Quebranto.
24 Quero fazer coisas más com você...
Notas iniciais
Ana.
Eu estava correndo, mas era como se minhas pernas estivessem envoltas em algum tipo de areia movediça. O pior naquilo, era que nenhum de nós imaginara que tudo pudesse dar tão errado. Mas era o que estava acontecendo. Enquanto lutávamos por nossas vidas, vislumbrei a fachada da SMOF, e senti um aperto no peito, tamanho era meu desejo de entrar naquele lugar, e ter algum tipo de segurança. Doce ilusão. Diogo ainda estava atirando. Um pouco atrás de mim, vi Sabrina puxar Otávio para baixo no momento em que um pombo mutante tentou bicá-lo. Ninguém contara com aqueles bichos. Nenhum de nós vira algo parecido, além dos insetos e dos cães. Era desesperador perceber que várias espécies animais pudessem ter se transformado. Nem mesmo a fauna da Terra seria a mesma, com aquele vírus demoníaco. Eu, por minha vez, sentia a estranha sensação de estar fora de meu próprio corpo. Mesmo tendo sobrevivido a tantos horrores, nunca fiquei tão na linha de frente, quanto naquele momento. Nosso primeiro objetivo era chegar ao local de origem do pedido de socorro, a Secretaria Municipal indicada pela mulher no rádio. O passeio até chegarmos ao local, tinha ocorrido melhor do que o esperado. Pouquíssimos zumbis bloqueavam o caminho, e por estar afastada do centro, a Secretaria havia sido privada do pior da infecção. Tudo havia corrido bem, até chegarmos ao lugar, de fato. Primeiro, porque já havia anoitecido, e não tínhamos percebido os pombos empoleirados sobre os fios e postes, sem respirar nem gorgolejar. Mortos.
Descemos todos da ambulância, ingênuos e faceiros. Saulo já estava começando a nos dividir em equipes, quando o primeiro pássaro atacou, abrindo um talho na garganta de Miguel. O garoto caiu aos pés de Julia, que começou a gritar num desespero vívido. Eu não sabia direito a relação dela com o loiro, mas os dois pareciam bem íntimos no acampamento. Saulo a puxou para o lado, enquanto o restante das aves se ergueu na escuridão, e o céu pareceu se mover. Horrorizada, tive tempo de perceber o sangue que manchava os cabelos de Miguel, tornando seus fios vermelhos. Era aterrorizante. Nervosa, comecei a tremer e minha barra de ferro caiu no chão, com um guincho metálico que chamou a atenção dos zumbis que cercavam a Secretaria. Eles se viraram em nossa direção, praticamente indescritíveis, por causa da escuridão no lugar. Demorei até perceber que Diogo estava atirando e afugentando algumas das criaturas. Ele não parecia ter medo, nem vacilar. Seus músculos estavam todos retesados e sua expressão era mordaz. Otávio estava mais afastado de mim, segurando uma lanterna contra os zumbis mais próximos, facilitando a mira de Saulo. Julia estava descontrolada, e Sabrina me fitava com pavor palpável, enquanto a continha. A jovem de longos cabelos castanhos chorava e tremia, fitando o corpo sem vida de Miguel, que estava sendo friamente devorado pelas aves zumbificadas, e mais alguns mortos que finalmente o alcançavam. Era duro admitir, mas sendo o membro mais consciente do grupo, pude identificar uma oportunidade naquela morte.
— Gente, temos que nos abrigar o mais rápido possível! – gritei, me abaixando atrás de Diogo, segurando em sua cintura. Então lembrei de Victoria e Fernanda no primeiro ataque sofrido em nosso acampamento. – Vamos pra dentro do carro, pra dentro, agora! – eu falava, mas ninguém parecia dar muita atenção. Saulo pareceu ouvir meu palpite, e com a ajuda de Sabrina fez Julia entrar embaixo da ambulância. Eu já me virava para tentar chegar ao interior do veículo, quando um dos pombos estourou a janela ao meu lado, na tentativa de me bicar. Ele foi cair em cima do banco de trás, espalhando sangue para todos os lados. Minha teoria estava errada.
