Quebrados
7 Em sigilo.
Notas iniciais
Quando a minha mãe morreu, eu tinha 15 anos de idade e ela nunca falou sobre o meu pai. Ela não gostava quando eu perguntava, então eu não perguntava. Mas, acho que eu devia ter feito na época. Ela não disse que ele estava vivo ou que eu tinha uma meia irmã. No funeral, só eu e um amigo dela fomos. Peter, melhor amigo da minha mãe, praticamente me criou como uma filha. Ele cuidou de mim até que aos 18 anos eu arrumei um emprego na casa dos Buchaim e me mudei para lá. Foi quando o meu amor pelo pequeno Thomas cresceu, um menininho com 2 anos de idade que vivia fazendo arte para chamar a atenção dos pais. Isso aconteceu 2 anos atrás, quando eu estava com 21 anos.
Os ricos pais do garoto nunca viviam em casa, estavam sempre fora, passeando, viajando, indo para as festas ou estavam com os seus amantes. Os Buchaim não se importavam com o filho. Era de doer o coração ver o menino sentado em uma cama sozinho, brincando com os carrinhos, vivendo em uma casa onde os empregados eram mais seus amigos do que os pais.
Eu comecei a dar atenção ao garotinho e ele começou a me perseguir como um filhote, assim como Dylan faz agora. Porém no dia de seu aniversário, quando íamos ao parque de diversão, um homem levou o meu pequeno garotinho de olhos azuis e cabelos castanhos escuros. Eu tentei evitar, tentei, contudo o raptor me atingiu com uma faca; deixando uma marca comprida inesquecível abaixo da minha barriga.
Procuraram Thomas por 5 meses e nada, até que uma caixa apareceu na frente da casa dos Buchaim. Não era encomenda e não era nenhum presente, estava lacrada escrito "cuidado, frágil". O assassino não apenas levou a criança como tirou os órgãos e enviou o corpo por uma caixa de papelão. Papelão! Feito um objeto! Os pais, que milagrosamente estavam em casa e mesmo nunca tendo dado atenção ao garotinho, eles também choraram como eu chorei no hospital quando soube da notícia por um dos funcionários da casa.
A cena marcou a minha vida, o garoto marcou a minha alma e o passado marcou o meu corpo. Eu não poderia ter filhos, nunca mais.
Os Buchaim não deixaram publicarem nada no jornal ou na TV a respeito de Thomas e os funcionários não podiam abrir a boca sobre o assunto; era para manter tudo em sigilo. Ninguém poderia saber...
Depois do que aconteceu, eu deixei a mansão dos Buchaim e resolvi começar de novo. Fiz aulas de autodefesa, comecei a faculdade de direito, conheci a Ana e estava morando em um dos dormitórios. Tudo estava indo bem, eu tinha algumas economias guardadas e não precisava me preocupar com o dinheiro até que eu terminasse o curso. Contudo, sempre tem um porém na vida e esse veio por Peter. Ele ligou avisando que estava com câncer no fígado e precisava de dinheiro para os exames e a quimioterapia.
As coisas acontecem de um dia para o outro e o meu milagre foi o telefonema, no dia seguinte, a secretária de Dante ligou e pediu para eu ir ver o CEO da C&P. Ele precisava de uma babá para o filho e os Buchaim tinham me recomendado. Dante tinha algum parentesco com os Buchaim, que eu ainda não sabia qual era. Ele estava pagando o tratamento de Peter e a minha faculdade, além de procurar o assassino de Thomas. Esse homem apareceu como um santo na minha vida, mas alguma coisa vai dar errado. É sempre assim, nada é por acaso e perfeito. Sempre se dá com uma mão e se tira com a outra.
Eu estou esperando a outra mão aparecer.
O quarto que eu dividia com a Samantha encontrava-se nojento quando abri a porta e vi várias calcinhas, roupas e camisinhas espalhadas pelo chão, junto a copos, embalagens de salgadinho e outros lixos.
–A nômade apareceu? — Ela disse, saindo do banheiro nua e com a escova de dente.
–Samantha, ninguém quer ver os seus peitos flácidos, então cubra-se. — Joguei uma das toalhas que estava no meu pé. — E por favor, respeite o meu lado do quarto. — Apontei para a cama esquerda com um monte de roupas da puta da minha colega de quarto.
–Achei que você não ia mais voltar. — Deu de ombros e a loira bruxa sorriu. — Eu e Ethan adoramos um bom sexo na sua cama, Sofia. Obrigada. — Eu queria vomitar, essa mulher era repugnante.
–Estou torcendo para não pegar uma AIDS nesse quarto cheio de vírus da sua porra, Samantha. — Ela virou e bateu a porta do banheiro. Mulher nojenta e ainda por cima a rainha das putas, ninguém merece isso.
Saltitei não encostando em nada contamidado até o meu criado-mudo, no canto ao lado da minha cama, abri a gavetinha. Eu tinha esquecido a minha preciosa caixinha. Os meus mais valiosos pertences estavam lá, além da carta estranha.
–Eu preciso mostrar isso ao Dante. — Peguei o papel que estava escrito "Eu te achei. Você é minha!" com letras muito garranchadas que encontrei no meu armário da faculdade, duas semanas atrás.
Saí do quarto e liguei para o celular dele.
–Sofia, está tudo bem?
–Sim, está tudo bem. Será que eu posso te encontrar agora ou você está muito ocupado? Senão eu falo depois quan...
