Quebranto.
97 O quarto pecado é a Luxúria.
Notas iniciais
Cecília.
O vento acima dos Muros era sereno, ainda que gélido à sua própria forma. Sentia seu toque de nuvem e o suspiro dos céus ao meu redor, enquanto pousava a mão delicadamente sobre a superfície plana da minha barriga. Eu não queria que todos soubessem ainda. Era muito cedo. Otávio ainda não sabia como reagir. Ele tinha ainda mais inseguranças do que eu. Mas senti a vida dentro de mim. Sentia algumas tonturas, e nunca antes havia enjoado com o cheiro de Otto nos lençóis. Além de tudo, eu tinha muito medo pelo meu bebê. Era mais afortunada do que Nanda, no entanto. Seus trigêmeos haviam nascido em circunstâncias muito pouco favoráveis, e com da graça da deusa permaneciam vivos. Pensei em Deméter, deusa da agricultura na Grécia Antiga. Minha fé ensinara-me que todas as deusas são uma, e eu podia ver a misericórdia maternal agindo naquelas três pequenas vidas. Apenas o amor maternal de Deméter poderia ter acendido a chama no coração de Nanda, e protegido aquelas crianças. Rezei para que eu conseguisse um pouco daquele amor, também. Não que eu estivesse reclamando, mas queria muito uma sorte melhor para meu futuro, do que a que eu tivera no passado com Topázio. A simples lembrança dos meses acorrentada ao porão traziam calafrios e arrepios involuntários, ao meu corpo traumatizado. Lidar com a perda da visão havia sido terrível. Não fosse meu antigo dom de ver as auras, acredito que minha sanidade não teria sobrevivido. A energia interna de cada ser humano ao meu redor fora toda a cor de minha vida, durante aqueles dias. Não eram cores bonitas, considerando Topázio, Alexandre ou Thaís. Mas eram cores. Era algo para manter-me ancorada à luz.
Aproximei-me do local onde Ricardo morrera. Perguntei-me o que veria ali, se ainda tivesse meus antigos poderes. Ainda havia manchas de sangue ali, e a sensação pesada na boca de meu estômago indicava a súbita baixa na temperatura emocional dos outros. Exatamente como no funeral. Ocasiões como aquelas, eram sempre extremamente difíceis. Eram instantes que traziam à minha mente aqueles cujos corpos tinham sido abandonados no caminho. Aquilo me fazia triste. Mais do que eu poderia explicar. Sentindo o olhar de Victoria sobre mim, percebi que me distraíra com as mãos sobre a barriga. Rapidamente, descruzei-as e tomei os dedos de Carol entre os meus. Ela estranhou, mas não falou nada. Apenas apertou de volta, e suspirou.
– Agora que estamos todos aqui, precisamos conversar. — Hugo parecia decidido. E estranhamente determinado, também. Nem todos estavam presentes. Otávio permanecera com Silvia e Martha, enquanto Tânia ficara na Enfermaria com os bebês de Nanda. Os gêmeos estavam com Carlos, e com o pai de Vicky. — Temos que agir. Algo muito errado está rolando aqui, e não podemos esperar mais. Alguém já descobriu alguma coisa?
— Eu estava louca pra ouvir essa pergunta. — Carol revirou os olhos, dando um passo à frente e indicando a mureta ao lado das manchas de sangue. — Visitei esse lugar mais cedo. Senti que estava sendo encurralada pela revolta de Matias com a perda da irmã, e tive que respirar um pouco sozinha. Mas aí, ouvi algo interessante. Quer dizer, pra ser sincera, não ouvi exatamente o que eles estavam falando, mas...
– Fala logo, caramba! Que enrolação! — Irritou-se Vicky, jogando as mãos para o alto. Diogo riu.
– Okay. Estressadinha. — Carol fez beicinho, e jogou charme para Arantes, cruzando os braços com uma teatralidade exagerada, toda coquete. Parecia que certos hábitos nunca morriam. E Carolina flertando era mesmo algo cômico de se ver. — Simplesmente avistei o Renée lá embaixo, conversando com a Francine e o João Pedro. Os dois pareciam furiosos com ele. Infelizmente, não entendi o porquê da questão, mas deduzi que os dois haviam descoberto algo. Não me parecia um papo fraternal. João Pedro até cuspiu no chão.
