Quebranto.
17 Inumanos.
Notas iniciais
Victoria.
Era como se mil facas picassem o meu corpo. Sei que parece difícil de compreender, mas o vírus me fazia sentir como se ainda estivesse sendo devorada, como se a mordida do errante fosse eterna. No escuro, só o que pude discernir, foram os cheiros. Primeiro sangue e iodo. Depois, álcool. Agora, algo um tanto adocicado inundava o ar com sua presença pungente. Alguém se aproximou de mim, e pegou minhas bochechas com a mão. Eu sabia que era um homem, devido ao tamanho dos dedos, e a pele calejada. Não demorou muito para que eu associasse aquela pessoa, ao misterioso salvador que me tirara do jardim dos Shepard. Perceber que eu não havia imaginado aquilo era fascinante, e perigoso. Eu já vira o que acontecia com quem era mordido. Temia virar um monstro, e matar aquele homem que me salvara dos dentes podres dos zumbis. Eu queria morrer de alguma forma, queria avisar que ele tinha que me matar, mas não consegui dizer nada. Quando ele virou uma caneca em minha boca, senti o gosto adocicado e ardido de vinho fervido, descendo para o meu estômago. Talvez ele pensasse que aquilo me ajudaria a combater a infecção ou ao menos me deixaria com sono, o que realmente aconteceu. Meu braço gritava de dor, e mesmo assim, desmaiei novamente.
Acordar pela segunda vez, conseguiu ser pior que da primeira. Eu estava com taquicardia, e meus membros estavam tremendo como vara verde ao vento. Alguém segurava uma compressa de água quente contra minha testa, mas o frio não cedia. Sem saber quem seria aquele homem que persistia na minha companhia condenada, o agarrei pelo pescoço e aproximei meu rosto do seu. Eu precisava avisá-lo, de alguma forma.
– Mata... mata... – ele me empurrou de volta para uma cama dura, que até então eu não havia percebido. Vendo tudo girar, distingui uma forma musculosa e alta ao meu lado. Não era ninguém que eu já conhecesse, mas mesmo assim, o que pude distinguir do rosto daquele homem, não me pareceu mal.
– Já está perto... – ele suspirou. Ok. Então ele sabia o que iria acontecer, e mesmo assim se mantinha ali, do meu lado. Céus, eu lembro-me que torci loucamente para que ele não quisesse fazer experiências com o meu corpo, nem fosse um necrófilo. Ser estuprada depois de morta seria muita humilhação.
Quase consegui sorri em meus devaneios febris, até que comecei a ver gente demais naquele quarto. Agradeci pela luz estar apagada, pois eu não gostaria de ver os rostos daquelas pessoas bem iluminados. Jeanette. Kamilla. Lucíola. Daniela. Tiago. Até Silvia, que cuidara de mim a vida inteira, julguei by Text-Enhance\">ter visto. Mas os rostos deles, não os pertenciam. Estavam mortos, pútridos, quase irreconhecíveis. Meus ossos ardiam mais ainda, se é que isso era possível, e era como se algo comprimisse meu cérebro, por detrás dos olhos. Era uma dor tão forte e aguda, que apertei minhas pálpebras contra os globos oculares, temendo que explodissem. Minha cabeça parecia ter vida própria, girando para um lado e outro numa velocidade incrível, e o lugar onde eu havia sido mordida, apesar de limpo e enfaixado, parecia pegar fogo. Como uma pressão incômoda que atravessa nossos membros quando estamos dormentes, uma sensação de ausência foi me tomando. Primeiro, no meu braço mordido. Depois, nos meus pés e pernas. O outro braço desligou-se em seguida, e o pânico me tomou. Eu, mas do que saber, sentia que a hora estava próxima. Arfando, tentei pedir para que meu salvador estourasse minha cabeça. Assustadoramente, nada saiu de minha boca. Minha voz morreu antes que eu aceitasse o fato, e aquilo me deixou ainda mais desesperada. Minha visão se anuviou rapidamente, e meu coração acelerou num ritmo frenético. Senti pela primeira vez, dificuldades para respirar, e então tudo se apagou. Nos últimos momentos, não me recordo de sentir dor. Apenas desorientação, e medo. Muito medo.
A ciência de mim mesma, foi desoladora. Em momentos anteriores, sempre imaginei que os errantes não tinham noção alguma de mundo, ou de quem haviam sido. Acordar, sabendo quem eu era, devia ser um mau sinal. E se todos que se transformassem, ficassem na verdade presos em seus próprios corpos? Se aquele fosse meu destino, eu não suportaria. Não aguentaria ver meu próprio corpo se deteriorando, enquanto eu lutava para devorar seres humanos ou animais, sem ter controle sobre mim mesma. Quando uma mão tocou meu rosto, agradeci por não tê-la mordido. No mesmo instante, um estado de inquietação me tomou. Se eu não era um zumbi, o quê eu era? Como eu ainda estava viva? Aquilo não estava certo.
