Quebranto.

14 O terceiro Cavaleiro é a Peste.


Notas iniciais
Olá a todos! Muito obrigado a todos que estão acompanhando a fic, mesmo que em silêncio. É muito importante poder contar com vocês. Obrigado mesmo. Esse capítulo foi especialmente cansativo, e como comemoração do feriado de São Jorge, teremos dois deles hoje, com muita açã e acontecimentos importantíssimos. Que todos vocês se deleitem... Em quebranto, é claro...

Boa leitura!

– Você está bem? – perguntei à Carol, enquanto esperávamos os outros para o jantar. Ela não dissera nada desde a morte de Daniela. Eu mesma ainda não conseguia acreditar que minha amiga fora capaz de tirar a vida de uma criança. É claro que tal atitude fora muito mais misericordiosa do que assassina, mas ainda assim demandava de uma frieza que eu nunca julgara que Carolina pudesse possuir.


– Não, Vicky. Não estou. Esse mundo não foi feito pra mim. Sinto que a cada dia, deixo de ser eu mesma. Você já me viu sem maquiagem, ou sem alguma piada irônica? – Carol estava sentada sobre um caixote, abraçando um de seus joelhos. Seus olhos estavam avermelhados, e os cabelos negros e lisos, emaranhados e presos num coque sem vida. – Nem me lembro da última vez que sorri. Sabe como é isso?



– Na verdade, sei sim. Por sorte, tenho amigos que me ajudam a suportar essa loucura. Sinto muito por termos brigado. Não tive a chance de me desculpar por aquele tapa. Eu estava bêbada, afinal. – me expliquei, mexendo nervosamente nos cabelos. – Eu gosto demais do Luca. Perdi a cabeça.



– Eu sei que gosta. E também te peço perdão. Não é segredo que eu sempre fui vadia, mas nunca com uma amiga. É como eu te disse. Tudo isso mexe com a cabeça da gente. E agora você sabe... Que eu também gosto dele. – naquele momento, senti meu corpo se retesar inteiro. – Não sou a pessoa certa para tê-lo, e já que estamos sendo sinceras, não vou mentir para você. Eu também o quero, e talvez seja isso que mais me dói. Porque eu o já tive, e o perdi. E ainda assim, também te amo como a uma irmã, e desejo todo santo dia esquecer que tive aquele garoto na minha vida, só pra poder te abraçar como antes... Quando você ainda confiava em mim... – confessou Carol, seus olhos revelando sentimentos há muito reprimidos. Num impulso misericordioso, a abracei com toda a delicadeza, e ela deitou a cabeça em meu ombro. – O que aconteceu com a gente, Vicky? Agora você só quer saber da Nanda... – não aguentei segurar o riso. Quase podia vislumbrar minha amiga outra vez. A ciumenta, cômica e debochada Carol. Como ela era incrível! Perceber que nossa amizade havia surgido por causa do Luca, me fez perceber que eu não poderia deixar que ela acabasse também por causa dele. E se era uma competição saudável que ela queria por mim tudo bem. Eu teria minhas cartas na manga.



Levei um susto quando ouvi o pessoal se aproximando. Otávio e Ricardo traziam canivetes presos na cintura. Imaginei que depois do acidente com Lucíola, todos quisessem garantir que não precisariam rasgar a mão com um pedaço de vidro, como eu. Ao lado deles, vinha Tiago com outros utensílios de caça. Facas, sinalizadores e até um martelo caseiro. Eles pararam bem próximos a nós, notando o abraço que eu e Carol dividíamos. Otto ergueu uma sobrancelha, com um sorriso malicioso. Nós duas reviramos os olhos, e nos levantamos. Enquanto eu pegava uma das facas de caça e prendia sua bainha à coxa, notei que Ana estava chegando com as crianças e Fernanda. Os corpos de Lucíola e Daniela haviam sido deixados na parte mais distante da barricada, e por uma decisão conjunta, ninguém tinha acompanhado o cortejo. Apenas os meninos haviam ido até o fim com aquilo.