– Isso combina com o que eu achei. — Contou Manuela, apoiando um braço no ombro de Dante, que a fitava curioso. — Terminei de ler todos os arquivos de Orlando. Renée foi o único que votou a favor dele, contra a Faye. Mas isso vocês já sabiam. — Ela falou, olhando para Arantes e Helena. Eles concordaram. — A questão é que ele nunca mais se moveu a favor do cara, depois desse dia. Nunca pegou em armas, nem auxiliou na rebelião. Foi investigado por quase um ano, e nenhuma evidência de associação com Orlando foi encontrada. Minha pergunta é: por quê?
– Ele sabia que alguém precisaria continuar o trabalho sujo. — Victoria respondeu um tanto chocada. — Faz sentido que tenha permanecido nas sombras até ter Faye de novo na Fortaleza. Quer dizer, ele viu o que estava acontecendo, com os conflitos. Papai contou que muitos morreram.
– Se o que Manuela descobriu é verdade, então achamos o assassino do meu filho. O homem que enviou os Mercenários para nos matar. — Arantes disparou. — Quero a cabeça dele numa bandeja.
– Pelo que eu soube você é bem capaz de fazer exatamente isso, com o cara. — Diogo concordou, dando de ombros. — Mas primeiro ele precisa confessar, e temos que prender todos que o ajudaram. Depois você faz o que quiser com ele, por mim.
– Não podemos esquecer que isso aqui não é Búzios. Não estamos no continente, onde não há leis. Na Fortaleza, é a palavra de Silvia que vale. Ela deve decidir o destino dos criminosos. — Contrapôs Helena, parecendo assustada com a violência de Arantes. — Não somos os monstros que eles temem. Não podemos agir da mesma forma que os rebeldes. Precisamos sobreviver. Ou não precisaremos mais aprimorar a cura definitiva. Porque não haverá mais humanidade para ser salva. Seremos como os mortos vivos. Só zumbis.
– Helena está certa, Arantes — concordei, olhando para Hugo. — Sei que é difícil. Queremos vingança, e entendo esse sentimento. É de nossa natureza desejar que a pessoa que nos feriu receba o pago. Mas não podemos apenas matá-los. Eles terão que ser julgados. Uma nova sociedade não pode nascer em cima de execuções.
– Se formos mesmo fazer isso amanhã, e encurralar Renée, vamos infringir muitas regras. Sei que todos aqui querem paz, e foi por isso que viemos. Esperávamos nunca mais fazer parte de situações como essa. Mas parece que o drama e a violência nos perseguem agora. — Victoria falava de modo profundo. Só a vira daquele jeito em poucas ocasiões. Como uma líder, ela parecia segura. Não lembrava muito a garota simpática que eu conhecera um ano atrás. Mas a integridade ainda estava ali. — Preciso que todos tenham certeza do que estamos fazendo. Os sentinelas podem nos prender, também. Estamos desafiando a autoridade da presidente.
– Ela tem razão — avisou Arantes. — Mas quero justiça. E vocês?
– Vou manter Faye trancada no laboratório, para protegê-la. — Helena murmurou. — Se cuidem, pessoal.
– Nós vamos. — Hugo sorriu, pegando a mão de Dante. Enfim, eles pareciam admitir o que sentiam um pelo outro. — Silvia vai se pronunciar todos os dias, a partir de hoje. Ela vai querer investigar todos os dormitórios aleatoriamente, então eu e Dante vamos ficar de olho nela durante o pronunciamento de amanhã. Vai ser a hora perfeita para vocês invadirem o quarto de Renée e armar uma cilada.
– Mas como? Não temos acesso ao Corredor dos Nove. — Eu já sabia a resposta, mas olhei na direção de Fernanda. Ela parecia hesitar. Por quê? — Além disso, acho muito sério o que estamos discutindo. Helena tem razão. Como temos certeza de que é ele? Nada é tão simples pra nós. Nunca.
