Notas iniciais
Mais um capítulo galera! Sabem uma coisa que reparei? Essa temporada está tão fácil de escrever, que estou postando bem mais rápido. Aí, o número de reviews diminui. :/ Acho que vou deixar vocês carentes por mais tempo, rsrsrs. Brincadeira. Não vou fazer isso, mas quem puder dá uma forcinha comentando... XD Make me happy! Boa leitura pra todos, espero que não surtem...

Carolina.

Eu estava descascando batatas. De novo. Malditas. E. Fodidas. Batatas. Se eu engolisse mais uma colherada daquela bola amarela e totalmente revoltante que Lavínia chamava de purê, faria um verdadeiro reboliço naquele lugar. Estava mais do que na hora de trazer mais comida, e por sorte, Ricardo já levaria um pequeno grupo de busca, dentro de alguns minutos. Eu e Jonas havíamos sido deliberadamente deixados para trás, para proteger os outros com Victoria. Quem diria. Eu protegendo alguém... Dante estava me ajudando. Ele era muito mais rápido e preciso do que eu, com tudo aquilo. Enquanto suas batata eram perfeitamente lisas, as minhas pareciam tão mutiladas quantos os zumbis que constantemente nos atacavam. Aquele pensamento nublou meu apetite, e senti a cor sumir do meu rosto. Nojo. Dante sorria tranquilamente enquanto descascava suas batatas, num silêncio perturbador. Onde diabos estavam todos, para nos deixarem sozinhos na cozinha? Resolvi provocar o menino. Ninguém era tão contente com o silêncio que recusasse uma boa provocação. Me dava agonia vê-lo sempre calado, por algum motivo, pessoas assim me faziam lembrar de Mozart. E isso definitivamente não era legal.

– Então, como você está indo? — ele parou o que estava fazendo, e fitou-me, incrédulo. Nessas cinco semanas vivendo juntos, se eu lhe dirigira a palavra por quatro vezes, havia sido muito.

– Ótimo, obrigado por perguntar, Carol. — ele sorriu, e voltou ao trabalho. — O que você realmente quer saber? — ah, então então o peixinho de aquário também tinha dentes. Não pude evitar um sorriso.

– Você é gay? — perguntei a primeira coisa que veio à minha mente. É claro que eu não acharia mal dividir a informação com Lavínia.

– Engraçado, não achei que você fizesse o tipo ansioso para rotular os outros. Eu já me relacionei com pessoas de ambos os sexos, se é o que quer saber. Embora eu ache essa pergunta um tanto estranha e inapropriada... — ele fez uma careta cômica pra mim, como se quisesse saber se eu estava me sentindo bem. Acabei acenando em concordância.

– Sabe, é que não tem muita coisa pra fazer sem a internet, sem os shoppings, sem a TV... Acabei me perguntando sobre você, e tinha que tirar a prova. — sorri. — Também sei que vivendo com as mesmas pessoas, e passando pelo que passamos todos os dias, geralmente nos apegamos à alguém muito rápido. Ana e Sabrina que o digam, quando começaram a namorar. Particularmente, eu achei super forçado, e olhe só o que deu... — eu estava mesmo tagarelando. Queria fazer ele se descontrair. — Você nunca sabe quando pode ser infectado, ou...

– Estou interessado em alguém. — ele disse, com uma cara maliciosa. — Mas você podia ter perguntado diretamente. Sei que anda falando de mim com a Lavínia. Ela é linda, e muito gente boa, mas realmente...

