Quebranto.
39 Mobilidade.
Notas iniciais
Carol.
– Nem fodendo, Sabrina! – foi a resposta de Ricardo quando finalmente tomamos coragem para pedir um dos veículos emprestados, para que pudéssemos colocar em prática nossa expedição ao centro de Búzios.
Àquela altura, estávamos todos estabelecidos ao redor de uma fogueira abafada com pedras que Mozart e Jonas habilmente haviam improvisado. Para ser franca, a única luz que havíamos produzido era apenas o suficiente para que pudéssemos vislumbrar os rostos uns dos outros. Simples brasas que afastavam a escuridão completa do local. Com a última lanterna em funcionamento, Hugo iluminava o centro de nosso pequeno debate, à respeito da decisão que eu e Sabrina havíamos tomado, sobre irmos até o centro da cidade, ou quase. Pra ser sincera, no início tudo tinha sido apenas por Nanda, e para testar minha influência sobre Jonas. Mas a cada hora que passava, meu plano parecia fazer mais sentido. E ao ficar mais resoluta à respeito de meu intuito, concluí que nossos amigos realmente precisavam de coisas novas. Faltava tudo. Dino e Vilma, apesar de não serem crianças cheias das vontades típicas da idade, e fazerem o possível para não dar trabalho, estavam visivelmente mais prejudicadas com a loucura que chamávamos de vida, do que o resto de nós. Mesmo para alguém totalmente indiferente ao outro como eu, era fácil entender que eles não tinham base alguma. Com Nanda às voltas com sua gravidez mais que indesejada, e Victoria ocupada com Nora, haviam sido deixados de lado por todos. Talvez Hugo e Ricardo fossem exceções, mas agora que o casal mais colorido do Apocalipse vivia em pé de guerra, era fácil que esquecessem que os gêmeos estavam ficando sem roupas que lhes servissem, por exemplo.
– Mas Ricardo! Vai ser algo bom pra todos nós. Estamos precisando de muitos recursos que não temos a menor chance de encontrar na praia! – argumentou Sabrina. – Coisas que só as lojas podem nos dar. E tudo bem se não quiser vir conosco, mas nossa munição já praticamente acabou. Não somos militares. Precisamos nos defender, ou morrer de fome ou sendo atacados aqui. Jonas e Carolina irão comigo, e prometemos voltar no prazo de um dia. Não vamos fugir com um dos veículos, como o doido do Dimas!
– Não é sobre o maldito carro! – vociferou Ricardo, elevando o tom de voz. Discreta, Diana trocou um olhar com Fernanda e começou a se afastar de nossa discussão puxando os gêmeos pela mão. Evidentemente, eles não gostaram nada, os curiosos. – Não podemos correr o risco do nos separar a essa altura do campeonato. Não temos mais o Trocado como ponto de encontro. Se algo acontecer enquanto vocês estiverem fora e tivermos que fugir, ficaremos perdidos uns dos outros! Não podemos arriscar perder mais força, nem se tivermos que sacrificar coisas como nossas roupas ou comida de mercado. Podemos simplesmente improvisar comida. É melhor.
– Se você não der um carro, vamos a pé com nossas armas. – desafiei, com um sorriso no rosto. Eu não gostava de me meter quando o grupo decidia algo. Se pronunciar nessas ocasiões me deixava sempre exposta. Mas eu não estava mais aguentando aquele papo furado.
– Como é? – riu Ricardo, surpreso com minha petulância, provavelmente. Se ele soubesse como eu estava cagando para suas opiniões e decisões, teria mandado alguém me matar na hora. – Acho que ninguém está mais surpreso do que eu em ver você se voluntariando, Carol. Sabemos bem que você não é esse tipo de pessoa. – ergui minha sobrancelha para nosso líder, enquanto o grupo ao redor parecia prender a respiração. Hugo estava olhando mortificado, de mim para Rico.