Em meio ao caos e o medo, não percebemos que os tiros estavam atraindo cada vez mais criaturas. Vindos da parte de trás e dos becos na rua da SMOF, mais e mais errantes chegavam, e estavam nos encurralando contra o portão da secretaria. Saulo estava fora de si, protegendo a ambulância onde sua irmã havia se escondido com grande ferocidade. Otávio tentava acertar algumas das aves com minha barra de ferro, e mesmo com sua falta de jeito estava sendo mais útil do que eu, que havia me agarrado à Diogo, paralisada. Ele me verificava por cima do ombro, e atirava novamente. Logo suas balas acabaram, e ele gritou um palavrão. Ele puxou uma faca de açougueiro da cintura, e a utilizou para espantar os bichos que se aproximavam demais, enquanto me protegia com o próprio corpo. Eu estava me sentindo cada vez mais inútil, quando Otávio teve uma brilhante e malfadada ideia. Num gesto de pânico, ele arremessou a barra de ferro que eu havia deixado cair contra alguns pombos, mas não considerou a noite e a ausência de luminosidade. Seu arremesso atingiu Diogo no rosto, derrubando-o em cima de mim, totalmente instável e surpreso com o golpe. Diogo colocou a mão sobre um ferimento em seu rosto, e olhou para Otávio com uma expressão que seria cômica se não fosse uma situação de vida ou morte.
— Porra, Otávio! – gritei nervosa. Chequei os pontos vitais de Diogo o mais rápido possível, e vi que ele ainda respirava, mas não conseguia se mover de dor. Eu estava apavorada, e comecei a chorar em minutos. Logo senti uma dor lancinante no ombro, enquanto era erguida de uma vez só. Era Sabrina, que estava me puxando para longe de Diogo e do resto do pessoal, sem olhar para trás. – Está louca? – me assustei.
— Tá todo mundo morto, Ana! A gente tem que sair daqui o quanto antes! – ela continuava me puxando, e o resto do grupo estava cada vez mais longe. Entre nós e eles, alguns pombos e errantes se acumularam. Uns nos seguindo, outros atacando nossos amigos. Meu instinto de preservação esbravejou, e comecei a acompanhar os passos de Sabrina, chorando e me odiando por abandonar amigos, pela segunda vez.
— Não acredito que estamos deixando eles para trás! – gemi, chorando e lutando pra me livrar de Sabrina.
— Pode acreditar fofinha. Não vou perder você, nem que tenha que ver todo mundo morrer primeiro! O que a gente pode fazer por eles? Nada! Essa é a oportunidade perfeita pra fugirmos de uma vez, e aproveitarmos que o Arlindo ficou pra trás, também, lá no morro! – eu não entendia o motivo de tanto medo. Sabrina estava insana, e amedrontada ao limite. Viramos a esquina antes que ela terminasse de falar, e vimos uma mercearia com as portas arrombadas. – Vai ser ali mesmo, anda! – gritou.
— Isso não está certo! Não está! – ela praticamente me arremessou no interior da loja, e bateu as portas de ferro, travando o portão que havia sido deixado aberto, por dentro. Ela começou a derrubar caixas e tralhas de toda sorte: tripés com DVD’s, revistas, um freezer, e uma cômoda que havia sido tombada por refugiados anteriores, e já utilizada como barricada.
