– Você sabia disso? Pera ai, eu sou a única que não sabe das coisas por aqui?

– Filha, ela tem falado dessa festa o tempo todo. Eu bem imaginei que você não estava ouvindo nada do que ela tava falando. Onde anda com a cabeça?

– Ah era dessa festa? Eu achava que era só ir à pizzaria e pronto. – Eu minto, ainda não lembro nada sobre essa festa, mas não quero que ela pense que eu ande distraída porque eu realmente ando e é pensando em assuntos que eu não posso falar. – Bom que seja! Mas agora eu tenho uma lista de coisas pra fazer.

– Quer ajuda? – Ela não parece ter nenhuma animação.

– Você não tem que trabalhar? – Eu pergunto sabendo que ela só estava sendo gentil.

– O que vale é a intenção.

– Com certeza. Pode deixar o carro? Vou ter que carregar tantas coisas.

– Desculpe filha, não posso, vou ter que sair da cidade.

– Vai pra onde?

– É um vilarejo, vou com a mãe do Daniel, a avó dele está muito doente. Acho que nos seus últimos dias. – Eu fico me perguntando como Daniel está em relação a isso, mas não quero ter que perguntar pra minha mãe. – E pobre Daniel, está arrasado com isso. – Ela suspira e minha vontade é pegar o telefone e ligar imediatamente pra ele, mas acho que minha cara de pau ainda não estava tão grande. – Quer saber, vou ligar e perguntar se podemos ir ao carro dela.

– Não precisa, eu me viro, obrigada. – Quase esqueci que elas trabalhavam juntas, não quero que dona Célia venha aqui, não quero ter que encarar aquele olhar de desaprovação que sempre recebo quando encontro com ela.

– Tem certeza? – Eu faço que sim com a cabeça.

– Tenho que ir se não vou me atrasar. Acorda o Lucas e manda ficar longe do fogão. – Ela sorri carinhosamente, provavelmente por conta do meu desanimo. Ela trás os ovos mexidos para mim. Pega sua bolsa, me dá um beijo carinhoso e sai, começo a comer só quando ouço a porta da frente bater.