Quebranto.
98 O quinto pecado é a Ira.
Notas iniciais
Victoria.
Antes que eu abrisse os olhos, senti as mãos dele deslizando pelo meu corpo. Seus lábios estavam úmidos, e um arrepio intenso espalhou-se por meus poros. Cada centímetro da minha pele parecia gemer baixinho diante daquele carinho tão reverente. Era como ouvir os sinos de uma igreja badalando. Meu corpo era um templo para ele, e Diogo, um fiel devotado. Beijando meu pescoço com gentileza, ele subiu suas carícias através das minhas coxas, tomando meu ventre entre seus dedos. Meus seios pareciam prestes a doer, ambos rígidos e sedentos, diante do aperto firme de sua palma. Encostando-se a mim com firmeza, ele permitiu que eu sentisse o fogo ardente de sua excitação. Respondendo a ele, movi minhas nádegas como uma serpente, gostando da fricção intensa entre nós. Eu ainda estava de olhos fechados, mas o gemido baixo de Diogo arrancou uma pequena risada dos meus lábios. Impetuosa e cheia de desejo, senti uma necessidade quase assustadora. Não era fácil perceber certas coisas, numa relação duradoura. Mas, diante de todo aquele êxtase, percebi quanta falta tê-lo junto a mim me fazia. Eu não poderia estar com outra pessoa. E o mantivera afastado, lutando com minha própria insegurança e medos, sem perceber que meu maior aliado estava ali para mim. Desperdiçara meu maior recurso, mantendo-o longe do jogo. No banco de reservas. Que outras partes de mim eu rejeitara depois da Fortaleza? O tremor abaixo da minha cintura indicou que a reflexão pessoal deveria ser retomada em outra hora. Enlaçando uma das minhas pernas sobre Diogo, montei em seus quadris, surpreendendo-o.
Sorri de maneira carinhosa, com parte do meu cabelo cobrindo meu rosto. Ele estava com uma calça preta, mas sem camisa. Seus cabelos estavam molhados, o que significava que ele já devia ter acordado há um bom tempo. Provavelmente, eu perdera a hora outra vez e ele estava só tentando me despertar de maneira que eu não ficasse mal humorada. Bem, agora era eu quem queria despertá-lo. Meu namorado jamais reclamaria, ou faria objeções a uma oportunidade de transar. Essa era a verdade. Mas eu o mantivera distante por um longo tempo, e desde o ocorrido com Dimitri, as coisas não haviam sido as mesmas. No entanto, enquanto eu inclinava-me sobre ele, Diogo pousou suas mãos sobre minha camisola de cetim. Ele a ergueu, tocando-me intimamente sobre a calcinha. Um esgar de surpresa formou-se em meus lábios, e minhas pernas arquearam. Pousei a testa em seu peito, mas ele não parou de se mover. Ao invés disso, agarrou uma tira da pequena peça de roupa, e a rasgou como se fosse nada. Removendo o obstáculo, Diogo abriu seu zíper e me tomou. Ele foi rápido, e seus movimentos eram deliciosamente impiedosos. Mordi meus lábios e os cobri com as mãos, para abafar o grito que crescia em meu interior. Os gêmeos poderiam ouvir, e eles já tinham muitos traumas com que lidar sem minha ajuda. A cada novo movimento, meu corpo sentia-se menos meu. A cada toque, era como ser desfeita e realocada em um novo molde. Eu era uma escultura pós-moderna. E Diogo tinha o coração de um artista. Meus cabelos vibravam no ritmo dele, e os fios se desalinhavam em contato com meu suor. Com o nosso suor. Nossas peles colavam-se, e a temperatura parecia subir numa crescente sem declínio anunciado. Espalmando meus dedos sobre ele, arranhei levemente enquanto erguia-me e inclinava-me para trás.
