Notas iniciais
Oii povo. õ/ Mil perdões pelo meu sumiço, de verdade. Mas tive um grande bloqueio criativo, e depois quando a inspiração voltou com tudo, acabei preparando os rascunhos da temporada toda, deixando engatilhados os principais acontecimentos que deverão acontecer. Assim, a velocidade de postagem ficará mais equilibrada, principalmente com a temporada quatro totalmente definida. Espero que não tenham desistido de mim.

Victoria.

Depois da última noite, tudo o que eu queria era um pouco de normalidade em meio ao turbilhão de acontecimentos desagradáveis recentes. A reação de Matias não fora totalmente incompreensível, mas Deus, não havia o menor sentido em culpar-nos por algo além de nossas ações. Os conflitos presentes no interior da Fortaleza, pareceram cada vez maiores, assomando na escuridão como criaturas perversas. Acenando na minha direção, anunciando perigos inimagináveis para mim e meus amigos, justamente naquele momento, quando eu assumira a responsabilidade sobre eles. Era difícil aceitar que aquilo estava mais uma vez acontecendo. O clima de insegurança já era perturbador sem a ajuda de questões externas. As pessoas dali estavam ansiosas com a nossa chegada, a maioria feliz por sentirem-se protegidos por sobreviventes capazes, mas o restante, desconfiados de nossas intenções e capacidades. Não havia razão para achar aquilo absurdo. Creio que dificilmente seríamos aceitos de braços abertos, principalmente depois de uma verdadeira guerra civil naquele lugar. Troquei um olhar distraído com Diogo, enquanto esperava que os gêmeos terminassem de se arrumar. Ele sorriu, mas por algum motivo não consegui retribuir. Estava desanimada. Tenso, seu olhar tornou-se preocupado, e ele começou a aproximar-se, cobrindo a distância da sala em três passadas. Carolina chegou ao cômodo no mesmo instante, e por algum motivo meu namorado deteve-se, inseguro com a interrupção. Minha amiga deu de ombros, curiosa, e desfilou para fora do quarto, sem dizer palavra. Estávamos indo para o mesmo lugar, de qualquer modo. As crianças vieram em seguida, e rindo, abracei os dois pelos ombros, puxando-os para junto de mim.

No corredor, Fernanda sorriu ao nos ver. Seus cabelos estavam praticamente ardendo, vermelhos como nunca. Ela parecia mais velha, de um jeito bom. Madura, em suas roupas pretas. Era difícil acreditar que eu a conhecera aos quinze anos. Ela parecia tão mulher agora, tão independente. Uma mudança assustadora. Subitamente, lembrei do momento em que ela lutara com aquela criatura, no Porto da Barra. Aquela garota à minha frente, jamais seria abusada outra vez. Nenhum homem a tocaria de novo, se não fosse sua vontade. Um sentimento caloroso de missão cumprida aqueceu o meu peito. Sorri enquanto caminhamos mais uma vez, na direção dos elevadores e rampas. Acabei rindo ao avistar o meu pai. Seu corpo parecia ainda mais definido, naquelas roupas pretas. Coturnos amarrados bem apertados conferiam-lhe um aspecto militar que eu jamais vira, em casa. Ele sempre usava um terno, e roupas estritamente comerciais, sóbrias e arrojadas. Nada como aquilo. Havia um símbolo dourado em seu peito e em seu ombro. Nenhum outro sentinela usava tal adorno. Adereço para distinção de sua importância, imaginei. Do lado de fora, atraímos mais olhares do que eu esperaria, e enquanto as crianças caminhavam ao meu lado, senti um solavanco sacudir meus ossos ao ser agarrada. Com a respiração acelerada pelo susto, beijei os cabelos de Carlos, que já estava trocando um olhar animado com Vilma. Ultrajada pela sua aparição súbita, a menina virou a cara, e Dino riu. Revirei os olhos. Crianças...

Tomamos o caminho da escola, e percebi que ninguém estava desviando na direção do Quartel. Segundo o que me fora dito, a estrutura para os sentinelas ficava no interior dos Muros, enquanto o pátio central era usado para os treinos. Então, por que ninguém ia treinar? Com um sorriso, meu pai indicou Carlos com a cabeça, e apontou para a Escola. É claro. Estávamos tendo um momento em família.