– Nem sempre a resposta verdadeira é a mais complicada. — Diogo aproximou-se de Nanda, e passou o braço pelos seus ombros. — Não se preocupa não, ruiva. Temos faro para malucos, desde a boate. Você pode ficar no Hospital e cuidar dos bebês enquanto acertamos contas com esse cara. Mantenha Tânia e os seus filhos a salvo.
– Sim. Vou levar as crianças pra Escola. Posso convencer Helga e Francine a me ajudarem. -Ofereci-me, sorrindo. — Nós já queríamos resgatar nossa cultura, e exibir um filme. Temos alguns no acervo da Escola, e posso manter todos ocupados. Longe de confusão.
– Ótimo. Diogo e Carol podem vigiar os dormitórios para que ninguém interfira. — Victoria opinou. Os dois assentiram. — Só precisamos de um meio para entrar.
– Posso roubar o passe livre de Agnes. A Organização tem chaves mestras, para eventuais emergências. Os cartões de Renée e Agnes abrem qualquer porta da Fortaleza. Só Silvia e Martha possuem outros iguais — recitou Manuela. Carolina a fitou, rindo. — Oras, fiz meu deve de casa! E Guilherme me ajudou!
– Eu imagino. — Carol piscou para Manuela, sarcástica. Ela enrubesceu, fazendo um biquinho irritado. — Parece que todos já sabem o que fazer. É importante que pouca gente saiba o que estamos planejando. Tio Allan pode ajudar com alguns sentinelas, então teremos de contar para ele. As chances de o cara estar envolvido são mínimas. Cecília vai precisar de Helga e Francine. Elas parecem já saber que o Renée não presta. Podemos contar a elas. — Todos concordaram. — Melhor não confiarmos totalmente no Guilherme, Manuela. Deixe-o de fora.
– Isso não faz sentido. Os Nove são muito mais arriscados. Mas ok, não direi nada. — Ela maneou a cabeça, concordando a contragosto. — Acho que temos um plano. Mas não parece muito bom.
– Qualquer plano que possamos formar terá falhas, porque não estamos no nosso ambiente. Mas podemos dar conta. Eu acredito que amanhã nessa hora, quando o sol estiver se pondo, estaremos há um passo de pegar o Renée. — Vicky parecia animada, e Hugo também. Eles pareciam ter certeza do que estava havendo. Mas a expressão de Nanda ainda me trazia incertezas. Não questionei aquilo ali, pois o assunto estava decidido. Eu só podia fazer minha parte e esperar que desse tudo certo.
Nosso pequeno grupo permaneceu ali por mais alguns instantes, e observamos juntos enquanto o horizonte dourado tornava-se vermelho e cada vez mais escuro, até que a noite e seu ar mais frio estavam quase sobre nós. Descemos até o Refeitório, e foi quase uma tortura ter de observar Otávio no meio dos Nove e seus secretários, participando dos assuntos e rindo das piadas. Hugo e Victoria também eram secretários e tinham assentos naquela mesa. Mas nenhum dos dois desejava ser um Nove. E estavam ali, conosco. Deusa, eu era secretária de Francine, também! É claro que além de mim, Carol e Vicky, ninguém mais sabia das motivações de Otto. Mas eu já pegara Hugo e Diogo olhando feio na direção dele algumas vezes. Ele não percebia que estava afastando sua família, por uma segurança que só existia na cabeça dele. Nada podia realmente garantir o futuro do nosso filho ou filha, enquanto os criminosos ocultos naquele lugar não fossem revelados e presos. Não fossem os horrores do continente, os zumbis ou pessoas loucas, eu preferiria que todos ainda estivéssemos fora daquele lugar. Nervosa, cheguei a roer minhas unhas enquanto esperava o momento certo para me retirar. Victoria disse algo sobre eu precisar comer, e Carolina xingou Otto. Mas elas não estavam ajudando. Afinal, elas também não sabiam que o futuro parecia tão incerto para mim, quanto para os outros. Desde o sonho que eu tivera com a personificação de Gaia, a deusa, não tivera nenhuma visão. Nem nada do tipo. Era assustador para mim que me acostumara a lidar com o destino, estar enxergando fisicamente, mas cega para ele.