– Eu não sei se vocês notaram, mas a Luci morreu de causa natural. – começou Otto, sempre inconveniente. Meu rosto deve ter se transfigurado num recado implícito para que ele calasse a boca. Não adiantou. – Quer dizer, não foi mordida nem picada por um daqueles insetos. Então isso deve significar que se qualquer um de nós abotoarmos o paletó de madeira...



– Voltaremos com zumbis. – completou Ricardo. – É. Estamos todos infectados.



– E isso muda o quê? Morrer continua tão ruim quanto antes. Agora só estamos mais preparados. – contrapôs Ana. – Não é motivo para desespero. Já enfrentamos coisa demais para desanimar agora.



– Saibam que eu concordo. O pessoal deve estar enfrentando dificuldades lá fora. Vamos fazer o possível para ajudar o Ricardo a preservar o acampamento, até que voltem. – propôs Nanda, sorrindo.



– Eu ainda acho que foi burrice mandar nossos melhores lutadores lá para fora. – resmungou Tiago. Seu mau-humor era constante, mas ultimamente ele vinha me irritando de uma forma extremamente peculiar. – Diogo devia ter ficado, ou o Luca.



– Certamente você deve achar que nós não somos o suficiente para proteger seu lindo traseiro branco, não é? – provoquei. – Escuta aqui, eu quase tive minha mão fatiada matando um zumbi, e ainda assim consegui mata-lo. Carol tirou a vida de uma menina de seis anos. Otto ajudou a me manter viva até aqui, e Ricardo tem tantos músculos quanto neurônios. Agora, se você acha que isso é pouco, talvez o problema esteja na sua coragem, que é pequena demais.


– Sabe garota, você tá me enchendo o saco. Fica aí posando de boasuda, mas o único motivo pra estar viva é porque deu sorte. Não é tão diferente de mim assim. Pelo menos eu admito quem eu sou. – rebateu Tiago, retirando-se da mesa de jantar com um potinho de arroz.


– Bem, melhor a gente comer antes que esfrie. – amenizou Fernanda, começando a servir a todos.



Nossa “refeição” resumiu-se a arroz e água do lago. Nossa maior sorte era que tínhamos este estoque de água potável, sem mencionar os peixes que vez ou outra, Rafael e Eloá apanhavam. Desde a morte de Ulisses, ninguém pescara novamente, mas ainda era uma hipótese a ser considerada. Fitando as pessoas ao meu redor, pensei que tudo poderia ser tornar pó em poucos segundos. Sete pessoas reunidas em torno de uma mesa, que poderiam estar mortas a qualquer momento. Só tínhamos os momentos, o agora. Era triste, mas curiosamente libertador. E perigoso. Pensar que se poderia fazer o que fosse preciso para manter-se vivo, acreditar que aproveitar os momentos era só o que importava, poderia ser na verdade, um risco para a humanidade de qualquer um. Meus devaneios filosóficos foram interrompidos pela dor na minha mão. Com a ponta dos meus dedos, toquei a tala improvisada por Ricardo, que começava a avermelhar, com meu sangue. Por recomendação de nosso médico-dentista, estava tomando alguns anti-inflamatórios para evitar uma infecção, mas segundo Rico (apelido que Carol colocara em Ricardo) o mais correto seria que ele pudesse costurar o ferimento. Eu me neguei, veementemente. Odiava agulhas ainda mais do que as odeio hoje. Naquela noite, todos mantinham um silêncio respeitoso e cheio de significado. Perguntava-me quem seria o próximo a nos deixar, e sinceramente, estava cheia de tantas mortes. Por Deus, eu mal conseguia me despedir de um conhecido, e outro morria. Eu não podia nem imaginar o que faria se um dos meus amigos fosse morto. E com o passar do tempo, e a convivência cada vez mais profunda, mesmo aqueles que eu conhecera no acampamento do Trocado eram considerados membros de uma mesma família infeliz. Mas ainda assim, uma família.