Algo pareceu exultar em meu interior, e reconheci as feições de uma velha amiga. O sorriso dela uniu-se ao meu, e ambas nos curvamos àquela louca paixão matinal. Com movimentos dignos de uma dançarina, Nora jogou meus cabelos para o lado, e assumiu o controle da situação. Ela tirou as mãos de Diogo da minha cintura, e as prendeu sobre cabeça dele. Travando os movimentos dele com um aperto de suas coxas, ela o dominou com precisão sobrenatural. Comprimindo-o dentro de mim, e relaxando-o apenas ao seu bel prazer, Nora fez com que Diogo chegasse ao seu limite de maneira devastadora. Toda a sua constituição parecia convulsionar, enquanto ele fechava os olhos com força, passando as mãos pelo rosto e pelos cabelos molhados.
– Meu Deus, Vicky! Uau! — Ele não parecia acreditar. Em seu rosto, uma expressão que eu amava desde nossa primeira vez. Adoração. — Você acordou diferente, hoje!
– A culpa é sua. Você desperta os demônios em mim. — Provoquei, segurando o riso ao pensar em Nora. Desde que eu aprendera a abraçá-la como parte de mim, ela se mostrara muito útil. — Bom dia, amor.
– Você nem imagina o quão bom ele está sendo! — Seu sorriso safado era digno de uma moldura. Revirei os olhos, e tombei para o meu lado da cama, totalmente lânguida. — Acho até que poderíamos começar uma segunda rodada no chuveiro, o que acha?
– Acho que você devia pedir pra Manuela te mostrar a definição de ninfomania, no dicionário dos arquivos. — Zombei, rindo. Diogo também começou a rir, e percebi que há muito tempo não tínhamos um momento só nosso. Nossa relação se tornara monótona e fria, quase automática e robótica. E a culpa era toda minha. Culpa, luto, medo, responsabilidades, todas essas coisas não tinham o direito de destruir momentos como aquele. — Me perdoe por te afastar de mim, Di. Por mais que você tivesse me perdoado pelo que aconteceu, acho que eu precisei de muito mais tempo. Mas o passado não desaparece só porque o ignoramos. E acho que antes que a gente se arrisque mais uma vez, com o plano de hoje, você deveria saber que eu te amo. De verdade. Sei que não digo muito, mas é que... — Sua língua invadiu a minha boca, e nem me importei por não ter escovado os dentes ainda, apesar de achar nojento. De qualquer forma, creme dental e escova eram duas coisas que eu considerara dispensáveis enquanto estava em Búzios, atrás de um saco de arroz ou feijão que pudesse encontrar num mercadinho abandonado.
– Eu também te amo. Até meu último suspiro. Não vai se livrar de mim enquanto eu respirar, Victoria. — Não gostei do tom que ele usou. Pareceu uma despedida, e aquilo me lembrou de Rico. E de Ana. Eu odiava quando alguém usava aquele tom comigo. O tom de sei que vou bater as botas em breve.
– Se você fizer essa voz de gato molhado de novo, te mato. — Avisei, beijando-o de leve. — Se você morrer, eu morro. Então isso não é uma opção para nós. E sim, eu adoraria começar uma segunda rodada com você, mas os gêmeos precisam ir para a escola.
Apesar dos protestos (e das tentativas) de Diogo, consegui fazer com que ele esperasse do lado de fora do banheiro enquanto eu tomava banho. Devidamente uniformizada e imensamente satisfeita comigo mesma, encontrei as crianças já arrumadas do lado de fora, na sala. Eles pareciam completamente dispostos naquele dia, ainda que não fizessem ideia do que estávamos planejando. Dei um beijo no topo da cabeça de Dino, e na bochecha de Vilma. Fui pega de surpresa, e levei um susto quando os dois me abraçaram ao mesmo tempo. Uma sensação estranha no meu peito fez com que eu me sentisse cheia de uma alegria quente e animada, como se eu estivesse estimulada a ser cada vez mais protetora com relação a eles. Era mais ou menos o mesmo que eu sentia com relação a Carlos, antes de tudo. Agora que ele dividia o dormitório com papai e Faye, tudo era diferente. Pelo longo tempo em que estivéramos separados, ele crescera e mudara de personalidade. Era agora um rapaz bonito e bem sorridente. Mas comigo ele parecia ter algum tipo de barreira. Não sabia a razão daquilo, mas imaginei que se pudéssemos resolver os problemas mais urgentes naquele lugar, talvez eu conseguisse compreender melhor quem o novo Carlos era. E talvez meu irmão pudesse me conhecer melhor, também.