– É o primeiro dia dos seus gêmeos, filha — comentou papai, e a forma como ele disse seus gêmeos fez arder o meu rosto. De certa forma, eles eram meus filhos naquele lugar. Mas tão adultos em sua infância... Tão independentes e capazes... Nunca pensei que fosse me sentir daquela forma. E isso mudava tudo. Eu simplesmente não podia continuar tratando aquelas crianças como primos pré-adolescentes. Teriam de haver mudanças. E depois de anos sem ninguém a quem obedecer, apesar da nossa relação, seria algo a ser desenvolvido. Deus... Onde eu estava com a cabeça quando deixei que esquecessem a infância? Por sorte, outros como Hugo e Otto achavam que aqueles dois continuavam tão infantis quanto qualquer outra criança. Agarrei-me a essa esperança, pois era tudo o que eu tinha. — Como estão, crianças?

– Essa coisa de Escola é um saco — murmurou Dino. Não serve pra nada. Mas se a Vicky acha que temos que ir... — Ele encolheu os ombros, revirando os olhos. — Só acho que isso não vai me ajudar a matar monstros. E eu só preciso disso pra sobreviver.

– O que o Dino quer dizer, é que ele tá com vergonha por ter ficado dois anos sem estudar, e ter que lembrar de tudo o que esqueceu — riu Vilma, e quase senti seu afeto pelo irmão. Ela agarrou o braço dele e o beijou no rosto. — Não se preocupa, maninho. Te ajudo. — Dino resmungou e afastou-a, mas todos estávamos sorrindo. Ele acabou rindo, também.

– Carlos também vai ajudá-los, conversamos sobre isso em casa. — Allan Frittoli era um homem surpreendente. Não pensei que fosse tão sensível. — Não é, Carlinhos?

– Claro, pai. — Meu irmão não parecia tão animado. — Se esses dois não me matarem até o fim da semana... — resmungou, mas só eu ouvi. Prendi o riso, em solidariedade. Devia ser difícil lidar com forasteiros.

Diogo estava muito quieto. Ao lado dele, Carolina e Fernanda estavam conversando sobre nosso treinamento, curiosas sobre como seria. É claro que ele devia ter uma noção muito melhor, tendo sido policial, mas não disse nada. Ele nem parecia estar ali. Ficava olhando para os lados, para o chão... Muito estranho. Principalmente considerando que ele evitava o meu olhar. Aquilo me deixou curiosa, mas eu não podia eclipsar o momento das crianças. Depois, talvez... Surpresa, sorri ao ver Dante vindo em nossa direção. Ele estava todo de amarelo, num tom mais claro. Até os botões de sua camisa eram dourados. As calças eram soltas e mais escuras, quase no tom dos seus cabelos platinados. As botas tinham um tom atrativo de mostarda. Ele parecia animado.

– Hey Vicky! Pessoal — acenou, brevemente. — Indo para a escola, crianças?

– Sim. Você não devia estar lá, monitor de música? — cobrou Vilma, emburrada. Provavelmente devia estar irritada por ter um rosto conhecido a menos, a quem se apegar.

– Helga me liberou para acompanhar o Hugo. Ele vai receber alta depois do almoço. Manuela também foi liberada pelo Reneé, então vamos buscá-lo — ele suspirou, sua expressão suave enquanto observava o bico de Dino e Vilma. — Não se preocupem, amanhã vou dar minha primeira aula. O violão que eles têm aqui é muito melhor que o meu. Já estou adorando. A gente se vê mais tarde, galera.

Ele correu na direção do hospital, deixando mais perguntas do que respostas no ar. Por que Ricardo não tinha sido liberado também? Pelo que eu sabia, ele estava atendendo na sua nova função de dentista, desde cedo. Era o primeiro da Fortaleza em muito tempo. Cobrando-me mentalmente, lembrei de Tânia. Tinha de visitá-la em breve. Na porta da Escola, havia um pequeno grupo de adultos esperando, enquanto as crianças eram recepcionadas por Helga, a Conselheira da Educação. Ela sorria para os pequenos, como se fossem seus. Algo na aparência volumosa daquela mulher a fazia mais maternal, e acho que esse tipo de imagem era muito clichê, embora pelo menos no que dizia respeito à ela, fizesse total sentido. Era o tipo de mulher com uma presença marcante. Sorriu ao ver-nos, e apertou minha mão quando entreguei os gêmeos. Vilma lançou um olhar mortificado em nossa direção, pelas costas de Helga. Ouvi a risada de Carolina, e respirei fundo. Os dois entraram na escola ao lado de Carlos, que estava relaxado em seu ambiente. Meu irmão amadurecera, também. Embora ainda parecesse com uma criança, e lembrasse bem o menino baixinho que eu amava tanto.

