Quebrei minha casca
53 Agora, a bandeirada da vitória
Notas iniciais
Dois meses são deixados para trás.
A vida vai retomado seu ritmo nas vidas dos policiai daquele Departamento. Ainda circulavam muitos comentários sobre as descobertas que culminaram no desmantelo daquela máfia do mercado sexual.
Desde a criação daquela equipe, tão desacreditada e criticada pelos próprios colegas, muita coisa havia mudado e se arraigado como novas regras. Todos respeitavam e temiam a nova líder, pela sua intempestividade e pelo mero levantar da sobrancelha. A mulher era uma incógnita.
Regina era a Comandante daquele Departamento; Ruby chefiava o esquadrão destinado às investigações de crimes bizarros; Akin coordenava o setor digital, enquanto Taylor e Sarah se dedicavam mais do qualquer profissional ali dentro, para constantemente provar sua capacidade de estar ali.
Kane continuava afastado de suas funções, enquanto o processo ainda prosseguia sob o domínio dos federais. Tudo apontava para sua inocentação, mas ele deveria ficar longe dos holofotes para evitar problemas que culminassem na mácula de sua carreira.
A ausência de Yose era a mais sentida naquele Departamento. Todos queriam conversar com ele, saber de novidades, detalhes da boate e do sequestro, da sensação de ser reconhecido como filho do Governador, de seu futuro e de seus planos. Ele iria retornar ao esquadrão? Iria seguir carreira política? Trabalharia com o pai? Tudo o que sabiam é que estava recuperando-se das cirurgias reparadoras dos ataques da tortura.
Pouco depois das duas horas daquela tarde, Regina estaciona seu carro na frente da casa dos pais de Yose. Havia avisado que viria vê-lo, depois de um longo período de afastamento. Como seria o reencontro?
— Regina! Seja bem vinda! Entre!
— Obrigada, Sra. Dimarco! Isto é para a senhora. – Regina entrega uma mini cesta com frutas para a mulher. Olha em volta, como se procurasse Yose na sala. – Onde ele está?
— No andar de cima, tomando sol na varanda.
— Diga-me algo: Ruby tem vindo aqui?
— Todos os dias. Ela está investindo em meu filho e os dois têm ficado bem à vontade. – a mulher se inclina para frente. Fala mais baixo. – Mas meu voto para ser eleita minha nora...é seu.
Quando Regina chega à varanda, depara-se com Yose muito à vontade, sentado numa cadeira de praia feita em madeira. Usava apenas uma cueca e tinha uns óculos para conseguir ler melhor.
Era uma visão bizarra, mas bem menos bizarra que a visão da vizinha da casa da frente, hipnotizada com a figura exibicionista.
Os olhos de Regina voam para o peito do rapaz e sorri ao perceber o excelente trabalho plástico feito na reconstrução do mamilo decepado. As unhas também estavam crescidas e a marca de queimadura pelo ácido não estava mais lá. A funilaria tinha sido completa.
Ela fica em pé na frente dele e obstrui a luz do sol. É olhada.
— Precisa se expor tanto? – Regina coloca o dedo polegar por cima do próprio ombro e aponta a espiã.
— Se ela tem prazer em olhar, que olhe. – ele dá de ombros.
— Poderíamos conversar lá dentro? – estende a mão e espera que Yose a segure. É obedecida.
Lá dentro, Yose não se intimida e nem se constrange em esconder-se. Afinal, Regina já o havia visto totalmente à vontade e em posições bem atrevidas. Por que se esconder? Ele se senta com as pernas afastadas, porque sabia que aquela visão agradaria aos olhos de Regina e que certamente atrapalharia seu raciocínio ao responder algumas perguntas.
— Como está sua audição?
— Fui curado da infecção e não perdi o que me restava. – ele aponta o micro aparelho.- Foi sugerido que eu fizesse o implante Coclear, mas não pretendo amadurecer a ideia. Por que veio?
A pergunta é rude e sobressalta Regina.
— Por que vim? Porque queria saber sobre você, oras! Porque estava com saudades! Porque senti sua falta! Porque eu amo você!
— Você permitiu que aquela coisinha repugnante , bebedora de sangue, ficasse entre nós. Você me transferiu para meu antigo Departamento. Você não puniu Marcus pelo que ele me fez...ao contrário, você facilitou a fuga dele. Quer que eu creia que diz a verdade?
As sobrancelhas bem cuidadas e delineadas de Regina se movem.
— Não pude ajudá-lo.
— Eu sou bem informado, querida. Sei que tentou tirá-lo da boate e como não conseguiu esperou que fosse transferido para outra carceragem para poder resgatá-lo. Você e eu sabemos que foi Chloe quem atacou o carro que o estava transportando para mais um depoimento.