–Eu vou estar te esperando no meu escritório. — Ele me cortou. — Aonde você está?
–Saindo da faculdade. Vou pegar um ônibus até aí e já...
–Não, eu vou mandar um motorista. Você está bem, não é? — O tom dele era alarmante.
–Dante, eu estou bem. Não preciso de um motorista. — Revirei os olhos.
–Sofia, eu estou mandando você esperar dentro da faculdade. Eu não estou pedindo. — A voz autoritária me arrepiou inteira. — Você me ouviu, minha noiva? — Imaginei o sorriso em seus lábios.
–Dante, eu vou apenas pegar um ônibus. Cacete, homem, eu sempre fiz isso toda a minha vida. É melhor você não começar a mandar em mim agora. — Estreitei os olhos. — Não mande nenhuma porra de um motorista. Eu sou apenas a empregada, lembra-se?
–Então você quer que eu vá te buscar, Sofia? Quer que eu largue a reunião que estou tendo agora neste exato momento com 20 executivos e vá te buscar aí? Você tem certeza disso? — Mordi os lábios. — Porque eu vou fazer isso se você não esperar sentada aí dentro até a porra do motorista chegar. Você entendeu Sofia, ou eu vou precisar ir te buscar? — Ele tinha me convencido. Que homem difícil.
–Eu entendi, senhor Dante Kannenberg. Completamente, sem dúvida alguma, você é o homem mais impossível que eu já tentei convencer na minha vida. — Ele riu e a sua risada era contagiante.
–E você é a noiva mais teimosa que eu já tentei convencer na minha vida inteira. — Ouvi um coro de risos no fundo do telefone. — Preciso desligar, ainda estou em reunião, minha noiva.
–Ok, te vejo depois. Meu noivo. — Ele desligou.
–Quem é o seu noivo? — Ana apareceu logo atrás de mim e me deu um abraço apertado. — Com quem você estava conversando, Sofia? — Ela não queria me soltar.
–Ninguém, Ana, apenas comigo mesma. Você pode me soltar?
–Eu acho que não, Sofia. Você é meio doida, mas não ao ponto de fingir conversar com alguém pelo celular. — Beliscou a minha bochecha. — Quem é ele? — A mulher estava sorrindo.
–Um homem de sorte, provavelmente.
–Você não está vivendo com ele, né? — Cruzou os braços e aquele olhar desconfiado tinha voltado.
–Não, já disse, estou morando com um parente agora.
–Vamos lá, minha amiga, quem é o coitado? — Tive que sorrir. — Eu estou falando sério, Sofia. Ele deve estar te aguentando muito, querida. — E piscou para mim. — É bonito?
–Sim, é liiiiiindo pra caralho! É um gordo, safado, pervertido e recalcado. Tem olhos de sapo, boca inchada e beija igual a uma lesma. Está satisfeita, minha linda? — Beijei a bochecha da ruiva alta que fez uma cara de nojo.
–Você é doente, mulher.
–Eu sei, é por isso que você me ama. — Sorri meiga, escondendo os meus dois chifres.
–Claro, por isso que você está encalhada. — Pressionou o dedo na minha testa e revirei os olhos. Ela não entenderia se eu falasse que estou morando com um CEO de uma puta empresa e sendo babá do filho. Fora que ele é meu cunhado e ainda falso noivo.
–Ana, me dá um tempo...Pelo amor de Deus! — Bati no braço dela. — Não preciso de um homem agora. Quando eu precisar, te ligo e você me inscreve no "Par perfeito". Mas agora preciso de um tempo. Sem homens, sem encontros e sem namorados. — Levantei uma mão, impedindo-a de falar. Sendo ela, não adiantou.
–Eu nunca te vi com um homem, Sofia. Nunca, desde que a conheci. — Ela parou um pouco e perguntou. — Você é lésbica? — Eu ri.
–Não, sua sapatão, eu não sou. — Puxei um sorriso de lado. — Mas, e se eu fosse?
–Então aí você seria a minha putinha, meu amor. — A mulher era louca e me deu um beijo na cabeça. — Então, ele é rico?
Acho que ela era um pouco lerda, não?
–Ana, mulher, aonde você estava quando eu disse que preciso de um tempo? — Ela olhava em outra direção, apontando, enquanto eu a encarava.
Estávamos na frente do campus da faculdade. O lugar era aberto, amplo e os verdes das árvores com os bancos brancos e as escadas formavam uma praça muito bonita.
–Quem é aquele gato? — Ela perguntou ainda apontando. Eu virei para ver o que ela estava olhando.
–Puta que pariu! — Gritei, querendo matar o Dante!
Um homem alto, usando um uniforme de chauffeur, estava caminhando em nossa direção e a limusine preta estacionada bem na nossa frente.
–Senhorita Sofia, o CEO está te esperando e mandou que eu a levasse. — O homem com um sorriso encantador olhava para mim, indicando sua mão para que eu fosse.
–Vamos, Sofia! — Ana pegou na minha mão e deu um passo me puxando.
–Não, apenas a senhorita Sofia. — O chauffeur nos parou e ela olhou feio. Ele não devia ter se posto na frente dela. — São ordens do meu chefe, senhorita.
–Tudo bem, Ana, depois a gente se fala. — Dei um beijo rápido no rosto dela e não esperei a resposta. A mulher viraria um demônio se eu não respondesse às perguntas dela e eu não estava a fim de enfrentá-la; comecei a andar rápido e entrei logo no carro.
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