Quando entrei em meu dormitório, Otávio já havia tomado banho, e estava deitado em nossa cama, lendo um livro. A Arte da Guerra. Aposto que era o tipo de livro que Martha apreciava. Deusa, aquela mulher devia ser uma boa influência, mas ele estava começando a ficar obcecado. A verdade era que Otto nascera para o nosso antigo mundo, onde leis e convenções sociais significavam algo. A adaptação dele, apesar de linda, havia sido uma das mais dolorosas. Eu entendia isso. E o amava ainda mais. Mas também temia pelo que ele pudesse se tornar por ambição, agora que estávamos numa espécie de ambiente de ensaio. Tão pouco crível, diante do que já havíamos visto...
– Cecília! — Ele notou-me, e veio apressado em minha direção, abraçando-me. Seus cabelos tinham cheiro de limão, e alguns detalhes em vermelho marcavam a costura de sua blusa de mangas compridas, em um tom profundo de cinza escuro. Pelo visto, ele estava levando as cores de sua função a sério, também. — Você demorou muito! Achei que ia ter que procurá-la no quarto da Vicky, ou da Carol.
– É... Você parecia mesmo prestes a sair correndo, em minha procura... — Apontei para o livro sobre a cama, sorrindo. Otto coçou a cabeça e riu também. — Preciso falar com você. Contei para Victoria e Carolina sobre o bebê. Elas também acham que você não devia estar tão obcecado com os Nove.
– Você fez o quê? — O tom de voz dele trazia ultraje, e um pouco de irritação. — Eu amo aquelas duas como irmãs, mas elas não têm o direito de se meterem. É o nosso bebê. E para ser um bom pai quero poder protegê-lo, estando numa posição onde não poderão tocá-lo.
– Pela deusa, Otto! Ouça o que você está dizendo. Orlando era o presidente desse lugar! E ele foi deposto, substituído e morto! Não existe uma posição intocável no nosso mundo. Não até que os assassinos de Ricardo sejam presos! Você estava lá, no enterro? Será que se esqueceu de tudo o que passamos lá fora? — Agarrei a blusa dele, puxando-o na minha direção. Estava um pouco emocionada com aquilo tudo, e por algum motivo curioso, chorando. Deviam ser reflexos da minha confusão hormonal, pelo visto.
– É exatamente por isso, porque me lembro! Não posso permitir que se repita o que houve com Nanda! — Otávio segurou meus braços com firmeza, olhando-me nos olhos. — Eu te amo mais do que tudo. Por você e por esse bebê, eu até me tornaria presidente desse lugar! Preciso que você entende. Não estou deixando de me importar, pelo contrário. Eu me importo muito com o que houve com Ricardo e com Valentina. A ideia de investigar os dormitórios foi minha. E só fui ouvido porque tenho uma boa relação com Martha. Ela está me ensinando a ser um Nove, Cecília. No mundo lá fora eu não seria a melhor pessoa para protegê-la. Mas aqui, é meu habitat natural. Posso fazer a diferença.
– Então você vai nos ajudar amanhã? — Ele pareceu confuso, e enquanto fui explicando os planos de Victoria, ele parecia cada vez mais pálido. — O que foi, Otto?
– Vocês não podem invadir o dormitório de um Nove! Isso é extremamente sério, e Silvia não vai gostar nada de saber! — Abri a boca para interrompê-lo, mas ele ergueu as mãos. — Não se preocupe, não vou falar nada! Mas também não posso ajudar. Não vou mandar a Martha afrouxar a segurança, nem nada do tipo. O que vocês estão querendo fazer, e a desculpa que esses criminosos estão esperando para convencer a todos de que vocês querem mesmo tomar a Fortaleza! Muita gente já tem medo da Vicky e da Nanda! Acham que vamos matar os Conselheiros e assumir o controle como terroristas!
– Não nos importamos com o que as pessoas daqui dizem. Não quando criminosos mataram um dos nossos. — Rebati, sem pensar. Mas acabei corroborando o que ele estava dizendo. — Eu sei que não deveria existir um nossos, nem um deles. Mas as pessoas daqui não sabem como é lá fora, Otto. Eles não entendem. Precisamos mostrar a eles que precisam assumir uma postura diante do novo mundo. O sonho de uma Fortaleza é impossível! Utopias não existem!
