Quebrando O Gelo

4 O Jeito Peculiar de Berk


Notas iniciais
Boa leitura!

Segunda-feira, 14 de Outubro

8:00am


Soluço chegou à escola parecendo um zumbi – e não apenas por conta dos hematomas espalhados pelo corpo após o treino de sábado. A verdade era que ele não pregara o olho a noite toda.

As palavras de Melequento ecoavam em sua mente sem trégua, misturando-se à conversa que tivera com Stoico na noite de sábado. Aquilo só piorava a sensação de cansaço e frustração.


Ele chegara tarde em casa. Bem tarde.

Depois do treino, ficou na praia. Precisava processar tudo o que aconteceu – a brutalidade dos companheiros de time, os olhares que o tratavam como um intruso e, acima de tudo, as palavras de Melequento. Perdeu a noção do tempo e só percebeu quando o céu começou a escurecer.

Ao entrar em casa, fez de tudo para não chamar atenção, fechando a porta da cozinha sem fazer barulho. Mas, para sua infelicidade, Stoico já o esperava à mesa de jantar.

— Onde você estava? — O tom de seu pai era duro, mas não precisava ser. O olhar que ele lhe lançou já deixava claro que estava furioso. — Achou que ia entrar de fininho? Que eu não perceberia que você sumiu?

— Eu não sumi, pai. — Soluço tentou parecer indiferente. — Estava no treino.

— O treino acabou faz mais de três horas! — Stoico se inclinou sobre a mesa, sua voz ecoando pela cozinha. — E esses machucados? Você tomou uma surra?

“Tecnicamente, sim”. Mas Soluço não queria falar sobre isso. Não queria dar a Stoico mais um motivo para se decepcionar com ele.

— É hóquei, pai. O jogo é violento mesmo.

Stoico o estudou em silêncio, os olhos estreitados. Não compraria aquela desculpa tão facilmente.

Mais que isso, seus olhos deixavam claro que ele sabia. Sabia de tudo.

— Dagur te contou.

Não era uma pergunta. Claro que Dagur contaria. Ele quase foi trucidado pelo próprio time -– seria ingênuo achar que aquilo passaria despercebido.

— Ótimo! — Soluço ergueu as mãos em fingida animação. — Isso significa que podemos pular essa conversa.

— Não, não significa!

O punho de Stoico bateu na mesa com força, fazendo a madeira maciça estremecer. Soluço ficou imóvel.

— Você não vai sair daqui até me dizer por que não revidou. Por que deixou que fizessem isso com você?!

Por um momento, Soluço apenas encarou o pai, tentando processar o que ele acabara de dizer.

— O quê? — A incredulidade transbordava em sua voz. — Você acha que eu deixei que isso acontecesse?!

— Sim! — Stoico se levantou, sua presença se tornando ainda mais imponente. — Você devia ter se imposto! Ter revidado! Se tivesse mostrado quem manda, isso não teria acontecido!

Se impor? Revidar? Como?!

Soluço soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.

— Talvez isso te surpreenda, Prefeito Haddock, mas nem todo mundo é forte e destemido como você. Nem todos têm o necessário para revidar.

Ele passou pelo pai antes que este pudesse responder, subindo as escadas de dois em dois degraus. Ouviu Stoico chamá-lo, mandando que parasse, que o encarasse, mas ignorou. Só queria ficar sozinho.

Trancou a porta atrás de si e procurou o único amigo que não o julgaria: Banguela.


Como Stoico podia dizer aquelas coisas? Como podia sequer imaginar que ele, magricela e fraco, tivesse alguma chance contra um time inteiro de brutamontes?!

O domingo inteiro passou sem que trocassem uma palavra. E naquela manhã, ambos saíram sem tomar café. Resolver conflitos claramente não era algo que corria no sangue da família Haddock.

Assim que chegou à escola, foi recebido com uma voz irritante e desnecessariamente animada para aquela hora do dia.

— O fracasso estampado na sua cara melhora muito o meu dia, Soluço.

Ele nem precisou olhar para saber quem era.

— Não ‘tô no clima, Melequento. Vai atormentar outra pessoa.

Melequento abriu a boca para responder, mas Soluço já tinha passado por ele.

Se achou que isso o faria se sentir melhor, estava enganado.

O olhar de compaixão de Perna-de-Peixe e o de pena de Bocão só tornaram tudo pior.

— Soluço…

— Agora não, Perna, por favor.

