Queda Bruta

1 Capítulo Único


O vento era uma coisa raivosa, selvagem. Uivava pelas laterais do prédio como um animal enfurecido. Ele passava por mim com violência, chicoteando meu corpo, tentando me levar consigo para o abismo

- Que altura estamos mesmo? – Perguntei.

- Vigésimo terceiro ou vigésimo quarto. Bem alto.

Olhei para cima. O céu estava cinza-creme, repleto de nuvens escuras e macias. Diziam que ele era azul por detrás daquele manto, mas eu não tinha como ter certeza agora.

Abracei meus braços. Estava bem frio.

Fui até o parapeito. Espiei lá em baixo, e uma onda de vertigem se quebrou em cima de mim. Recuei alguns passos, tonto.

- Bem alto – Repeti.

Andei até Sofia. Ela andava sem rumo pelo topo do prédio, sua mente perdida em algum lugar distante. O casaco que usava era grande demais, chegando quase à altura das canelas. Uma toca cobria parte da cabeça, deixando à solta alguns punhados de cabelo escuro.

- No que está pensando?

Ela deu com os ombros.

- Eu não sei... – Ela hesitou por um momento. – Acho... Acho que vou sentir falta de algumas coisas.

- Isso é bom. Significa que algumas coisas valeram a pena.

Ela concordou olhando para o chão.

Tive o impulso de abraça-la, mas me contive.

Sofia andou até o parapeito. O vento fazia seu cabelo ondular de forma engraçada, e parecia ser mais gentil para com ela.

- Acho que vou sentir falta de algumas séries. Vou sentir falta de Kitkat e de Coca-cola. De dormir até mais tarde e de tomar banhos quentes. São coisas muito boas.

- É. Elas são.

Não falamos muito mais coisas depois disso. Um ou outro comentário sem importância. Foi um momento regado de silêncio e sentimentos confusos.

- Eu... Vou ter que ir. Já está quase na hora.

Ela tirou o tênis, colocando-os num canto. Tirou o casaco, dobrando-o e pondo-o por cima dos calçados. Tirou do bolso as chaves de casa, a carteira e o celular. Também tirou a toca, e seu cabelo se espalhou para todos os lados. Ficou de pé no parapeito, e foi então que repare no quão pequena ela era, o quão frágil parecia... E o quão triste estava.

- Eu ouvi dizer... – Comecei. – Que se você for de olhos fechados, será uma viagem mais tranquila.

Ela negou com a cabeça.

- Não. Eu quero ver.

Nos olhamos por mais algum tempo, sem dizer nada.

- Eu também vou sentir sua falta. Obrigada... Por tudo.

EU não soube o que responder. Gostaria de ter dito um milhão de coisas, mas não fariam diferença para ela.

Mas teriam feito para mim?

Até hoje eu não sei.

Ela sumiu. Num piscar de olhos, ela saltou do prédio, procurando na queda algo que nunca encontrou em vida.

Espero que tenha encontrado.

Rezo para que sim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!