Eu tinha entendido o recado. Suspirei, e voltei a trabalhar ao lado dele. Se ele achava que me satisfaria saber que ele gostava de alguém, estava enganado. Eu queria o nome da vítima. Mas sobre isso, eu já tinha quase certeza de que o alvo onde Dante miraria estava pregado à ferro no traseiro de Hugo. Não conversamos muito mais depois daquilo, mas trocamos vários olhares engraçados enquanto eu destruía mais batatas. Infelizmente, tínhamos muito daquelas coisas. Ana encontrara um plantação de quintal perto dali, e eles haviam trazido até a última leguminosa. Com gentileza, Dante colocou as mãos por cima das minhas, enquanto me ensinava a raspar a faca sobre as batatas da maneira certa. Foi quando Lavínia e Manuela entraram na cozinha, e nos viram ali, juntos. Manuela segurou o riso, mas nossa querida professorinha parecia bem irritada. Ela só podia estar de sacanagem, se achava que eu estava dando em cima do loiro azedo. Revirei os olhos quando ela saiu do cômodo num rompante, certa de que seria fácil resolver aquilo depois. Manuela bufou e seguiu a colega. Bem legal. Menos gente pra ajudar com as malditas batatas. Se a Lavínia desse um ataque comigo por causa do namorado gay dela, eu a faria engolir todas aquelas coisas amareladas e insuportáveis.

– Acho que fomos mal interpretados. — apontou Dante, encabulado.

– Bebê, essa é a arte da minha vida. — respondi, e ele riu. — Depois eu falo com ela.

Victoria.

Eu sabia que era só mais um dos meus sonhos. Eu simplesmente não podia estar sentada no ombro do Cristo Redentor, vendo um Rio de Janeiro totalmente destruído aos meus pés, lá embaixo. E também, talvez fosse mais impossível ainda que Nora estivesse sentada ali, do meu lado. Segurando minha mão enquanto me fitava com seus olhos brancos. Sim, os olhos dela estavam totalmente brancos. Por algum motivo, eu sabia que os meus estariam negros. Talvez fosse porque o sonho era meu, e as coisas funcionassem como eu achava que deviam funcionar. Ela estava olhando para a praia, que parecia a mesma de antes. Mas na areia, não dava pra ver nenhum banhista, nem barracas ou guarda-sóis. Só restos quebrados e pisoteados. Da cidade, alguns focos de incêndio onde mísseis haviam sido estrategicamente lançados, ainda emitiam fumaça. Notei então que aquela visão era muito mais do que apenas o modo como eu imaginava as coisas. Talvez, todo o papo de Projeção Astral existisse. E eu estivesse mesmo ali, vendo o estrago. Era terrível imaginar que aquilo podia ser real, e inquietante saber que era tão perto do lugar onde eu havia vivido minha infância inteira.

– Eu me pergunto o que aconteceu com Carlos, papai e mamãe. Mas acho que você deve saber disso. Até estava juntando brinquedos roubados pra ele... — Nora riu enquanto se espreguiçava. — Parece ridículo pensar que, se nosso irmãozinho estiver vivo, vai querer sabr de brinquedos. É só ver os gêmeos.

– Os gêmeos ainda gostam de brinquedos. — objetei, lembrando dos dois com o cubo mágico que Otávio lhes dera, no dia anterior. — E mesmo que Carlos ainda não goste, ficaria feliz em me ver.

– Só podemos esperar que todos estejam bem, onde quer que estejam... Acha que o Rio ficou mesmo assim, depois de tudo? — ela perguntou, com um toque de curiosidade infantil e amedrontada, em sua voz. Coisa rara vindo de Nora, mas desde que as duas partes do meu todo haviam decidido serem amigas, ela se mostrara muito mais humana, e controlável.

– Acho que do alto, deve estar pior que imaginamos. Mas é, é um bom modelo. Temos uma imaginação fértil. — comentei sorrindo. Ela concordou. — Você não apareceu mais depois de Topázio, o que houve?

– Eu estou sempre com você, Victoria. Não me sinto mais tão diferente de você, pra que eu precise me impor. Ultimamente, você tem agido bem, e na maior parte das vezes, estou de pleno acordo. Eu sei que sou só um reflexo, uma sombra sua. Então, agora estou me comportando como exatamente isso. Não sou o máximo? — sorri, pra expressão toda cheia de dengo que ela fizera.

