Quebranto.
26 Quando o gato sai, os ratos fazem a festa.
Notas iniciais
Não digam que não avisei.
Fernanda.
Os cabelos de Vilma formavam um tapete ao redor de seu rosto, enquanto ela sorria na cama de casal que dividia com Dino. Logo, seus olhos fecharam-se e ela adormeceu, no sono mais tranquilo que seria possível durante tempos como aqueles. Sorri sozinha, lembrando-me de quando Tiago estava vivo. Era comum que ele me pedisse ajuda para fazer os gêmeos dormirem, e eu costumava contar histórias para eles enquanto Tiago acrescentava elementos à minha narrativa. Na maioria das vezes, ele inventava coisas que não faziam parte das histórias tradicionais, mas isso só fazia os meninos rirem ainda mais. Ele estava morto há muito tempo agora. Só mesmo meu reflexo no espelho podia testemunhar que fazia meses desde que o mundo havia acabado. Até então, muitos haviam morrido, e outros estavam perdidos. O mundo tinha virado uma bagunça, e eu me perguntava dia e noite se haveria alguma esperança, algo pelo qual valesse lutar. Meus lábios formigaram, e eu os mordi nervosamente. Memórias revolveram-se abaixo da superfície calma de meus pensamentos, e me vi sentada próxima á fogueira com Tiago, nos primeiros dias desde que Diogo e eu havíamos chegado ao acampamento. Àquela altura havia muito mais pessoas entre nós. Mesmo assim, nos aproximamos aos poucos. Meu primeiro beijo foi roubado por ele enquanto me ajudava a separar roupas para as crianças. Nossa relação nunca passou disso, mas era maravilhoso saber que alguém se importava comigo, mesmo que ninguém mais soubesse. Quando ele morreu, senti uma parte do meu eu indo embora, mas ao menos eu tinha as crianças. A rebeldia delas, nada mais era do que uma confissão dolorida de que estavam amedrontadas. Todos sempre estávamos nos últimos dias.
A chegada do grupo de Saulo ao Trocado nos trouxe uma nova luz, uma esperança de que talvez pudéssemos ampliar nossas forças e proteger aquele lugar com mais eficácia. Agora, depois de Ricardo ter recebido uma chamada de urgência pelo rádio que eles haviam trago, somente Arlindo e Tânia haviam permanecido no acampamento. Tânia era uma enfermeira antes de o mundo virar uma zona, e permanecera robusta mesmo com a escassez de comida, algo que segundo ela, era frustrante. Dela eu gostava, com seu humor exagerado e seu olhar bondoso. Mas de Arlindo, não. Por algum motivo, quando ele me olhava fazia-me sentir exposta. Quase desconfortavelmente vulnerável. Apesar disso, cumprimentei-o no dia anterior, quando nossos amigos haviam saído para buscar o grupo que pedia socorro numa Secretaria de Obras próxima aos arredores do centro de Cabo Frio. Com Madeline, arrumei a casa que Ana e Otávio estavam dividindo com Rafael e Eloá, enquanto Carolina arrumou a que ela estava usando com Luca. Ricardo recomendou que deixássemos tudo pronto para receber nossos novos moradores. Agora que todo o trabalho havia acabado, eu podia admitir que estivesse morta. Acariciando meu crucifixo distraidamente, deixei o quarto das crianças com delicadeza, e fechei a porta atrás de mim. Desde a morte de Tiago eu havia achado melhor me mudar para ficar com eles, e deixei a casa onde vivia quando Victoria ainda estava viva. Lembrar minha amiga perdida era como engolir fel. Ela morrera para me salvar, e nossa ligação era forte como a de irmãs. Dentre todas as minhas inaptidões, a asma era aquela que eu mais lamentava, pois fora a causadora de uma perda tão dolorosa. Por mais que todos insistissem que não era minha culpa, nada poderia remover aquela chaga do meu coração...