Fiquei presa entre o pranto e a loucura. A sala estava girando ao meu redor, e tive a certeza de que minha pressão arterial havia despencado. Minha boca estava seca, e gelada. Minha respiração saia em puxadas curtas e sofridas. Era quase um chiado. Ruim mesmo foi quando eu percebi que aquele ruído todo não era só meu. Um apertão em minha coxa me fez gritar, ao deparar-me com um zumbi caído ao meu lado. Só então notei que havia sido derrubada por Sabrina, em uma poça de sangue. O zumbi que me atacava tinha o rosto quase que completamente descarnado, e não possuía nada além de seu tórax, e os braços. Pavoroso, ele tentou alcançar-me com seus dentes podres, mas eu o apertei no pescoço, sentindo a carne pútrida e mole ceder sob minhas unhas. Minhas mãos doíam enquanto eu o permanecia parado, afastando aquela boca suja do meu corpo. Estava repleta de sangue, poeira e já nem sentia mais nada. Meus cabelos, antes presos num coque, agora se espetavam para todos os lados, com uma libertinagem que só o fio afro sabia ter. Sabrina logo percebeu meu dilema, e veio correndo para cima de mim. Ela chutou a cabeça do monstro com tanta força, que ela estourou. Devia ser um zumbi dos primeiros dias do fim. Estava imensamente decomposto pelo tempo. E o sangue que havia se acumulado ao redor, estava podre, e quase seco.
A luz da lua entrava pela única janela disponível, e ver que ela era feita de vidro me encheu de pânico. Um daqueles bichos poderia invadir o local a qualquer momento. Mas considerando que meus amigos estivessem sendo devorados àquela altura, eu duvidava de que desviassem sua atenção para nós. Sabrina finalmente relaxou, e deixou-se cair ao meu lado, apoiando as costas na parede suja da mercearia. Todas as prateleiras com alimentos estavam vazias, e mesmo as outras tinham apenas resquícios empoeirados de produtos vencidos. Elas estavam reviradas e jogadas uma sobre as outras, em um canto. O grupo que se refugiara ali antes havia aberto uma área livre no meio do estabelecimento. Fitando o vazio, senti o prazer de ter o ar invadindo meus pulmões, ignorando o cheiro horrível que exalava do meu corpo. Sabrina me encarou, e sorriu. Acabei sorrindo de volta. Estávamos felizes, não por termos sobrevivido à custa dos outros, mas por termos escapado na hora mais improvável. Mas devo confessar que naquele momento, tudo o que mais me intrigava era saber do destino dos outros. E sei que a ela também.
— Qual é o lance com o Arlindo? – perguntei, tentando pensar em tudo, menos no que acabáramos de passar.
— Digamos que ele e eu temos um passado. Como eu disse antes, ele estava preso. Foi solto da delegacia na qual havia sido detido pelos próprios policiais, que se sentiram mal em deixá-lo morrer. Por mim, deviam ter feito exatamente isso. – havia o mais puro ódio na sua voz. Cheguei a me arrepiar.
— Por quê? O que ele fez? – indaguei.
— Não me lembro bem, mas acho que devo ter te contado que ele era um estuprador. Desde que o grupo de Saulo o encontrou, ele me escolheu. Forçou-me a fazer sexo e jurou me matar se eu contasse a alguém. O problema, é que eu não quis pagar pra ver. Nunca contei nada. E me arrependo todos os dias por isso. – revelou Sabrina. – Enquanto viajávamos juntos, fui obrigada a aguenta-lo várias vezes, com medo de contar algo a alguém, e ele matar a mim, ou a pessoa. O desgraçado é um lutador incrível. Capoeira. E também sabe como atirar. É assustador. – ela estava chorando. Seus cabelos loiros caíam como um véu, cobrindo metade de seu rosto. A parte raspada estava coberta por uma de suas mãos, que coçavam psicologicamente a região. Suas unhas estavam pintadas de esmalte preto, meio descascado pelo tempo. Mesmo assim, ela era linda.
— Esse homem deve ter sido horrível para você. Sinto muito... – falei nervosa. Meu lenço amarelo de repente estava sufocando-me.
— Não se sinta assim, Ana. Sou eu quem tem pena daqueles que ficaram para trás. Estão presos com Arlindo. Não há castigo pior. – então eu entendi o pânico de Sabrina. Logo pensei nas crianças, em Carolina, em Ricardo, em Hugo. O quê Arlindo faria com eles? Tínhamos que voltar.
— Então não podemos deixá-los. Não vou repetir o que fiz com Victoria. – decidi.
— Quem é essa Victoria? Vocês falam muito dela. – observou Sabrina, curiosa.