Regina abaixa a cabeça e brinca com os dedos.
— Você esperou e acertou o alvo. Aquela história de que a Família interceptou o carro e o resgatou, pode ter convencido a população, a mídia, alguns incautos...mas nós dois sabemos que Chloe arrancou Marcus daquele carro e feriu os policiais da escolta.
Sem dizer nada, negando ou confirmando, Regina permanece olhando as mãos.
— Obviamente que nenhum dos agentes iria colocar no relatório, que foram atacados por uma menina com olhos amarelos e dentes de tigre. Quem iria acreditar nisso? Irão confirmar qualquer versão mais razoável.
Os lindos olhos escuros, pesados e misteriosos de Regina se fixam no corpo exposto do homem à sua frente. Como ele se atrevia a fazer aquilo? Por que ele tinha de ter nascido tão lindo? Mentira, porque quando era criança, Yose era bem feinho! Mas naquele momento, estava criando as mais mirabolantes fantasias dentro da mente podre e do coração apaixonado de Regina.
— Jamais ouvirá confirmação minha, Yose.
— É. Jamais ouvirei. – ele debocha. Inclina-se para frente e apoia os cotovelos sobre os joelhos afastados. – Por que demorou tanto a vir me ver? Conseguiu me esquecer? Enjoou-se de seu brinquedo ou pensou que eu ainda estaria com a lataria avariada?
— Eu senti a sua dor, depois que bebi o sangue onde estava mergulhado o mamilo que Marcus decepou. Criei um vínculo profundo com você.
Yose salta da cadeira e avança sobre Regina. Apoia as mãos nos braços da cadeira onde estava sentada e cria uma prisão com seu corpo. Inclina-se e a encara.
— Eu lhe devo a minha vida. Agradeço também àquela coisa repugnante, por ter me encontrado. Entretanto, se você pensa que vou conviver com esse tipo de filosofia de vida, está enganada. Não vou compactuar com essa depravação vivida por você com aquela monstruosidade.
— Sabe, Yose...eu não me importo sobre o que você pensa de Chloe. Eu a amo e ela me ama. Salvou minha vida e eu cuido dela numa relação...
— Doentia. – ele se empertiga e afasta-se. Acredita decepcionado, que seu corpo não surtia mais o efeito efervescente em sua morena amada. – Você foi iniciada em relações intimas doentias e se acostumou a viver assim. Por isso, acha tão normal conviver com aquela criatura que se alimenta de sangue humano. Você bebeu dela, bebeu de mim e deve ter bebido de muito mais pessoas. Até onde quer chegar? Vai ser como ela?
Ficando em pé, a mulher se aproxima de Yose e segura delicadamente a cintura dele. Beija-lhe o queixo barbado.
— Você continua exatamente lindo, como eu o deixei em nossa última noite. Você sabe que são apenas palavras e que não as sente em seu coração. É tarde para afastar-se de mim e tentar criar um vínculo com Ruby. Você está marcado e é um farol aceso no mar escuro. Sabe que somente Chloe e eu poderemos protegê-lo e aos seus.
Calado, Yose apenas se alimenta do calor e do perfume de sua querida. Em sua alma, sabe que ela tem razão.
— Você é tão depravado quanto eu, tão doente quanto eu e não conseguirá negar por muito tempo. Vamos conviver sim, os três e nos proteger contra os olhos gulosos e famintos dos membros da Família, sobretudo, do Colecionador.
— Sei que ele não existe...
— Não existia. Agora ele existe. Ou pensa que Mason ficará preso por muito tempo? Como pensa que está o processo dele? O que acontecerá com aquele batalhão de advogados, juízes, políticos, empresários e sabe-se quem mais, guardados dentro da carteira e das mídias dele? Acha mesmo que Mason será condenado ou morto, sem levar um exército com ele para o inferno? Pode apostar essa cuequinha, que ele não ficará mais do que seis meses na prisão.
— Ele não virá...
— Virá. E quando ele chegar, eu impedirei a aproximação. – ela o puxa ainda mais perto. – Não é chantagem, Yose. Eu o envolvi nisso e tenho a obrigação de cuidar do que me é valioso. Você vai ficar comigo e ponto final. Eu preciso de você, para continuar viva e vou lutar por nosso relacionamento.
Abrindo e fechando a boca como se fosse um peixe respirando, o homem não consegue rebater.
— E caso Ruby continue insistindo com essa insanidade de casamento, eu a darei de alimento para Chloe. Sei que Ruby é muito mais vistosa e bonita que eu, mas não será a sua escolha. Você não tem opção.
Libertando o corpo dele, a policial se afasta com movimentos suaves e ofídicos, sem tirar os olhos daquela figura bonita.