– E que tipo de pessoa você acha que eu sou, Ricardo? – perguntei, autenticamente curiosa. Eu realmente queria que ele dissesse. – Que eu me lembre, nunca fugi de momentos difíceis. Mesmo que do meu jeito, sempre contribuí para o grupo. Eu matei Daniela, quando ninguém mais conseguiu. Incluindo você. Eu e Luca desafiamos Arlindo enquanto você estava atado à um poste, levando porrada. Eu sobrevivi a todos os ataques que o Trocado sofreu. Cheguei bem perto de me matar, mas então entendi que eu precisava viver. Porque isso é tudo o que nos resta. Então eu digo com certeza: Ou você nos ajuda, ou sai do caminho. Não vou deixar de fazer o que me der vontade, porque você tem medo de ficar sozinho. – notei que meu discurso mudou o clima da reunião. De repente, todos pareceram me analisar, tentando encontrar a patricinha vegetariana que chegara ao Trocado com medo até da própria sombra. Sei que ninguém a encontrou. De longe, Victoria sorriu para mim. Sei que nunca poderíamos ser como antes, mas naquele momento senti tanta saudade de sua amizade, que meu peito apertou por alguns momentos. Ricardo no entanto, pareceu furioso com minha ousadia, e se preparava para me replicar, quando Hugo o segurou pelo ombro.
– Chega disso, gente. – seu tom de voz era baixo e controlado. – É o seguinte: todo mundo aqui percebeu que tanto a hipótese de um grupo ir à cidade, quanto a de ficarmos todos aqui, tem prós e contras. Então, claramente vai ser impossível que Ricardo decida isso sozinho como líder. Basicamente, só vejo uma solução aparente: Vamos votar.
– Não fale por mim desse jeito, Hugo! – chiou Ricardo, irritadíssimo. – Quem falou em votação?
– Alguém discorda com o que eu disse? – Hugo referiu-se amplamente ao grupo. Ninguém se manifestou. – Ótimo. Problema resolvido. Você realmente precisa entender que não pode tomar conta de todos, Rico. Somos um grupo, e cada um de nós consegue se virar. E todos temos o direito de decidir. Você não está sozinho. – diante da firmeza de Hugo, até eu mesma me surpreendi. Olhando com certa ironia para Ricardo, vi seu rosto ruborizar e o olhar desfocar por alguns instantes. Então ele se afastou de nós, claramente se abstendo de voto. – Todos a favor da expedição às lojas, ergam as mãos. – pediu Hugo. Foi imediato. Com as exceções de Ana, Mozart e Diana, todos foram à favor de nossa decisão. Triunfante, Sabrina sorriu para mim, e piscou.
– Eu me ofereço para ir com eles. – anunciou Diogo, solícito. Apesar de saber que ele seria extremamente útil na expedição, não queria que mais ninguém fosse com a gente. Nós três seríamos um grupo pequeno, fácil de se locomover. E se caso algo desse errado, eu poderia facilmente sair viva com Jonas e largar Sabrina para trás, como ela já fizera com os outros. Além do que, Diogo acabaria descobrindo sobre a gravidez de Nanda. Ele não se faria de morto, nem concordaria com minhas decisões como Jonas.
– Acho que você vai ser mais útil aqui na praia. – sugeri, atenciosamente. – O pessoal vai precisar de proteção quando Sabrina e Jonas saírem comigo. Porque sim, eu só corro bem. Estou indo mais para ajudar a carregar as coisas do que por qualquer outro motivo. Mas você, Ricardo, Vicky e Otávio precisam ficar, pra ajudar a cuidar de tudo por aqui.
– Faz sentido. – concordou Victoria, me salvando. Diogo anuiu, e logo seu ímpeto aventureiro cessou. – Vou ajudar você a preparar tudo. – ofereceu minha ex-melhor amiga, se aproximando de mim.