– Não se preocupe, minha jovem. Suas crianças ficarão bem. Já que assumiu a responsabilidade por eles ao chegar aqui, vou me referir a você no que for relacionado à educação deles — avisou-me. — Além disso, deve se acostumar com a ideia de chamá-los de filhos. É bom para que eles sintam a estabilidade atual do seu grupo. Você e seu... — ela esperou.

– Namorado — sorri.

– Ótimo. Você e seu namorado devem ser uma referência para estes jovens. Lembre-se. — Por quê diabos Carolina estava rindo? Ela achava graça daquela responsabilidade toda? Até Fernanda estava vermelha, se segurando. Ela é quem devia estar ali, já que se pegava com o Tiago, quando vivo. Deus... O maluco tinha tentado me levar junto com ele quando fora infectado! E agora eu era a mãe dos seus irmãos. Entendi o humor de Diogo, que parecia dois tons abaixo de sua cor natural. Ele trocou um aceno solene com Helga, que nos desejou um bom dia e retirou-se para o interior do prédio da Escola. Ótimo. Ele estava apavorado com a perspectiva de ter filhos. E se não fosse algo que ele desejasse? Deus... Ao menos Nanda já tinha três bebês. Eu não podia culpá-la por deixar os gêmeos comigo. Madrinha era o bastante para ela, na atual conjuntura.

Seguimos em direção ao Quartel logo depois. Os olhares constantes em nossa direção diminuíram, conforme cada cidadão corria para atender aos próprios deveres. Acho que não deveria ter ficado tão surpresa quando vi a parte interior dos Muros. Era uma estrutura muito mais complexa e densa do que eu teria imaginado. Escadas de pedra simples lembravam muito o interior de fortificações medievais, levando-nos até uma espécie de saguão metálico, com estruturas para suporte sustentando a construção daquele esconderijo eficiente. Conforme caminhávamos, notei as curvas constantes do trajeto, que se aguçavam à medida em que íamos contornando toda a Fortaleza por dentro de seus muros. Não existiam muitos sentinelas por ali. Não tantos quanto eu teria suposto, pelos primeiros dias. Alguns treinavam batendo em sacos, outros atiravam com bestas e até arcos profissionais. Esperto. A ausência de armas de fogo fez com que eu questionasse onde estariam as nossas. Apreendidas, ok. Mas onde? Logo notamos o escritório do Conselheiro. Uma sala enorme com paredes de vidro transparente, com uma mesa comprida e habilmente pintada de negro. Ao todo, dez cadeiras com estofado vermelho fechavam-se em torno do objeto, que além de uma parede com monitores transmitindo as imagens das câmeras de segurança, era tudo o que ditava o propósito daquele lugar. Meu pai tomou a frente, e como ainda não sabíamos o que fazer, todos o seguimos. Com um gesto, ele fez com que Carolina, Fernanda, Arantes, Diogo e eu sentássemos, e juntos aguardamos enquanto quatro homens entravam na sala, os rostos tão neutros quanto suas roupas. Um deles parecia britânico, com cabelos loiros cortados em estilo militar, olhos azuis e orelhas ligeiramente pontudas. Era bonitinho, de um jeito totalmente incomum. Sua barba estava aparada, mas não ausente. Seu corpo era forte como o de um guarda-costas, mas algo em sua atitude fazia parecer que a atitude séria era mera formalidade. Outro deles era bem mais magro, e sua pele era amarelada como se ele tivesse algum tipo de doença. Os cabelos longos e negros eram gordurosos, mas lisos de maneira enervante. O olhar era inexpressivo, como uma sombra. O terceiro a entrar era negro, com olhos cor de caramelo, quase amarelados. Não chegava a ser tão alto quanto o loiro, mas era tão forte quanto. Não encontrei nenhuma amizade no olhar que dirigiu a nós, sério. Por último, Matias juntou-se a nós, sentando-se sem a menor cerimônia, bufando enquanto sua expressão corporal gritava que não queria estar ali. Muito menos na presença de Carolina.