– Crianças, queria pedir um favor importante a vocês. — Dino e Vilma passaram a me fitar com outra expressão. A de alerta. — Não posso entrar em detalhes porque prometi aos outros que protegeria vocês. — Vilma concordou, mas Dino logo emburrou a cara. — Eu sei que é chato. Mas preciso muito que vocês confiem em mim. Não se preocupem.
– Tudo bem, Vicky. Nem sei por que você dá bola pro Dino. — Vilma cruzou os braços, ignorando a careta que o irmão fez. — O quer que a gente faça?
– Preciso que vocês inventem uma razão para manter as crianças mais velhas na Escola. Sei que vocês não são obrigados a verem o filme que a Cecília vai exibir com a Helga. Mas tente dar uma aula com facas, qualquer coisa. Mantenham os mais velhos na Escola, caso aconteça alguma coisa. Podem manter o Carlos a salvo, por mim? — implorei, olhando nos olhos deles.
– Você me deixou preocupada. — Vilma tocou na minha mão. — Ok.
– É Vicky, pode contar com a gente. Hoje vamos passar o dia naquela chatice. Ninguém sai de lá até que você libere. — Prometeu-me Dino, rindo de leve. Os abracei outra vez, e me virei a tempo de ver Diogo nos observando da porta, sorrindo. Tendo uma ideia repentina, fiz sinal para que ele se juntasse a nós, mas Di hesitou. Então os gêmeos se entreolharam e começaram a rir. Ele se deu por vencido, no fim. Em um abraço coletivo, não pude deixar de fazer a comparação em minha mente. Eu, papai, Carlos, e mamãe. Era como um déjà vu. Quase senti o perfume de lavanda da minha antiga casa. Senti falta da decoração em mármore branco e do meu quarto. Eu sempre o mantivera tão limpo, em minhas crises compulsivas. Durante o ensino fundamental cheguei a ferir os dedos com os produtos de limpeza, que eu insistia em usar apesar de tudo ser mantido tão limpo pelos empregados. Eu sentia falta da babá que me criara, a mulher que me mantivera segura quando meus pais não estavam por perto. Pela primeira vez desde que eu entrara na Fortaleza, senti vontade de chorar. Não sabia se de alegria ou tristeza. — O que foi, Vicky? Está chorando?
– Não é nada, gente. É que pela primeira vez em muito tempo, estou sentindo saudade da minha família. Quer dizer, no início pensei que estavam todos mortos. E fiquei de luto. Mas não chorei ao descobrir que minha mãe estava mesmo morta. Porque estava grata por ver meu pai e irmão vivos. — Diogo tomou uma de minhas mãos, apertando-a gentilmente. — Quer dizer, a Faye é ótima, mas não é a mesma coisa. Fico contente por meu pai estar com ela. Alguém confiável, e capaz de fazê-lo feliz.
– A japa é gente boa, mesmo. — Diogo riu torto, secando as lágrimas em meus olhos. — Mas precisamos ir até o Diretório. Seu pai esteve aqui mais cedo, e disse que a Silvia queria falar com a gente.
– Eu já fico até com medo, quando a Silvia pede alguma coisa. — Bufei, amarrando os cabelos num rabo de cavalo bem alto. — Tudo bem, vamos indo.
No corredor entre os nossos quartos, não éramos os únicos deixando os dormitórios. Otto e Cecília também pareciam arrumados para as respectivas funções, mas meu melhor amigo sequer olhou-me nos olhos direito. Ele estava perturbado com a gravidez da namorada, e provavelmente ofendido comigo e com Carol, por apoiarmos a ela e não a ele. Céus, obviamente eu o apoiaria se estivéssemos em uma situação normal. No caso, todos os Nove eram suspeitos, e ele podia muito bem estar trabalhando para as responsáveis pela morte de Rico. Mesmo que a servidão dele fosse boa para manter nosso disfarce, se ele abrisse a boca estragaria tudo. É claro que Otto não faria isso, ainda que não concordasse com nada. Mas era estranho organizar todo aquele plano, sem a ajuda dele. Ainda mais depois de termos perdido a Ana. Sentia falta das nossas conversas, e principalmente dos tempos em que tudo era mais simples. Quase incomodada com o som dos meus próprios saltos, sorri ao sentir o braço de Cecília enlaçar o meu.