— Ela era uma das minhas melhores amigas. Morreu há um tempo, mas me ajudou de muitas formas. Durante e antes do Apocalipse. Nunca vou esquecê-la. – afirmei, sorrindo.
— E nem deve. Agora, podemos parar de falar dos outros? – pediu Sabrina, com os olhos marejados. – É muita dor... Eu só quero sentir a vida, sabe? E sei que posso conseguir isso, com você. – sua mão estava na minha perna. Senti vibrações reverberarem até meu âmago, e fui atraída em sua direção, inconscientemente. Nossos lábios se encontraram depois, e fiquei surpresa ao constatar que a estava abraçando e a puxando para perto. – Sim, Ana. Me puxa.
— Shiiii... – pedi, colocando um dedo sobre o seu lábio. Ela estava vestindo coturnos, e uma saia preta. Sua blusa branca estava manchada de fuligem, e sua jaqueta verde estava em frangalhos. Ainda assim, eu a desejava como nunca. Considerando que havíamos escapado da morte, não teríamos tempo para desenvolver a “relação” muito mais devagar do que havíamos feito.
Ela colocou a mão por dentro da minha blusa, e apertou meu seio. Eu permiti, tentando abstrair de como estávamos sujas, e maltrapilhas. Minha repulsa natural por tudo que não condizia com práticas saudáveis e principalmente, limpas, lutava num embate ferrenho contra os impulsos e desejos mais primitivos de meu corpo. E, por Deus, eu não conseguiria mais revogá-los. Sem pensar duas vezes, puxei a jaqueta de Sabrina, despindo seus ombros. Com certa urgência, ela abriu o zíper de minha calça jeans enquanto me beijava furiosamente. Sei o que devem estar pensando. E não, não fizemos sexo oral imunda como eu estava. Havia um limite humano para tudo. Ainda assim, senti seus dedos penetrarem minha intimidade, enquanto eu desfalecia em seus braços. Com firmeza, Sabrina me conduziu ferrenhamente nos caminhos da luxúria, enquanto apertava o bico de meu seio esquerdo até me tirar o fôlego. Seus lábios deixaram os meus, e abocanharam meus seios, que ela chupou com força e delicadeza, ao mesmo tempo. Gritei de prazer, sentindo-a me silenciando em seguida. Por breves segundos, eu havia me esquecido de onde estávamos. Era tudo muito surreal, e absurdo. Comemorar a vida com sexo, no meio de uma área de risco, era um convite à Morte. Um flerte. Mas o que eu faria, se o amor era mesmo insensato? Logo eu também estava tocando Sabrina por baixo da saia, e observar seu rosto lânguido de prazer, fez meu mundo explodir em dezenas de fogos de artifício, enquanto eu arfava com meu próprio pedaço de céu.
Poucos minutos depois, estávamos ambas cansadas, e satisfeitas. Os cabelos loiros de Sabrina estavam suados e se espalhavam sobre o meu ombro, em contraste com minha pele escura. Eu amarrei meu lenço de cetim amarelo em torno do pescoço, e ela ficou me olhando, sorrindo. Depois se levantou, pegou a espingarda que havia trazido do morro, e ficou montando guarda, enquanto fitava a rua deserta. Olhei para o teto, e mordi o lábio inferior. Logo, as imagens de meus amigos lutando e gritando encheram minha mente, e só consegui pensar em uma coisa: Otávio. Meu irmão. Meu melhor amigo. O que teria acontecido com ele? Sentindo-me a pior das vadias por ter transado enquanto ele provavelmente estava sendo morto, comecei a chorar olhando para a noite pálida. Eu havia feito coisas realmente más com Sabrina, mas agora, tudo o que seu sentia era o vazio da perda. O que mais eu poderia sentir, além da agonia que se desprendia do meu coração?
Mesmo minha angústia, foi interrompida pelo chiado alto que aos poucos, tomou conta da noite. Algo estava se aproximando. Eu só não sabia o quê. Sabrina me fitou sobre o ombro, e o quê ela viu, com certeza a havia surpreendido.
