Quebranto.

75 Ruas Escuras.


Notas iniciais
Esse capítulo ficou bem diâmico e agitado, espero que gostem das emoções agitadas e dos caminhos sendo traçados. Boa leitura!

Manuela.

Começaria a chover logo. O vento sacudia as ondas do mar, enquanto a areia branca tornava-se cada vez mais escura, devido à sombra inabalável das nuvens que se deitavam sobre sua superfície virginal. Num gesto totalmente comum desde que eu fora ferida na fuga da Privilège, apertei meus dedos machucados com a mão em perfeito estado. Era estranho, mas como se um fantasma do passado convivesse comigo todos os dias, era possível sentir perfeitamente meus dedos, ainda que parte deles tivesse sido mutilada. Era fácil entender porque a maioria das meninas tinham os cabelos curtos, agora. Aquela ventania repleta de maresia fazia com que fosse quase irresistível para mim, ficar submersa nos meus próprios fios. Domando as madeixas enormes, quase tive vontade de ter uma faca ou tesoura à mão, para cortá-las de uma só vez. Ao invés disso, senti-me grata por ao menos, estar um pouco mais protegida do frio súbito e marítimo, que vinha em ondulações ao nosso encontro. Eu ainda não fora capaz de olhar para Ricardo. Estava grata por tê-lo visto, por saber que estava bem. Mas julgava-me repleta do azar comum aos pecadores. Tudo o que mais poderia me ferir, estava acontecendo de novo. E eu me sentia mais do que nunca, sozinha. Descendo lentamente as escadas de madeira, tive que me afastar dos outros. Queria Mirla de volta. Ao menos minha gêmea, entenderia minha dor. Lembrei-me de Lavínia, também. Era difícil acreditar que ela estava morta. Topázio, Alexandre, Thaís, e todos aqueles com quem eu convivera por tantos meses, agora estavam mortos. Por que eu era a última? Dante estava perdido, e eu não tinha ideia do que poderia estar acontecendo. Quase como se eu fosse um parasita, vivendo das sobras daquele mundo. Sobrevivendo. Não sabia até quando poderia suportar aquele tipo de vida. Simplesmente não conseguia ver uma saída para aquilo tudo, e estava farta do sofrimento e do pesar. E principalmente, de estar sozinha...

– Manuela, o que está fazendo sozinha aqui? — Ricardo parecia preocupado. Seu rosto não denunciava nenhuma emoção, mas ele fitava-me de maneira cautelosa. Será que ignoraria tudo, como vinha fazendo desde a noite que passáramos juntos? — Não é bom ficar separada do grupo. Estamos tentando pensar num jeito de sair daqui.

– Não acho que eu vá ajudar muito, Rico. O que minha opinião acrescentaria à nossa situação? A não ser que ir andando seja uma boa ideia, não consigo imaginar mais nada pra nos livrar do problema — francamente, era praticamente fácil sentir as palavras sendo arrancadas de mim pelo enfado e pela tristeza. A melancolia era uma companhia exigente, e muito gananciosa.

– Na verdade, é sim uma boa ideia. Estamos considerando essa possibilidade, também — admitiu, sorrindo. — Hey, por acaso você está estranha por minha causa? Senti sua reação ao me ver vivo. Não está feliz?

– Estou, sim. Esse é o problema. Estou feliz demais por te ver bem, e sei que você nunca vai se sentir do mesmo modo por mim. Ninguém vai — ele pareceu espantado pela minha franqueza. Mas o que eu ganharia medindo palavras? — Vamos ser sinceros, Ricardo. Eu não sou importante pra ninguém, e nem ao menos sirvo de maneira indispensável a algum propósito. Eu não sou a Cecília, nem a Victoria ou a Carolina. Não sou uma mulher forte. Tudo o que eu tenho é meu medo, minhas incertezas e minha dor. Não sei como, mas já achei que poderia realmente seguir em frente, viver sabe? Quando Vicky me salvou, tudo pareceu diferente pela primeira vez. Só que eu estava me enganando. Não há refúgio, nem fortaleza ou circunstância que mude a única certeza que tenho na vida. A de que estou, e que vou continuar sozinha.

– Eu... Não sei o que dizer... — ele pareceu transtornado, como se estivesse me vendo pela primeira vez. Subitamente, a raiva de Lavínia por ter se apaixonado por Dante, fez muito mais sentido. E não porque Ricardo estava especificamente com Hugo. Mas porque seu coração era de outra pessoa. — Me perdoe por ter te magoado. Sei que parte da culpa pela forma como você está se sentindo, é minha.

