Quebrados
1 Oneshot
Notas iniciais
Recomendo que leiam a fic ouvindo a versão instrumental de Bang Bang (My Baby Shot Me Down) de Nancy Sinatra da trilha sonora de Kill Bill.
http://www.youtube.com/watch?v=tM8Qo6zBG5Q
Espero que todos que leiam gostem, boa leitura! ^^
Elizabeth estava sozinha num quarto velho abandonado, com a porta trancada e as janelas fechadas cobertas com cortinas brancas. As luzes estavam apagadas e, embora seus olhos já tivessem se acostumado com a escuridão depois de horas naquele lugar, ela ainda tropeçava ao ir até a janela e espiar por uma brecha para saber se a luz do dia brilhava do lado de fora. Ela era jovem, tinha olhos verde-claros e cabelos castanhos na altura dos ombros.
Não posso sair, dizia para si mesma. Seu coração batia rápido e suas mãos suavam frio, ela queria que a noite passasse logo e James e Paul chegassem ali, principalmente James, de quem sentia imensa saudade. E então eles três e o resto do grupo poderiam ir embora daquela cidade, daquele país. Recostou-se numa poltrona, fechou os olhos e tentou cair no sono. Ela ainda ouvia ruídos distantes vindos do lado de fora, eram os “vampiros”, os animais de estimação do governo. Não posso sair, não posso...
Quando abriu os olhos novamente não sabia se havia se passado segundos ou horas. Ela levantou-se, foi até a janela e novamente espiou pela brecha. Viu então, para o seu alívio, uma leve luz solar entrar por ali. Abriu as cortinas e a luz encheu o quarto. Elizabeth estava tão feliz que sequer consultou o relógio. Queria sair daquele quarto e ir encontrar com James, revê-lo depois de dois longos anos.
Mas quando ela abriu a porta e foi para o lado de fora, todo o apartamento voltou a escurecer, ela olhou para dentro do quarto e viu através da janela a lua e as estrelas do lado de fora. O pânico preencheu seu olhar e, antes que pudesse fazer um só movimento, sentiu algo pulando em suas costas e prendendo-a contra o chão. Era um dos “vampiros”.
Sentiu uma forte dor devido ao choque com o chão, depois ouviu o grito assustador da criatura, agudo e rouco, e então uma pontada em seu pescoço. Elizabeth desmaiou.
Quando a jovem acordou olhou em volta, era dia novamente. Seria dia realmente ou era mais uma ilusão? Olhou para o relógio: marcava seis da manhã, o sol já nascera. Agora não era mais uma ilusão, mas era tarde demais. Ela passou a mão numa parte dolorida do pescoço e não sentiu nada além da própria dor, não muito forte. Pelo que ela sabia sobre o implante de rastreadores provavelmente havia uma marca azulada em seu pescoço.
A garota sentou-se e encostou-se à parede ao lado da porta de seu quarto. James e Paul chegariam a qualquer instante e ela teria que lhes dizer que não poderia ir com eles, pois estava rastreada e chegariam para matá-la e a todos que estivessem com ela dali a, no máximo, uma hora e meia, pela distância que estava da capital e pelo tempo que passara desde a mordida. E mesmo que tivessem mais tempo não possuíam um cirurgião disponível para retirar aquilo dela.
Elizabeth começou a chorar silenciosamente. Alguns minutos depois ela ouviu passos subindo pela escada. Seria a pessoa que a mataria? Tão rápido assim? Mas quando viu James surgir no final da escada e virar-se para ela, por um instante esqueceu-se de que era uma mulher condenada. Ela levantou-se, correu para ele e o abraçou o mais forte que podia, no que foi correspondida.
– Também senti sua falta. – disse ele. James tinha cabelos loiros e curtos, um pouco de barba também loira e olhos azuis muito claros. – Mas temos que ir logo, antes que...
– Não. – então Elizabeth afastou-se e ele pôde ver as marcas azuladas em seu pescoço. James ficou paralisado. Logo outra pessoa chegou ao lado dele, era Paul, que tinha cabelos negros e olhos azul-escuros. Ele chegou sorrindo, esperando um feliz reencontro, quando olhou para o desespero na face de James e as lágrimas no rosto de Elizabeth. Seu olhar foi atraído pela mancha no pescoço dela e seu sorriso se desfez.
– É o que estou pensando? – perguntou sério. A garota assentiu tristemente, sem desviar os olhos de James.
– Você saiu no escuro? Por quê? – perguntou James, a voz ficando um tanto embargada.
– Eu... Usaram ilusões, como você falou. – ela disse – Me desculpe, James. Eu estava tão nervosa, ansiosa, queria ver você e quando caí no sono e acordei e vi a luz pela fresta na janela... Não pude resistir.
– Não devia ter deixado fresta, falei para consultar apenas o relógio, a única coisa confiável é o relógio. Eu disse. – apesar de suas palavras não havia raiva em sua voz, apenas uma imensa tristeza, e lágrimas começaram a cair de seus olhos. – Quanto tempo acha que tem?