– Ela acordou! – admirou-se a voz que eu ouvira antes. Um pouco rude e grossa no tom, mas acolhedora.
– Onde estou? Como estou viva? – minha voz estava diferente. Talvez ficar sem usá-la por muito tempo, a tivesse enferrujado.
– Do mesmo modo que eu estou. Você sobreviveu. – respondeu meu anfitrião, me confundindo ainda mais. Que eu sobrevivera, já sabia. Queria saber do maldito como.
– Pode ligar a luz? – pedi na incerteza.
– Posso. Mas se prepare para uma surpresa. – me advertiu. Me estômago revirou, pensando que aquele cara poderia ter feito algo comigo. Será que ele havia arrancado meu braço, para evitar a infecção? De jeito nenhum eu imaginara aquilo! Agora, era tudo no que eu podia pensar.
Quando a luz se acendeu, quase desmaiei outra vez. Meu braço ainda estava lá, e meu machucado fora tratado e enfaixado. Minhas roupas haviam sido trocadas, e eu estava vestindo uma saia verde longa, e uma blusa branca. Olhei ao redor, e encontrei um casebre em condições precárias. Ainda assim, vi minhas roupas lavadas e penduradas em uma corda improvisada, e a mochila que eu levava, caída a um canto. Tinham algumas roupas espalhadas pelo local, e um revólver sobre um caixote de madeira. Não havia mais ninguém no lugar, com exceção do homem sentado ao meu lado. Careca, ele estava usando óculos escuros, e calças jeans. Estava sem camisa, exibindo seu corpo bronzeado, e brilhando de suor. Estava realmente quente no interior da moradia, e quando me sentei na única cama do lugar, fiquei extremamente tonta. Tentei dizer algo, mas ele cobriu minha boca com uma mão, me entregando um espelho em seguida. Ansiosa, agradeci por poder ver meu rosto, e aproximei o objeto, segurando em sua moldura de madeira.
O que vi, chocou-me de um modo perturbador. Apesar de não haver qualquer mudança na minha estrutura física, um fator importantíssimo, estava diferente. Meus olhos. Todo o verde sumira. Assustadoramente, meu olho esquerdo estava preto, e o direito, branco. Pisquei algumas vezes tentando me livrar daquela visão, mas ela insistia em me encarar de volta. A semelhança com os olhos dos infectados era apavorante, a única diferença era que eu não tinha um olho vermelho. A mordida havia me afetado, afinal. E o pior de tudo, era que eu tinha certeza que não eram apenas os meus olhos, que haviam sido modificados. Algo mais mudara em meu interior, eu só não sabia bem o quê. Encarando meu novo colega com toda a confusão do momento, notei seu sorriso enquanto tirava os óculos. Morrendo de medo, encontrei no rosto dele, cópias dos meus próprios olhos.
– O que nós somos? – gemi, aflita. – Como conseguiu me salvar?
– Eu lamento não poder te dizer com certeza. Só sei que por algum motivo, não morremos com a febre. – volveu o careca, aparentemente sincero. – Eu não estava longe, quando você e seus amigos destruíram o portão daquela casa. Foi um estrondo e tanto, aposto que o quarteirão inteiro de mortos ouviu. Resolvi me aproximar com minha van, pra investigar e te vi caída lá. Seu pessoal te deixou pra trás, pra ser devorada. – as palavras dele foram como garras no meu peito. Eu lembrava-me do abandono. Mas como qualquer um deles saberia que eu não morreria? – Eu sabia que havia uma chance de você não virar uma daquelas coisas, então tentei te ajudar. Por sorte consegui. Desde que voltei da febre, tenho sido muito mais rápido e forte do que antes. Te carregar foi quase fácil demais. Depois, só o que me preocupou foi a incerteza do que te aconteceria. Te dopei com uns remédios misturados no vinho, pra diminuir a dor, e esperei. Só pude fazer isso, afinal. Pela primeira vez desde que me transformei, encontrei alguém como eu. – de fato, ele não estava disfarçando sua felicidade. Era como se de alguma forma, ele estivesse tentando se ligar a mim, apenas porque ambos tínhamos sobrevivido ao vírus, por alguma razão.
– Você já tentou ajudar outros? – ele fez que sim com a cabeça. – E ninguém voltou. – sinal negativo. – Nossa, nem sei o que pensar...
– Eu também não. Não me leve a mal, mas pensei que alguém tão magrinha e fraca, não tivesse muitas chances de sobreviver a isso. O que me levou a te salvar mesmo foi pena de ver aquelas coisas te devorando viva. Achei que pelo menos morrer em paz, poderia ser um destino mais digno. Pra me contrariar, você voltou. – riu o homem. – Posso saber seu nome?
– Victoria. Eu também ia perguntar o seu... – deixei o fim da frase no ar, esperando.
– Jonas. É muito bom te conhecer. Conhecer qualquer pessoa, aliás. – enquanto falava, ele se levantou do caixote ao meu lado, e pegou uma garrafa de água mineral. – Beba, vai ajudar.