— Esteja às oito em minha casa, porque passaremos a noite juntos. Tenho muita coisa para fazer com seu corpo e não pretendo mais perder tempo. Avise sua mãe que iremos passar o final de semana numa praia, para acertarmos as nossas arestas.
Ainda sem conseguir argumentar diante daquela ameaça lavada e descarada, Yose não sabe se ri ou chora. Estava tornando-se prisioneiro novamente.
— Caso você não apareça, vou transformar a sua vida num inferno, até que ceda novamente aos meus desejos. Não pretendo ferir você, mas posso roubar sua sanidade. – ela sorri de forma assustadora. – Quando retornarmos do final de semana, suspenda suas férias e volte ao trabalho. O esquadrão precisa de seus serviços e eu preciso beber da visão que você vai sempre me oferecer.
— Foi isso o que aprendeu na submissão a Marcus?
— Não, foi isso que aprendi nos interrogatórios dos dançarinos, dos clientes da Falcões Noturnos, nas mídias e anotações de Mason e acima de tudo...nas fantasias que você me inspira.
Os dois permanecem calados, olhando-se por muito tempo, como se disputassem aquela brincadeira infantil de quem ri primeiro.
E é Regina quem se manifesta. Agarra-o e apoia sua cabeça contra o peito dele. Sente que ele levanta o rosto em busca de ar e de controle.
— Perdoe-me, amor, por não ter protegido você. Eu preciso tanto de você!
— Regina...
— Estamos incompletos. Precisamos um do outro.
Voltam a ficar em silêncio, abraçados.
— Yose, vá vestir alguma coisa e depois desça para tomarmos um lanche e conversamos. – a voz aguda da mãe dele, toma o casal de assalto. – Venha, Regina! Vamos conversar enquanto meu filho de veste decentemente para receber a pessoa que lhe salvou a vida.
A mulher mais velha abraça a policial.
— Eu sempre vou agradecer você, por ter me devolvido meu filho. E eu o recebi como se estivesse pegando aquele bebezinho, nos braços, após meu parto. Agora, vamos descer!
E os dias, semanas e meses continuam seguindo. Mais tempo é deixado para trás no calendário da vida.
Regina sabia que aquele era seu lugar. No comando, no domínio, admirando a obediência de seus subordinados e encantando-se cada vez mais com o que aprendia no cotidiano. Por enquanto, era aquilo que ela queria, mas no futuro iria alçar voos mais altos e mais ousados.
Havia quebrado sua casca e feito nascer uma mulher linda, elegante e poderosa. A mirrada borralheira era agora mulher mais poderosa daquela cidade grande e seria mais poderosa do Estado e depois do país, um dia bem próximo.
Já que teria de cuidar de Chloe por longos e longos anos, iria tirar o máximo de proveito daquela situação. Iria pôr em prática os hábitos feios de Marcus, quando ele cortava caminho para conseguir seus desejos realizados.
Não iria submeter seu lindo Yose aos mesmos tratamentos recebidos durante seu relacionamento com Marcus, mas iria ter aquele menino somente para ela, mesmo que tivesse de matar alguém para isso.
Amor? Era amor? Era desejo de posse? Era paixão? O que importava a denominação, desde que ele sempre adormecesse e despertasse ao seu lado? Relação doentia? Indecente? Fascinante? Que se danasse as nomenclaturas, porque Yose estava marcado e escolhido para ser seu companheiro.
Muitas noites, acordava a flagrava-se a pensar na condição de Marcus e em seu paradeiro. Mas sentia que o desgraçado amado e odiado estava bem, onde quer que estivesse. Ela havia aprendido com ele, bem a lição de questionar o maniqueísmo universal, encontrando soluções que pudesse agradar gregos ou troianos, desde que ela terminasse bem o seu dia, para começar sua noite melhor ainda. Pelo menos, para isso, ele tinha servido.
Era uma manhã qualquer e de chuva, quando a Comandante chega a um pequeno hotel para o início de nova investigação.
Era o terceiro hóspede registrado e morto por causa súbita.
— O que temos aqui? – Regina pergunta ao policial, vendo o corpo no chão do quarto.
— Não há sinais de violência, nem marcas de overdose, nem sinais de luta...o cara teve um mal súbito.
— Não é homicídio. Por que estamos aqui?
— É o terceiro caso neste hotel, em três semanas, Srta Mills. Homens jovens, de boa aparência, que vem para o hotel e depois morrem, como se viesse aqui apenas para uma despedida da vida.
— Bizarro. – ela observa a beleza do morto.
— Por isso cri que sua equipe se interessaria por este caso. Por ser bizarro. Seu esquadrão insano poderia resolver isso com o sem alarde, mas vocês têm mais condições de resolver.
Regina fica interessada pelo novo apelido.
— Esquadrão Insano? Bom! Gostei!
FIM.
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