Menos de uma hora depois, estávamos Diana, Victoria e eu movendo as caixas de suprimentos na van, verificando do que precisávamos, antes que nosso trio finalmente partisse. Para minha surpresa, Vicky nada dissera sobre o fato de eu e Jonas estarmos indo juntos, razão pela qual julguei que até mesmo ela havia sido enganada pelo que Sabrina e eu havíamos dito à Ricardo. Tanto melhor. Anotando os elementos mais urgentes em um bloquinho de papel pela metade, cedido por Gabriel, percebi que nossa situação era muito ruim. Mas não miserável. Tínhamos comida para pelo menos mais uma semana, se cada um só fizesse uma refeição de enlatado por dia. Mas isso não era o suficiente para sustentar ninguém, motivo pelo qual alegadamente estávamos nos arriscando. Também faltava o misericordioso papel higiênico, mas isso era quase sempre um dos cabeças da lista. Coisas como roupas já estavam na lista há um bom tempo, mas só agora pareciam realmente importantes. Água era sempre prioridade, portanto nem dei-me ao trabalho de anotar nada sobre a mesma. Além disso, encontramos também a necessidade proeminente de arranjar pilhas e baterias para as lanternas e utensílios eletrônicos que ainda funcionavam. Não que fosse muito sábio usá-los, com as a vespas por perto. Ainda assim, faríamos o possível para conseguir todo o necessário.
Pouco depois, Jonas estava dando partida na doblô, enquanto eu me espreguiçava no banco do carona e Sabrina limpava uma pistola no banco de trás. Fitando o nosso carro, o resto do grupo acenava e se despedia, todos com expressões pensativas e preocupadas. Ricardo nos mirava de longe, mas curiosamente acenou com a cabeça para mim, num adeus mudo que somente eu testemunhei. Juntos, eu Jonas e Sabrina fitamos a estradinha de areia batida que se estendia à frente, trocando a “segurança” de se estar em grupo pela incerteza da jornada conforme nos embrenhávamos mais na bruma, e no escuro. Logo, descobriríamos que nossa saída, havia sido o estopim para um dos meus momentos mais difíceis, nessa droga de Apocalipse...
Victoria.
Eu e Diana ficamos muito ocupadas no dia seguinte à saída de Carolina e os outros. Revirando as roupas e objetos que nosso grupo havia roubado dos motoqueiros que haviam provocado a morte de Madeline e o nosso atraso em encontrar o cerco militar, estávamos ambas entretidas com as muitas jaquetas de couro, óculos escuros, canivetes e pistolas. Nosso acampamento improvisado parecia superior ao do acostamento no qual havíamos estado nos últimos dias, pois era muito mais bem escondido. Sem necessidade de substituir as poucas armas que já tínhamos, nós duas simplesmente removemos as balas de todo armamento encontrado, e jogamos o objetos vazios em uma pequena caixa de papelão, que Dino segurava ao nosso lado. Mais à frente, era possível enxergar enquanto Mozart, Vilma e Gabriel chafurdavam na areia molhada da beira da praia, catando mariscos e tatuís para que pudéssemos comê-los mais tarde. Afastados do restante de nós, Ricardo e Otávio pareciam ocupados vasculhando um dos quiosques abandonados, enquanto Diogo e Ana arrobavam outros. Já Hugo fazia companhia para Tânia e Fernanda, que verificavam os utensílios médicos dos quais precariamente dispúnhamos.
– Isso é muito nojento. – comentei, referindo-me aos pequenos bichinhos que se moviam na mão de Gabriel. Um deles acabou caindo, e mergulhando na areia em direção ao interior da terra. Quase vomitei. – Sabia que eles são equivalentes às baratas, só que no mar?
– Ora, não temos muitas opções. Com esses bichinhos, pelo menos comeremos algo assado pela primeira vez, em muito tempo. Depois é só temperar com o sal da água mesmo, e comer. – Diana riu com minha cara de nojo, e tive que me render à uma fraca risadinha. – Já vi que pra você o melhor mesmo é salsicha em conserva. – assenti fazendo-a sorrir enquanto vasculhava os bolsos de mais uma jaqueta, estampada com o rosto de Satã bordado como um brasão nos ombros. – Te juro, é duro admitir que esses malditos salvaram as nossas vidas, indiretamente. Já pensou se chegássemos dias antes ao cerco militar? – disse Diana, enfiando a mão num dos bolsos. Estava preparada para falar, quando sua expressão mudou. – Mas que droga... – ela comentou, trazendo em sua mão nada menos que uma pequena chave prateada, com um enorme chaveiro emborrachado, vermelho.
– O que é isso? – indaguei, pegando o objeto com cuidado, de suas mãos hesitantes.