– Você não pode saber disso. Desde que perdeu seus dons, você mesma disse que não vê mais o futuro. — Não foi o que ele disse, mas a maneira. Aquilo me magoou, um pouco. Ele pareceu perceber, pois seu rosto desmoronou. — Não estou te acusando de nada, meu amor! Nem duvidando. Mas vocês não deram uma chance a este lugar, como eu dei. Precisam deixar os monstros para trás. O Apocalipse acabou.
– Eu queria muito acreditar nisso, Otto. Mas temo que você descubra, mais cedo do que pensa, que está apenas repetindo uma mentira que te contaram. — Falei, pousando uma das minhas mãos sobre seu rosto. Ele fechou os olhos diante do meu toque, e pude sentir meu calor sendo transmitido para ele. Ao som das minhas palavras, um arrepio atravessou meu corpo, dos pés à cabeça. E percebi que de alguma forma, profetizara minha última sentença. O que apenas tornava tudo mais difícil, para mim.
Hugo.
Eu podia sentir o nervosismo de Nanda. Então, quando deixamos o Refeitório, fiz com que ela caminhasse comigo até meu quarto. Manuela e Dante também estavam ali, e pareciam confortáveis no pequeno sofá da sala comunal que dava para os quartos e banheiros. Tinha ouvido falar que outras pessoas que já moravam ali antes de nós, não tinham acomodações tão boas. O que era estranho, e possivelmente um motivo a mais para nos odiarem. Mas Faye insistira que os responsáveis por salvar a vida dela fossem recompensados, então ninguém falava nada na nossa frente. Enrolado em um edredom ao lado de Nanda, abracei meus joelhos e observei enquanto Dante sorria para Manuela. Eu nunca antes havia notado o quão bonito ele era. Para mim, ele fora sempre o cara legal e bobo com quem eu vivia flertando. Mas eu o via de maneira diferente, desde o nosso quase beijo. Era até uma questão infantil, que ainda não tivéssemos nos beijado de verdade. Mas era especial, intenso. A única coisa que podia provocar alguma emoção positiva em meu coração, desde a morte de Rico. A única razão para que eu me sentisse vivo. E para que eu ainda conseguisse encontrar uma forma de sorrir, finalmente...
– Hugo? — Manuela estava chamando, aborrecida. — Por que está rindo feito um idiota?
– Eu não estou. — Disfarcei muito mal. Dante riu consigo mesmo, e revirei os olhos de frustração. Odiava o jeito como ele ficava convencido quando eu demonstrava qualquer tipo de atração, ou carinho. E amava, ao mesmo tempo. — Nanda, por que está tão ansiosa com os nossos planos de amanhã? Senti que se pudesse você não aprovaria.
– Não sei ao certo, gente. — Ela parecia confusa. — Não que eu confie no Renée, mas ele foi me visitar quando atiraram aquela pedra em mim, lembram? Na noite em que Rico morreu?
– Sim. Aquilo foi horrível, Nanda! Nem perguntei como você ficou com aquilo, por causa do que aconteceu... Sinto muito! — Desculpei-me, totalmente envergonhado. Ainda era possível ver o hematoma de minha amiga.
– Sim. Todos nós sentimos. Os últimos dias foram difíceis. — Desculpou-se Dante. Manuela concordou, em silêncio.
– Está tudo bem, galera. A questão é que Tânia falou comigo a respeito de Renée, e disse que ele a visitou todos os dias. Por que eu visitaria alguém que mandei matar? Não acham que se ele fosse o canalha que pensamos, ele já teria dado um jeito de terminar o serviço? Tânia acha que ele é uma boa pessoa. E confio na experiência dela. Então, não sei se estamos jogando a isca para o peixe certo. — Ela pôs os cabelos atrás da orelha, e notei o quão compridos estavam.
– Ele pode ter conquistado a confiança dela, Nanda. Apenas porque sabe que nos importamos com o que Tânia diz. Para mim, foi tudo fingimento. Pode muito bem ser um truque. Você não acha? — Manuela olhava séria para nossa amiga. Pelo visto, ninguém poderia convencê-la da inocência de Renée. — Eu estive hipnotizada por Topázio, e fui enganada por ela durante meses. Sei bem como é ignorar algo que está bem na nossa frente. A maldade dela era óbvia, e exatamente por isso não acreditei. Acabei perdendo minha irmã por isso. Vocês perderam amigos. Posso estar sendo um pouco neurótica agora, mas vou até o fim para pegar o Renée.