– Você não me deve nenhuma desculpa. Não me deve nada. Eu sabia o que estava fazendo. Sabia que isso magoaria o Hugo, e concordei. Mesmo bêbada, eu podia ter dito não. — Pensei bem, e percebi que na verdade, ele me devia sim desculpas. — Pensando melhor, você também podia ter se negado ao erro. Você é quem era comprometido, e me arrastou para essa confusão toda. Meu estado de espírito tem muito mais a ver com o que sinto por você, do que eu poderia admitir. E Ricardo, eu realmente ficaria mais aliviada se você estivesse morto. Pelo menos essa agonia teria um fim. Você sabe como me senti ao ter que guardar esse tipo de segredo de todos?

– Por favor, Manuela. Desculpa! Eu não pensei direito, e se você soubesse o quanto estou arrependido, saberia que estou sendo sincero... — Quase senti pena dele. Então me senti outra vez usada, e isso veio para fora com força.

– Será que você não entende? Ouvir esse tipo de coisa só me faz sentir ainda pior. — Revoltada, comecei a subir novamente as escadas. Eu já tinha ouvido o suficiente. — Não me siga. Vai parecer estranho se chegarmos os dois ao mesmo tempo, com cara de enterro. No fim de tudo, posso dizer que estou agradecida. Essa conversa tornou muito mais fácil pra mim, deixar de gostar de você. Sinto pena do Hugo. Você realmente não o ama, nem a ninguém. Só com seus próprios sentimentos. Só se importa com sua própria confusão...

Ainda que meus lábios fossem libertadores e revolucionários, eu me sentia a mulher mais derrotada do mundo. Não era certo brincar com as pessoas dessa forma. Ricardo havia sido sim, um canalha. Mas eu era coisa pior, porque sabia exatamente o que estava fazendo, e merecia colher os frutos do meu erro. E esse segredo, ficaria preso na minha garganta pra sempre, e não importava o quanto fosse doer. Naquele instante, tomar consciência de que eu, e somente eu saberia de tudo, foi devastador. Esse era o preço de interferir no destino dos outros. Se envolver numa tempestade da qual não há escapatória, nem qualquer tipo de perdão. E, se as coisas já não estivessem realmente ruins, eu ficaria ainda mais surpresa com o que houve em seguida. Mas, já habituada ao fracasso, não foi nenhum grande choque encontrar Carolina ao lado da porta do quiosque, com um olhar maldoso e um sorriso ainda mais ferino nos lábios. Ela ouvira tudo. Pelo visto, meu martírio estava apenas começando.

Carol.

– Interrompo? — Tive que rir. Nem em um milhão de anos poderia adivinhar um caso entre a maneta e o dentista. — Sabe, obviamente não sou do tipo que julga, mas vocês fizeram uma baita sacanagem com o Hugo. Eu pelo menos achava que a Vicky tinha morrido. Tsc, tsc... Se eu soubesse disso antes não teria perdido meu tempo salvando seu traseiro, Manuela. Posso ser uma vadia, mas nunca traio meus amigos. E você, Ricardo... Não posso dizer que foi uma decepção. Nunca tive grande expectativa ao seu respeito. — Ok, eu estava sendo venenosa. Mas já tinha muita merda acontecendo pra ter que lidar com aqueles dois. — Bom, eu só vim até aqui pra dizer que, como os dois estavam de esfregação do lado de fora, eu e Cecília decidimos que vamos embora amanhã, no máximo. Nem que seja a pé mesmo.

– Carol... — chamou-me Rico, ele parecia totalmente pálido. — Eu ia contar pro Hugo. Mas com tudo o que aconteceu, todos nos separamos e...

– Você não divulgou sua safadeza? Saquei. Por mim, sem problemas. Não quero me preocupar com isso. Só não fiquem no meu caminho, os dois. E bem, se o Hugo não tiver virado comida de zumbi a essa altura, é bom você se preparar, Rico. Porque eu vou contar tudo pra ele. — piscando descaradamente para ambos, voltei para o lado de dentro, sem querer sequer medir o estrago deixado para trás. Imbecis.

Caminhando de maneira decidida até Cecília, senti em seu olhar que ela já sabia do que havia acontecido entre os dois, nas escadas. Carregando um semblante imparcial, não parecia que ela manifestaria sua opinião sobre aquilo. Estava aos poucos, acostumando-me com os modos silenciosos da vidente. Ela era serena, talvez devido às torturas sofridas nas mãos de Topázio, que a deixava trancafiada por dias, sem que pudesse trocar uma palavra com alguém. De todo modo, suas crises de abstinência eram nulas desde que ela fora envenenada com a Beijo das Sombras, sendo reduzidas apenas à pequenos solavancos durante o sono, e momentos de inquietude e ansiedade, nos quais ela suava muito. Curiosa, imaginei que talvez aquela planta alucinógena também fosse de alguma forma, tóxica e semelhante às drogas comuns, ao entrar em contato com nosso organismo. O que era ainda mais assustador. O que me incomodava bastante, também, era o fato de que uma desgraçada como a Valéria havia aprendido a usar algo tão perigoso, de maneira tão precisa. Eu desejei mais do que tudo, pôr minhas mãos naquela infeliz. Ela já devia estar longe, com o carro de Ricardo. Ainda assim, Búzios não era mais tão grande desde que havia se tornado um lugar totalmente destruído e abandonado. Cedo ou tarde, nos encontraríamos. Isso se eu ainda estivesse viva nos próximos dias. Sendo abençoada com o pior grupo de sobreviventes que o universo poderia me arranjar, ficava difícil prever meu destino. Algo que nunca me incomodara tanto, quanto naqueles últimos dias...