– Bem, um ótimo dia para todos. — Meu pai começou a falar, e seu tom era cansado. Sabia que ele estava pensando em Valentina, ao ver a expressão de Matias. — Eu quis convidá-los ao meu gabinete, para explicar que devido ao ocorrido com a senhorita Cortes, amanhã todos estarão de folga, para prestar suas últimas homenagens à nossa amiga querida. Quero todos presentes no sepultamento. Além disso, eu gostaria de comunicar que com a morte de Valentina, minha filha Victoria vai assumir seu lugar como Secretária de Segurança, me auxiliando na proteção da Fortaleza.

– Isso é ridículo, Allan. — Matias resmungou. Qualquer um aqui, é mais competente do que uma menina que chegou ontem, literalmente. Minha irmã desempenhou essa função por meses. Não pode dar o cargo para qualquer um.

– Concordo com o garoto, Frittoli. É arriscado. — Acrescentou o de cabelos sebosos, e sua voz era rouca como a de um fumante assíduo. No entanto, seu olhar era gentil. — Acredito que Guilherme seria a escolha ideal. Ele é durão, mas sabe lidar com as pessoas. É o cara certo para cuidar do povo. Não vai ser enganado, e nem corrompido.

O cara loiro parecia estar distraído olhando para a janela atrás da cadeira de meu pai, até então. Ao ouvir a menção de seu nome, ergueu o olhar e percebeu a pauta da conversa. Com um sorriso tímido, pareceu entender pela primeira vez de que se tratava o assunto, e enrubesceu. Acenou negativamente com a cabeça, revirando os olhos ao encarar meu pai, que também sorriu. Matias bufou e o cara negro continuou calado, apenas esperando que aquela chateação toda acabasse, e ele pudesse voltar ao trabalho. Eu, apesar disso, estava tendo sérios problemas com aquela decisão. Era como se eu não tivesse voz. Tudo bem, seria ótimo ocupar uma posição de poder, e Secretária era bom o bastante, como Hugo ou Cecília. Mesmo assim, eu não queria que as pessoas dali se voltassem contra nós, por sermos privilegiados. Como meu pai não entendia isso? Ele notou meu olhar preocupado, e ignorou-me ruidosamente.

– Cavalheiros, agradeço a preocupação de vocês. Mas de acordo com o grupo impressionante de sobreviventes que chegaram recentemente a esta ilha, minha filha os liderou por mais de dois anos lá fora. Já tiveram muitos mais em seus números, como pudemos ver na cerimônia do Memorial. Eles cometeram seus erros, e puderam corrigi-los na prática. Sabem como é estar sempre a um passo dos monstros, e ainda assim se mantiveram vivos e unidos. Sem comida o suficiente, sem água o suficiente. Nada parecido com o que vivemos aqui. Além disso, Victoria é uma transgênica. E ela tem talentos úteis aos nossos objetivos. Me perdoe Matias, mas não vejo ninguém melhor para honrar sua irmã. Nem mesmo você. — Papai deu de ombros, voltando seu olhar na minha direção. Nanda e Carolina estavam nervosas, aguardando minha reação. Diogo e Arantes, encaravam os outros. Deuses... — Pode fazer uma demonstração, querida?

– O quê? Ah, ok. — Demonstrar? Cara, eu queria socar aquele velho! Droga, os caras iriam acabar com minha raça, por culpa dele! Matias já tinha suas razões loucas para colocar a culpa da morte de sua irmã sobre nós, agora iria criar caso com meu novo cargo, certamente. Esses Nove precisavam de uma aula urgente de manipulação das massas. Provocar raiva não me parecia o mais inteligente. Irritada, levantei-me e flexionei os ombros, preparando-me. Então, olhando para as expressões céticas nos rostos daqueles caras, torci o objeto de madeira em minhas mãos, agarrando-o como se fosse feito de isopor. O som da madeira estalando foi praticamente o mesmo. A quebrei inteira, jogando o monte inútil de lascas no chão, indiferente. Então cruzei os braços, e respirei fundo para controlar o ímpeto. Olhei meu reflexo nas paredes de vidro, e meu reflexo pareceu olhar de volta, durante um mínimo segundo. Um arrepio percorreu minha espinha, e quase pude sentir a persona de Nora nas bordas da minha mente. Lembrei-me do conflito no porto, quando ela quase havia retornado. Em hipótese alguma ela poderia surgir ali, ainda mais caso eu ocupasse alguma posição de poder. Seria insano. — Por favor, digam se estão satisfeitos. Não faço questão nenhuma de ser Secretária de coisa alguma. Sinceramente, só quero ajudar e manter minha gente a salvo. Não me importo se tiver que lavar o chão pra isso, mas acho que seria um desperdício. Ainda que pareça favoritismo.