Ela estava apavorada.
Otávio.
E me considerava um idiota por excelência. Aliás, essa sempre fora uma das minhas maiores sinas. Ser extremamente franco a respeito da minha própria inutilidade, e inaptidão à qualquer função que exigisse o mínimo de destreza. O fato era que eu só não sabia o quanto todo o meu desprezo próprio era bem fundamentado. Isso, até acertar a cabeça de Diogo, nosso melhor lutador, com uma barra de ferro. Vê-lo caindo totalmente desorientado, foi como uma sentença de morte para o grupo, em minha concepção. Julia estava fora de si com a morte de Miguel. Saulo lutava em desespero para salvá-la. Os pombos continuavam vindo e Ana estava em choque. Agora de mãos vazias, eu também não sabia como lidar com aquela situação. Reuni energia para empurrar um zumbi que tentou me segurar no chão, e abaixar a tempo de evitar a revoada de um dos pássaros. Era como se o próprio céu abrisse a boca para nos devorar. Muitos monstros, e poucas chances de sobrevivermos. Foi então que vi Sabrina se afastando do grupo, puxando Ana consigo. Eu sabia que minha amiga devia estar aos trancos e barrancos. Ao mesmo tempo, lutando pela própria vida e querendo salvar a dos outros. Com uma curiosa sensação de estar deslocado no tempo, enquanto tudo ao meu redor parecia se mover em câmera-lenta, entendi que se eu não pudesse sobreviver, então faria o possível para salvar alguém que importasse pra mim. Fechando os olhos e aceitando o fim, comecei a gritar a plenos pulmões. Nenhuma palavra em específico. Apenas um grito. Fugaz, indefinido. Gritei, e logo os seres zumbificados em dezenas de metros focaram sua atenção em mim. Sorri fracamente, tentando consolar a mim mesmo. Eu morreria, mas Ana teria uma vantagem. Ela viveria, e teria tempo de ser feliz, antes de morrer na velhice. Sabrina tomaria conta dela, não estava mais sozinha. Eu podia lidar com isso, aceitar o fato.
Mas não foi o que aconteceu. Com um rangido doloroso, ouvi os portões da SMOF se abrirem violentamente. Um homem careca, e muito forte, corria para o lado de fora, na minha direção. E desarmado! Passando pelos primeiros zumbis com velocidade, ele chutou uma mulher morta que estava a centímetros de mim, afastando-a. Ao longe, comecei a ouvir o afastamento dos pombos, quando as luzes elétricas na varanda da Secretaria de Obras se acenderam. Provavelmente os olhos mortos daqueles pássaros estariam confundindo as luzes, com fogo. Mas não por muito tempo. Olhei ao redor, e o homem careca continuava circulando entre os mortos, quebrando pescoços de zumbis com as mãos vazias, como se fossem piada. Imediatamente, minha mente ligou o alerta. Eu não morreria sendo devorado vivo. Mas aquele homem também não era exatamente normal. Agachei-me quando ele literalmente pulou por cima de mim, indo se chocar com uma velha zumbificada. Ele então alcançou Diogo, e o levantou. Surpreso, percebi que o filho da mãe não tinha nenhum ferimento além do qual eu lhe causara. Saulo afastou dois andarilhos, puxando Julia para fora de seu esconderijo parcial. Corremos todos para dentro do gramado da SMOF, antes que o efeito das luzes se passasse. Não teríamos aquela chance outra vez. Alcancei o gramado e me deixei cair, enquanto o careca voltava para os portões, e os puxava com força, passando uma corrente que havia em sua mão em volta. Ele se apoiou nas grades por alguns minutos, e se virou para nós.
— Entrem, por favor. Os pombos ainda podem passar por cima do portão, e nos pegar aqui. Lá dentro nos falamos. – a última frase com certeza havia sido direcionada a mim, que já me preparava para fazer uma pergunta sobre sua origem e nome.