– Entendo. — respondi, sorrindo. — Então você não concorda comigo sobre algo? É este o motivo do sonho?

– Na verdade, tenho alguns tópicos. Primeiro, resolva seu lance com Dimitri. Existe algo ali, definitivamente. E se você não experimentar, nunca vai saber. Segundo, acho que tem algo errado com Sabrina. Talvez todos estejam sendo duros demais, ignorando-a, e isso pode trazer problemas. Terceiro, acho que você devia parar e relaxar um pouco à respeito da Fernanda. Você não é a mãe dela, e sabe que ela vai morrer. Desapegue. Ela não é sua responsabilidade. Você não pode mudar o que deve ser, nem salvar a todos. — Nora podia estar certa sobre muitas coisas. Mas especificamente no que dizia respeito à Nanda, ela estava errada. Ela não era minha amiga, era minha irmã, como Otávio.

– Você sabe que eu não vou te dar ouvidos, né? Agora preciso mesmo descansar... — ela riu, e colocou os cabelos atrás da orelha esquerda, enquanto o vento nos assolava sobre os ombros da estátua do filho de Deus.

–Eu tinha que tentar... Mas lembre-se, Vicky... Eu estou com você. Não precisamos ser inimigas. Somos partes de um todo. E não esqueça que eu posso voltar, caso você comece a ser uma idiota molenga de novo. — com a ameaça rasa, Nora pulou do Cristo, em direção ao mar. Mesmo sabendo que aquilo era um sonho, meu coração acelerou, e ergui a mão em direção à ela. Mas eu não podia salvar a todos. Talvez devesse me lembrar disso no futuro.

Acordei com o pescoço coberto de suor, e o braço de Diogo pesando em minha barriga. Sentindo calor apesar do frio no quarto, tive de afastá-lo, levemente. Levantei o lençol que nos cobria, e respirei fundo. Aquela nova maneira de Nora se comunicar era bem menos invasiva do que dominando o meu corpo. Mas, era muito mais cansativa. Era como se eu não houvesse dormido. Sentando-me na cama de casal, afastei os cabelos desgrenhados do rosto. Alguns fios ficaram em minha mão, e os fitei com falsa curiosidade. Minha mente estava muito distante, ainda presa no Cristo Redentor. As mãos de Diogo tocaram os meus ombros, e inclinei-me para trás, contra o peito nu dele. Tensa, deixei que ele me beijasse nos cabelos e me puxasse para perto. Eu não queria conversas. E ele sabia disso. O pior naquilo tudo, é que ele estava saindo, e se algo acontecesse com ele depois de uma despedida fria, eu jamais poderia me perdoar. E tudo por culpa de Dimitri. E Nora. Por que eu era tão cruel, tão fácil de ser atraída? Lágrimas de raiva vieram aos meus olhos. Então as engoli, e virei-me para abraçar Diogo. Ele sempre esteve ali, de um jeito ou de outro. Eu honraria isso. O beijei, e foi como se uma espécie de sombra se erguesse em meu estômago. Eu precisava reafirmar meus sentimentos. Precisava provar, a mim e à Diogo, que o amava. Precisava provar a mim mesma que Dimitri não passava de um pesadelo, e que Nora era louca.

– Ei, calma tigresa. Vai me matar com essas garras. — brincou Diogo, enquanto se afastava do meu aperto, pra respirar. — O Ricardo precisa de mim em poucos minutos... Não precisa se preocupar. Quando eu voltar, terminamos isso.

– Tudo bem. Que seja. — resmunguei, amuada. Ele riu, e me abraçou. — Volte logo, tá?

– Eu não faço sempre isso? — outro beijo rápido, e um sorriso que fez meu coração derreter. — Fique de olho na Nanda por mim.