Seu amigo respeitou. Pelo menos alguém entendia.

Soluço não queria consolo. Não queria piedade. Não queria atenção.

Naquele momento, ele só queria desaparecer.


8:20am


Soluço mentiria se dissesse que prestava atenção na aula.

Ele captava apenas fragmentos do que acontecia ao redor: um burburinho sobre a aluna nova… risadinhas abafadas… Melequento enchendo o saco da garota… Perna-de-Peixe tentando defendê-la…

Nada disso importava. Sua mente estava um caos. Sua vida estava um caos. E ele não fazia ideia de como consertar aquilo.

Mas sabia de uma coisa: iria até o fim.

Ele não sairia do time. Não importava o que lhe dissessem. Ele prometeu que nunca desistiria. E essa promessa ele pretendia manter.

Foi então que sentiu um olhar sobre si.

Virou lentamente e se deparou com um par de olhos azuis fixos nele.

Congelou.

Aquela era, sem dúvidas, a aluna nova. Mas… como ele não a viu entrar? Como não percebeu quando ela se sentou ali? Como raios ele não prestou atenção naquela garota?!

Ele piscou algumas vezes, tentando se situar, mas foi interrompido por uma voz familiar.

— Soluço, está tudo bem?

Desviou os olhos da novata e encontrou Heather o observando com uma expressão curiosa.

— Eu? ‘Tô, ‘tô sim. — Disse rápido demais. — E você?

Ela riu.

E ele odiou.

Ele realmente odiou.


12:00pm


Quando a hora do almoço chegou, Soluço, Perna-de-Peixe e Heather se sentaram juntos em um dos bancos do pátio.

Só quando os amigos começaram a desembalar seus matpakker¹ é que Soluço percebeu que não trouxera nada para comer. Saiu tão apressado de casa que sequer pensou em preparar seu almoço.

— Eita, ferro… Pessoal, vou na loja de conveniência² comprar alguma coisa, beleza? Não demoro.

E de fato, ele não demorou. A fome apertava — afinal, não comera nada o dia todo — então pegou o que pôde e voltou o mais rápido possível. O que ele não esperava, no entanto, era encontrar uma nova integrante no grupo.

— Hã… Oi. — Ele cumprimentou, um pouco desconcertado ao ver a novata sentada ali.

— Convidamos a Astrid para almoçar com a gente — explicou Heather, com um tom ligeiramente… suspeito.

— Ah, claro. — Ele balançou a cabeça, tentando parecer despreocupado. — Seja bem-vinda, Astrid.

Astrid. Então esse era o nome dela. Combinava perfeitamente com sua aparência e postura.

— Mas e então? — ela começou, virando-se para Heather. — Você não é daqui, né?

— O que te faz pensar isso?

— Bom, porque seu nome é Heather e não algo como… sei lá, Osso-de-Lula.

Os outros riram. Ela claramente ainda não entendia o jeito peculiar de Berk.

— Só para constar, Astrid — interveio Perna-de-Peixe — lulas não têm ossos.

Ela lançou um olhar longo e significativo para ele antes de responder:

— E peixes também não têm pernas, Perna-de-Peixe.

Ele piscou, surpreso, e depois sorriu.

— Touché.

Eles continuaram rindo, mas a conversa foi interrompida quando um braço surgiu do nada e se apoiou no ombro da novata.

— O que você ‘tá fazendo aqui com esses fracassados, Astrid? — Melequento perguntou, em seu tom habitual de provocação. Mas, num esforço para evitar confusão, acrescentou rapidamente: — Menos você, Heather.

— Dá um tempo, Melequento! — Soluço e Perna-de-Peixe falaram em uníssono.

— Ui, o sincronismo dos Solerna segue firme e forte — debochou ele.

Antes que qualquer um pudesse responder, Astrid se levantou e, sem aviso, socou Melequento nas costelas com uma força surpreendente.

— Eu já estou cansada de você, cara! — disse, a irritação evidente no olhar. — Será que você não tem um pingo de noção? Nem senso de ridículo? E que diabos de nome é Melequento?!

Por um segundo, Soluço apenas piscou, surpreso. Mas assim que a ficha caiu, ele explodiu em gargalhadas. Céus… Quem diria que aquela loirinha tinha tanta… tanta… bem, ele nem sabia ao certo qual palavra usar. Selvageria? Agressividade? Ferocidade? Uma coisa era certa: ela daria uma ótima jogadora de hóquei.