– Já conversei com Francine e Helga, hoje bem mais cedo. Elas sabem do plano, e concordaram em ajudar na hora. Elas vão manter as crianças na Escola até bem tarde, hoje. Nanda me avisou que Tânia voltou a trabalhar hoje, e que vai ajudar a manter a equipe do Ho spital em alerta, também. — Ela parecia nervosa, mas animada. — Só espero que a Manuela consiga o cartão de acesso ao Corredor dos Nove.
– Ela vai. — Garanti, ainda que isso não estivesse em meu poder. — Manu tem uma força de vontade assustadora. Agnes sequer vai perceber que foi roubada.
– Tomara. — Alcançamos o saguão de entrada. Dava para ver nossa amiga na bancada dos Organizadores. Cecília acenou para ela. — Bom, eu vou indo, Vicky! Até mais tarde. Espero que dê tudo certo.
Concordei em silêncio, observando os gêmeos que caminhavam à minha frente, com Diogo. Despedi-me deles rapidamente, mas com bastante carinho. Carlos também me deu um beijo no rosto, quando veio buscar Vilma para a aula. Meu pai ficou ao meu lado, enquanto ele se afastava. Um de seus braços cobriu meus ombros, e ele suspirou ao ver meu irmãozinho se afastando. Estávamos bem perto do Pátio Central, e não foi difícil de encontrar Carol e Arantes, parados ao lado de Abel e Guilherme. Diogo indicou os quatro com um gesto, e meu pai pegou minha mão enquanto andávamos para perto deles. Carol sorriu quando me viu, e cruzou os braços. Parecia que estava esperando uma resposta de nossos colegas sentinelas.
– Acho que vocês já devem estar cientes do que pretendemos fazer hoje. — Meu pai encarou Abel e Guilherme, com uma expressão amistosa. — Pode ser uma chance. Vão nos ajudar?
– Não sei não, Allan. É muito arriscado. Além disso, não gostei nada de saber que vocês meteram a Manuela nessa história. — Repreendeu-me Guilherme, fitando-me com severidade. -Devia ser mais cautelosa com a segurança da sua família, Vicky. Já que você insiste em dizer que vocês são um grupo à parte do restante de nós.
– Não é verdade. Nunca agi como se fôssemos um grupo fechado, porque somos uma família. Manuela não foi induzida a nada. Ela é quem deseja solucionar isso pela segurança de todos nós. Ela está empenhada em trazer justiça aos culpados pela morte de Valentina, e de Ricardo. E nós somos os sentinelas. Não devia ser este o nosso serviço? — Objetei, cruzando os braços. Abel sorriu de leve, mas Guilherme pareceu um pouco mais irritado.
– Você chegou ao ponto que eu queria. Era para ser o nosso trabalho. Mas Manuela é uma Organizadora. Não acha que está a pondo em risco? Quem garante que Agnes não faz parte de tudo? — Ele olhou para papai, com uma expressão um pouco mais branda. — Espero que não se arrependa por ter nomeado sua filha como Secretária, Sr. Frittoli.
– Eu não vou, Guilherme. Minha filha sabe o que está fazendo. E se eu puder contar com sua ajuda, então teremos ainda mais garantias de que nada saia errado. Renée pode ter aliados, mas provavelmente é o centro de tudo. Não podemos arriscar nem mais um dia sem que ele seja preso. — Confesso que fiquei um pouco orgulhosa por ouvir meu pai defendendo o nosso plano. Mas entendia o lado de Guilherme, também. Era bom vê-lo preocupado com Manuela. Era merecia alguém assim.
