Yose e Regina chegam à boate e são recebidos de maneira menos distante pelos funcionários. Pelos olhares, percebe-se uma aura de admiração e encanto pela beleza dos dois. São conduzidos para uma entrada lateral para não se confundirem com os clientes que começavam a chegar ao local para o show daquela noite.

— Fique tranquilo porque eu estarei na plateia e ficarei atenta aos movimentos de quem estiver nas mesas.

— Estou calmo, Regina.

Mas ele não estava. Olhava para os lados como se procurasse algo e mantém sua mão presa à mão da policial. Era como se estivesse entrando em ruínas, para procurar um contato com fantasmas. Eles o viam, mas não eram vistos por ele.

Surgido do nada, como se tivesse se materializado no meio do salão, Mason usa sua voz assombrosa para dar as primeiras orientações. Ele não encara Regina, porque simplesmente não consegue. Seus olhos estavam magnetizados pela beleza do jovem policial, como se todo o cenário do mundo estivesse resumido naquele par de olhos Não eram olhos comuns. Será que era mesmo real?

— Yose precisa ir para o camarim, Regina. – Manson fala com sua voz fantasmagórica. Indica o corredor por onde iriam e espera ser atendido. Controla seu desejo faminto de tocar o policial.

Yose acompanha o homem, enquanto Regina vai acomodar-se em um local reservado para ela naquela noite. Iria apenas observar os convidados e suas reações. Cada detalhe seria importante.

— Em nosso convite fomos informados de que teríamos um novo regalo. Você o conhece? Vimos você chegando com um homem jovem que foi levado por Manson. – uma das mulheres pergunta para Regina, sentando-se ao lado dela.

— Claro que o conheço, porque eu o trouxe. É meu!

— E onde você encontrou aquela joia?- Na cadeia, assim como todos os demais dançarinos. Por que o interesse?

Constrangida, a mulher muda de assunto e por longos minutos ocupa a atenção de Regina. Ocupar não é bem o termo, porque a policial não estava tão interessada no que ouvia. Seus olhos vasculhavam o salão e lia as expressões naqueles rostos risonhos.

O tempo passa.

A voz de Manson ao microfone, interrompe a conversa das duas mulheres.

— Minhas amigas e meus amigos! Depois de algum tempo de separação, estamos juntos e nos reconciliando! Sejam bem-vindos e bem-vindas à nossa boate Falcões Noturnos e ao meu coração!

O homem é aplaudido e ovacionado.

— Depois de alguns problemas, retornamos para saciar nossas vontades de ver o que há de mais belo em nosso Estado! Hoje, tenho a honra e o prazer de apresentar a vocês, um raro exemplar de diamante conseguido em um garimpo ainda pouco explorado!

Mais palmas e gritos. A imaginação estava atiçada e toda a raça lupina estava faminta.

— Quero que vocês apreciem e depois abram generosamente as suas carteiras! Vamos receber o meu, o seu, a nossa nova safira! Recebam com braços e pernas abertos, o nosso novo dançarino: Yose Dimarco!

As pessoas aplaudem ainda mais e quando as luzes do palco começam a oscilar, exibindo a silhueta do dançarino, os gritos tornam-se urros. E quando ele começa a dançar, os urros se transformam em brados altíssimos acompanhados de frases chulas e sujas.

Yose continua dançando, alheio ao que acontecia lá embaixo. Sabia que estava protegido e estava seguro de si e de sua função naquele palco. Nada poderia dar errado e seu disfarce não poderia ser descoberto ou estaria morto. Pelo menos iria divertir-se trabalhando.

Lá embaixo, Regina observa as reações. Eram olhares predatórios e assustadores, traduzindo a exaltação daquelas pessoas. Três rapazes tinham morrido de maneira cruel e aquilo não parecia incomodar aqueles convidados. Eram animais famintos, lambendo os lábios para captar o cheiro que a presa exalava no ar. Pouco se importavam que vidas tivessem sido extinguidas, desde que seu prazer fosse garantido. A matéria prima tinha sofrido baixa, mas estava sendo reposta e era o que interessava para aqueles abutres.