Diogo sentia o mesmo que eu. Dimitri jamais teria tamanho comprometimento. E eu sei que não devia estar comparando os dois, inferno. Eu estava enlouquecendo no meio de toda aquela bagunça... Eu tinha que tomar uma atitude, mas não sabia qual. Acabei vestindo minhas botas e a jaqueta, enquanto seguia Diogo para fora do quarto. Juntos, caminhamos de mãos dadas até o andar inferior, onde os outros já se preparavam para sair. Ana estava totalmente vestida, com uma calça jeans justa e uma jaqueta de couro marrom que cobria totalmente seus braços. Os cabelos estavam presos num coque firme. Ela parecia muito bonita. Sabrina também, mas ela era sempre uma "rock star". Ricardo parecia tranquilo, enquanto dava um abraço em Hugo. Ele estava mais forte ultimamente, mas notei uma ruga que não estava em seu rosto, quando o conheci. Poder vê-lo mudado, me fez imaginar como todos havíamos mudado também. Era muito impressionante poder dizer que eu o conhecia a tanto tempo, e que ainda estávamos aqui.

– Ok, pessoal. Estamos indo. — Ricardo anunciou. Notei a expressão desgostosa de Diogo, quando ele apanhou duas facas longas da mesa de recepção da pousada. Apenas Sabrina estava armada. Quase todas as armas que havíamos conseguido reunir, estavam sem balas. Ana tinha um caderno e uma caneta dentro da bolsinha atravessada em seu peito. Haviam muitas anotações ali, de lugares e criaturas que havíamos encontrado desde que tínhamos ido viver na boate de Topázio. Seria bom que ela estivesse começando a reconhecer as redondezas. Algumas partes estavam bem piores do que outras.

Eles se foram pouco depois, usando a mesma mini van que havíamos usado da última vez. Desta vez, o objetivo principal eram os remédios de Fernanda, então eu sabia que eles tentariam ir até a farmácia em que Carol e Sabrina haviam conhecido Dimitri, na primeira vez em que eles haviam se visto. Eu só esperava que todos os remédios que elas haviam encontrado por lá, ainda permanecessem no local, e que com a saída de Cecília da região, as coisas não tivessem piorado muito. Os animais àquela altura eram bem mais preocupantes que os zumbis, que se tornavam cada vez mais lentos com o passar do tempo. Era um pouco tranquilizador saber que os mortos, os cães, os pombos, todas as criaturas renascidas, acabariam se deteriorando. Mas os mutantes, esses me preocupavam. Me faziam ter pesadelos. Quer dizer, mais pesadelos.

– Vicky, posso conversar com você? — o som suave da voz baixa de Cecília me chamou a atenção. Eu sorri, virando-me em sua direção. Ela parecia tensa. Acenei afirmativamente, e ela respirou fundo. — Sinto algo ruim sobre a saída deles. Sinto muito por não ter conseguido falar antes, mas realmente acho que nós vamos precisar sair daqui o mais rápido possível, quando eles voltarem!

–Nós tentamos avisar, mas quando chegamos eles já tinham ido embora. — Otávio também estava chateado. — Eu queria ter ido atrás com o carro, mas a Cecília disse que nada aconteceria a eles. Mas nós temos que nos preparar pra fugir.

– Vocês sabem que o Gabriel quer esperar. A Nanda não pode sair com os bebês prestes a nascer! — Cecília estava aflita, mas me olhou com compreensão.

– Se formos, ela e os bebês morrem. Se ficarmos, sangue será vertido da mesma forma. Tem certeza de que quer fazer essa escolha? — ela parecia ansiosa. — Podemos votar, deixar nas mãos dos outros... — eu segurei suas mãos, com carinho.

– Obrigada por ter vindo à mim, e não a eles. — agradeci. Aquilo significava toda a confiança que ela e Otto tinham em mim. — Mas eu aguento as consequências. Só vamos sair daqui quando Nanda puder. Mesmo que isso custe a minha vida.

– Ou a de outra pessoa. — alertou-me Otávio. — Irmã, tem certeza?