Naquela noite, dormi sem pesadelos. Coisa raríssima, considerando que Luca não estava ao meu lado. Otto viera me fazer companhia, mas preferira se embolar em edredons ao pé de minha cama, para evitar meus chutes e gemidos noturnos. Dormir com ele não era algo incomum para mim, mas já não fazíamos aquilo há muito tempo. Pelo menos, desde antes das coisas ficarem loucas. Conhecendo-o desde sempre, éramos grudados como irmãos, e nos tratávamos com a indiferença e implicância típica de primos. Era assim, inclusive, que nossos pais sempre nos haviam incentivado a agir. Sendo muito amigos, havia sido forjada com seus filhos, uma aliança que tornava as duas famílias uma só. Infelizmente, nunca mais nos reuniríamos todos numa tarde de domingo. Dessa época, eu só podia esperar lembranças. Mais uma vez, lembrar-me do passado fizera com que imaginasse o paradeiro de meus pais. Mesmo sendo um empresário engomadinho, meu pai era treinado em tiro, e era um homem de palavra. Se ele pretendia me encontrar, certamente faria o possível para atingir seu objetivo. Também era frio o bastante para tomar as decisões necessárias para manterem a ele e minha família a salvo. Eu só queria ter estado com Silvia mais uma vez, antes que minha babá morresse. Mesmo assim, eu agradecia por ela ter morrido antes que o vírus começasse a trazer os mortos de volta.

O dia seguinte foi monótono. Ao menos, pude finalmente retomar minhas tarefas. Com a mão ferida, me ative a ditar as anotações do estoque para Fernanda, que as anotava com sobriedade e humor invejáveis. Eu me sentia um pouco sonolenta, por causa dos remédios, mas também estava preocupada. Minha mente buscava por Luca a cada minuto, e eu me odiava ainda mais quando pensava nele, por que nunca pensava apenas nele. Diogo era como um assombro em meus pensamentos mais ocultos. Como o eco de uma história ouvida, e recordada. Em pânico, senti meus ombros formigarem onde ele apertara, quando me encontrara assustada e suja de sangue, após o ataque dos insetos. À tarde, tive meu curativo trocado, e limpo por Ricardo. Estava bem feio, mas consideravelmente melhor. Ele notou que havia amarrado a tala errado, e acertou o tecido de modo que melhor me protegesse, deixando o machucado respirar, no entanto. Focar tanto em minhas mãos deixou-me horrorizada com o estado das minhas unhas. Parecia uma fotografia das unhas de meu irmão Carlos, sujas depois de uma tarde sobre um skate, uma de suas maiores paixões. Suspirando, convenci as meninas a fazermos as unhas ainda naquela noite, coisa que descontraiu a tensão constante, e a preocupação com nosso grupo de busca. Para minha surpresa, Vilma nunca usara um esmalte, e foi muito fofo quando ela me abraçou depois de ver suas unhas feitas e pintadas de cor de rosa, bem clarinho.

Pela primeira vez em muito tempo, dormi com prazer e gratidão pelo dia vivido. Meu quarto se tornara uma espécie de refúgio, e estava lotado. Inicialmente apenas com Otto, mas em seguida recebi as visitas de Ana, Nanda e Carol. Revoltado com nosso falatório, meu irmão postiço saíra do quarto pouco depois, sem conseguir dormir. Acabei adormecendo bem depois, com a cabeça grudada à de Ana, os pés sobre a barriga de Carol, e um braço sob o pescoço de Nanda. Uma bagunça. Eu não tinha como saber, mas o terceiro dia após a saída de Luca reservava para mim, fortes emoções...