E Yose ignora a todos os olhares, exceto por aquele par de olhos escuros e bonitos que vigiavam todos os movimentos daquela alcateia ali embaixo. Ele sorri e decide provocar ainda mais. Iria criar um estímulo à pessoa criminosa, oferecendo motivos para ser punido.

Não havia distinção entre aqueles rostos. Todos tinham as mesmas expressões gananciosa e louca, como se algum tipo de droga tivesse sido espargido no ar, antes da apresentação. Todos pareciam estar famintos, drogados ou se transformando em vampiros ou zumbis, saídos da obra “Eu sou a Lenda”. E iriam atacar Yose, caso ele ficasse exposto com mais proximidade.

Saindo de sua mesa, Regina chega perto de Manson e o retira de seu devaneio depravado, tocando o ombro do homem, que pula com o toque. Ele solta um grito rouco e grosso, que mais se parece com um ronco de um cachorro com pesadelos.

— A integridade física de Yose deve ser sua prioridade. Caso algum desses maníacos toque nele, eu castro você e enfio sua “porcariazinha mutante e enrugada” em sua garganta. Está avisado!

Algum momento depois, outra apresentação é iniciada para acalmar o alvoroço das pessoas convidadas. Os movimentos de Yose haviam provocado as mais diversas reações depravadas. Muitos queriam saborear a nova fruta oferecida pelo bizarro empresário de olhos bicolores. E Manson estava vibrando com a possibilidade de maior ganho, enquanto o policial estivesse sob seus cuidados. Aquilo deveria ser aproveitado ao máximo!

Enquanto tudo fervia, Regina vagava pelo salão, olhando um e outro, tentando desvendar as emoções, porém, todas elas eram iguais. Caminha desviando-se da fúria sexual daqueles predadores, até que algo chama a sua atenção: uma mulher afastada da pequena multidão, apenas observando o dançarino e sem esboçar reação alguma. Por que era a única além de Regina a conseguir controlar-se?

— Não está apreciando o show? – a policial pergunta ao ouvido da mulher.

— Eu gosto de ver como ele se diverte. Está pouco se importando com o que essas pessoas podem oferecer a ele. Gosto do estilo.

A mulher encara Regina e sorri. Estende a mão para cumprimentá-la.

— Sou Sandra e você?

— Regina. É minha primeira vez aqui e vim acompanhar o meu garoto.

— Ele é seu?? Onde o encontrou?

Regina olha para o palco e o vê como um grande parque de diversões para seu colega.

— Em algum lugar no mundo. Conversei com Manson e fizemos um acordo.

— Ele é lindo demais! Precisa apenas ser mais profissional.

As duas voltam sua atenção para o dançarino e riem quando alguém desavisado tenta estender a mão e tocar a coxa dele e é afastado por um segurança.

— Ficam histéricos...

— Ficam apaixonados e querem não apenas ver, mas ter aquela preciosidade dançante. Alguns aqui enxergam os dançarinos como se fossem um brinquedo novo. A vida não tem o menor valor.

— Fala dos que morreram? – Regina pede uma bebida ao barman.

Sandra mantém os olhos escuros fixados na direção do palco.

— Seu menino é lindo demais! – ela sequer havia ouvindo o que Regina tinha perguntado. – Perfeito...deve ser muito doce. Será que ele existe mesmo? Os pelos do peito parecer ser macios...será que ele é sexualmente fluído?

Sexualmente fluído? Havia ouvido aquilo mesmo? Inclinando a cabeça para o lado, como fazem os cachorrinhos que querem entender algo, Regina percebe que estava o tempo todo falando com alguém tão expressivo quanto uma parede. A mulher estava em êxtase e tinha sua própria reação.