Sabrina.

As ruas escuras que nos guiavam para longe da loja de artesanato pareciam mais assustadoras do que eu me lembrava. Nosso plano havia dado totalmente errado. Não só não sabíamos se a cientista estava morta, como também havíamos sido atacados de volta por uma arma de calibre bem superior a tudo que tínhamos no momento do conflito. Diogo havia sido capturado, e me assustava pensar no que poderiam ter feito com ele. Eu acreditava que jamais o veria de novo, depois de tamanha confusão. Ao menos, ainda estava viva, e eu havia conseguido escapar. Um tiro de raspão no braço esquerdo não mudaria o fato de que eu ainda poderia ir atrás de Ana, quando tudo isso acabasse. Estaríamos seguras em um lugar onde nos acolheriam após cumprir uma missão tão arriscada. Ou era isso que Irma insistia em repetir nos meus ouvidos, de maneira quase exaustiva. Perguntei-me a quem ela estava tentando convencer. A mim, ou a si própria? Eu não sabia. Minhas mãos apertaram o volante com mais força, quando ouvi William gemer no banco de trás. O menino havia sido atingido no peito por um dos disparos, e estava agonizando. Eu sabia que ele não ia durar muito. Herbert mordia o próprio punho e olhava para fora, fitando o céu noturno com expressão taciturna.

– Irma, mata ele logo! — Herbert estava quase gritando, sem querer virar o rosto para trás. — O garoto tá sofrendo. Enfia a faca na têmpora dele e acaba com isso!

– Eu não consigo. Pobrezinho... — sussurrou Irma, extremamente abalada por todo o sangue que a banhava. — Meu Deus, me perdoe William... — pelo retrovisor, vi o brilho metálico da lâmina na mão de Irma, que rapidamente foi enterrada com precisão no ponto vital de Will, que engasgou antes de fechar os olhos para sempre. — Ao menos ele não vai se transformar... — ela falava consigo mesma. — Sabrina, será que podemos parar um pouquinho?

– É claro, Irma. Vou encostar e já, já paramos... — eu havia virado na direção do banco de trás para respondê-la, então não vi o acidente, até que se tornou impossível evitá-lo.

Chocamos-nos contra um carro vermelho, todo arranhado e com a pintura descascando, sem uma das portas. Ele viera pelo lado esquerdo, no cruzamento à nossa frente. Totalmente habituados a nos locomovermos sem precisar nos preocupar com outros carros, nenhum de nós pensou em parar para verificar se alguém estava vindo. O improvável acontecia diante de meus olhos. No volante, uma garota baixinha xingou ao rodopiar, de modo que os dois veículos acabaram parando com um mesmo solavanco firme. Fumaça subiu do nosso motor, e mal tive tempo de sentir todos os meus membros, antes de perceber que havia batido com a cabeça no volante e torcido algum nervo do ombro, que protestava. Herbert mordera o próprio lábio, e sangue sujava todos os seus dentes, escorrendo. O corpo de William estava caído no espaço entre o banco de trás e o do motorista. Irma parecia zonza, mas sem qualquer outro tipo de abalo. Juntos, nos arrastamos para o lado de fora, de onde pude ver com mais clareza o local onde a garota fora parar. Estava estacionada no acostamento, e seu veículo parecia em perfeito estado, tirando o amassado na traseira. Ela também se levantou, limpando as roupas gastas e sacudindo os cabelos castanhos quase do mesmo tom da pele. Era muito bonita, e imediatamente senti-me atraída pelos seus olhos verdes, que pareciam esconder bastante malícia. E eu não costumava me enganar com as pessoas, então quase tive certeza de que ela era encrenca.

– Está tudo bem, garota? — Herbert tinha sua arma na mão direita, já destravada. Ele estava sondando a menina, que não pareceu nem um pouco intimidada pelo revólver.

– Não graças a você. Quase quebrei a coluna com a pancada que me deram. E olha que eu estava dirigindo super devagar. Só tentando achar um lugar pra dormir — queixou-se, quase fazendo um biquinho involuntário. — Agora, se me dão licença, estou indo embora. Não quero zorra pro meu lado.

