Pouco depois do meio dia da manhã seguinte, Regina e Yose desembarcam no aeroporto de Nova Orleans e imediatamente seguem de táxi para o endereço do homem que os receberia para um trabalho fugaz naquele final de semana.

Ao abrir a porta de sua sala principal, o Chefe de Polícia alarga um sorriso e torna-se mais feio, mostrando sua semelhança com um rato.

— Quando Thomaz me disse que você viria me contatar, confesso que criei grandes expectativas. Devo confessar que nada foi tão próximo à realidade... a genética de vocês é muito benevolente.

Regina e Yose sorriem e entreolham-se.

— Por favor, entrem e fiquem à vontade. – o homem pequeno indica a sala e fecha a porta atrás dos visitantes. — Teremos duas horas antes de meus policiais entrarem em contato comigo. Poderíamos almoçar!

— Sr. Gold, eu gostaria muito de agradecer sua atenção...

— Estou muito nervoso, Yose. – ele interrompe a fala de Regina e indica o lugar onde o casa poderia sentar-se. – Eu ainda me lembro de você quando tinha quatro anos!

— O senhor me conhece?

— Sua mãe era estagiária do partido e eu o vi duas vezes. Mas depois, sua mãe se casou e foi embora do país...- o homem mais velho sorri abobalhado. – Você está deslumbrante, Yose! Como é seu relacionamento com seu pai? Vocês vivem bem? Eu nem sei o que perguntar!

Regina começa a sentir seu sangue ferver. Aquele homenzinho patético estava avançando um sinal que não estava verde para ele. E o que era pior: avançando na direção de Yose.

— Sr. Gold, estamos aqui porque estamos trabalhando em um caso perigoso e precisamos de sua ajuda. Ficamos agradecidos por ter aceitado colaborar, mas temos pouco tempo para isso.

— Vocês são soldados de Elijah Kane? Grande homem com grande coração e conhecimento. Gosto dele. – Gold percebe que havia sido enfático demais, porém, a beleza do jovem o estava incomodando muito.

Estreitando os olhos numa careta ameaçadora, Regina consegue enviar uma mensagem de alerta ao homenzinho. E ele a entende.

— Sintetize seu caso perigoso, por favor, Srta. Mills.

— Três homens mortos e um desaparecido. Juíza, diretor de presídio, empresários, médicos e pessoas ricas envolvidas no mercado negro de sexo, drogas e tráfico humano. Presidiários recebendo habeas corpus para trabalharem em boates como strippers e acompanhantes. Precisamos encontrar um homem que será nossa chave para abrirmos esse baú de mistérios.

Gold mantém os olhos fixos em Regina, mas com um alto custo de resistência. Ele queria fitar Yose e tecer comentários diversos para conhecer melhor o filho de seu amigo Thomaz.

— Já que teremos de esperar meus dois policiais que nos acompanharão ao prédio sugiro que almocemos porque teremos a tarde toda para trabalhar. – ele se levanta e observa o casal fazer o mesmo. – Há um lavabo no fim do corredor e podem lavar as mãos.

Sozinha com Yose, a policial o detém pelo braço. E sabe que é rude ao segurar o seu bíceps.

— De onde você conhece esse homem? Pensei que uma amiga de sua mãe tivesse feito o contato! Quem é Thomaz? Quem é Thomaz?

Yose termina de lavar as mãos e as enxuga, deixando a pia livre para a policial a usasse. Mas a mulher permanece estática e furiosa.

— Quem é Thomaz? É esse seu contato que consegue tudo para você? O que ele é seu? Há algo sórdido que eu precise saber?

— Thomaz Landero Scalia.

— Thomaz Landero Scalia é o nosso governador. Como você pode ter um governador como seu contato? – ela altera um tom na voz. – O que há entre vocês dois?

— Ele é meu pai biológico.

O queixo de Regina cai. Ela abre e fecha a boca algumas vezes e tenta organizar suas palavras.

— Seu pai...

— Sim. Ele namorou minha mãe e não assumiu a gravidez porque ela nunca contou a verdade. Ela me disse que escondeu a verdade, porque seria um escândalo ao jovem político. Eles terminaram o namoro e tempos depois, minha mãe se casou com meu pai adotivo e fomos para outro país. Nunca mais ele soube de nós.

— Seu pai...

— Não sei se ele me procurou ou se simplesmente me ignorou estes anos, mas eu não sabia dele. Quando eu completei vinte anos, ele me procurou e tem tentado aproximação desde esta data. Como eu não me interessei, minha família não tocou mais no assunto, porque para mim, o meu pai é o cara que conheço e com quem convivi.

— Seu pai...

— Quando eu ingressei na academia e tornei-me detetive com as melhores notas e o melhor aproveitamento, Thomaz veio me procurar outra vez e já era um político renomado. Eu não quis que ele me reconhecesse, mas ele me pediu para convivermos. Meus pais incentivaram a nossa aproximação e desde então eu tenho usado isso em favor do meu trabalho.

— Seu pai...então, os mandatos rápidos...a invasão da comunidade dominada por Rocco...a limpeza das ruas ao redor da Universidade...a proteção à Lacey...foram pedidos seus ao seu pai biológico?

Yose encolhe os ombros.

— Não diretamente, mas ao secretário ou assessores. Tenho contato direto e procuro tirar proveito disso. Não cometi crime algum.

— Ligou para seu pai...seu pai ligou para o Capitão Gold e por isso conseguimos a atenção dele? Por que não conseguiu um mandato para entrarmos no apartamento, então? Poderia ter cortado caminho!

— Não estamos em nossa cidade, Regina, e nem em nosso Estado. Não podemos ir com muita sede ao poço. Preciso respeitar determinados obstáculos, senão, darei liberdade demais ao Thomaz.

Balançando as mãos, Regina fecha os olhos e fica pensativa. Faz uma careta como se estivesse sentindo dor. Mas não estava.

— Você é o filho do governador e trabalha como policial...usa essa vantagem sempre que está em um caso? Por que se deixou ser colocado no setor de um arquivo em vez de tornar-se chefe de alguma unidade? Você é filho do governador!

— Ele não me reconheceu judicialmente. Não tenho o sobrenome dele e nem tenho interesse nisso. O cara teve todas as chances de encontrar-me e decidiu não arriscar a carreira dele com a presença de um filho bastardo. Por que eu iria querer conviver com um cara assim? Ele me preteriu em relação à carreira dele! Agora, tudo o que desejo é que ele me atenda em pequenos pedidos profissionais.

— Você é filho do governador, Yose! Ele poderá ser Senador no futuro e até presidente da República! Não irá tirar vantagens disso?

Gold os recebe à mesa e sorri sem exibir os dentes. Senta-se novamente e observa Regina e Yose se sentarem para o almoço.

— Terminado nosso almoço, iremos para o endereço do prédio e poderemos entrar. Meus dois policiais estarão nos aguardando e depois todos iremos para o distrito a fim de cuidarmos da parte burocrática do que encontrarmos. Vi a fotografia que me foi enviada e reconheci de imediato o nosso prédio na Rua Divisadero.