Senti o ar noturno acariciar minha pele como um gato, quando comecei a caminhar na direção da fogueira. Por mais que o fogo pudesse atrair criaturas, era nossa única fonte de iluminação noturna no lado de fora, desde que havíamos descoberto sobre aqueles insetos mutantes, que nem pereciam vespas realmente, e sim maribondos vermelhos como os que eu via perto da minha casa, quando era mais nova. Só que agora eram maiores, e um tanto mais nojentos e perigosos. Mas o princípio era o mesmo. O cheiro de fumaça veio antes que eu pudesse ver meus amigos, logo identificando Hugo, Ricardo, Tânia, Rafael e Eloá ali perto. Sorri, e sentei-me numa cadeira de balanço ao lado de Tânia, que tinha as mãos cruzadas sobre o peito enquanto fechava os olhos aspirando calor. Ricardo estava sentado em uma cadeira de ferro, e Hugo tinha as pernas cruzadas em lótus, sentado no chão entre as pernas do primo/namorado. Sem me deter muito nessa parte, sorri para Eloá, que estava limpando um revólver enquanto seus cabelos negros despediam de um lado de sua cabeça. Um pouco distante Rafael a fitava com emoção e desejo no olhar. Era curioso ver que eles não eram nada óbvios, apesar de estarem namorando. Não era comum ver Eloá se derretendo toda, nem Rafael caindo de amores. Esfregando a pele nua de meus braços, franzi a testa para minha blusa de cetim cor de vinho. A saia estilo colegial cinza que ia até acima de meus joelhos eram mais curtas do que eu julgara antes de vesti-las. Senti-me desconfortável com elas, mas respirei fundo. Não era nada tão devasso assim, afinal. Afaguei minha cruz novamente, pedindo à Deus que nossos amigos chegassem logo.
– Seus cabelos estão bonitos. – disse Ricardo, para Hugo. O menino fez uma cara feia, e depois sorriu.
– Tá de gozação, né? Não tem nenhuma tinta pra deixar preto de novo. O loiro está aparecendo, e o verde sumindo... – queixou-se ele, e então parei para olhá-lo atentamente. De fato, era possível distinguir os cabelos num tom muito mais claro que cresciam em sua raiz. Concordando com Ricardo, julguei que seus cabelos no tom loiro natural, o deixavam muito mais belo do que já era. E sinceramente, ele seria o único a sentir falta de seus reflexos verdes e roxos.
– Eu falo sério. Você fica bem mais natural com seus cabelos loiros. Eu prefiro assim. – declarou Ricardo, como se aquilo encerrasse o assunto. E de fato, encerrou. Hugo ficou quieto, e estendeu as mãos na direção da fogueira.
– Queria que meus cabelos fossem lisos como os seus, Hugo. – confessei. – Essas ondulações todas me deixam louca.
– Não seja boba, Nanda. Você é linda. – garantiu ele, sorrindo.
– É mesmo, uma moça de presença. – concordou Tânia. – E por falar em presença, olhem só quem resolveu dar uma fugidinha. – indicou com um aceno da cabeça. Olhamos na direção dos alojamentos, e vimos Carolina e Luca indo para o antigo terreiro de Jeanette. Revirei os olhos, e Ricardo sorriu.
– Espero que não sujem nada. – comentou, fazendo Hugo rir também.
– Nós nunca sujamos. – lembrou Hugo, me fazendo arregalar os olhos. Era bem mais do que eu precisava saber. – Desculpe. – acrescentou ele, ao ver-me ficando verde.
– Tudo bem. – assenti.
– Aqueles dois namoram há muito tempo? – indagou Tânia, sonhadora. – Lembro de quando eu era jovem e achava que era imortal... Só consegui uma gravidez na adolescência e dez quilos a mais.
– Você tem filhos? – perguntei, emocionada.
– Eu... Eu tinha. – corrigiu ela. De repente, o clima mudou completamente em nossa rodinha. Todos ficaram pensativos e sombrios. Quase me xinguei por ter colocado as perdas de Tânia em pauta.
– Sinto muito. – desculpei-me. Ela me olhou carinhosamente, e com um gesto de mão dispensou as desculpas, olhando fixamente para o local por onde Carol e Luca haviam desaparecido. Seus olhos marejaram, e os meus também.
– Ok. Vou fazer uma ronda pra checar as barricadas. Hugo? – perguntou Ricardo, e logo os dois se afastaram.
– Checar as barricadas, sei... – comentou Eloá, emburrada. Rafael riu, e eu o segui. Conversamos durante mais algum tempo, e senti minha boca abrir num bocejo terrivelmente grande. Fui me virar na direção de Tânia para convidá-la a se retirar comigo, mas ela estava roncando como um pedreiro, enrolada numa manta em sua cadeia de balanço.
– Vou indo pessoal. Muito sono. – avisei, me levantando.