– Espera! — Irma adiantou-se, apoiando no nosso carro ao cambalear um pouco. — O que acha de nos ajudar? Conhecemos um lugar realmente seguro, que está disposto a nos deixar entrar se matarmos uma mulher que eles querem ver morta. Ela está aqui em Búzios, mas está sendo protegida por um grupo de pessoas. Precisamos de mais alguém, como você. Estando sozinha, parece ter aprendido a se virar. Estou certa?

– Está. Mas sabe, não é nada divertido ficar sozinha o tempo todo. Hoje mesmo encontrei um grupo de garotas na praia, e acabei roubando elas. Mesmo tendo sido salva. No fundo, o que eu queria era não me apegar a ninguém. Roubei seus suprimentos, e estava buscando um esconderijo quando vocês apareceram. Parece ser um sinal... — Era algo realmente impressionante! Estávamos nos dirigindo exatamente para a praia.

– Eu não tenho a menor dúvida disso. Sofremos uma derrota, e íamos exatamente para este lugar na praia, onde estão essas meninas. Conhecemos as três. Nós é quem deixamos todos os suprimentos com elas. Agora que você os tem, não precisamos mais desviar do nosso caminho — refletiu Irma. — Um de meus parceiros faleceu, e se você se unir à nós, pode ficar no lugar dele. Topa?

– Por mim tudo bem. Mas se a coisa ficar feia, sumo. Tudo bem? Meu nome é Valéria, a propósito — ri. Ela era mais parecida comigo do que eu pensava.

– Somos Irma, Herbert e Sabrina. E não se preocupe. Lealdade extrema se torna burrice. Quando um de nós se torna um peso, os outros estão livres para partir. Ou seja, cada um cuida de si, embora estejamos todos seguindo o mesmo rastro. — ela explicou.

– Parece o tipo de grupo certo para mim. — Valéria sorriu, direcionando um olhar que eu não soube interpretar, para mim.

– Irma, não esqueça que eles pegaram o Diogo. Podem acabar forçando-o a contar onde as meninas estão. Reconheci alguns dos membros do meu antigo grupo. Se eles estiverem ajudando a Faye Keiko, não podem encontrar os outros. Ou vamos ter muitos problemas com a inumana de quem te falei — lembrei-a.

– Sim, a tal de Victoria. Eu entendo que devemos manter seu antigo grupo separado. Então, só nos resta emboscar o caminho que leva até a praia onde deixamos a Carolina. Caso tentem achá-las, vão cair em nossas mãos — maquinou, de modo que concordei prontamente, assim como Herbert e Valéria.

– Se a tal de Carolina me ver de novo, vai tentar me matar na certa. — Aquilo pareceu diverti-la, o que me fez duvidar de sua sanidade mental.

– Sabrina, você não disse que tem esse tal de Otávio com a Faye? Se o namorado da Cecília estiver com a cientista, com certeza vai querer ir atrás dela — observou Herbert. — Não poderia ser um plano melhor, Irma. Mas será que a Sabrina aqui não se sente mal por trair os antigos amiguinhos?

– Eu não preciso de amigos, só da Ana — avisei. — Vou fazer o que for preciso.

Só que aquilo não era bem verdade. Não quando eu me recordava das conversas sinceras com Hugo, ou dos abraços dos gêmeos e afeto de Tânia. Eu só não podia deixar que aquelas dúvidas corroessem meus objetivos principais, e os únicos que realmente importavam. Eu tinha de recuperar o amor de Ana, de encontrá-la. Não importavam as escolhas difíceis que eu precisaria fazer, nem se ela as aceitaria se descobrisse sobre as mesmas. Aquele mundo era egoísta, e só dessa forma eu poderia continuar sobrevivendo. Havia dado certo, por enquanto. E teria que continuar funcionando. Não importava quão escuros parecessem meus caminhos, nem quantas lágrimas fossem derramadas no processo...

Notas finais
Hey, pessoal! Algúem aí emocionado com a Manuela? Eu confesso que fiquei um pouquinho, rs. Os próximos cinco capítulos seguintes serão os últimos. Então, em breve a terceira temporada da nossa história estará terminando. Alguém arrisca o que ainda tem para acontecer? Hehehe. Não posso garantir a quinta, mas a quarta temporada com certeza está de pé. Obrigado a todos que estão acompanhando, e que amam essa história. Saber que algo que criei faz parte da vida de pessoas tão incríveis quanto os amigos e leitores que fiz aqui, é algo muito especial. Me sinto extremamente honrado por vocês. Ah, esse capítulo foi inspirado na música Jar of Hearts, da Christina Perri. A partir desse, vou escrever aqui embaixo a música que me inspirou, já que uso uma pra cada capítulo, e pode ajudar a criar um climinha pra fic, hehe. Fuis! Mil kisses by DroppingPieces.