Acordei com uma mão diferente acariciando meu rosto. Antes mesmo de abrir os olhos, meus lábios se curvaram num sorriso, pois reconheci o cheiro de Luca, de quando ele tomava banho. Seus dedos estavam úmidos, e um pouco mais calejados do que quando eu os tocara pela última vez. Abri meus olhos e lá estava ele, com o rosto um pouquinho mais bronzeado, e uma expressão saudosa que fez meu coração acelerar. Todos haviam se retirado do cômodo, e levei um susto com a cama vazia. De pé ao meu lado, vi seu olhar passear por todo o meu corpo. Eu vestia uma camisola de algodão, e peças íntimas, apenas. Seus dedos deslizaram até minha clavícula, e depois viajaram pelo meu braço até chegarem à minha mão ferida. Então ele se aproximou, e beijou meu ferimento. Foi tão gentil, que quase me senti uma vadia por ter pensado em Diogo. Um bruto como aquele jamais seria capaz de tal demonstração de carinho, afeto... Por que eu estava comparando? Subitamente depressiva, fiz com que ele se sentasse ao meu lado, puxando-o para um beijo. Foi faminto, e apaixonado. Sem fôlego, rimos diante de nossa urgência. Apoiando-me sobre os travesseiros, sentei-me na cama. Lembrei que ainda não havia escovado os dentes, e meu TOC tornou isso tão grave quanto os dramas do meio ambiente. Ele me olhava com um quê de desejo, e outro de receio. Pousou a mão sobre minha coxa, e acabei esquecendo-me de qualquer incômodo.


– Lamento pelo seu ferimento. Eu devia estar aqui para protegê-la. – desculpou-se Luca, emocionado. Eu não podia acreditar que ele estava chorando.



– Luca, não se sinta culpado. Eu sou capaz de me defender. – rebati. – O único motivo para este ferimento, é que não tive mais nada para usar no momento. Isso não vai acontecer de novo. Não depois das providências que Rico tomou. – contei, apontando com a cabeça para meu criado-mudo. Sobre ele, duas facas de caça descansavam. Uma preta, outra prateada.



– Mesmo assim, você não precisaria ver o que viu. Sinto muito por Lucíola... E Daniela... – desabafou. Eu acabei voltando à realidade, pois havia esquecido que ele ainda não sabia nada sobre a perda de nossas amigas.



– Fique calmo, amor. Pelo menos nada de ruim aconteceu a mais ninguém. Sinceramente, quem mais sofreu com tudo isso foi a Carol. Agradeço por ter voltado a falar com ela. Ela precisou de apoio. – relatei, comovida.



– É verdade. Ela matou Daniela. Nunca pensei que a maluca faria algo assim. Deve ter sido difícil. – considerou.



– Difícil seria deixar a menina se transformar. – volvi, com súbita compreensão. – Foi misericórdia, não assassinato.



– Fato. – concordou Luca, enquanto me ajudava a vestir minha calça jeans. As mãos dele demoraram demais na minha bunda e fiz uma careta. – Mais tarde, ok. – conteve-se ele.



– Obrigada. Preciso receber os outros. — Diogo. Droga, já estava ficando chato. Eu precisava mesmo de ar puro. Vesti um casaco longo de malha preta por cima da roupa, e fui seguida de perto por Luca enquanto caminhava até o refeitório.



Diogo estava de pé ao lado de Ricardo, gesticulando e apontando na direção da casa onde Lucíola vivera com Daniela. Provavelmente, estava culpando Rico pela perda de dois dos nossos. Não pude deixar de reparar em um ferimento em seu braço esquerdo, envolvido por uma tala. Seus cabelos estavam pingando, recém-lavados. Ele trajava calças militares, camufladas, e uma camisa cinza. Pela primeira vez enxerguei um cordão por baixo de sua blusa, uma corrente de prata com um pingente de São Jorge. Engolindo seco, abracei Luca pela cintura, e então nos aproximamos. Eloá e Rafael também estavam por perto, com o restante das pessoas. Ao me verem, vieram para perto, e os abracei. Rafa parecia ainda mais forte, se isso era possível. Eloá estava abatida, seus cabelos sem vida, e o rosto cansado. Os dois homens que antes pareciam se desentender, estavam agora calados, como que se houvessem sido trazidos de volta à realidade. Ricardo parecia envergonhado, mas Diogo estava olhando para mim. Nervosa, senti minhas mãos tremerem e uma comichão remoendo meu interior. Como eu queria abrir um buraco na terra, e me enterrar nele!