– Parece uma pequena chave de barco. Um iate, mais precisamente. – olhamo-nos por alguns instantes, e então percebemos que aquilo podia ser mesmo algo bom. – Leia a plaquinha no chaveiro. – instruiu-me Diana. Revirei o objeto em minha mão, e encontrei duas pequenas frases rabiscadas em caneta vermelha. “Princesa Sônia” e “Porto da Barra”, que li em voz alta para Diana.
– Meu Deus, Diana, é um iate! Tem que ser de um porto próximo daqui. Cristo, qual a possibilidade de algo assim acontecer outra vez? – comentei, pasma com nossa sorte. – Temos a chance de deixar esse lugar, agora! Vamos chamar os outros.
E para nossa surpresa, Otávio e Ricardo encontraram muito que se pudesse usar nas Barracas da Praia da Tartaruga, assim como Diogo e Ana, que haviam caminhado um bocado até encontrar o Restaurante Tartaruga, um lugar que segundo eles, devia ser lindo antes de ir para o espaço com o resto do mundo. Assim, mesmo que a maior parte do que havia na cozinha estivesse estragado, grande parte do local houvesse pegado fogo e alguns zumbis ainda se arrastassem por lá, havia sido fácil que retornassem com um pouco de macarrão em potes de vidro, assim como arroz, feijão e para alegria da nação, açúcar. Vilma e Gabriel encontraram inclusive, algumas rochas afastadas dos veículos repletas de ostras, meio enterradas na água. Agora, o desespero inicial finalmente havia passado, provando que a saída de três dos nossos, talvez houvesse sido um tanto precipitada. Contudo, não havia muito que se pudesse fazer àquela altura, então nos contentamos em nos reunir à luz do sol da tarde, enquanto Diana e Tânia lutavam para preparar algo decente para que comêssemos. Esperei até que todos estivessem satisfeitos ou terminando a refeição inesperadamente rica, e pedi baixinho que Ricardo avisasse que eu queria falar com todos.
– Você tem nossa atenção, Vicky. – riu Mozart, que sempre me pareceu fofo. Entretanto, seu jeito extremamente calado e pensativo me dava arrepios, às vezes.
– Ok gente, tá certo. Então, eu e Diana encontramos algo. E agora, eu quero mostrar a vocês. – tensa, mexi nos bolsos da minha calça jeans, e puxei a chave do iate. Um olhar de esperança dançou por todos os rostos ali presentes, e quase senti vontade de chorar ao rever aquele sentimento nos olhos de meus amigos. Mas nem tudo eram flores. – Pertence à um iate ou barco chamado Dona Sônia. E esse barco, está no Porto da Barra, pelo que acabamos de ler aqui. O problema, é que pelo menos eu, nem tenho ideia de onde isso fica.
– Tá de brincadeira, né? – riu Otávio. Não entendi a piada, até que Ana riu também. Mas que diabos? – Ok, eu explico. – apaziguou ele, olhando para todos ao redor. – O pai da Vicky é dono de um dos restaurantes desse Porto aí. Nenhum de nós jamais visitou o lugar, mas conhecemos de nome. Obviamente ela não deve se lembrar, mas o lugar até tem o nome dela. É exatamente nesse lugar. Não sabemos como chegar lá, mas é uma coincidência tremenda. Por isso é engraçado.
– Que droga Otto, nem eu lembrava que meu pai tinha negócios em Búzios. – me defendi, irritada. Isso era irrelevante agora. – Se celulares ainda existissem, eu poderia ligar para ele e resolver isso. Mas precisamos mesmo é descobrir onde fica esse lugar.
– Passamos por ele. – interferiu Hugo. – Fica perto de Geriba. Titia já levou a mim e ao Rico para esse lugar quando éramos pequenos. A menos que tenha mudado de lugar, fica para trás, perto do cerco militar de Geriba, e dos monstros que estamos tentando evitar. Não vai ser nada fácil chegar até lá.
– Realmente. – concordou Ricardo. – Mas de qualquer forma, é uma possibilidade. Então, estamos melhores do que antes. Como temos que esperar Sabrina e os outros voltarem, teremos tempo apra pensar nisso. Se este barco, iate ou sei lá, estiver em boas condições, pode ser nossa saída do Rio.