– Quer que eu vá com você? – ofereceu-se Rafael.
– Não, não precisa. Por que vocês dois não conversam um pouco? – sugeri, olhando para ele significativamente. Ele corou, e então os deixei com uma piscadela.
O caminho de volta para minha casa foi menos sombrio do que eu esperava, depois de ter conversado com o pessoal e tido um pouco de distração. Agora, sozinha com meus próprios fantasmas e terrores, senti-me afundando num estado de espírito nada agradável. Minha preocupação com aqueles de nós que haviam saído aumentou, e ameaçou sufocar-me completamente. O que estaria acontecendo com eles? As pessoas encontradas seriam confiáveis, seriam bandidos? Minha sapatilha afundou numa poça de lama, e reprimi o impulso de soltar um palavrão. Bati o pé algumas vezes para sacudir o líquido viscoso e fedido de mim, e depois apoiei em uma parede para retirar o pé do calçado sujo, e batê-lo mais energicamente. Resmunguei com o cheiro insuportável, e aceitei o fato de que aquilo não sairia sem lavar. Gemi ao pensar na distância até o rio que usávamos para lavar as roupas, mas acabei indo mesmo assim. Na verdade, eu queria mesmo me distrair com alguma coisa, e parar de pensar em gente morta. Desci um pouco para o espaço arborizado atrás das casas que havíamos isolado, tomando cuidado para não escorregar na grama úmida de orvalho. O cheiro de natureza e água inundou minhas narinas, realmente lavando meus pulmões. O sentimento de tristeza dentro de mim tornou-se melancolia, e de um jeito meio louco, fiquei emocionada quando finalmente pude ver o luar sobre a água do rio. As estrelas sempre pareceram muito mais próximas, em Cabo Frio. Era como se o céu estivesse mais perto do solo. Tirei meus dois calçados, e mergulhei os pés na água translúcida, esfregando-os com a mão, para tirar a sujeira. Eloá havia alertado a todos que depois de certa profundidade, havia peixes capazes de morder humanos, e que ninguém deveria se afastar da beirada, e foi exatamente o que eu fiz, saindo da água sem maiores problemas, depois.
O que eu não sabia, é que não eram os zumbis ou as criaturas mutantes os meus maiores problemas naquela noite. Quando já estava subindo a pequena ladeira na direção das casas, senti uma mão forte e calejada puxar meu braço esquerdo, me desequilibrando. Caí sobre os joelhos e minhas mãos afundaram na grama encharcada de orvalho. Quem quer que fosse meu atacante, era bem forte. Ele conseguiu virar-me de frente para sua forma com um único solavanco. Foi então que encontrei seus olhos. Os olhos sorridentes e maldosos de Arlindo. De primeira eu não entendi o que estava acontecendo, mas então um pavor líquido, até mesmo gélido, desceu por minha espinha e instalou-se na base na minha coluna, comprimindo. Arfei e senti as lágrimas queimando. Arlindo colocou o dedo indicador contra a própria boca, e depois se abaixou ficando sobre o meu corpo. O suor brilhava contra sua pele negra. Ele seria até bonito, se não fosse doente.
– Se você gritar, eu vou matar aquelas duas crianças lindas que você protege como se fossem suas. – ele passou a mão no meu rosto, e engasguei com os insultos que pensei em dizer, quando ele mencionou Vilma e Dino. – Não se faça de desentendida, gostosinha. Você fica por aí desfilando no meio da noite com essas roupas e não quer que ninguém toque? Você pediu por isso! Vi como me olhou desde que cheguei... – ele fechou uma das mãos em torno dos meus pulsos, colocando-os sobre minha cabeça, e sentou em cima das minhas pernas, bloqueando meus movimentos totalmente. Com a outra mão, ele começou a tocar minha coxa direita e a se aventurar sob minha saia. Pensei em gritar com o desespero turvando minha visão. Os rostos de Vilma e Dino na minha mente seguraram minha língua, mas eu nunca sentira tanto medo em minha vida. Não só por antecipar o que eu sabia que aconteceria, mas por não saber nada a respeito disso. Doeria muito? Eu nunca tivera qualquer relação deste tipo com um menino de quem eu gostasse antes... O único com quem eu chegara perto havia sido Tiago, mas ele morrera antes de tudo tornar realmente sério. Agora, minha virgindade seria tomada por um monstro, depois de eu haver me guardado pelos meus quinze anos de vida.