– Você deve estar certa. Mil perdões. — A voz de Nanda era só um fio. — Bom, eu havia prometido dormir com Tânia e meus filhos, no Hospital. Soube que a Ártemis estava um pouco enjoadinha. Então vou ver como ela está. — Minha amiga entregou-me a parte do edredom que estava usando, e bateu os fiapos de tecido para longe de sua calça jeans negra. O tecido justo marcava as curvas de Nanda, que pareciam mais generosas depois do parto. Seu corpo adolescente era muito mais maduro, agora. Mais bonito. Uma deusa ruiva. — Boa noite para vocês.
– Espera! Eu vou também! — Manuela levantou-se, apressada. O vestido branco das Organizadoras deixava parte de suas coxas descobertas, mas ela não parecia se importar. Ao invés disso fitou-me com diversão, e se retirou de braços dados com Nanda. Senti-me idiota por não entender a piada, mas então meu olhar encontrou o de Dante. Através de seus fios dourados, seus olhos brilhavam com diversão. E luxúria.
Levantei-me rapidamente, dobrando o edredom e colocando-o sobre o sofá, num frenesi automático. Eu tinha de me ocupar com alguma coisa porque, embora Dante ainda não tivesse dito nada, eu podia imaginar o que estava passando pela sua cabeça. E eu sabia que não eram pensamentos necessariamente puros. Então, dei uma tapa em um de seus pés, e retirei a almofada na qual ele estava pisando, arrumando-a junto com as outras. Então peguei a trouxa de cobertores em meus braços, e os levei até o quarto, depositando-os na cama. Dante não dormia comigo, então arrumei minha bagunça o melhor que pude. Sabia que ele não ia querer dormir em outro quarto. Minhas bochechas arderam quando eu admiti que também não queria que ele fosse. Considerei-me a mais vil das pessoas, por estar ansioso e nervoso por um motivo daqueles, menos de dois dias depois do que ocorrera nos Muros. Mas assim era a vida. Independente das feridas internas e externas, o ser humano sempre encontra um jeito de sair do fundo do poço, quando quer. Eu estava lá, e talvez ainda permanecesse por algum tempo. Mas por algumas horas, talvez eu pudesse sentir mais do que o luto. Esquecer o que havia de errado com o mundo, me parecia uma proposta melhor do que os caminhos ébrios das drogas. Tirando a regata vermelha que eu estava usando, corri para o banheiro, fechando a porta atrás de mim. Eu não sabia se Dante se levantara do sofá, ou se ainda estava por lá, rindo da minha cara. Aquele palhaço.
Olhando o meu reflexo no espelho, surpreendi-me com a vermelhidão de meus olhos. Eu parecia com um garoto capaz de dormir por um ano, se assim lhe fosse permitido. Apesar disso, minha pele brilhava em sua palidez. Mas era bela. Tinha quase certeza de que algumas cicatrizes estavam faltando, também, o que era estranho. Minha calça de moletom cinza caiu, e num ato de curiosidade pura, passei as mãos sobre minhas nádegas, procurando a marca fina de uma facada superficial que eu levara. Ainda estava ali, mas quase desaparecida. Grato, apesar de assustado com aquele aprimoramento todo, alisei meus cabelos escuros. Era o último tom de loiro antes do castanho. Senti saudades das várias cores que eu costumava usar ali. Meus olhos eram bem mais bonitos quando meu cabelo estava mais escuro. Mas, supus que Dante gostava de mim daquele modo. Quando ele me conhecera, meu cabelo já era quase o natural. Deus! Eu estava mesmo nervoso com o fato de que ele veria o meu corpo! Vergonhoso. Corri para o chuveiro e suspirei fundo quando a água fria escorreu pelos meus ombros. Pulando um pouco, esfreguei meu corpo com rapidez, só para que a tortura acabasse logo. Eu não suportava água quente, de todo modo. Sentia-me velho e enrugado, com aquele vapor todo. Pingando água dos cabelos e pés, esfreguei uma das muitas toalhas brancas que a Organização enviava para nós. Felpudo, o tecido era grosso e absorvia a água de um jeito maravilhoso. Nem era preciso fazer força. Enrolando-a na minha cintura, destranquei a porta do banheiro e corri para o guarda-roupa ao lado da cama. Cama esta onde Dante estava deitado sem camisa, com calças compridas de linho amarelo, e braços cruzados.
