Brasil. Século XIX. 1883.

¾ Senhorita, Acorde! Senhorita, por obséquio! Desperte!

Isabella abriu os olhos, mas a imagem à sua frente ainda era distorcida. Quem era aquele homem? Por um momento estremeceu de medo. Depois o rosto do rapaz já estava mais focalizado e então ela suspirou aliviada. Era Jacob, o rapaz que conhecera no navio. Estava tudo bem.

¾ Perdão, Jacob. – ela falou se ajeitando na poltrona. Já o chamava pelo primeiro nome fazia uns dias, desde que percebera o primeiro traço de intimidade entre eles, pediu para que agissem sem formalidades e ele aceitou, porém, nunca conseguiu dizer o nome dela sem o “senhorita” antes. – O que aconteceu?

¾ Deste-me um baita susto, senhorita Isabella. – ele passou a mão na testa enxugando o suor e sorriu. – Creio que estava tendo um pesadelo.

Isabella olhou para ele. Apesar da barba, conseguia se ver um belo rosto. O nariz afilado, olhos gentis. Castanhos. Agora ela tinha quase certeza que eram castanhos, mas às vezes ao sol, pareciam verdes. Ele parecia mais velho com aquela barba, mas dissera ter 21 anos de idade. Era magro e alto. Havia se formado em direito em Coimbra e agora estava voltando à sua terra natal para se casar. Sua sortuda noiva o esperava em Salvador.

Isabella havia conhecido Jacob um pouco antes de embarcar no segundo e ultimo navio para o Brasil. Ele a tinha defendido de bêbados que a importunavam no porto. Ela estava desacompanhada e carregava uma mala média. Jacob e Isabella lancharam juntos e, tentando parecer uma criança inocente e indefesa, Isabella rapidamente tentou uma jogada. Pediu que Jacob a acompanhasse durante a viagem, que não só a acompanhasse, mas que ficasse em seu quarto. Assim, ela estaria livre de homens “malvados”.

Podia-se ver um brilho nos olhos de Jacob com a proposta, apesar dele ter ficado ligeiramente corado, respondeu: Seria uma honra, mademoiselle. E durante aqueles dias, Isabella confirmou o que já havia imaginado: Jacob foi extremamente respeitador e cavalheiro todo o tempo. Tratou-a como um verdadeiro gentleman deve tratar uma donzela. Ela sentiu-se uma criminosa por enganá-lo, porém o que mais poderia fazer? Com toda certeza ele nem a cumprimentaria se soubesse de toda a verdade. Nem ele nem ninguém jamais saberia. Ela levaria isso para o túmulo.

¾ Sonhos ruins. – ela sorriu sem graça.

¾ Deve ser saudade de casa. – ele se pegou olhando para o decote de Isabella onde um seio quase saltava conforme ela respirava.

Isabella nem se deu conta do olhar discreto de Jacob, olhava para a paisagem que já estava enjoada, pela janela, a imensidão do mar. Mas sabia o que causava nele. Ela sabia o que causava nos homens em geral e isso era apenas alguns dos fantasmas que a assombravam.