– Por favor... – eu tentei. – Eu nunca fiz isso antes... Pelo amor de Deus, pela Virgem Maria...
– Shiiii... Quietinha, meu anjo... O Arlindo aqui vai te ensinar tudo o que precisa saber. Só vai doer um pouquinho. – ele estava ainda mais excitado por saber que eu era virgem. Chorei sentindo garras invisíveis fechando minha garganta. Eu não podia ter uma crise de asma agora. Como eu poderia escapar? Ele rasgou minha saia com tamanha violência, que acabei emitindo um guincho de medo e nojo. Ele acertou meu rosto com as costas da mão, e o sabor do sangue inundou minha língua, junto do ardor terrível de ter os lábios cortados.
– Ave Maria, cheia de graça... O Senhor é convosco... – sussurrei, e ele começou a rir de mim. Chorei ainda mais, agora de revolta e agonia puras. Como alguém poderia ser tão cruel? – Bendita sois vós entre as mulheres, e Bendito é fruto de Vosso ventre, Jesus...
Puxando duramente, ele arrebentou todos os botões de minha blusa, expondo meus seios cobertos pelo sutiã. Por alguns segundos o fôlego me faltou, e senti minha pressão arterial despencar, ficando totalmente mole, e inerte. Não tinha forças nem para erguer meus braços, paralisada pelo horror do momento. Senti seu hálito contra meu pescoço, e me arrepiei inteira. De nojo. Era como se um dos zumbis estivesse me lambendo. Ele puxou algo de sua cintura, e reconheci uma faca. Comecei a tremer inteira, mas ele meramente colocou a lâmina entre meus seios, e cortou meu sutiã. Meu primeiro impulso foi o de cobrir os meus seios, mas acabei apanhando de novo, e abrindo os braços. Ele agarrou meus dois seios, e apertou os bicos, me fazendo quase gritar de dor. Mais uma vez gemi e chorei, indefesa.
– Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores... – continuei rezando, e ele começou a chupar meu peito esquerdo. Mordi minha boca já machucada, e a rasguei ainda mais. Fora de mim, comecei a me debater em seu aperto, suas carícias ficando cada vez mais ousadas. – Agora e na hora de nossa morte... Amém...
Minhas últimas forças se foram junto com minha oração. O choque me emudeceu completamente, quando o senti tocar minha calcinha, e puxá-la para baixo com violência. Tive a visão de seu olhar cobiçoso, enquanto ele abria a própria calça, e fechei os olhos com força. Agora, a faca dele estava perto do meu olho, pressionada contra minha bochecha. Eu me desculpei com Tiago em pensamento, pois estava me preparando para gritar mesmo que isso colocasse os gêmeos em risco. Eu não aguentava mais. Quando peguei fôlego para chamar ajuda, fui interrompida pela pior dor que uma mulher pode sentir. Arlindo havia me penetrado. Com uma força abrupta, ele tomou minha virgindade, espalhando espasmos de dor por todo o meu corpo, que sabia tratar-se de uma violência. Eu não estava pronta, portanto meu corpo também não. Totalmente na defensiva, fui comprimida contra meu próprio interior, enquanto uma ardência violenta drenava minhas últimas defesas. Eu havia perdido tudo. Minha vontade de viver, minha virgindade, minha alegria, e qualquer resquício de inocência que talvez houvesse sobrevivido ao horror de estar vivo em um mundo como aquele. Arlindo continuava pressionando seu corpo contra o meu, e cada movimento seu era como um prego sendo batido contra minhas entranhas. Minhas lágrimas secaram quando o choque tomou conta de mim completamente, e deixei minha cabeça cair contra o gramado exageradamente úmido. O luar que antes eu admirara, agora parecia enfeitava de pontos vermelhos, e as estrelas eram como um milhão de sonhos que explodiam ao meu redor. O brilho que eu havia perdido se refletia nelas, e era como se eu pudesse ouvir os sons de milhares de pontos luminosos, rindo da minha vergonha e humilhação. Apenas elas, e Deus, eram testemunhas do que estava havendo. E isso, me fez voltar-me para Ele. Eu merecia aquilo? Eu fora, de alguma forma, indigna e pecadora o bastante para merecer ter ficado para trás, quando todos os fiéis haviam se juntado ao meu Deus? Eu merecera, por minha própria maldade, ser punida através de Arlindo? Eu tinha medo das respostas.