– Não vou deixar os bebês morrerem. Todos nós já tivemos a nossa chance. Eles não. — refutei. — Sei que não tenho o direito de fazer isso, e entenderei se não concordarem comigo. Mas se a decisão é só minha, é isso o que faremos. — as palavras de Nora rugiam em minha mente. Ela parecia saber que isso aconteceria. — Está nas mãos de vocês. — Cecília e Otávio se olharam por um momento, e ele a abraçou. Ela escondeu o rosto na curva entre seu pescoço e o peito, e acenou positivamente.

– Os bebês. — ele declarou, batendo o martelo.

Topázio.

Chefe parecia irritado naquela noite. O calor dos pneus pegando fogo chegava à mim, aliviando o frio tormentoso de se estar ao ar livre daquela forma. Meus cabelos, antes perfeitamente aprumados e com cachos mantidos impecáveis, jazia quebradiço, fraco e de alguma forma, ainda mais empalidecido. Nas minhas raízes, já era possível ver um pouco dos meus fios negros, mas eu não me importava com nada daquilo. Ainda exibia meu antigo vestido, embora ele não fosse mais branco, há tempos. Havia também o rasgo no local onde Nora me esfaqueara, mas Samantha o costurara com linha preta, da maneira que pôde. As coisas estavam melhores entre nós. Com sutil preocupação de amiga, eu a tornara um pouco mais atraente para o Chefe. Eu sequer havia percebido que havia algo entre eles. E ela tinha ciúmes por isso. Quando declarei minha simpatia por seu irmão, ela simplesmente mudou de postura. Notou, erroneamente, que eu não era uma ameaça. Como com Thaís, moldei-a para adequar-se à mim. Como uma serpente de estimação. Fechei meus olhos ao preconceito, e aceitei o alimento que eles compartilhavam com grande entusiasmo. Era melhor que os mortos me alimentassem, do que se erguessem para me devorar. Mas eu sabia que assim que meus planos se concretizassem, as coisas mudariam. Até lá, eu era uma canibal, e a melhor de todas.

– Eu não entendo... O cheiro dela se confunde a tantos outros... Nunca senti nada assim. É como se este mesmo fio de cabelo, tivesse o DNA de mais de uma pessoa... — resmungava o Chefe, cheirando o cabelo de Victoria pela milésima vez. Obsessão era mesmo uma arte. Aquilo deixava Samantha possessa, mas a Peçonha recusava-se a admitir. — Ninja! — ele gritou, e o irmão de Peçonha se ergueu do jipe onde estava deitado, enquanto o coitado do Gárgula ficava parado diante do fogo, apenas trocando o peso de pé, desajeitado. — Onde a Lívia se enfiou? — reparei no sumiço da garota tarde demais. Será que ela havia resolvido abandonar os colegas malucos? Ela seria alguém importante de se usar.

– Saiu, Chefe. — Ninja balbuciou. — Levou o Mordida com ela. Tá seguindo o rastro da garota perto da boate onde encontramos a Madame. Faz um tempinho já... — era ridículo o modo como o bobalhão retardado do Gárgula tratava o cachorro zumbi. Aquela coisa nem era um bicho de verdade! Mas o apelido do pastor alemão de Lívia, pegou. Chefe pareceu ofendido e irritado, por ver o garoto estranho questionando a demora de sua pergunta.

– O que a torna muito melhor que todos vocês, inúteis. — observou Chefe, sorrindo. Gárgula ignorou totalmente o insulto que fez Peçonha e Ninja trocarem olhares. Vi neles a sombra da traição, e gostei. Meus trabalhos começavam a dar frutos. — Madame, seja útil e faz aquele truque com o Gárgula de novo... — eu ri. A mente daquele pobre homem era tão vazia, que ele respondia até aos meus comandos mais absurdos, sem hesitar. Era um pouco triste que ele fosse obrigado a comer carne humana e matar pessoas, quando nem parecia ter ciência disso. Mas era uma boa ferramenta, e totalmente disponível a mim. Chefe era um idiota por me entregá-lo de bandeja. Levantei-me e fiquei próxima a fogueira.