— Só pra constar — uma voz soou atrás deles — o nome dele não é Melequento de verdade. É Gary³.

— É — concordou outra. — Esse é só o apelido que ele ganhou depois do fiasco no coral de Snoggletog⁴ de 2015.

Astrid franziu a testa.

– Espera, vocês dois são os caras que me mandaram ‘pro lugar errado hoje de manhã!

– É, a gente costuma fazer isso com os novatos. Nada pessoal, minha amiga platinada. – Disse Cabeçaquente.

– Eu sou Cabeçadura Thorston, e essa é a minha irmã, Cabeçaquente. Somos gêmeos, caso não tenha notado a semelhança.

Ela pareceu meio desconcertada por ter achado que Cabeçaquente era um garoto – um engano bem comum, na verdade –, então se apressou em mudar o rumo da conversa.

— O que houve nesse feriado? Aliás… O que é Snoggletog?

— Um feriado antigo que Berk ainda comemora, mesmo que ninguém saiba bem por quê — explicou Cabeçaquente. — Agora, sobre o que aconteceu… Quer contar, mano?

— Com certeza. — O irmão pigarreou teatralmente, mas foi interrompido por Melequento.

— Nem se atrevam!

— Ah, qual é… O que você vai fazer, hã?

— Bom… — Melequento tentou soar ameaçador. — O Dente de Anzol vai dar um passeio pela sua cama.

A Thorston apenas revirou os olhos.

— Por favor. Todo mundo sabe que o Dente de Anzol não dura um minuto fora da caixa. O frio de Berk faria ele entrar em brumação⁵ rapidinho. Conta logo, mano!

E assim, entre risos, Cabeçadura narrou o evento histórico:

— Então, estávamos lá, no coral infantil de Berk, no Snoggletog de 2015. O Melequento ‘tava muito gripado, mas insistiu em participar porque seria o solista principal. Todo mundo disse pra ele ficar em casa, mas ele não quis. E aí, na hora H, no momento de glória…

— Ele espirrou! — Cabeçaquente completou, rindo. — E saiu meleca para todo lado!

Astrid arregalou os olhos, horrorizada, mas acabou caindo na risada com a imagem mental da cena.

— Foi épico! — O gêmeo acrescentou, segurando a barriga de tanto rir.

Astrid secou algumas lágrimas de tanto rir também.

— Certo, certo… Mas e o Perna-de-Peixe? Como esse apelido surgiu?

— Ah, essa eu conto! — Melequento se apressou em falar, ignorando os gêmeos. — Quando a gente tinha uns nove ou dez anos, Bocão nos levou para pescar. Mas o Cara-de-Peixe ficou com medo e resolveu ficar no píer, longe do barco. Aí, do nada, enquanto estávamos pescando tranquilamente, a água estourou para todo lado!

Ele fez uma pausa dramática antes de soltar a revelação:

— Um peixe mordeu a perna dele!

Astrid piscou, confusa.

— Como assim?!

Seus olhos encontraram os de Soluço, como se pedissem confirmação. Ele apenas assentiu, confirmando que era tudo verdade.

— Isso é bizarro — ela disse, ainda chocada.

— Muito — Soluço concordou.

— Então… Qual é o seu nome de verdade? — ela perguntou, voltando-se para Perna-de-Peixe.

— Justin⁶ — ele respondeu. — Justin Ingerman. Mas se perguntar por esse nome, ninguém vai saber quem é. Então me chama de Perna-de-Peixe. Eu não ligo, sério.

Ela relaxou um pouco depois disso, talvez por perceber que, apesar de ser uma história absurda, Perna-de-Peixe não parecia se incomodar.

A verdade era que, quando aconteceu, o episódio foi traumático — a água gelada, o peixe enorme mordendo sua perna, o desespero de Bocão tentando tirá-lo da água… Ele poderia ter morrido. Mas, de algum jeito, a piada ajudou a superar tudo. Em Berk, rir dos próprios infortúnios fazia parte da cultura.

O sinal tocou, interrompendo as risadas. O almoço chegava ao fim.

— Hora de voltar pra aula… — Soluço suspirou, pegando sua mochila.

Ele lançou um último olhar para Astrid antes de se levantar. A conversa foi divertida, mas breve, e ela ainda parecia um mistério para ele. Mas uma coisa era certa: aquela garota não era como as outras.

E isso estava atiçando sua curiosidade.

Notas finais
Espero que tenham gostado!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.