– Muito bem dito, garota. Vou gostar de ver do que você é capaz — o cara negro rugiu, e sua voz era como o soar de um tambor. Bela, mas assustadora. — Sou o preparador físico, Abel. Vou colocar alguns músculos nesses corpinhos magros de vocês, embora você não pareça estar precisando. Você tem o meu voto. Se esforce, loirinha. Relaxando na cadeira, ele voltou-se para o meu pai. — Posso sair daqui agora? — Autorizado com um aceno, Abel levantou-se e saiu sem se despedir. Para ele, o assunto encerrara-se por si mesmo.

– Bem, não que minha opinião tenha peso, mas eu estou de acordo. Não era minha intenção pedir pelo cargo, também — concordou o loiro, sorrindo. — Sejam bem vindos, vocês. E não se preocupem com o humor de Matias. Quando ele perceber que está sendo idiota, vai voltar ao normal. Até logo, senhor Frittoli.

– Até mais, Guilherme. Bom trabalho. — Meu pai sorriu com sinceridade, e percebi que se eu não estivesse ali, o tal Guilherme seria mesmo a sua escolha natural. Não sei como me senti com aquela conclusão, mas preferi não aprofundar meus sentimentos. — Alguma dúvida, Matias? Caíque?

Nenhum dos dois manifestou-se. Ambos ergueram-se da mesa, e cumprimentaram-nos de forma silenciosa. Retiraram-se da sala de vidro, e pude vê-los pelas costas, enquanto afastavam-se na direção da entrada para o pátio central. Todos soltamos o ar mais livremente, quando ficamos sozinhos. Não imaginei ser promovida antes do primeiro dia de trabalho. Aquilo era muito absurdo. Diogo tocou na minha mão, e notei que ainda estava de pé encarando a saída. Definitivamente eu não estava em minha melhor performance.

– Antes que eu libere vocês, preciso concluir uma pequena tarefa. Não obstante, pedirei que Arantes leve Carolina até Abel. Pode reassumir seu posto como nosso sargento, meu amigo. Cuide para integrar a minha sobrinha. Diogo já tem treinamento, então trabalhará comigo, assim como Nanda, que não precisa de nada além de suas unhas. — Arantes simplesmente saiu, e vi que Carol não ficou nada contente por ser afastada da fofoca. É claro que ela saberia de tudo por mim, então ignorei sua cara de poucos amigos. — Quanto a vocês... Vamos interrogar Irma.

O grito dela encheu a sala. Irma curvou-se sobre a mesa metálica da sala de interrogatório, respirando com força enquanto Nanda afastava-se dela mais uma vez. Impassíveis, Diogo e meu pai fitavam-na como se nada vissem. E aquilo me dava nos nervos. A mulher estava gritando há meia hora que seu correspondente fora banido da ilha junto com os demais seguidores de Orlando. Ela não o vira desde que fora presa, e não tinha ninguém que pudesse apontar como assassino de Valentina ou responsável pela divulgação de mensagens de ódio à pesquisa de Faye. Ainda assim, o Conselheiro da Defesa era implacável. E Fernanda parecia indiferente, ao espetar a criminosa com suas unhas, provocando as reações mais dolorosas possíveis. Questionei internamente se aquilo era mesmo necessário. Mas segundo Diogo, ela quebraria em algum momento. Então, ou demonstraria extrema sinceridade e vulnerabilidade, ou mostraria suas verdadeiras cores, com raiva e violência. Bem, estav a demorando um pouco demais para mim.

– Eu já disse, não posso ajudar — tossiu, a pele brilhando de suor. — Não vi Brenda desde que retornei. — Essa era uma estagiária de Keiko. Meu pai a banira. — Juro, senhor. Por favor, não a mande ferir-me outra vez! — Papai olhou direto para Nanda, que entendeu o recado. Sem prazer ou compaixão no olhar, minha amiga espetou a mulher outra vez, que gritou. — Oh, Deus! Pare! Pare, sua prostituta ruiva! Juro que se encostar em mim de novo, vou partir sua cabeça em duas!

– E aí está — murmurou Diogo, sorrindo. — Essa é a Irma que não conhecemos, mas já amamos.