Porque se eu não merecera tamanho mal, então meu Deus não havia me protegido. Então, minha fé era uma farsa. Eu não questionaria o Senhor. Chorando, orei aos céus por auxílio, sentindo meu corpo sacudir numa velocidade cada vez maior, enquanto Arlindo arfava e se contorcia. Eu não me atrevi a olhá-lo nem uma só vez. Nem me mexi, depois que o ato fora consumado. Meu desejo era que de alguma forma, aquela dor terrível fosse o suficiente para me levar ao eterno descanso. Como eu olharia para meus amigos depois daquilo? Arlindo soltou um urro de prazer e bestialidade, quando terminou. Ele se jogou contra o meu corpo, e por mais que eu tentasse, não consegui mais chorar ou me mexer. Meu olhar havia sido capturado pela lua, e eu a fitava como se fosse a face de Deus. Nem mesmo a dor eu podia sentir, presa num estado catatônico profundamente acolhedor. Era como estar no centro de uma espiral, girando até o fundo direto para o vazio.
– Você não vai dizer a ninguém o que aconteceu aqui, ouviu? – esbaforiu-se Arlindo contra meu ouvido. – Eu vou querer repetir a dose, agora que Sabrina foi embora. Então, se você falar alguma coisa, te mato e mato aquelas crianças. Ouviu vadia? – ele parou para me observar, em seguida. – Ei, ouviu?! Responda piranha! – ele me esbofeteou novamente. – Sua puta! Me responde! – ele colocou a mão sobre a minha boca e meu nariz, bloqueando minha respiração. Ele queria me matar? Eu julgava que sim, e estava grata. Apesar disso, vi o rosto das crianças na minha mente, e meu pesar se tornou raiva. Arlindo queria matá-las. E ele havia matado a parte mais pura de mim. O ódio foi como um bálsamo, como um manto de trevas. Ele me cobriu enquanto a agonia da ausência de oxigênio me invadia, e então vi o rosto de um zumbi em minha cabeça. Como eles matavam todos?
Meus dentes se fecharam contra a mão de Arlindo, e eu os apertei até sentir o sangue quente inundar minha boca e escorrer pelo meu queixo. Ele urrou, e me bateu no rosto, derrubando-me novamente. Arlindo saiu de cima de mim, e se arrastou para outro canto. Virei de bruços e enfiei as unhas na terra, me arrastando na direção das casas. Em algum lugar eu perdera minha voz, e não conseguia gritar por ajuda. Arlindo voltou-se na minha direção com a faca nas mãos, e em minha mente agredida eu imaginei que ele começaria tudo de novo. O horror de tal possibilidade destravou algo em meu interior. Gritei com toda a força que meus pulmões permitiram e comecei a me debater, acertando Arlindo no estômago sem querer, quando ele se aproximou demais. Ele me olhou com um ódio homicida, e começou a puxar uma arma da parte de trás da cintura, quando ouvi passos se aproximando.
Ergui o olhar na direção de onde vinham os passos, encontrando a silhueta de Rafael emoldurada contra a noite. Ele ficou pasmo, olhando de Arlindo para mim diversas vezes. Ele sacou o revólver que mantinha consigo, mas a arma de Arlindo já estava em suas mãos. Ele atirou contra Rafael três vezes, e um dos tiros acertou o pescoço de meu amigo. O sangue espirrou em cima de mim, e acabei gritando ainda mais. Rafael caiu e rolou sobre a grama, indo parar quase ao meu lado. Arlindo se aproximou de mim e agarrou meus cabelos, me forçando a ficar de pé, apesar de toda a dor que eu sentia nos lugares mais inomináveis. Com os sons do disparo, logo Eloá surgiu, seus olhos enchendo-se de lágrimas ao encontrar o corpo de Rafael, e ao ver-me. Ela ficou com os olhos vidrados, sem saber o que fazer.
– Puxa alguma arma e eu te mato também. Além de matar essa vadia aqui. Eu já comi mesmo, não faria falta. – prometeu ele, me sacudindo. Minhas lágrimas provaram que ainda estavam ali, e brotaram novamente.
– Mata ele, El. – pedi. Contudo, ela jogou a arma para baixo, na nossa direção.