– Victoria. – cumprimentou-me, seco.



– Diogo. Fico feliz que esteja bem. – disse, sorrindo de leve. Todos estavam quietos, como se esperando algum tipo de clímax. Odiei Otto pela careta maliciosa que ele estava fazendo. Fazia quase uma semana que ele percebera sobre minha “atração” por Diogo, e desde então, não parava de observar minhas atitudes com relação a ele.



– Bem, então concordamos em algo. Será que a gente também concorda que a liderança do Ricardo é questionável? – insistiu, pegando-me de surpresa. Ricardo pareceu embaraçado, e Eloá deixou escapar um grunhido de irritação.



– Não cabe a mim, julgar. – afirmei, erguendo o rosto. – Só sei que ninguém poderia ter evitado o que aconteceu. Ninguém poderia prever a morte de Lucíola, e nem separá-la da neta em vida. Com certeza nem ela mesma achou que poderia ser um risco para a garota dessa forma. Poderia ter sido tudo muito pior. Eu e Nanda podíamos estar mortas. – não importava o quanto ele insistisse. Sua implicância com Ricardo só me demonstrava que ele não era a pessoa certa para liderar ninguém naquele mundo. Eu só agradecia mais ainda por que tínhamos alguém como Rico ao nosso lado.



– É, parece que não concorda. – então ele se virou para Ricardo. – Nossa conversa ainda não acabou. – e retirou-se sacolejando, com seu gingado torto.



Um clima pesado instaurou-se em nosso meio. Todos, principalmente Luca, pareciam desconfortáveis com o desentendimento entre mim e Diogo. Ricardo me agradecia pela lealdade com os olhos, e um sentimento de ternura pelo meu novo amigo tomou-me. Afastei-me de Luca e me aproximei da mesa do refeitório, onde algumas mochilas com comida estavam postas. Sorri ao ver que, graças aos céus, o pessoal conseguira recursos suficientes para um mês, se bem administrados. Havia também algumas roupas, e equipamentos de proteção, como capacetes de motociclistas e caneleiras de skatistas. Lamentei por não terem sido achadas nenhuma pilha ou baterias, que poderiam ser úteis para as lanternas que tínhamos estocado anteriormente. Imediatamente, ao perceberem que eu estava tentando passar por cima do assunto que pairava o ar como neblina, todos começaram a trabalhar para levar tudo à Associação de Moradores. Luca acabou indo para a barricada com Tiago e Rafael, e Otto ficou comigo e Fernanda, anotando em nosso inventário improvisado tudo o que havia sido encontrado. Para Ricardo, era uma medida necessária para controlarmos a entrada e saída de recursos. Ele não queria que ocorresse o mesmo que da vez anterior. Não queria ninguém passando fome. Sentindo-me culpada, eu me oferecera para compensar o erro anterior, dedicando-me às suas novas medidas. Meu suporte à sua liderança acabou nos aproximando, e aos poucos eu começava a ver aqueles com quem sobrevivia no cotidiano, como membros da minha família. É claro que isso só se reforçava com o medo e incerteza que nos unia, aflorando as emoções como um reality show de confinamento. Sentada à mesa principal, eu estava anotando o nome e a quantidade de todos os alimentos que Otávio e Fernanda colocavam à minha frente. Sacos de arroz, de feijão (em vários tipos), de grão-de-bico, de ervilhas, milho, açúcar, sal, enlatados, e biscoitos com conservantes. Eram muitas opções, e também era detectável o novo ânimo que os alimentos haviam trazido ao acampamento. Ninguém aguentava mais comer em porções ínfimas, e sem gosto.



– Nem acredito que eles acharam pasta de dente. E sabonete! – surpreendeu-se Nanda, ao olhar a bolsa de Eloá.



– A El achou, você quer dizer. – corrigiu-a Otto. – Aposto que os brutamontes nem lembraram que precisam limpar o rabo de vez em quando. Só ela pegou produtos de higiene.