– Gárgula, poderia olhar pra tia Topázio? — ele virou-se, rindo. — Bom menino. — sorri, e isso pareceu alguma espécie de prêmio, para o monstro. — Sente-se. — ordenei. Reconhecendo a ordem, ele jogou-se de traseiro no chão. Os outros começaram a rir, descontrolados. Ignorei tamanha imbecilidade. — Levante-se. — ele ficou de pé. Mais risadas. — Dance. — essa foi um pouco engraçada, principalmente porque ele não sabia como dançar. — Pare. — ele parou. — Você vai continuar olhando pro fogo, mas não vai se mexer até eu mandar, ok?

– Sim, Madame. — estranhamente, gostei de como meu apelido soava, vindo de um serviçal. Chefe bateu palmas como se eu fosse uma cantora ou algo do tipo, e foi andando ate o jipe, se empoleirando para dormir.

Sentei-me novamente ao lado de Samantha, e olhei para Ninja, com um sorriso tímido. Ele ficou interessado, e não parou de me olhar pelo resto da noite. Ao lado deles, pude conversar sobre algo que não fosse morte, nem comida. Pelo menos, eles eram honestos sobre os próprios instintos. E isso era mais do que eu podia esperar de alguém a minha vida inteira. E, sem saber disso, eles me entregavam munição contra eles mesmos. Descobri várias coisas chocantes sobre ambos, que poderiam permitir que eu facilmente os pusesse um contra o outro. Por exemplo, que quando foram transformados, os dois estavam numa clínica psiquiátrica de Búzios, e Samantha havia ido visitar o irmão. Ninja, ou Jeff, havia sido trancafiado por violentar algumas mulheres na região em que vivia, e depois talhar em seus corpos a frase: "Vá dormir." Bem, nenhuma delas acordou novamente, depois que o encontrou. Quando acabou infectado, ele enlouqueceu ainda mais, ao invés de morrer. Samantha salvou a vida de ambos, trancado-se na solitária com o irmão enquanto policiais tentavam proteger o lugar. No fim, os dois haviam tornado-se inumanos, mas a convivência por dias trancada com o irmão deixou Peçonha completamente louca, como ele. Seu amor tornou-se uma crença absoluta em tudo o que o irmão pensava, inclusive no que dizia respeito à comer seres humanos. E outras perversidades e safadezas que deviam fazer um com o outro, também. Foi assim que encontraram o Chefe, a filha adotiva dele, Lívia e seu irmão, o Gárgula. Pensar em alguém que fazia troça do próprio irmão retardado, era revoltante até pra mim. Mas eu não era virtuosa e nem tinha nada a ganhar, então também não dava a mínima para isso. É claro que era fácil assumir que Samantha rapidamente transferiu sua devoção pelo irmão, para o Chefe. Horas mais tarde quando fui dormir, depois de liberar Gárgula da hipnose, resolvi qual seria o próximo passo. Nosso líder era um perigo, e devia ser eliminado se eu quisesse ter alguma chance de concretizar meus planos. Eu não sabia o que ele faria quando achasse Victoria. Mas ela seria minha, não dele. E conseguir isso seria fácil, com a servidão de Gárgula e a lealdade de Jeff. Eu só precisava conquistar Peçonha, com Lívia estando fora. E isso, teria de ser muito rápido. Antes que a pestinha mandona voltasse.
Devo dizer que fui pega de surpresa, quando acordei durante a madrugada, sentindo algo gelado na minha garganta. Uma faca. O susto acelerou minha pulsação, e tentei me desvencilhar. Uma mão cobriu minha boca e logo senti um corpo magro mas forte, sobre mim. Era Jeff. Seus olhos, estavam assustadores, e totalmente brancos. Sua boca estava retorcida num sorriso que parecia a face do mal. Com suas habilidades de movimentação, ele manteve-me totalmente presa, indefesa. Ele estava excitado, e poderia fazer o que quisesse comigo. O que eu sabia que faria. Maldito. Eu receberia o mesmo castigo que havia concedido à Sabrina, séculos atrás. Com horror, notei que teria preferido que fosse Mozart, àquele monstro.