– Muito bom. Você, pega a arma. – agarrei o objeto, até me lembrar de que não sabia atirar. Arlindo riu ao perceber o mesmo, e estendeu a mão. Entreguei o objeto, e ele acenou na direção do que havia sobrado das minhas roupas. – Se veste. Ou tenta. – humilhada e desesperada, vesti minha blusa, que cobriu meus seios apesar de não ter mais botões. Vesti minha calcinha novamente, e abracei a mim mesma, depois de ver sangue entre minhas pernas. Fios vermelhos desciam até minhas canelas, quando me voltei na direção de Arlindo. Como eu queria ver aquele desgraçado morto! Ao invés disso, fiquei quieta quando ele agarrou meu braço, sob o olhar estático de Eloá, que havia corrido para tentar ajudar Rafael. Ela chorava com o rosto afundado em seu peito. – Você pode ficar se despedindo. Eu e a ruiva vamos passear. – ele disse.
Subimos a ladeira, e cada passo provocava pontadas em meu interior. Eu estava ferida. Era horrível caminhar do lado de fora totalmente exposta daquele jeito. Meu crucifixo havia enregelado contra minha pele, e estava quase ardendo. Eu por outro lado, estava pelando quase num estado febril. Aproximamos-nos da fogueira, e Tânia havia despertado, com os cabelos bagunçados e a cara amassada. Parecia a Queen Latifah depois do Apocalipse. Ela me olhou espantada, até que seu olhar alcançou minhas pernas.
– Céus! O que houve? – ainda chorando, permaneci calada, e Arlindo apontou a arma na direção dela.
– Quieta Tânia. Se você quiser dar uma de engraçadinha, vai morrer também. – ameaçou Arlindo.
– Quem morreu? – ela indagou, espantada. – Achei que os tiros fossem contra os zumbis!
– Matei aquele otário do Rafael. – o grito de Eloá rompeu o ar, seguido do som de algo estalando. Então percebi que Rafael havia morrido, e provavelmente retornado. Ela havia sido obrigada a quebrar o pescoço do próprio namorado. Meu ódio contra Arlindo só aumentou.
Logo o som de passos nos alcançou, enquanto Arlindo aguardava a aproximação dos outros. Ricardo surgiu sem camisa, enquanto Hugo corria ao seu lado, descalço e com marcas de chupão no pescoço. Madeline também havia acordado, e estava com as crianças presas à cintura, se aproximando a passos largos. Carolina e Luca saíram da casa que dividiam, alarmados por todo o barulho. Todos estacaram ao verem-me naquele estado, com a arma de Arlindo contra o pescoço. Senti-me um pedaço de carne exposto, às moscas. O rosto de Ricardo foi obscurecido por uma sombra, e ele empurrou Hugo para trás de si, protetoramente.
– Mãe, leve as crianças de volta para dentro. – Ele recomendou.
– Nem fodendo. – volveu Arlindo, rindo. – Quem manda aqui agora sou eu. Me dá as chaves da Enfermaria e do Depósito. Ou vai ter resto de ruiva espalhado pelo chão todo. Igualzinho ao que rolou com o tal de Rafael.
– Rafa está morto? – sussurrou Carolina, chocada.
– Está gostosinha. A boazuda daquela Eloá está lá perto do rio. Tudo porque a vadiazinha aqui não ficou de bico calado. Ninguém precisava morrer, a culpa é dela. – garantiu Arlindo, aumentando o aperto em meus cabelos.
– Larga ela, rapaz. – pediu Madeline. – Você está com a arma. Ninguém aqui é idiota de tentar algo. – ela falou, lançando um olhar para Ricardo que evidenciava que aquilo era uma recomendação velada para ele. – Vamos te entregar tudo, é só ficar calmo.
– Você é esperta velha, gostei de você. Pega as chaves do seu filho, e desarma todo mundo. Eu e minha gracinha aqui vamos ficar esperando. – mandou ele. Madeline suspirou, e tirou a arma de Ricardo da cintura. Depois, pegou a faca de Hugo, e a arma de Luca. Carolina disse que não estava segurando nada, e Arlindo obrigou Madeline a revistá-la. Quando tudo foi resolvido, ele liberou Carol e pegou as chaves e as armas em seguida. Madeline se aproximou de mim, incerta, e Arlindo sorriu antes de me atirar contra ela.