– Nossa sorte, é que foi o suficiente. – acrescentei, apavorada com a possibilidade de abrir mão da limpeza. Não fazia tanto tempo desde que tudo começara, e eu torcia para que os produtos de limpeza ainda durassem por pelo menos alguns anos. Afinal, havia muito menos seres humanos para consumi-los. Se havia algo de bom no Apocalipse, era que tinham muito menos pessoas para consumir e depredar o meio-ambiente, e os recursos que antes deveriam atender a uma demanda muito maior. Um dia talvez fosse possível reativar as fábricas e ensinar as crianças a trabalhar novamente, mas isso era mais como uma lavagem cerebral involuntária minha, do que uma esperança, de fato. – Queria saber como eles conseguiram tudo isso.



– Parece que ficaram presos num supermercado. – contou Otto. — Pelo menos, foi o que Diogo soltou. Nenhum deles falou mais nada sobre isso. Achei meio macabro.



– É como se eles tivessem feito algo de que se envergonham, durante a busca. – observou Nanda. – Bem, que Deus me perdoe, mas não morrerei de fome pela coragem deles. Não importa o que tiveram que fazer.



– Importa sim. – discordei. – Mas não precisamos saber sobre isso. Prefiro ficar no escuro. Assim não terei problemas para dormir à noite. Agora, vocês sabem alguma coisa sobre a discussão de Diogo e Ricardo?



– Não, porque chegamos depois. Estávamos com Ana e Carol limpando a casa de Lucíola e Daniela. Tiramos tudo que havia lá. Ficou irreconhecível. Ana sugeriu reaproveitarmos o espaço, mas a Carolina pediu pra fecharmos o lugar. Fizemos isso porque somos poucos agora. Mas acho que se deixarmos de usar todo espaço em que alguém morrer, vamos ter que mudar de acampamento. – Otávio estava tagarelando sem parar. Isso geralmente acontecia quando ele sabia de algo, e estava nervoso por não poder contar. Troquei um olhar com Nanda, que estava sorrindo do comentário irônico dele. – Mas sei que a discussão tinha algo a ver com a morte da Luci e da Dani. E também com alguma coisa que aconteceu no supermercado. Pronto, falei. Eles fizeram algo que o Rico achou mal. Incluindo o Luca.



– Certo. Então é por isso que você está nervoso... – meditei em voz alta. – Eu devia ter imaginado. Ele estava muito gentil hoje de manhã, mas ficou nervoso quando encontrei Diogo. Achei que eram ciúmes, mas na verdade ele temia que eu descobrisse algo se ouvisse a conversa entre ele e Rico. – tentei disfarçar, mas perceber que Luca fora capaz de ocultar algo, mesmo que grave, de mim me fez muito mal. Era como notar que aquilo que você mais ama, pode te desapontar quando você menos precisar. Não é como se Luca tivesse feito isso a mim, mas eu sentia minha confiança quebrada, e eu era insegura demais para passar por cima de algo como isso.



– Sabe, acho que nós estamos com um estoque de bebidas bem acima do necessário. Tipo, alcóolicas. O que vamos fazer com tudo isso? – pontou Nanda, ao perceber a quantidade de garrafas de cerveja e vinho que estavam amontoadas em um canto.



– Eu sei. Uma festa. – cochichou Otto, sorrindo.



E então, como um meio de curar os ânimos, encontrei-me entre copos e garrafas, servindo os meus ávidos e potencialmente embriagados colegas. Pela primeira vez desde que tudo mudara, vi Carolina como antes. Linda, humorada, e praticamente reluzente. Estava usando um vestido preto, com botas de couro da mesma cor. Seus cabelos de ébano naturalmente lisos caíam pelo decote farto de suas costas. Todos haviam se surpreendido com sua beleza, principalmente aqueles que não a haviam conhecido antes do fim do mundo. Ela fora quem mais se abatera com o caos, e agora parecia conformar-se com ele, lutando para não submergir na própria tristeza. A noite estava um pouco mais fria do que o normal, e a única fogueira que ardia não era o suficiente para aquecer a todos. Isso fez com que ficássemos próximos uns dos outros, o que pessoalmente me fez sentir melhor. Enquanto derramava vinho no copo de Ana, notei que minhas unhas estavam cheias de sujeira. Senti que deveria reagir de alguma forma, mas meu transtorno não me abalou a ponto de suplantar minha vontade. Achei que aquilo deveria ser algo bom, e fiquei grata. Luca estava fazendo a rota com Tiago, e passou pelo refeitório. Percebi sua expressão de confusão quando ignorei sua presença. Eu simplesmente queria fazer com que ele percebesse que havia feito algo errado.