– Bom, acho que estamos resolvidos. Cuidem pra que ninguém desça até o Corredor dos Nove depois do pronunciamento de Silvia. Estarão fazendo um grande favor para nós. — Arantes repetiu, sorrindo. — Allan, Silvia pediu para ver Victoria e Diogo. Você não deveria estar acompanhando-os?
– É verdade, tio Allan. Eu vou junto com vocês. Cansada dessa testosterona toda... — Carol passou à minha frente, liderando nossa marcha nada animada até o Diretório. O prédio mais parecia um escritório metalizado e cheio de vidro. As janelas da antessala destruídas pelo ataque de fúria de Hugo no dia da morte de Rico, já haviam sido substituídas.
Sentada na cabeceira da mesa de reuniões, estava Silvia. Ao lado direito dela, Martha segurava uma pasta de anotações, e uma caneta preta. Otto estava sentado ao lado dela, trajando um terno bem liso, e uma gravata de cetim vermelho vivo, que realmente chamava a atenção. Meu irmão de consideração estava lindo, mas as olheiras em seu rosto indicavam-me seu verdadeiro estado de espírito. Ele pareceu bastante nervoso ao olhar em minha direção, e desviou o olhar de Carol. Ela o encarava com acidez quase cítrica, e com um sorriso mais afiado do que a lâmina de uma katana. Sentando-me na outra ponta da mesa, deixei que Carol, Diogo e papai preenchessem alguns dos lugares vazios. Tentando manter uma expressão imparcial (quase entediada no rosto), assumi uma postura corporal confortável e agradável. Não queria me indispor com Silvia. Principalmente num dia tão crucial.
– Um bom dia, Victoria. — Silvia cruzou os dedos sobre a mesa, sorrindo. — Como você deve ter ouvido, hoje darei continuidade às investigações aleatórias aos dormitórios. Gostaria imensamente de contar com sua ajuda e presença ao meu lado no palanque, como uma figura de paz, durante o pronunciamento. É importante mostrarmos a todos que tudo continua em ordem, e que apesar das mortes em seu grupo e no nosso, continuamos unidas.
– Não pensei que houvesse distinção entre os grupos. Se as pessoas já nos veem como forasteiros, não fará diferença se eu estiver ao seu lado. — Discordei, cruzando os braços e dando de ombros. — Não vejo no quê ajudaria, sinceramente. Recuso.
– Menina! Pense no que está fazendo! A situação é delicada, aqui! Não sabemos quem é nosso inimigo, e estamos sendo acusadas de violar a privacidade das pessoas. Sem você para demonstrar um cenário favorável, tudo ficará cada vez mais insustentável. — Martha parecia chocada. Ela não parecia conceber a ideia de alguém recusando algo para Silvia. Eu não podia ter me importado menos.
– Delicado é o fato de a sua gente ter acertado nossa amiga com uma pedra no meio da cara, durante o seu último discurso. — O tom de voz de Carol era venenoso. E eu sabia que ela não ia parar. Principalmente porque ela estava encarando Otávio, e parecia ansiosa por fazê-lo passar vergonha na frente das chefas. — Me espanta, inclusive, esse plano ridículo de vocês. Se eu estivesse escondendo algo, colocaria justamente nos apartamentos que já foram revistados. Além disso, todos sabem que você quer exibir a Victoria como uma transgênica adestrada, só para acabar com os rumores de que todos são igualmente loucos. Ninguém aqui acredita apenas na nossa palavra. E me perdoe se eu estiver errada, o que eu duvido, mas parece que a senhora não apita nada aqui, dona Silvia.
– Carolina! — Repreendeu Otto, num tom suplicante. Seu olhar foi de Silvia para Martha. Ambas pareciam chocadas.
– Devo me preocupar com um segundo motim, Victoria? — Silvia perguntou para mim, mas não tirou os olhos de Carol. Minha amiga arqueou uma sobrancelha em resposta, cética. — Saiba que se eu desconfiar que vocês planejam intervir em minhas decisões, ou dominar de alguma forma os rumos deste local, trancarei a todos na prisão. Meus sentinelas estão lutando para contornar este problema, e seria mais prudente se a senhorita, como Secretária da Defesa, estivesse disposta a ajudar como pode.
