Quebrando Limites

2 Só mais um alguém


Quebrando Limites

Capítulo 1 — Só Mais Um Alguém

Limites. Uma coisa que poucas pessoas conhecem, na totalidade da palavra. Tanto os próprios quanto os dos outros. Para consigo, para comigo, para com todos. Até onde você pode ir? Até onde você deve ir? Até onde você consegue ir? O que você sabe que os outros preferiam que não soubesse? O que mais você quer saber? Os limites da privacidade, hoje em dia, são mais quebrados que os de velocidade numa rodovia. E o peso da importância é diferente para a sociedade... É exatamente disso que alguém não-importante se aproveitava.

Dependia apenas de cuidado, de descrição... e de saber manipular limites em geral. Nisso o garoto em questão era bom.

Como agora, por exemplo.

– Seria possível vocês se largarem um minuto sequer, por favor? – Pediu, no auge de sua educação para o amigo que não parava de beijar a namorada ao seu lado, nem para respirar.

– Você poderia parar de beijar seu computador também. – Andreas respondeu, enquanto se separava da garota, rindo.

– É que vocês estavam me atrapalhando. Em algum momento chega no limite.

– Olha quem fala! Quais são os seus limites, hein Bill?

– Shiu! – O moreno riu, fechando o notebook e guardando-o na mochila. Na sala de aula não podia entrar com computadores, e ele entrava mesmo assim. Olhou para trás, com o intuito de chamar Andreas antes que... nem deu tempo. Ele já tava metendo a língua na boca da garota de novo. Revirou os olhos e seguiu seu caminho. O amigo que arcasse com as consequências.

Esse tipo de provocação era bem comum. Porque Andreas – Andy – era a única pessoa que tinha conhecimento de um segredo de Bill. Algo que ele realmente não queria espalhar, e o loiro concordava com isso até demais... mesmo que os comentários não fossem evitados. Isso era algo que Bill não conseguia manipular de jeito nenhum.

Quem o olhava nunca seria capaz de imaginar uma coisa dessas. Eles o julgavam pelo cabelo diferente, pelos piercings e tatuagens, pela roupa justa e o rosto afeminado, às vezes coberto de maquiagem, ressaltando olhos castanhos pouco compreendidos, mas que enxergavam muito mais do que parecia. Não lhe davam muito valor. Só mais um estrangeiro que morava nos arredores de Londres, que tinha um estilo diferente e por isso não era bem aceito.

Ainda que o moreno era dono de um sorriso encantador.

As conclusões nunca mudavam. Roupas pretas significavam tristeza, no vocabulário popular. As boas notas, a falta de preocupação, a ausência de sentimentos... isso escondia uma personalidade bem detalhada. Tudo o que não sabiam sobre ele, contrastava com o que sabia sobre muita gente dali. E Bill era feliz por viver assim, quase escondido no meio da população de alunos, de iguais. Como uma sombra, que desaparece de noite... e na noite que encontra de dia.

Um grande mistério para alguns, tais alguns que não se arriscavam a desvendá-lo.

Bill se divertia quando ouvia sem permissão as conversas, sobre as fofocas do colégio. Ou quando qualquer criatura daquelas com as quais convivia parava do seu lado e lhe contava uma delas. Quando essas criaturas divinamente mundanas fingiam se importar com um ser como ele. Não gastava nem suas respostas mais sarcásticas com elas. A diversão estava nos segredos... nas piores histórias e maiores mentiras. Ele ria em saber o quanto as pessoas eram mesquinhas. Falsas. Se admirava também com a capacidade delas em fingir, em atuar. Se dariam bem se tivessem um bom roteiro a seguir.

Só não ficariam nada bem se descobrissem o que ele fazia.

Não era por mal nenhum, é verdade. Era apenas o melhor passatempo que ele tinha encontrado. As pessoas só não tinham uma boa imagem nem uma boa sabedoria sobre aquele tipo de inteligência. Bill só não se gabava verbalmente por ser diferente...