– Obrigada. – bebi alguns goles, que desceram por minha garganta queimando. Acho que eu devia ter gritado muito durante meus delírios. Minha garganta estava seca e muito arranhada. – Não quero ser chata, mas como foi que você encontrou esse lugar?
– Foi bem no início de tudo. Eu tava tentando chegar ao Centro. Minha mulher e meus filhos estavam lá. No caminho, a van onde eu e meus vizinhos estávamos foi cercada. Por tantos mortos, que não dava pra andar. Uma das minhas conhecidas abriu a porta de trás, e tentou fugir, no desespero. Ninguém sobreviveu. Eu fui mordido, e me escondi numa lanchonete próxima, enquanto a multidão devorava meus amigos. Fiquei lá planejando pegar a van de novo, mas a febre me derrubou. Então eu agonizei por dias, pedindo a morte, mas não morri. Naquela altura, já tinha se passado uma semana desde o início de tudo. Com certeza minha família estava morta. Quando eu finalmente tive forças pra andar normalmente, já tinha comido quase tudo da loja, e tive que pegar a van de novo. Peguei um pedaço de madeira, e parti ao ataque. Eu nunca pratiquei luta, não sei como manejar armas brancas, nem servi ao exército. Mas por algum motivo, eu tinha força suficiente pra derrubá-los com um só golpe, e pra correr muito. Muito mesmo. – enquanto me contava tudo, quase pude visualizar a trajetória de Jonas. Era tudo bem impressionante, eu tinha que admitir. – Dias depois, achei esse casebre trancado, e arrebentei o cadeado com um pedaço de ferro. Desde então eu saio pra pegar comida, água, e durmo aqui.
– Incrível. – admiti. – Eu estive esse tempo todo num acampamento, aqui perto. No Morro do Trocado. – ele ergueu uma sobrancelha. – Um grupo de moradores e sobreviventes barricou a parte mais alta do morro, e impediu os zumbis de passar. Ficamos lá por meses, saindo apenas pra buscar comida. Tínhamos água, e moradias em condições razoáveis. Até energia elétrica. Só que...
– Só que? – incentivou-me ele.
– Só que deu tudo errado. Um tipo de inseto mutante é atraído pela energia elétrica, e nos atacou. Nosso líder morreu, e a coisa saiu um pouco do eixo. Depois, foram cães do mato, dá pra acreditar? De vinte e cinco, fomos reduzidos a onze. Dez, agora que acham que estou morta. – minhas entranhas reviraram, quando notei que nunca havíamos esperado a possibilidade de alguém escapar ao vírus. Arregalei os olhos, e fitei Jonas.
– Vocês mataram os mordidos, né? – assenti. – Não se sinta culpada. Se eu não tivesse sido mordido, faria o mesmo. Vocês não tinham como saber. – me tranquilizou.
– E agora, eles acham que estou morta. Até meu namorado. – lamentei, mordendo o lábio inferior.
– Seu acampamento continua de pé? – fiz que sim. – Então eles devem ter voltado pra lá. Posso ajudá-la a encontrá-los, se eu puder ficar com vocês. – me propôs, sorrindo. Meu primeiro reflexo foi de dizer não, mas como eu poderia negar algo a quem me salvara a vida? Se ele fora bondoso a ponto de resgatar uma mulher condenada, merecia o benefício da dúvida. Não poderia ser uma má pessoa.
– Então temos um trato. – concordei, oferecendo-lhe minha mão. Ele a apertou, sorrindo. Entregou-me um pacote de biscoitos, e vestiu uma camisa.
– Assim que você estiver bem, vamos atrás dos seus amigos. – distraída, fiquei esfregando meu braço ferido. – Não se preocupe, não vai perder o braço. Eu limpei bem, e a mordida não foi profunda. De todo modo, a teoria da amputação é mito. Não adianta arrancar o lugar mordido. O vírus vai para o sangue. – com uma piscadela, ele saiu do casebre. Sorri sozinha, tocando de leve a tala em meu braço. Meu corte na mão também estava enfaixado, e me senti a rainha dos remendos, uma boneca de pano.
Fitando a noite que caía pálida, pensei em Otávio. Meu irmão devia estar sofrendo muito. Luca também, e talvez isso fosse o que mais me doía naquele momento. Minhas amigas, Ana e Carolina, além de Nanda, eram presentes na minha mente. Curiosamente, senti medo de como eles me receberiam quando nos encontrássemos, e tremi de leve. Eu não queria que me rejeitassem como algum tipo de monstro. Mas o maior problema era que eu mesma não sabia quem eu era, ou o que seria capaz de fazer. Com o espelhinho preso entre os dedos, fitei meus olhos negro e branco, imaginando um duelo eterno entre trevas e luz, dentro de mim. Algo surreal, assustador. Primitivamente, inumano...
Notas finais
Espero que estejam gostando, está sendo um prazer escrever pra vocês!
Kisses, by DroppingPieces!
:3
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