– E vamos para onde? – perguntou Dino, confuso.
– Vamos em frente, meu doce. É melhor que parados. – Tânia piscou-lhe com gentileza, e todos sorrimos.
Aquele momento perdurou até que o sol começou a abraçar o mar, e sumir no horizonte. Com a fogueira de brasas sendo acesa novamente, mas desta vez com o auxílio dos fósforos que Diogo e Ana haviam encontrado no Restaurante Tartaruga, contemplamos a noite clara e repleta de estrelas. Não pude evitar pensar em Jonas, enquanto Diogo abraçava-me pelos ombros e eu bebia um pouco da vodka que passava de boca em boca, naquele momento. Era melhor que não beber nada, já que ninguém queria gastar os últimos engradados de água mineral que ainda possuíamos. Mas com aquela nova descoberta, de repente tudo pareceu mais calmo, mais coeso. Não tínhamos o que temer.
Ou tínhamos?
Carol.
Apesar de parecer uma estupidez titânica sair no meio da noite para um lugar provavelmente perigosíssimo, e de eu ter protestado veementemente contra aquela decisão, Sabrina e Jonas estavam convencidos do que precisavam fazer. Bufando, eu fora obrigada a aceitar o plano, já que eram eles os especialistas em sobrevivência, e não eu. E mesmo tentando montado banca para cima de Ricardo apenas para não sair por baixo, eu sabia que devia escutar aqueles dois, se quisesse voltar viva para a praia. Nosso carro seguiu em frente através da noite, e nem sequer acendemos os faróis, enquanto Sabrina se posicionava com a arma em punho no banco de trás, pronta para atirar contra qualquer criatura que nos espreitasse. Juntos, nos mantivemos atentos aos primeiros sinais de civilização. Cerca de dez minutos depois de nos afastarmos os outros, e sair da estrada da praia, já avistávamos as primeiras casas e estabelecimentos. Perturbadoramente, era possível notar um ou outro zumbi caminhando na escuridão, quando um de seus olhos brilhavam no escuro. Cada um deles tinha apenas um olho vermelho, o que tornava até mesmo mais fácil contá-los. Dessa forma, deviam haver dezenas naquela cidade, tentando inutilmente alcançar o veículo e nos devorar. De todo modo, em dado momento finalmente encontramos um tipo de rua principal no lugar, e uma placa da prefeitura nos levou a crer que estávamos na rua chamada Joaquina, e logo pudemos ver enfim mais vida urbana. E com isso, mais zumbis, é óbvio.
Subitamente, Jonas parou o carro e olhou ao redor. De uma só vez, ele acendeu os faróis na potência máxima, e o espetáculo que encontramos foi assustador. Na entrada da Rua das Pedras, corpos dos mais variados tamanhos e tipos estavam pendurados nos fios elétricos, atados por cordas ou por fios de cobre pelo pescoço, tórax, ou pés. Pombos e urubus fugiram da luz forte que foi lançada sobre eles, enquanto os mortos vivos viraram-se em nossa direção. Mas o mais importante naquele momento, não era o perigo que nos espreitava. Pois além da cortina de corpos que parecia bloquear a rua numa espécie de fronteira delimitada, era possível enxergar um pequeno prédio diferente dos demais. Tratava-se da farmácia Bom Momento, que pareceria intocada, não fosse as portas de vidro arrebentadas. Imediatamente, eu e Sabrina nos fitamos. Quando Jonas fez menção de desligar os faróis, segurei seu braço. Aquela madrugada seria longa. Para nossa sorte, entretanto, havíamos encontrado um objetivo plausível rapidamente.
– É ali, querido. – apontei. – Precisamos checar aquela farmácia. Por Nanda, e pelos outros também.
– Certo. Querem que eu dê cobertura e proteja a retaguarda enquanto vocês entram? – Sabrina confirmou com a cabeça. – Ótimo. Tome conta de Carol, Sabrina. Não vou deixar nada chegar até vocês.