– O banho foi bom? — Indagou-me, com uma tremenda cara de pau. Perguntei-me como ele conseguia ser tão bronzeado, se eu nunca o via pegando sol. Seu peito sem pelos parecia-se com uma escultura lapidada em madeira. — Que cara é essa?
– Não foi nada, é que... É estranho te ver assim, na minha cama. — Ok, às vezes eu odiava ser sincero. E se ele decidisse ir embora? Com que cara pediria que ficasse?
– Eu sei, não é? Nunca pensei que isso fosse acontecer. Mas algo me dizia que iria. — Ele riu, mas sua expressão era atenciosa. — Vou entender se quiser que eu vá embora. — Por alguma razão, o pensamento de passar aquela noite sozinho provocou-me calafrios. Minha mão deteve-se na porta do guarda-roupa, e voltei-me para Dante, estático.
– Não quero que você vá. — Admitir a verdade não doía tanto. O problema era tomar coragem. — Fique, por favor.
– De verdade? — Um sorriso iluminou o seu rosto, como se ele não tivesse certeza do que estava ouvindo. Acabei sorrindo também. — Ou estou alucinando?
– É sério, pateta. — Bufei, virando-me para o guarda-roupa outra vez. Meu susto foi tremendo quando senti um puxão na toalha ao redor da minha cintura, e ela caiu aos meus pés. Congelei na hora, chocado. Dante não era ousado. Ou eu estava subestimando-o de novo? Senti seu peito encostar-se a mim, e suas mãos em meus ombros. Elas encontraram algumas cicatrizes finas, e passearam por elas. Não com repulsa, como eu imaginei. Mas com reverência. — Humm... Eu ia colocar uma roupa...
– Se você quiser se vestir, não tem problema. Mas não vou reclamar se quiser continuar assim. — Os lábios de Dante estavam bem próximos à minha orelha. Como era possível que apenas seu hálito tocando meu pescoço pudesse me excitar tanto? Era desconcertante. — Entenda Hugo, não me importo em obedecer a qualquer capricho seu. Se quiser que eu durma com você, mas não toque em seu corpo, farei isso. Embora seja extremamente difícil, para mim, agora que estou vendo você por inteiro...
– Você não facilita nada falando assim, sabia? — Reclamei em tom acusatório, cruzando os braços e virando-me de frente para ele. Até perceber que estava nu. Então Dante riu e me comeu com os olhos, enquanto eu cobria minha nudez, aborrecido.
– Quem disso que estou a fim de facilitar algo, aqui? — Ele aproximou-se, e recuei até encostar-me ao guarda-roupa. — Já disseram que você é lindo quando está reclamando feito um velhinho rabugento? Parece o anão Zangado, da Branca de Neve.
– Credo, Dante. Você tem tesão no Zangado? — Rebati, sem controle. Acabei rindo.
– Adoro quando você faz isso. Mas não vai funcionar. Dessa vez, não vou deixar você mudar de assunto. — Ele colocou uma mão de cada lado do meu rosto, aproximando-se até invadir completamente o meu espaço pessoal. — Quero ouvir o seu decreto, Majestade. O que faremos hoje à noite?
– Inferno! — Puxei o rosto de Dante para o meu, e devorei sua boca com a minha. Ele ficou surpreso pela intensidade do meu beijo, mas o senti rindo enquanto lutava para amparar meu peso. Abraçando-me pela cintura, ele cambaleou para trás e caiu sobre minha cama. Fiquei sobre ele e senti o linho de suas calças absorvendo a água que ainda escorria pelo meu corpo. Acostumando-me com o cheiro e o sabor em seu beijo, percebi que queria mais. Era como se ele tivesse sido feito para me beijar. Separei meus lábios dos dele, buscando pelo ar. — Isso responde à sua pergunta?