– Exatamente. E ficar parada e sorrindo ao seu lado, não é a melhor forma de contribuir para este local. Não foi para isso que me tornei Secretária. — Avisei, decidida a não deixar a peteca erguida por Carol, cair. — Carolina não disse nenhum absurdo, nem algo com que eu não concorde. — Otto e Martha arregalaram os olhos no mesmo instante. — Respeito muito a senhora, e este lugar, mas atiraram uma pedra da última vez. Agora, pode ser uma bala na minha cabeça. Da mesma forma que um dos meus amigos morreu há dois dias, hoje podem ser três, ou mais. E lhe garanto, dona presidente, não vou permitir que nenhum membro da minha família seja ferido se eu puder evitar.
Levantei-me de minha cadeira e ajeitei o terninho vermelho que estava usando. Odiava aquele uniforme. Carol e Diogo seguiram-me, mas papai continuou sentado. Ele também parecia chocado. Não duvidei de que fosse pedir desculpas pelo meu comportamento, mas nada poderia me fazer mudar de ideia. Obviamente, não era uma opção desistir do nosso plano para enfeitar o discurso de Silvia. Ninguém se importava realmente com o que ela dizia, e isso não era nenhum exagero da Carol. Era um fato, ainda que fosse patético.
– Se você deixar esta sala sem me obedecer, considere-se uma sentinela comum, Victoria. Seu cargo de Secretária será retirado. E não poderá exercer estas funções nunca mais. — Ameaçou-me Martha. — Insubordinação. Que absurdo!
– Fiquem à vontade para removerem-me do cargo. Até logo, Martha e Silvia... — Despedi-me, saindo do local sem esperar por liberação. Otávio parecia branco como uma vela quando passei por ele, mas agradeci por ele não ter dito nada do plano, movendo meus lábios em silêncio. Ele respondeu positivamente, movendo os lábios sem emitir som algum. Carolina não olhou para nosso amigo, aborrecida. Diogo tocou o ombro dele ao passarmos ao seu lado, e logo deixamos o complexo.
– Bem, isso foi inédito. — Reconhecendo minha bravura incomum, Diogo sorriu. — Eu achei incrível como encarou as velhotas.
– Elas querem se iludir, e os rebeldes estão felizes em iludi-las. Não sei como esse lugar continua de pé. — Resmungando, Carolina não deixava de pintar um quadro realista. — Ainda não entendo o que Otto está fazendo, mas não é da minha conta. Depois resolvo isso com ele. Agora, o que acham de atirarmos um pouco nos Muros, antes do almoço? Precisamos praticar para hoje à noite.
– Aceito qualquer coisa se for pra sair desse sol de rachar! — Supliquei, apontando para a entrada dos Muros. — Vamos para o ar-condicionado, pelo amor de Deus!
As coisas pareciam de certa forma, mais reais e importantes, agora que o grande dia finalmente chegara. Para ser sincera, o fato de termo visto reações tão fortes de Martha e de Silvia parecia significar algo grande. Elas estavam nervosas, e nada era mais perigoso do que líderes nervosos. Algo devia estar tenso sob a casca segura e sóbria que elas exalavam. Imaginei como as coisas deviam estar para Francine e Helga, na Escola. Ao menos teriam a ajuda de Cecília. Com Tânia de volta à ativa no Hospital, também parecia que Nanda teria um suporte maior para proteger os bebês. Eu só temia que o pronunciamento de Silvia acabasse convertendo-se numa manifestação perigosa das muitas vertentes de opiniões dentro da Fortaleza. Seria como acender o pavio da fúria com um fósforo. As chamas da ira consumiriam tudo no pecado, justamente enquanto estaríamos cavando mais deles. O futuro naquele momento era incerto, mas o sentimento no meu peito dizia que qualquer resultado envolvendo aquela noite, seria ruim para alguém. Um dos piores pressentimentos que eu já tivera na vida. Mas no fim a verdade era que eu estava insegura, sobre tudo. Incluindo nossos planos...
Fale com o autor