E juntos, saímos do carro. Os faróis ainda acesos iluminavam a rua, e começavam a atrair cada vez mais andarilhos em nossa direção. Se preparando para lutar, Jonas pegou o pé de cabra que normalmente Otávio usava, e nos acompanhou. Meu vestido preto esvoaçou ao redor dos meus tornozelos, quando me abaixei rapidamente para puxar minha faca atada à coxa por uma fivela de escoteiros. Minhas botas de couro roçaram uma na outra, conforme eu caminhei na direção da farmácia totalmente devastada. Sabrina ia à frente, com a arma erguida e um soco inglês rutilando em dourado em sua mão direita. Adentramos o local com certo receio, e logo fomos recepcionados por um zumbi de meia idade, um homem careca que devia ter sido bonito um dia. Sabrina socou a testa do morto-vivo, que caiu para trás a tempo de ser pisoteado por ela em sua face. Outros vultos se moveram nas trevas, mas minha parceira agiu rapidamente. Com dois disparos certeiros, derrubou mais duas criaturas que eu não via mais como humanas a séculos. Hipnotizada com a velocidade da loira, acabei pecando por falta de atenção. Com um puxão de cabelo violento, fui levada ao chão pelas unhas pútridas de uma terrível mulher. Meus saltos enroscaram numa embalagem de shampoo largada ao chão, e me desequilibrei terrivelmente. Um esgar alto escapou da minha garganta, e ouvi Jonas chamando meu nome na escuridão da noite.
Foi nesse exato momento que, totalmente fora de mim, enfiei minha faca no olho daquele cadáver de longos cabelos castanhos. O corpo da zumbi desmontou sobre o meu, e comecei a guinchar de nojo. Sabrina auxiliou-me e retirou o monstro. Meu rosto estava coberto de sangue podre, e meus lábios jaziam cerrados para não deixar que nem uma gota daquele líquido escuso alcançasse minha língua. Com meus cabelos enormes pingando sangue, deixei que Sabrina tirasse o excesso de sangue do meu rosto. Ela me olhou demais por alguns instantes, e fiz uma careta ao perceber que aquela safada estava olhando meus peitos. Com um movimento rápido, amarrei meus cabelos num nó desajeitado, espirrando sangue em Sabrina, que riu e se afastou. Aquela palhaça. Continuamos procurando por alguns instantes, quando finalmente encontrei escovas de dente ainda na embalagem, em perfeito estado. Peguei quantas pude e enfiei na bolsa atravessada que eu estava carregando, enquanto vi Sabrina guardar alguns sabonetes e remédios analgésicos na sua. Continuamos caminhando pelo local, até que Sabrina deu um gritinho de felicidade. Atrás do balcão, numa estante dividida em quadrados de vidro, ela tirou a caixinha de um remédio que até então, eu desconhecia.
– Misoprostol. Ou Cytotec, se preferir. – Sabrina parecia alegre, a maluca.
– Eu ainda não acredito que aprovaram o aborto, ano passado. – resmunguei, revirando os olhos. – Vai ver foi por essas e outras que começou o fim do mundo.
– Não seja ridícula, Carolina. Bem antes disso qualquer um já podia comprar essas coisas na internet, sem receita. A legalização só diminuiu o trabalho. Além disso, nem você nem ninguém tem o direito de decidir pela Fernanda. – Sabrina parecia feroz. Talvez por sua experiência de vida, ela julgasse totalmente natural se livrar de uma gravidez desse modo. Para mim, ainda que realmente não gostasse de crianças, era meio difícil de entender.
– Não quero discutir esse assunto. Se a Fernanda decidiu, tá decidido. Vamos olhar o resto das coisas, e dar o fora daqui. Se eu escutar o barulho do Jonas esmagando mais alguma coisa, vou vomitar. – rebati, querendo encerrar o assunto. Anuindo a contragosto, Sabrina continuou uma busca rápida e encontramos finalmente caixas de pasta de dente, depois de muito tempo sem vermos sequer a cor delas. Distraída, acabei encontrando o ouro em meio ao carvão. Absorventes. Ergui a caixa de O.B.’s e a mostrei para Sabrina, que sorriu. — rápidas, corremos para voltar ao carro, apenas para nos depararmos com algo que definitivamente, eu não esperava.
Porque à nossa espera, havia um grupo de cerca de cinco homens, fortemente armados.
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