Maddie quase se desequilibrou, tentando me amparar. Suas mãos suaves de mãe me tranquilizaram, e eu afundei em seu abraço, chorando profusamente. Ela acariciou meus cabelos protetoramente. Ouvi Arlindo se mover ao redor da fogueira, e Tânia se afastou dele, vindo até mim. Ela me fez soltar Madeline, e começou a me examinar, chorando ao perceber o que havia acontecido. Hugo fitava Arlindo com ódio, e Carolina também estava chorando.
– Está olhando o quê, veadinho? – indagou Arlindo, apontando a arma para Hugo. Ricardo se interpôs entre ele e a arma, e Madeline paralisou.
– Chega, por favor. – pediu Tânia, num fio de voz.
– Muito bem. Você, o veado que fica por cima: Vem comigo e me ajuda a trancar o Depósito. O único a entrar lá vou ser eu, a partir de agora. O resto pode dormir, menos a bichinha. Se seu namorado tentar alguma coisa, vai ser um prazer me divertir com você. – disse Arlindo, segurando Hugo. Ele caminhou na direção do Depósito com Hugo e Ricardo, desaparecendo de vista.
– Eles vão ficar bem. – disse Luca.
– Seu covarde. – totalmente desgrenhada e suja de terra, lama e sangue, Eloá estava transtornada. – Ficou olhando aquele maldito ameaçando todos os seus amigos, e ficou quieto com medo dele se voltar contra você. Porque no final, tudo se resume a você, né? Deixou a Victoria pra morrer, eu devia saber que a gente não seria nada pra você! – ela já estava em cima de Luca antes que alguém pudesse fazer alguma coisa. Socando o peito dele, ela chorava e grunhia ao mesmo tempo. Carolina fez menção de afastá-la, mas Madeline a impediu com um simples olhar.
– Eu não sou culpado por nada disso. – defendeu-se Luca, falando calmamente. – Mas entendo o que você está sentindo. Está tudo bem. – Eloá finalmente parou de bater nele, e se afastou.
– Não vale a pena. – ela disse, antes de correr na direção de sua casa.
Amparada por Tânia e Madeline, fui levada até o interior da minha casa. Dino e Vilma nos acompanhavam de perto. Luca e Carolina haviam ido para sua própria moradia, junto com Eloá. Senti a água que vinha do chuveiro lavar de mim a vergonha e o medo. Quando o sabão alcançou minha vagina, senti um pouco de dor, mas a sensação de alívio era maior. Tânia esfregou meus cabelos, tirando a terra e a lama. Quando me senti apresentável (na verdade, quando elas acharam que estava bom, saí do chuveiro e vesti um pijama de moletom cinza). Tânia me cobriu com um edredom e me acomodou na cama. Logo, Madeline me entregou um comprimido, que eu tomei sem questionar.
– Por que a Nanda estava só de calcinha lá fora? – ouvi Dino perguntar para Tânia, enquanto ela tentava fazê-lo dormir.
– Porque obrigaram ela a tirar o resto da roupa, idiota. – rebateu Vilma, cutucando o irmão.
– Ora, não seja metida Vilma! Você não sabe de nada! – acabei sentindo vontade de rir, antes do remédio que eu tomara fizesse efeito e me trouxesse uma sonolência quase arrebatadora. Madeline conseguiu silenciar os gêmeos, e logo voltou para o meu lado.
– Espero que Ricardo e Hugo fiquem bem. – ela desabafou. Tânia também entrou no cômodo, e segurou a mão de Maddie.
– Eles ficarão querida. Ricardo não fará nada estúpido com a vida de Hugo em risco, e vice-versa. Deixa nas mãos de Deus. Temos que pensar em como nos livrar de Arlindo. – sugeriu ansiosa.
– Eu não me preocuparia com isso. – respondeu Madeline, com um sorriso.
– Por que não? – fui eu quem perguntou sonolenta.
– Porque os outros vão chegar. Não existe a mínima chance de Arlindo escapar dessa vivo. Estou com minha alma tranquila. – e então, a minha também estava. A tensão deixou meu corpo aos poucos, e finalmente pude dormir, sem me concentrar no amanhã, mesmo que ele me assustasse profundamente.
Eu tinha fé de que Arlindo seria morto, e ficaríamos livres daquele jugo cruel. Mas, e se ao invés disso, ele matasse mais alguém?
Notas finais
Um novo capítulo vem em breve, sem spoilers dessa vez, haha!
Kisses by DroppingPieces.
Fale com o autor