Quebrando Limites
4 Cúmplices
Notas iniciais
~pagando de legal, okie~
Espero que gostem ♥
Quebrando Limites
Capítulo 3 – Cúmplices
Sentado na sala de casa, com um olho na porta e o outro no relógio, estava Andreas. Ele estava ansioso, o que não era normal. Não sofria de ansiedade, na maior parte das vezes, sobre a maior parte das outras coisas. Afinal, eram apenas as outras coisas, não tinham tanta importância assim. E hoje o assunto era importante ao ponto de atiçar sua curiosidade até não poder mais. Se distrair não estava sendo simples, só sua namorada conseguia – por um certo tempo. Qualquer brecha de silêncio mental e todas as perguntas já voltavam, numa rapidez incrível. Por um lado estava quase divertido, pela raridade de uma situação dessas.
Aliás, tudo estava pior porque o momento estava se aproximando, minuto por minuto, tic por tac. A ânsia em saber desse rolo do Bill estava se tornando insuportável. O relógio com toda a certeza tinha desacelerado, só podia ser.
Andreas riu pela loucura dessa situação. Loucura qual não podia negar que estava quase por alcançar. Uma coisa tão sem lógica, tão sem noção, que se faz pensar que alguma coisa ali tem sentido, tem motivo. Era...
A maçaneta da porta girou, e o som pareceu muito alto no silêncio agoniado do cômodo.
A situação pareceu muito estranha para Bill. Entrou sem avisar, como sabia que podia, e se assustou com o suspiro do amigo, sem conseguir identificar o que estava por trás. Alívio não parecia ser. O sorriso que recebeu não foi muito sincero, dava a ideia de que queria confortá-lo, conseguir se controlar. Aquela típica cena que você olha e diz que tem algo escondido ali, sem descobrir o quê.
– Você está bem? – Bill parou, observando, sem saber se a aproximação era algo seguro.
– Se posso chamar isso de bem, estou sim. – O loiro respirava fundo, conseguindo se controlar. Bill, um pouco assustado com o amigo, soltou a mochila no canto do sofá e foi pegar um copo de água, por precaução.
– Obrigado – agradeceu Andy, quando Bill se sentava ao seu lado. Depois de um tempo, ele se sentia melhor, tirando o susto do rosto do maior.
– Por que esse nervosismo todo? – Recebeu um dar de ombros como resposta.
– Minha mente é muito exagerada nas reações, ela me descontrola. – Bill ergueu a mão delicada, interrompendo.
– Quer dizer que você estava louco assim por minha causa? – Franziu os lábios, erguendo as sobrancelhas.
Andreas confirmou. O moreno não sabia que ia assim tão longe no garoto. Explodiu numa risada, extravagante ao seu modo. O loiro tentou se indignar com isso, porque era uma falta de respeito com seus sentimentos... entretanto, esse pensamento nem foi muito longe: a diversão de Bill era contagiante e quando deu por si o estava acompanhando.
– Não sabia que causava tanta preocupação assim.
– É que essa sua mania de me esconder as coisas, ou de contar de jeitos que eu não entendo me atrapalha a vida. Não sei o que pensar, você não é uma pessoa muito previsível, em nada. Muito certo da cabeça. – O desespero (com um pingo de ironia) escapava por sua voz e seus gestos, fazendo Bill dar um sorriso sincero e alegre, daqueles que ninguém resiste. Vendo que ele ia falar de novo, calou-o com um abraço realmente apertado. Andy se sentiu estranho de retribuir. Era embaraçoso para ele que esse abraço fosse mais carinhoso que o de sua namorada.
– Bill, eu quero respirar.
– Não quer nada – largou-o, mesmo assim, ajeitando a postura e tirando o notebook da mochila, preto com um adesivo prateado de três estrelas cobrindo a logomarca. Estrela igual a que ele tinha no quadril.
Observando, Andreas se atreveu:
– Você diz que eu não quero nada, mas já vai realizando minha vontade... – passou a língua no canto da boca.
Bill o olhou de canto de olho. Ficou ali, até o loiro se sentir incomodado e rir, ficando com o rosto rosado.
