Quebrando as correntes do destino
27 Invasora
Notas iniciais
─ Como?
Isabella perguntou ao se dar conta de que Mike fazia alguma pergunta.
─ Estava a lhe perguntar se gostarias de ir ao teatro, soube de uma peça que está sendo representada na corte.
─ Pode ser, primo...
─ Por favor, não me chames de primo. Isso soa como algo que nos afasta.
Isabella finalmente o encarou.
─ Como deveria chama-lo então senhor?
─ Apenas Mike. É como todos me chamam.
─ Creio não ser apropriado. Mas posso chama-lo de senhor Mike, se assim o desejar.
Ele suspirou.
─ Soa um pouco melhor. Não há necessidades de tantas formalidades entre nós já que...
─ Senhor Mike, esta é a primeira vez que nos vemos, creio ainda não ser oportuno falar de certos assuntos sem a presença de meus pais.
Mike tentou avaliar a expressão de Isabella. Ela pareceu estar nervosa. Talvez preocupada com algo. Seguiu seu olhar. Ia direto para o piano... ou para o pianista? Mike afugentou qualquer pensamento do tipo, sabia que tinha uma cisma com Edward por saber que sua irmã tinha um apreço um tanto exagerado por ele.
A valsa de repente parou. Edward se levantou, foi até dona Esme, cumprimentou a todos e saiu. Isabella soltou-se dos braços de Mike e precisou conter suas pernas para não ir correndo atrás de Edward.
─ Cavalheiros, hora de falar de negócios. Não vamos importunar as damas com nossos assuntos entediantes. – o comendador sorriu e foi com o conselheiro Newton e o filho para o escritório.
─ Hora da fumaça! – Jéssica falou rindo.
─ Se não se importa, prima Jéssica, gostaria de me recolher.
─ Mas já dona Esme?
─ Sim, acordo muito cedo, mas Isabella poderá lhe fazer companhia, não é mesmo minha filha?
Isabella olhou para a mãe e suspirou.
─ Claro mamãe, vá se deitar, não se preocupe, ficarei com a prima Jéssica. – ela deu um sorriso amarelo. – sua benção.
Após dar a benção à Isabella, dona Esme foi para seu quarto, deixando as duas a sós no salão. Jéssica se aproximou de um candelabro sobre uma bancada e acendeu sua cigarrete.
─ Seu marido não se incomoda que fumes?
─ Meu marido – Jéssica tragou o cigarro – Nunca está em casa para se incomodar com algo, minha querida. – falou soltando a fumaça. – Tens sorte por ter um noivo como meu irmão. Ele será um bom marido.
Isabella estremeceu com essas palavras, não conseguia nem se imaginar nos braços de outro homem. Edward apagara seu passado e também selara seu futuro.
─ Mas ele ainda precisa assinar o contrato...
─ Rá! – Jéssica falou surpreendendo-a – O que achas que foram fazer no escritório? Lógico, além de fumar charuto e tomar uísque, obviamente.
─ Ma-mas nós nem conversamos! Não podem resolver as coisas desta maneira!
─ Não queres o noivado? – Jéssica apertou os olhos, jogando a fumaça de lado.
Isabella estava nitidamente nervosa. Mas não queria discutir isso com Jéssica.
─ Não é isso. É que eu... eu achei que seu irmão fosse querer conversar, me conhecer melhor primeiro.
─ Querida, seu noivado foi arranjado antes mesmo de você nascer, fique sabendo. E por sua família, os anos que passara na Europa, sua... beleza também, por que meu irmão teria dúvidas em levar esse noivado adiante?
Isabella engoliu seco. Edward tinha razão, ele iria assinar e dar início ao noivado. Ela precisava agir rápido, ou tudo estaria perdido. Talvez se... Isabella teve uma ideia, uma ideia insana mas que no fim poderia dar certo. Tinha que falar com Edward. Falaria com ele hoje à noite quando fosse em seu quarto. Mesmo com o perigo de seu pai já estar em casa ela se arriscaria.
Alice entrou no salão com um dos filhos de Jéssica no colo. Era a mais nova, a menina era linda, loiríssima e muito branca. Lembrava muito a mãe.
─ Sinhá, desculpa, Kristen não quer dormir.
Jéssica apagou o cigarro com impaciência. Isabella estranhou os nomes estrangeiros dos filhos dela, porém lembrou-se de que o pai vivia na América, os nomes devem ter vindo de lá.
Jéssica arrancou a menina sem o menor carinho do colo de Alice e foi resmungando com a criança de volta para o quarto.
─ Ela não parece ter muita paciência com crianças.
─ Com o mais velho ela é mais carinhosa. Mas é como mainha dizia, tem mulheres que não nasceram pra ser mães.
Isabella olhou para Alice e gostou de ver que ela sabia que com ela, ela poderia falar mais abertamente. Devia ser mesmo assim que uma grande amizade nascia, bastava uma sementinha, se o solo fosse bom, ela germinava na hora.
─ Venha, Alice. Não és mais criada da senhora Jéssica. Vamos para meu quarto. Preciso de sua ajuda esta noite.
Isabella não deu muitas explicações do por que, para Alice, mas ela aceitou fazer o que Isabella mandara. Alice iria ficar em seu quarto e trancá-lo por dentro para que ninguém entrasse, o quarto de Isabella só tinha tranca por dentro da porta, e só abriria ao sinal de que era ela que estava de volta. Com o seu capuz negro, saiu na noite fria em direção ao casebre de Edward. Nem precisou de lamparina, já conhecia o caminho de olhos vendados.
Ao se aproximar do casebre, parou e se escondeu atrás de uma das árvores. Seu coração acelerou. Não podia acreditar no que estava vendo. Parada à porta de Edward estava Jéssica. Isabella viu quando Edward abriu a porta e olhou para os lados. Isabella estava bem escondida no meio da escuridão, ele não poderia vê-la ali. Jéssica segurava um lampião e estava ainda com o mesmo vestido. Os cabelos soltos com seus cachos loiros caindo até quase a cintura.
Isabella estava quase chorando de raiva, de ciúme, eram tantos sentimentos misturados que ela não conseguia suportar. Viu quando Edward teve de quase empurrar Jéssica que se jogava contra ele e passava a mão, que não estava segurando o lampião, por todo o corpo dele. Ele estava sem camisa, apenas com a calça de brim, de cor marfim, embolada na cintura por cima do cadarço.
Por fim, Edward disse alguma coisa para Jéssica que ela deu um passo atrás. De onde Isabella estava, não conseguia ouvir o que eles diziam. Edward bateu a porta com tanta força que o baque oco chegou até onde Isabella estava escondida. Jéssica demorou para sair dali. Ficou um bom tempo parada, talvez na esperança de que ele mudasse de ideia. Isabella mordia os lábios com tanta força que começou a sentir gosto de sangue.
Quando finalmente Jéssica partiu, Isabella pegou folego para ir até a porta de Edward. Certificou-se de que Jéssica tinha mesmo ido embora, de onde estava agora, podia ver a luz de seu lampião já próxima a casa grande. Esperou por um bom tempo, talvez Edward já tivesse até adormecido agora. Tirou a chave de dentro do decote, Edward tinha lhe dado uma chave no primeiro dia em que ficaram juntos, enfiou na fechadura e girou. Havia uma luz de vela fraca em seu quarto, mas ele não estava lá.
Fale com o autor