– Pode apostar. — A mão dele descansava sobre mim, e logo um de seus dedos tocou a marca sobre minha nádega. — Você é um sobrevivente, Hugo. Essa é uma das coisas que amo sobre você. Mesmo com todas as chances contra, você continua aqui. Comigo.
– Com você. — Repeti, rindo. — Me lembre de nunca mais criticar a perseverança.
– Ah, eu vou lembrar sim... Todos os dias. — Trocando nossas posições, Dante rapidamente colocou suas pernas ao redor da minha cintura, ficando sobre mim. Ouso dizer que já não me importava com minha própria nudez. Mas aquilo estava ficando injusto. — Tem certeza de que podemos seguir em frente?
– Não sou exatamente virgem, bobalhão. — Ele deu uma risada. — Está tudo bem.
Dante ergueu-se rapidamente, e retirou suas calças. Ele era ainda mais perfeito do que eu havia imaginado. Inclusive, acho que eu não esperava que ele fosse tão bonito. É estranho como não notamos as pessoas como realmente são, algumas vezes. Acho que nós dois não teríamos uma chance de verdade, não fosse pela Fortaleza. Era a única coisa boa que já me ocorrera naquele lugar. Voltando para a cama, Dante deitou-se ao meu lado e puxou-me para si, e nos beijamos lentamente, sem pressa. Era como se nos conhecêssemos outra vez. As formas como podíamos combinar nossos corpos, ou acariciar nossos rostos e cabelos. Tudo era novo, e incrível. Não conseguia imaginar como um sentimento tão poderoso quanto aquele, podia ter sido considerado errado no passado. Humanos eram estranhos. Como um amor tão grande seria um pecado? Não demorou até que os lábios de Dante encontrassem outras partes do meu corpo, e o caminhar de sua língua sobre meu peito era como uma linha de fogo traçada na superfície, mas forte o bastante para marcar as camadas de pele até a minha circulação sanguínea. Era como se ele deixasse uma impressão, de fora para dentro. Suas mãos tomaram-me, estimulando meu corpo ao máximo. Seu nome escapou dos meus lábios, e pensei que devia estar ficando louco. Prendendo-me abaixo de si, Dante fez com que eu me sentisse exatamente como um prisioneiro. Mas aquela uma prisão da qual eu não queria ser liberto. Se arder no inferno se parecia com aquilo, eu queria mais...
Forcei meu corpo contra o dele, libertando minhas mãos das suas. Ele sentou-se sobre a cama, e eu em seu colo. Beijando-o agarrei de leve seus cabelos e afastei seu queixo, traçando a linha de seu rosto até o pescoço. Dante gemeu, enquanto posicionei-me para que ele pudesse conectar-se a mim por inteiro. Já havia algum tempo para mim, e senti dor. Mas não foi nada difícil suportá-la, ao ver a expressão maravilhada no rosto dele. Seus dedos apertaram minhas coxas, como se fossem um colete salva-vidas. Enquanto nos movíamos um contra o outro, foi como se o mundo nunca tivesse mudado. Era como se a Morte não cavalgasse sobre a Terra. Não quando havia tanta vida pulsando nas minhas veias, e tanto calor no meu coração. Aquilo era o mais próximo da imortalidade. Era como o ferver de um vulcão, um eco que ficaria para sempre guardado em mim. Dante mordeu meu pescoço em meio a um beijo, e tive certeza de que ficaria roxo. Mas gostei. Quando ele gritou meu nome e enfiou seus cabelos molhados de suor em meu pescoço, perdi os sentidos por instantes. Completamente sem forças, desabei sobre ele, que se aconchegou a mim. No escuro, nos olhamos durante muitos minutos, e eu não soube onde meu corpo terminava e começava o dele. Eu estava em paz. E acreditei de verdade que as coisas começariam a dar certo para nós. Quis muito que a noite nunca mais acabasse. É claro que isso não era possível, mas eu gostava de desafiar o tempo. Dante enfiou um braço sob a minha cabeça e puxou-me para ele. Imaginei que se eu dormisse ali, o peso de minha cabeça o deixaria dormente. Foram as últimas coisas com sentido, que passaram pela minha mente, antes de um sono incontrolável abater os meus sentidos.
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