– Vou contar para Karen que você está me tentando.
– Vai nada.
– Estou entrando no seu computador.
Andy pulou para mais perto, arregalando os olhos. Não era essa sua intenção, isso não era justo! (Na real, não era essa sua primeira intenção. Só a segunda.) Ele nem mais se dava ao trabalho de se perguntar “como assim, no meu computador?”, já ia direto verificar ou implorar pelo que fosse necessário para as palavras não se tornarem realidade. Bill riu dessa reação.
– A senha da internet é a mesma...
– Sim.
– Foi uma afirmação. – Sorriu, abobado.
– Ah é. Esqueço que eu nunca preciso falar essas coisas.
– Você é muito esquecido. – Enquanto iam falando dessas simplicidades, Bill ia fazendo sua rotina normal de quando abria o computador. A sala de bate-papo escondida num site meio desconhecido da internet, o Messenger, como offline, um programa alemão que Andy nunca conseguiu ler o nome, umas janelas com uns códigos estranhos que nunca tentara entender as explicações de Bill... Este não se importava em mostrar tais coisas e seus processos, porque sabia que Andreas não conseguiria repeti-los depois, por mais atenção que prestasse. Só de olhar já achava de uma complexidade tremenda.
– Arg – virou a cara, apoiando as mãos nos joelhos. – Não dá, me sinto muito burro assim.
– Isso você sempre fala.
– Não quero nem mais tentar aprender, me revolto com a sua inteligência.
Bill preferiu levar como um elogio, sorrindo.
– Já conversamos disso antes, hein. Nem invente de querer retomar o assunto. É difícil falar isso, mas você não é capaz.
– Pior que eu sei disso.
O loiro foi se conformando com as palavras, já que escutá-las é algo bem diferente. Admitir em voz alta sempre é mais doloroso.
– Agora você está realmente bem? – Bill quis conferir, antes de se precipitar e fazer besteira.
Andreas riu, alegre. Bill desconfiou.
– Isso responde sua pergunta?
– Não era exatamente o que eu queria ouvir, mas acho que presta.
Para não responder de uma maneira pior nem passar a impressão de que não estava melhor, encheu a boca com um último gole de água que restava no copo. Alguma noção do perigo ele ainda tinha.
– Diga-me, loiro. O que você quer saber?
– Conte-me tudo.
Resolveu ignorar a burrice do amigo e lhe dar o que queria.
– Então... – Andreas o olhou, esperançoso – os downloads estão quase terminando.
– Que downloads?
– As suas atualizações – sorriu, inocente.
Andy bufou, pensando no que tinha salvo por último, quais tinham sido suas últimas conversas no Messenger, e os últimos sites que tinha visitado. Detestava o fato de não lembrar exatamente disso, o que significava que de alguma merda da sua vida Bill iria ficar sabendo. Não que fizesse uma diferença tão grande assim, o costume apenas não tinha se firmado ainda.
– Se eu não fosse legal, seu amigo e te conhecesse menos que o suficiente, teria tirado seu pc de você, para o chão. – Foi tão cauteloso na escolha das palavras, falando uma frase tão completamente significativa (ao seu ver), que soou totalmente infantil aos ouvidos do maior. Talvez por compaixão, se forçou a engolir uma risada cheia de sarcasmo, encarando o computador com grande concentração. O menor riu.
– Você tem um autocontrole incrível, pode rir agora.
– Obrigado.
Silêncio. Ele esperou, e nada. Seu olhar indagativo o rendeu.
– Desculpe te decepcionar amigo, sei que você gosta de me fazer e ouvir rir. – Não completou que preferiu ser respeitoso e rir mentalmente.
– Me decepcionou mesmo. – Fez um bico e juntou as mãos, espremendo os joelhos, se encolhendo, ressentido. Bill aproveitou e esticou as pernas sobre a mesinha de centro. – Ainda não sei para que tantos números – apontou a tela.
– Já te falei mil vezes disso, ser perdido. São os computadores...
– Que você já acessou e blábláblá, mas...
Bill fingiu surpresa, erguendo as sobrancelhas e arregalando rapidamente os olhos. – Que bom.