Doeu um pouco quando teve que parar a porta com o pé, empurrada pela bela professora de física, para entrar segundos atrasados. Ela sorriu ao ver quem era o aluno desligado.

– Desculpe. Com licença. – Murmurou de cabeça baixa, vendo apenas pela visão periférica o sorriso da mulher. Deu-se conta que era sexta-feira, começando com física. Uma das poucas qualidades da escola, ao seu ver.

– Bom dia – completou com um aceno de cabeça.

Um silêncio incômodo invadiu os alunos, contrariando o fato de que não se importavam. A Prof. Sparks ajeitou os óculos e pigarreou, enquanto Bill se arrumava na carteira, no canto. E a aula começou, prendendo sua concentração.

Que foi quebrada somente alguns minutos mais tarde, quando alguém batia na porta. O moreno segurou o riso, já sabendo que era Andreas. A responsabilidade desse amigo era algo inspirador, com certeza. Um ótimo exemplo.

– Não se preocupe, não irei te atrapalhar na sua matéria preferida, me ignore. – Andy falou, sentando-se na frente do outro. Ele nunca seria capaz de entender e não invejar uma mente feito a de Bill.

– Não se atreva a me pedir ajuda depois. – Não conseguiu guardar o sorriso, deixando o irresponsável indignado com esse terrível ato de egoísmo. Claro, Andreas era loiro, queria o quê.

Não que Bill naturalmente também não o fosse. Entretanto, era um assunto que ficava melhor quando deixado de lado.

O relógio mal dera meia volta e o loiro já não aguentava mais. Virou-se, pouco se importando com o aviso que fosse que Bill já tinha lhe dado.

– Ei.

Bill não o olhou. Andy foi irritante a ponto de mexer as mãos na frente dos olhos dele, como se estivessem vidrados.

– Viu como é bom quando você me pede para largar minha namorada? – Sussurrou.

– Eu não namoro a física. – Anotou algumas palavras que o menor nem tinha escutado. Deveriam ser importantes... Ergueu a sobrancelha, insinuando um sentido que sabia que ele não queria impor. – Muito menos a professora.

Andreas nunca gostou de ter suas palavras distorcidas pela lógica veloz do amigo.

– Mesmo assim, você gosta dela. – Tentou deixar claro que estava falando da matéria, sem muito sucesso.

– Seu histórico do MSN diz que você também gosta da sua namorada. Entre outras.

– Quando mesmo que eu te permiti isso? – Indagou, disposto a sair vitorioso na discussão.

– Quando ficou sabendo e deu de ombros, sem se importar. – Fez uma cara de “entendeu?”, deixando o outro com uma sensação crescente de burrice nas costas. Se negava até o último fio de cabelo curto a admitir que não era bom com detalhes, coisa que se mostrava perigosa quando se tinha um amigo impossível de parar, em certos assuntos.

Sua sorte era de que Bill não se importava com vingança. Tinha tantos argumentos quanto provas se quisesse acabar com a vida de alguém, a um clique de distância. Ui.

Realmente. Bill era alguém inesperado. Desconcertante.

– Não precisa ficar com medo. Não vou usar meu mal contra ninguém, muito menos contra você. Não ainda. – Sorriu, quase carinhoso na sua malícia.

E ser assim tinha um motivo. Todo esse poder que Bill escondia... Só fazia Andy gostar mais dele. Tinha algumas vantagens uma amizade assim, mesmo que toda a sua vida e sua privacidade não fossem tão suas assim. Ele dizia e reafirmava sempre que necessário: um dia ainda descobriria como Bill fez para entrar no seu computador. Antes mesmo de uma semana após conhecer o novato, se surpreendeu demais com recados do garoto.

Afinal, Bill era um hacker.

Era impossível ter uma novidade sua que ele ainda não tivesse tomado conhecimento. O download se atualizava automaticamente, conforme novos arquivos fossem salvos, excluídos, alterados. Andreas tinha uma vergonha tremenda de seus históricos, e já tinha colocado para não salvar. Bill não deixara e, metido como só era com Andy, voltou à antiga configuração. A vida social do amigo era um assunto muito interessante.