– Problemas no paraíso? – senti o calor da respiração de Diogo no meu ombro. Virei-me em sua direção, e fechei a cara.



– Não sei por que isso seria da sua conta. – rebati. Odiava o modo como ele me deixava nervosa. Eu não conseguia trata-lo com cortesia, como aos outros. Eu só havia me apaixonado por um garoto a vida toda, e a brutalidade e experiência de Diogo me instigavam tanto quanto assustavam.



– Calma loira. Não precisa engrossar. – ele ergueu as mãos, em rendição. – Ou o ruivinho fez algo bem ruim, ou é bem pior de cama do que parece!



– Ridículo. – falei, saindo de perto. Isso até ele segurar-me pelo braço. Otávio estava olhando da mesa, intrigado. Ana e Eloá pareciam prontas para se levantarem. – Solta. – mandei. – Vamos aproveitar a festa numa boa.



– Beleza. A você, gata. – provocou, brandindo a garrafa de vinho em sua mão.



Quando Diogo saiu de perto de mim, senti um alívio libertador. Conversando algumas banalidades com os outros, quase esqueci de que estava em um mundo tomado por mortos. Nanda levou Dino e Vilma para a casa que dividiam com Tiago, e fiquei com Ana, Carol e Otto na mesa. Ricardo estivera lendo perto de nós, mas sumira logo depois que as conversas ficaram mais animadas. Ali com meus amigos do colegial, senti uma onda de nostalgia, daquelas que nos atingem quando lembramos uma época em que éramos completamente diferentes do que somos no presente. Foi como se o fim do ensino médio tivesse ocorrido há anos, e não meses. Ana parecia reservada e solitária sem seu tablet, e ainda sofria pela morte de Antônia, sua irmã. Onde eu olhava, via objetos ou lembrava momentos em que o acampamento ainda estava cheio. Era quase como morar numa cripta.



– Que saudade dos meus seriados... – comentou Otto, tristonho. – É triste pensar que nunca vou ver novas temporadas. E que a maioria dos atores morreu.



– Eu sinto falta das minhas novelas. E das festas à noite, claro. – Carol colocou uma mecha de cabelos atrás da orelha.



– Preciso ir ao banheiro. – disse.



A verdade era que eu estava me sentindo estranhamente tonta, e queria respirar ar fresco, sem preocupar ninguém com meus problemas. Sem saber se era minha alimentação ou algum tipo de doença, fiquei com medo de estar em perigo. A casa mais próxima do refeitório era a das crianças, e sorrateira, entrei no local. Era tudo muito simples, uma mistura de móveis e tapetes encontrados nas outras casas, mas ainda assim aconchegante. O banheiro tinha azulejos brancos no chão, e verdes nas paredes. Abri a torneira no lavatório e enxaguei o rosto. Respirei fundo por uma vez ou duas, e me decidi por voltar para junto dos outros. Sentindo o cheiro do perfume que Thiago usava sempre, me aproximei da porta. Eu até me juntaria aos outros, mas não naquela noite. Ajeitando a tala no ferimento da minha mão, saí da casa das crianças, e girei a maçaneta. Esfreguei meus braços com o súbito frio que me envolveu, e quase tropecei quando dei de cara com Tiago. Ele estava com o olho esbugalhado, claramente assustado por me encontrar por ali. Por um momento de confusão, não percebi o motivo de seu alarme, até que vi o modo como ele segurava seu antebraço. Um sangramento profuso se estabelecia ali, e ele parecia nervoso. Lembrei-me de que ele e Luca estavam na vigília das barricadas, e que aquela ferida só poderia significar uma coisa. De alguma forma, Tiago fora mordido. O que ele estava fazendo ali, também era fácil de perceber. Com certeza tentava esconder seu ferimento, contendo o sangue e ocultando a ferida com as roupas. Boquiaberta, recuei para dentro da casa, enquanto ele caminhou na minha direção. Uma sombra perpassou seu rosto quando ele ultrapassou a soleira da porta. A fúria em seus olhos era intimidadora e incompreensível. Ou melhor, nem tão incompreensível assim. Eu sabia que ele pretendia me silenciar. De uma maneira, ou de outra.