Ao invés disso, vi-me adentrando o saguão de entrada empoeirado de um local que poderia ser confundido com qualquer escritório simples do mundo. Uma fina camada insistente de poeira envolvia o lugar, embora fosse possível ver onde pegadas recentes haviam modificado a superfície. Aparentemente cansado, nosso salvador nos analisava com cautela, e tomava fôlego antes de falar. Notei que Julia parecia mais calma, e estava com a cabeça no colo de Saulo, que a ninava, confortando. Diogo ainda estava atordoado, mas me olhava com uma incômoda cara feia. Direcionei um pequeno sorriso para ele, que me mostrou o dedo do meio. Depois disso sosseguei. Por fim, nosso salvador sorriu, e estendeu a mão na minha direção.
— Nunca imaginei que eu fosse salvar a nossa equipe de resgate. – disse simpático. Não pude evitar sorrir, embora a ideia de ser salvo deixasse Diogo visivelmente desconfortável. Notei com curiosidade que nosso salvador usava óculos escuros, mesmo à noite. – Meu nome é Jonas. Foi muito corajoso da parte de todos, se arriscarem tanto por estranhos. É bom ainda encontrar gente decente.
— Eu sou Otávio. – falei. – Esses aqui são Diogo, Saulo e Julia. Temos mais duas amigas do lado de fora. Sabrina e Ana. Elas tiveram que se separar de nós, pra poderem escapar.
— Entendo. Estamos em três aqui. – contou o homem, sorrindo. Então ele fitou a escada de madeira que levava ao segundo andar. – Meninas! Desçam, por favor! Eles são legais! – afirmou.
Então eu ouvi passos no andar de cima. Ainda pálida Julia fitava a escada, ao lado de Diogo e Saulo, enquanto duas mulheres desciam até nós. O que mais me deixou estupefato foi o fato de conhecer as duas. Uma, era Diana, uma mulher que salvara minha vida na estrada, quando eu nem havia conseguido colocar os pés em Cabo Frio, ou entender o que estava acontecendo. E a outra, era a Vicky.
Sentindo minhas pernas ficarem bambas, me apoiei na parede para não cair. Jonas percebeu minha confusão, e então se surpreendeu quando Diogo levantou-se do canto em que estivera apoiado, contra a parede. Diana esboçou surpresa ao ver-me, mas Victoria... Estava chorando. De alegria. Contudo, havia algo de diferente em sua aparência. Como se dois espíritos, um de luz e um das trevas, a tivessem possuído. Um de seus olhos estava preto, e o outro branco. Mesmo assim, era inegável que aquela era minha irmã de criação, minha alma gêmea psicológica. Corri para abraçá-la imediatamente, sentindo inclusive certo mal-estar provocado pela emoção. Apertando-me com força, Victoria ria em sintonia com minha própria gargalhada de alegria, e descrença. Mesmo a sentindo em meus braços, eu não conseguia crer cem por cento no que estava acontecendo. Jonas tirou os óculos escuros, e vi em seus olhos, reflexos dos de Victoria. Forcei um pouco a memória, até que as palavras de Diogo sobre os Inumanos fizeram sentido. Victoria, assim como Jonas, era uma Inumana. Mas aquilo significaria alguma mudança entre nós? Sem parecer notar seu pequeno affair, Vicky me abraçava apertado e chorava. Notei também que Diana estava cumprimentando Diogo, e lembrei que ele convivera com ela, Louis e Lívia, na época em que havia deixado o grupo do Trocado. Saulo e Julia assistiam a tudo, impassíveis.
Dentre todas as pessoas que eu julgara ser possível reencontrar, Victoria era a última delas. Um reencontro com ela só acontecia na minha mente, e depois da minha morte, quando nos víssemos no céu, ou no inferno. Não ali, numa sala empoeirada e devastada de um escritório pós-apocalíptico. Ainda assim, estávamos todos ali, e algo no fundo de minha mente me fez julgar, se o fim do mundo era tão injusto. Afinal, eu estava presenciando um milagre, ou uma nova maldição?
Notas finais
Kisses by DroppingPieces!! :3
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