–Shhiii... Por que você acordou? Não era pra acordar... — ele sussurrou. Todos estavam dormindo ao nosso redor. — Agora vou ter que mandar você dormir de novo... Pra sempre... Mas não, eu não quero. Quero você acordada. Muitas vezes... — ele parecia em dúvida entre um estupro seguido de morte, ou uma defloração simples. Como se uma coisa fosse melhor que a outra. Mas eu não podia morrer, não ainda... Com nojo, mas determinada, enlacei minhas pernas ao redor da cintura de Jeff. Aquilo o desconcertou. Ele não esperava. Seu sorriso maligno deu lugar à uma expressão de espanto, e um pouco de raiva. Como se ele nunca houvesse sido aceito e não soubesse como agir.

Sua faca cortou superficialmente meu busto, um pouco acima dos seios, mas ele a lançou longe. Então, violentamente, me tomou. O corte ardeu, mas nem se comparou ao que veio em seguida. Eu reprimi o grito de ser invadida em sua mão, firme ao redor da minha boca. Ele movia-se como uma sentença de morte. Não era agradável, nem senti prazer algum. No início. Imaginei que viva, eu poderia matar Victoria. Fernanda. Carol. Se a ruiva estivesse viva, eu poderia pegar meu bebê que logo iria nascer. Com um gemido de prazer, entreguei-me àquela perversão, rindo contra a mão de Jeff. Movi-me contra ele, o fiz engasgar de prazer. Revirei-me na lama, e pedi por mais. Ele seria totalmente meu, depois daquilo. Mataria o Chefe. Mataria a própria irmã. Se mataria, pra me agradar. E tudo porque eu o deixava ter de mim, o que nunca havia tido em toda a existência. Amor, mesmo que falso. Eu era boa em fingir mesmo antes de ser inumana. Ele jamais saberia a diferença. E eu tinha certeza de que ele jamais mandaria alguém dormir outra vez, depois de ver o que eu era capaz de fazer acordada. Quando acabou, Jeff levou um susto, pois o beijei. Eu não precisava fazer isso, ele estava satisfeito. Mas eu o queria extasiado. Por mim. Para mim. Desabando ao meu lado, ele ficou rígido quando o abracei, e então amedrontado. Acariciei seus cabelos surpreendentemente macios, e notei que apesar de esquisito, ele não era feio. Só estranho, num sentido difícil de explicar. Para uma profissional como eu, isso não era problema.

– Calma, eu estou aqui... Estou com você, Jeff... — sussurrei em seu ouvido, tocando-o com meu nariz. Ele virou-se pra mim, e me abraçou, todo encolhido enquanto ameaçava chorar. — Isso, calminho. Agora, vá dormir.

– Sim, mamãe... — ele respondeu ansioso por agradar, e eu sorri. Os psicopatas sempre nasciam com as mães. Ele definitivamente, seria meu pra sempre...

Notas finais
Alguém mais aí percebeu que a Topázio elevou o nível do Pussy Power? Cruzes... Me deu asco escrever essa parte. Alguém mais aí conhece a lenda urbana do Jeff The Killer? É, me inspirei nele, graças ao rhaamahen, um leitor fofo que me mandou a ideia do Jeff por MP. Mas ele não é tão feio e creppy quanto a lenda, da forma que imaginei imaginei. Deus... Enfim, o próximo tá quase pronto, então comentem seus sem-vergonhas! Ou mando a Nora socar vocês! XD É isso aí, no próximo tem mais emoções. Kisses by DroppingPieces! :*