– Vocês se acham muito superiores por estarem agredindo uma mulher amarrada, não é? Pois bem, vamos ver por quanto tempo vão continuar rindo, quando as ruas estiverem pintadas de vermelho. Quando a pessoa que matou sua secretária conseguir o que precisa, esse lugar vai ser só uma lembrança. E eu vou sair daqui, enquanto vocês vão estar implorando por suas vidas! Ela riu, meio louca, meio lúcida. Pode me matar agora, garota! Ou arrancar cada dedo das minhas mãos e pés. Não vou dizer o que sei. Não vou estragar a única chance que tenho de sair daqui com vida.

– Se nos disser a verdade, te deixamos ir embora. Mas nunca mais poderá voltar à Fortaleza. — Meu pai curvou-se sobre a mesa. — Agora, diga. Quem te pediu para guardar segredo?

Irma aproximou o rosto lentamente de meu pai, e pareceu bem menos no controle de si mesma, do que eu a vira antes, quando a capturamos no continente. Algo havia acontecido a ela naquele tempo em que fora levada à delegacia. Não soube dizer exatamente o quê. Ela não me parecera uma mulher má antes, apenas desesperada. Segundo Diogo, ela era a mais civilizada entre todos os mercenários. E alguém comum, até gentil. Por algum motivo, duvidei que ela fosse capaz de agir daquela forma em condições normais. Não poderíamos considerar aquele depoimento. Haviam mexido com a cabeça dela.

– Você. Você, Allan Frittoli. Você me contratou pra matar sua namorada cientista. Você enganou a Silvia. Você. Você. VOCÊ!

Ela cuspiu no rosto do meu pai, dando-lhe uma cabeçada com força, sem aviso. Ele caiu para trás na própria cadeira, segurando o nariz enquanto sangrava de forma abundante. Irma então deu uma cotovelada em Nanda, e atirou-se sobre meu pai, tentando chutá-lo. Diogo a derrubou, e a mulher debateu-se, sem controle sobre os próprios movimentos. Era o pior ataque epilético do planeta. Sua força foi amplificada pela adrenalina e loucura, e a algema plástica que a continha abriu-se, totalmente ensanguentada, com pequenos pedaços de pele dos pulsos de Irma. Alcancei-a quando ela conseguiu sentar-se sobre Diogo, e a puxei pelo pescoço numa chave de braço, tomando cuidado para não utilizar força além do normal. Não queria feri-la, apenas prendê-la de novo. A ex-militar aproveitou minha hesitação, e pisou no meu pé, com tanta força que roubou-me o ar. Arfando, soltei-a, cega pela dor. Seu joelho encontrou meu estômago, e caí dominada pela sua violência. Não tive noção do quão descontrolada ela estava, e mal pude conter meu horror quando Nanda a agarrou pelas costas. Sua unhas letais envolveram o pescoço da minha agressora, cortando-a com o aperto. O corpo de Irma ainda sofreu dois espasmos demorados, antes de cair, sem vida. Assustada com o próprio ato, Nanda correu até mim, abraçando-me. Tremi em antecipação ao seu toque, e seu rosto foi tomado por uma expressão magoada. Pedi desculpas silenciosamente, e abracei-a, confortando-a. Guilherme entrou na sala, abaixando-se ao lado de meu pai. Logo um outro sentinela socorreu a nós duas, enquanto Diogo levantava-se, ainda tonto com a velocidade dos acontecimentos. Um terceiro soldado ainda verificou o corpo da mercenária, mas balançou a cabeça, em negativa. Nanda secou seus olhos, e suas unhas estavam em comprimento normal, ainda que negras como se ela tivesse usado esmalte. Tive pena dela. Tinha certeza de que minha amiga jamais mataria alguém facilmente dominada, se estivesse em pleno controle de si mesma.

Tremi diante do pensamento que inundou os recantos mais sombrios da minha mente. Afinal, eu sabia o que era ter um lado de si mesmo, fora de controle. Sabia o que era não ter o controle de seus atos. E se meu sangue trouxera Fernanda de volta à vida, de uma forma inexplicável, quem poderia dizer quais traços meus não teriam retornado, com ela?

Notas finais
É isso, pessoal! Compensando meu sumiço, o próximo deve vir no máximo amanhã. Talvez, eu poste ainda nessa madrugada. Beijão! Ah, e deixem review! Kisses by DroppingPieces!