Só que não chegue pensando que ele era assim com todo mundo. Alguns poucos limites ele ainda respeitava, porque algumas amizades ele não tinha o menor interesse de ter por perto. Andreas deixava, e por mais que ele reclamasse desse ponto, já havia falado que tinha um lado bom. E era para ter certeza de que seu segredo estava seguro.

Por enquanto, o resultado o alegrava, e muito. Tinha escolhido um bom amigo, no final das contas. Um amigo sincero, até o último ponto final.

O tempo se estendeu até o intervalo com a próxima aula, e o professor estava se atrasando... o que deixou Bill bem tentado em abrir o computador, só um pouquinho... Não conseguia deixar de lançar alguns olhares inquietos para a mochila, onde o eletro estava.

– Você tá mais viciado que o normal nesse seu treco, Bill. – Andy, com toda a sua observação, comentou. Não se abalou com o olhar irônico que recebeu quando usou a palavra treco para chamar um dos objetos mais preciosos que o maior tinha. – Conte-me tudo e não me esconda nada.

Arregalou os olhos azuis, sabendo que tinham um efeito quase hipnótico por alguns segundos, você olhava e não era capaz de desviar, mesmo se quisesse. Bill queria acreditar que detestava o fato do amigo ser tão perceptivo assim.

– Eu não sou um expert feito você que pode saber de todos os detalhes da vida de alguém só com um clique, ok. Preciso que as pessoas falem, usem a voz, formem frases... – os gestos iam acompanhando o discurso de convencimento dele. – Portanto, ou você fala logo, ou você me conta depois...

Sorriu.

Bill ficou pensativo, matutando se contava ou não, se falava tudo, se só dava uma ideia... não estavam num lugar tão bom assim para conversar, então teria que usar boas palavras para não se expor em sentido algum. Pensou um pouco mais.

– Acho que você tá disposto a falar, bom. Com todo esse silêncio...

Acenou que sim. E se arrependeu no centésimo de segundo seguinte.

– Me dê só uma dica. Só uma ideia do que você está aprontando. – Espiou a porta, checando a localização do professor. Tudo livre por enquanto, ele não estava na sala.

– Eu estou... – mexeu os olhos, tocando só as pontas dos dedos das mãos. – Brincando com um garoto. – Ergueu a sobrancelha.

Andreas ficou confuso. Essa era a intenção de Bill ao usar um verbo tão rodado, com tantos sentidos e poluições possíveis. Não combinava muito com a verdade, ao seu ver, mas era assim que achava que sua vítima estava se sentindo. Sem explicações.

O loiro não desistiu.

– Você quer dizer... através de suas habilidades... internéticas? – Bill revirou os olhos, terminando com um sorriso de canto de lábio, presunçoso.

Quando Andy ia complementar a fala, o professor chega esbaforido, ciente dos quase 10 minutos de atraso e do quão isso poderia ser prejudicial para si. Ou ele achava que seria isso, porque na verdade, poucos se importavam. Ignorando o silêncio que se dera quando ele entrou, voltou-se ao amigo e completou:

– Olhe bem o que você vai inventar, hein. Talvez você seja mais perigoso do que parece.

– Talvez? – Bill riu. – Talvez você não confie ou acredite na minha capacidade, isso sim.

Ele se perguntou, “capacidade para quê? Para acabar com a vida de um garoto desconhecido só por brincadeira?” e isso deve ter ficado estampado no seu rosto, para ouvir o que ouviu.

– Relaxe. Não sou tão mau assim. Eu só ameaço.

O sorriso com olhos estreitos estava diabólico.

Notas finais
01.05.2012
Lálálá... comentários à vontade, ok. ;D
Qualquer aviso, erro, blábláblá...
Obrigada por ler :B
Möppy.