– O que houve com seu braço? – exigi saber, nervosa. Eu precisava verificar se ele me diria, ou tentaria negar.



– Acho que você sabe Victoria. – resmungou. – Não conte aos outros.



– Você sabe que eu não posso fazer isso...


– MAS VAI FAZER! – naquele momento, Tiago agarrou o meu braço, e o torceu. Minha mão já estava ferida, e a pressão se espalhou por todo meu membro, fazendo com que ela doesse mais ainda. Por isso, acabei me contorcendo ante seu aperto, ficando bem próxima de seu rosto. Seus olhos, já afetados pela febre, eram o espelho de um louco. – Você não vai me entregar, loira. Eu preciso cuidar dos meus irmãos até o fim. Já tô morto mesmo, então não vejo problema em levar alguém comigo, sacou? – fiz que sim, coma cabeça. – Ótimo. Você vai me ajudar a limpar isso, e depois vamos ver os outros.


– Tiago... – sussurrei. – Quem está cuidando da barricada? E como foi que isso te aconteceu?



– Eu fui mordido por um cachorro, acredita? Ele subiu o morro sem a menor dificuldade, e me atacou. Claro que matei o filho da puta, mas ele parecia bem mais forte do que o normal, por causa do vírus. Num momento eu tava sozinho, noutro tinha um monte de pelo amarelado em cima de mim, e... – interrompi Tiago, colocando a mão em sua boca. Ao longe, pude distinguir claramente o uivo não de um cão solitário, mas de uma matilha.



– Tiago! Você não matou um cachorro! Você matou um cachorro-do-mato! Eles andam em bando, seu imbecil! Matando um deles, desafiou os outros! Responda quem diabos estão na barricada! – gritei, apavorada. Meu coração já estava acelerando, de novo.



– Merda... Merda! O Luca e o Diogo estão lá. – “Deus, não!”, eu nunca me perdoaria se não fizesse algo para ajudá-los.



– Temos que ir até eles! – pedi. – Se você quer mesmo proteger seus irmãos, use a vida que ainda lhe resta para guarda-los! É o mínimo que pode fazer! – era cruel brincar com as emoções de um moribundo, mas o mundo deixara de ser gentil há meses.



– Tudo bem, vamos lá. – enquanto corríamos porta afora na direção do refeitório, era possível avistar os vultos caninos que pulavam a cerca de carros e objetos. Seus corpos largos e fortes abriam espaço entre as barreiras para alguns poucos errantes que, com corpos menos deteriorados, haviam conseguido subir até ali. Mesmo registrando tamanho pavor, minha mente estava concentrada nas pessoas que eu amava. Correndo um pouco atrás de mim, Tiago ofegava e gemia seus ossos doendo com o esforço. De fato, eu podia ver os rostos de Vilma e Dino no dele. Emocionada, prendi o choro pensando no que as crianças teriam de suportar. Isso considerando que algum de nós sobrevivesse. Mais uma vez, éramos forçados a confrontar os novos filhos do mundo. Demônios violentos, muito mais letais do que outrora. Como poderíamos sobreviver a tanto horror?


Notas finais
Beeeem, esse final foi particularmente tenso. Espero que todos estejam ansiosos para o próximo capítulo, e corram para lê-lo. Depoooois de deixar uma review, claro! :B

Até já, e espero que estejam gostando desse Apocalipse!

Dropping.