Andy revirou os olhos.
– Porém... – o maior permitiu a continuação.
– Porém... como você sabe qual é de quem?
– Dá para colocar “apelidos”, eu apenas prefiro deixar confuso assim. Só decoro os mais importantes. O resto eu entro, quando quero saber quem é. Só que agora são em dois que eu me perco.
– Sempre nos meus históricos, já vi tudo.
– E no do Tom.
– Ah! Tom é o nome do azarado, então.
– E eu tenho vontade, mas você nunca vai deixar.
– O quê?
– Da Karen.
Andreas estreitou o olhar, segurando os ciúmes. Bill sorriu. Esse limite ele não pensava em ultrapassar de maneira nenhuma.
– Sei que por um lado você até gostaria, mas não se preocupe, não vou invadir. Você a respeita, isso é bom. Seria injusto eu me meter.
– Você já olhou o computador dela alguma vez?
Olharam-se nos olhos.
– Nunca – Andy assentiu. – Tenho medo de descobrir que ela te trai, ou quem sabe encontrar alguma foto de vocês se comendo... não seria legal.
O desgraçado segurou o notebook com uma mão, e a outra aparou uma série de tapas descontrolados e doloridos. Ele sabia que o mais velho (Bill...) só fazia isso para tentar convencê-lo, uma tática bem boa quando o assunto não é tão sério. Enquanto um respirava fundo, o outro se perdia em gargalhadas.
– Você é um inferno de pessoa, como que eu te aguento?
Bill lhe mostrou a língua.
– Gay de meia tigela.
– Isso não é assunto para agora...
– Vai, então me mostra TU-DO logo. – A mudança de humor foi impressionante. Forçada e inesperada, mas impressionante. E Bill que era o gay. Ah é, Andreas tem namorada.
– Bipolar.
Frustrou-se na tentativa de dar um sorriso sádico. Não era muito bom de expressões, e foi devidamente ignorado pelo moreno, agora preocupado com as senhas. Sempre ficava tenso, pois elas podiam não ser mais as mesmas, e isso significaria mais trabalho para ele. Todavia, aparentemente, Tom não era muito esperto.
– O nome dele é Tom, certo?
– Sim.
– Quantos anos tem?
– A mesma idade que você, 17.
– Ah! Seu pedófilo.
– Pelo amor de Deus, Andy.
– Do Diabo, por favor.
Bill o olhou, com a intenção crescente de matá-lo.
– Você está inventando coisas demais muito cedo.
– Mas você tem 19.
– Mas eu não tenho plano nenhum de comê-lo, ele mora na Alemanha. Ele é que nem você.
– Quer dizer que eu preciso de você para entender as conversas dele?
– Sim. Já tá deduzindo, já é uma boa coisa.
– Haha. E ele é que nem eu como?
– Tem um monte de fotos de garotas e de fotos com garotas no computador.
– Ahhhh... espero que Karen não saiba disso. – Lançou ao outro um olhar cúmplice. Este estendeu-lhe a mão, com a palma para cima, pedindo a do amigo.
– Você sabe que eu não gosto daquela piranha, e sei que não me permite chamá-la assim. Não pretendo separá-los, ainda, porque você está feliz, então não comecei a planejar nada...
– Você é uma pessoa muito provocante, sabia? – Deu um sorriso amarelo. – Você está pensando mesmo nisso?
– Estou pensando que te provocar é uma grande diversão.
– Tá, voltando ao assunto. O que você faz com ele?
– Mando umas mensagens.
– Só?
– Sim. Achei ao acaso o computador dele. Não tinha nada para fazer, decodifiquei as senhas e, como de hábito, fui revirar os arquivos. Ele é um tarado.
– Então tome cuidado.
– É, sim, por enquanto não é necessário, obrigado. O que me chamou a atenção é que ele também tem problemas com a família, e vive fazendo comentários, apesar de ser um hábito muito obsceno.
– Só fala porcaria?
– Aham.
– Tipo tu, assim?
Bill firmou a mão no pc. Não iria apelar para a violência, isso atrapalharia o seu relato. Não deu certo, e o estalo foi alto.