– Uma hora, uma hora e meia, talvez. – ela disse, limpando as lágrimas do rosto e tentando segurar as que ainda queriam sair – Vocês têm que ir embora. Não há saída para mim e não podemos arriscar a sua vida, James. Você é o líder.
– Ela está certa. – Paul disse, e havia tristeza em sua voz também.
– Liz, por favor, não. Vamos protegê-la até encontrarmos uma forma de tirar isso de você.
– Não temos armas para isso agora, nem tempo, você tem que guiar os outros até o Refúgio. Não vou deixar que dezenas morram por minha causa, por uma estupidez minha. – ela foi até ele novamente e o beijou, o beijou como nunca o havia feito antes, pois era um beijo de adeus. Nunca se veriam novamente, depois de dois anos tentando ficar vivos, sacrificando chances de se reencontrarem pelo bem maior, arrumando uma forma dele poder ajudar seu grupo e rever Elizabeth sem que houvesse problemas. E agora por um erro, porque ela não havia sido forte o bastante, eles só teriam aqueles poucos minutos e depois nada mais.
– Vá, por favor. – disse ela, as mãos sobre os ombros dele.
James pôs a mão dentro de um dos bolsos do casaco e dali tirou um tipo de cristal, de tamanho pequeno, que ficava multicolorido ou alternava as cores de acordo com a posição que ficava contra a luz. Eram tantos tons e eram cores tão vivas que parecia um artefato mágico.
– No lago – disse ele – você pediu desculpas por não poder me dar algo melhor de aniversário, e que por isso estava me dando a coisa mais bela que já vira na vida. Foi o melhor presente que já ganhei e... – ele respirou fundo, também tentando conter as lágrimas – Quero que fique com ele, para ter boas lembranças, para que seus últimos pensamentos sejam... Droga, eu não consigo...
– Não precisa falar nada. – ela delicadamente pegou o cristal da mão dele, apertando o objeto com força na sua própria mão.
– Temos que ir. – Paul falou tão baixo que os outros dois quase não o ouviram.
– Vá. – Liz falou, com a voz fraca. Mas quando James começou a se virar ela lembrou-se de outras coisas e pôs a mão sobre seu ombro, chamando-o de volta. – Tome isto. Não quero que se perca ou seja levado.
Ela tirou de um dos dedos um anel com uma pequena pedra safira encrustada. O anel de um noivado que nunca seguiria adiante. Ao entregar o anel a James, tanto ela quanto ele pareceu ser capaz de ver o futuro juntos que estavam perdendo. Quando, mesmo que vivendo escondidos, teriam seus amigos, uma casa, talvez filhos. Ele pegou o anel e o guardou no bolso, abraçando Elizabeth para mais um beijo, dessa vez realmente o último.
Elizabeth conseguia a muito custo conter as lágrimas, mas as de James caíam incontidas e escorriam pelo seu rosto.
– Eu nunca vou esquecer você. – ele disse.
– Talvez seja melhor que o faça, quero que siga em frente. Você é o líder.
– Adeus, Liz.
– Adeus.
Então Paul e James começaram a descer as escadas, com James lutando para desviar os olhos de Elizabeth. Quando os dois desceram a ponto de não poder mais vê-los ela começou a chorar copiosamente. O vazio que sentia, a dor, a culpa, a remoíam por dentro. O cristal ainda estava sendo segurado firmemente em uma de suas mãos.
Uma hora depois Liz, sentada na poltrona, com o olhar perdido em direção à janela, ouviu passos. Virou o rosto na direção da porta e ali viu parada uma mulher alta, de cabelos ruivos e fartos, rosto de ar severo e olhos escuros. Estava totalmente vestida de preto e havia uma arma em uma de suas mãos.
A imagem da morte, pensou Liz. Então se lembrou do que James tentara dizer e apertou o cristal em sua mão a ponto de doer. A mulher ruiva começou a levantar a arma e Liz fechou os olhos, visualizando o dia no lago, um dia ensolarado. Era aniversário de James, eles estavam noivos havia alguns meses. Fazia um dia tão belo, ele sorria, parecia um anjo, não havia rugas de preocupação em seu rosto. Há muito nenhum dos dois se sentia tão feliz e despreocupado. Havia sido a última vez em que se viram antes daqueles dois anos.
Foi o melhor dia da minha vida.
A mulher tinha a arma apontada para o meio de sua testa. Ela ouviu o clique do gatilho, o disparo e então não ouviu mais nada.
Já há uma distância considerável do prédio, James e Paul estavam em suas motocicletas, dirigindo na cidade em ruínas, indo em direção ao ponto de encontro. James sentiu, além do vazio e da tristeza, um aperto e uma dor no coração, e soube que ela estava morta. Queria descer daquela moto, gritar, matar alguém, sumir do mapa e viver isolado de todos aqueles problemas, mas não podia.
Você é o líder, ela lhe lembrava. Sim, sou o líder, e a partir de agora serei apenas isso.
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