– Seu magrelo desgraçado – grunhiu.
– Faça-me rir. Ele faz mais do que eu.
– O quê? Rir?
– Ele faz mais porcaria do que eu, além de falar. Melhor?
– Ah, sim. Ok. Me conta mais. O que mais fez com ele?
– Já disse, mandei mensagens.
– Mensagens... e-mails?
– Óbvio. – Deu de ombros. O silêncio o faz completar. – Para você talvez não tanto.
– Escreveu o quê?
– Por quê?
– Por que o quê?
– Por quê?,eu escrevi.
– Hã? – Bill riu.
– Eu escrevi por quê? na mensagem, entendeu? Perguntei “Por quê?”.
– Ah! Sim, tá, e por quê? – Andreas sorriu, malandro.
– É um resumo da frase, porque senão ficava sem graça. Em anônimo, ainda.
Ok. Isso estava soando muito estranho. Estava acostumado com novidades estranhas e novas até mesmo para os envolvidos nela, entretanto essa estava sendo diferente. Até onde o loiro entendeu, Bill estava era brincando com o garoto através do computador dele. O medo de se decepcionar nem tinha lhe passado pela cabeça. Ele esperava um pouco mais desta coisa que tanto animava e contagiava o moreno.
– Deixe-me resumir que você não tá gostando que eu sei.
Ele assentiu mais uma vez.
– Achei ele interessante. As conversas, o jeito de falar, apesar de tantos palavrões e piadas porcas e imprestáveis, ele é sacana, tem um dom diabólico para conquistar garotas e tamb-
– E também conquistou essa garotinha aqui... Agora entendi! – Sorriu, vitorioso, abrindo os braços.
– Andreas Gühne! Eu disse para você parar de cismar com isso, que droga, criatura do capeta! Vai te foder! – Ele o olhou, arrependido. Ia quase soltar que isso significava que ele estava admitindo, mas sabia que não. Quando Bill era contrariado com um assunto pessoal por muito tempo, e ele tinha a certeza que era por sacanagem, pois sabia estar certo, não aguentava e explodia, pouco se importando com o que os outros pensariam. – Seu inglesinho de merda.
– Desculpa.
– Eu disse que ele era interessante, não que eu estava interessado nele dessa forma!
– Sim, eu entendi. Desculpa, mesmo.
Bill respirou fundo, balançando a cabeça, numa negação meio positiva. É, Andy não entendeu. Mas uma palavra ainda ressoava na sua mente, para uma idiotice a mais, para diminuir a tensão. Um pateta sempre é um bom amigo por isso, e Bill era muito grato por tê-lo. Ergueu um dedo.
– Tenho descendência alemã.
– Tanto faz, você nasceu aqui, e isso que importa.
– E você sempre achou meu sotaque lindo.
– É encantador, é diferente.
O loiro ergueu a sobrancelha e fez um bico, como quem diz “não falei?”. Bill apenas o espiou de canto de olho.
– Um dia você consegue ter motivo para tanto convencimento.
– E eu que sou o bipolar.
– Claro.
– Você é revoltante.
– Você é um loiro bipolar de olhos azuis. Gostei dessa definição. Capeta. Você me ignorou muito bem, convencido.
– Continue, vai. Prometo que não vou zoar. E continue logo, porque daqui a pouco a tarde passa, e minha namorada vai chegar para uma visita.
Essa má notícia fez com que toda a cisma de Bill se perdesse no seu subconsciente e que voltasse logo ao propósito que tinha ali. O segundo, pois o primeiro era nada mais do que passar uma tarde na alegre companhia (e na casa) do melhor amigo. Risadas, besteiras, nada de útil. Só amizade e teimosia.
A teimosia era algo que corria livre em qualquer conversa de uma dupla feito essa. O respeito existia, mas aos olhos dos outros, era pura falta de educação. Não havia como explicar, simplesmente era o melhor para os dois. Discussões eram comuns. Ambos grandes teimosos, e isso só terminava quando um erguia a voz, expondo algum ferimento recente. Até teimosia tem limites. Ou quase.
Notas finais
Gostaram? :3
24.07.2012
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