Quebrada
12 Destruição
Notas iniciais
WASHINGTON D.C.
11° MÊS
Foi durante o intervalo do almoço, ao ouvir um comentário de Desmond, sobre as notícias que relatavam a aparição de seres conhecidos como inumanos, que Hank finalmente encontrou o seu objetivo. Ele já havia lido sobre as várias experiências que visavam criar um novo Capitão América, gerando o que vários relatórios chamavam de soldados aprimorados. Ao ouvir o comentário de Desmond, o que para este soava quase como um gracejo, algo se iluminou para Hank. A ideia de que seria perfeito se houvesse um soro como o do Capitão América, mas que em vez de ser dado a um homem em específico, fosse distribuído em larga escala para todo o mundo, calou fundo nele. Que legado seria, deixar algo que permitisse a toda humanidade, enfrentar esses inumanos, ou qualquer outra criatura, de igual para igual.
Hank deixou a ideia amadurecer em sua cabeça por vários dias. O dinheiro que acumulou ao longo dos meses, vendendo as informações que garimpou, serviria para dar início a tudo isso. Este seria, finalmente, o seu legado para o mundo, aquele algo importante de que sempre quis participar. A ideia foi amadurecendo ao longo das semanas, mesmo Hank sabendo que precisava partir de algo. Havia o soro Extremix e a fórmula de Calvin Zabo. Podia trabalhar com ambas inicialmente. O problema é como chegar nelas. Localizá-las seria fácil, a questão é que ele precisaria de ajuda profissional para consegui-las. Sem falar que depois disso precisaria de cientistas para transformar a sua ideia em algo real. Mais uma vez foi a sua capacidade de garimpar as melhores informações que lhe permitiu obter o que precisava.
Hank tinha todo o dinheiro necessário agora, mas sabia que apenas isso não seria suficiente. Ele precisava de um braço armado, e de alguém muito bem colocado nos altos escalões. Precisaria também de conexões com o exterior. Seria trabalhoso, mas ele estava confiante. Tudo o que era necessário para conseguir o que queria estava naquele lugar onde deveria se sentir enterrado, como Desmond se sentia, mas que para ele, era uma fonte inesgotável de tesouros. Havia, entretanto, um problema, Hank sabia que não podia se expor demais. Ele precisava de um intermediário, alguém para tratar de tudo em seu nome, alguém em que confiasse totalmente. Esse alguém era Desmond. Ele só não sabia se seu amigo estaria disposto a isso, ou mesmo se seria capaz. Ao longo dos meses os sinais de sua depressão foram se tornando ainda mais fortes. Certamente faltava a ele um propósito em sua vida. Era o que Hank poderia lhe oferecer agora. Foi com a intenção de convencê-lo que chegou em sua casa naquela noite.
Hank já ia tocar a campainha da porta de Desmond quando percebeu que esta não só não estava trancada, mas que se encontrava semi-aberta também. Um misto de preocupação e estranhamento tomou conta dele, mas não o impediu de entrar. Chegou a chamar por Desmond, mas não obteve resposta. Andando com cautela, chegou até a sala. O ambiente estava escuro, mas ele foi capaz de ver a silhueta de alguém, aparentemente dormindo na poltrona. Hank se aproximou, apenas para constatar, horrorizado, que Desmond estava morto. O lado direito de sua cabeça com um buraco enorme, a arma ainda em sua mão. Hank não teve dificuldade em constatar que seu amigo se suicidara.
AEROPORTO DE WASHINGTON
24° MÊS
O homem que muitos conhecem como Desmond Norton acompanhou tudo o que aconteceu na base russa em tempo real. Ele sabia que o prejuízo com a perda da operação era apenas o começo de seus problemas. Assim que desembarcou em Washington, já estava bem claro em seus pensamentos que precisava desaparecer. Foi exatamente o que fez, ao reassumir o seu trabalho obscuro, naquele lugar ainda mais obscuro, aonde tudo ia para ser esquecido. Ele precisava pensar em seus próximos passos. Que melhor lugar para isso que um local onde ninguém o procuraria. Todos certamente estarão atrás de Desmond Norton, atrás do intermediário do Senhor H. O que ninguém sabia é que ambos eram uma mesma pessoa, que o verdadeiro Desmond Norton se suicidara meses antes. Hank, por sua vez, cuidou para que ninguém soubesse, tomando assim a sua identidade.
Ele tomou essa decisão naquela noite mesmo, olhando para o cadáver daquele que fora o seu primeiro amigo de fato, depois de tantos anos, desde a sua juventude. Hank enterrou o corpo de seu amigo no terreno de uma fábrica abandonada, falsificando grosseiramente a sua assinatura numa carta de demissão. Não houve qualquer tipo de estranhamento, tudo foi aceito com naturalidade, com Desmond sendo rapidamente esquecido. Ele estava livre para assumir sua identidade, tornando-se o seu próprio intermediário, junto às pessoas com quem teria de tratar. Assim ficou sendo, com ninguém desconfiando que o Senhor H e Desmond Norton eram a mesma pessoa. Ninguém imaginando que por trás deles estava um obscuro burocrata, alguém enterrado num lugar que quase nenhuma pessoa conhecia, e mesmo a maioria dos que o conheciam, preferiam sempre ignorá-lo. Hank estava bem escondido ali, onde poderia pensar no que fazer dali em diante, depois do que aconteceu na base russa.
FRONTEIRA RÚSSIA/OSSÉTIA DO SUL
INTERIOR DA BASE MILITAR AVANÇADA RUSSA
7 HORAS ANTES
As balas vieram rápido, tão rápido que não podiam ser vistas, até o momento em que se chocaram com o escudo criado por Joey. Ele sabia o que devia fazer no segundo em que tocou o solo. O inumano não era um lutador, nunca se preparou para tal, apesar de uma certa insistência de Daisy. Mas ele certamente não deixará seus companheiros e companheiras na mão, irá protegê-los do jeito que sabe, com o poder que lhe foi destinado. As balas pararam a poucos centímetros de todos, derretendo diante de seus olhares. Os que as atiravam eram soldados aprimorados, com força e reflexos muito acima do humano comum, mas mesmo eles tiveram o seu segundo de hesitação, diante do que viram. Era apenas deste segundo que Daisy precisava.
Todos ali sabiam o que deviam fazer. Daisy contava que Joey seguraria as rajadas que viriam assim que tocassem o solo. A confiança nele era total, todos se colocando bem próximos ao inumano. Ele fez por merecer tal confiança, mantendo todos a salvo dos tiros. A jovem inumana já tocou o solo preparada para o que tinha de fazer. Ela só precisou do segundo de hesitação dos soldados aprimorados, ao verem como seus tiros foram detidos. Concentrou todo o seu poder contra as armas deles, não mais do que alguns segundos levando para despedaçá-las. O poder dela, como o de Joey antes, ganhou mais alguns segundos de hesitação dos soldados aprimorados. Era justamente isso que Mike precisava.
Cada um deles tinha a sua tarefa a cumprir. Mike sabia exatamente o que esperavam dele, se lembrando das palavras de Daisy, quando discutiam sobre esse momento. Confiar no seu companheiro de luta era fundamental. Cada um faria a sua parte, cada um garantiria que os outros seriam protegidos, cada um faria isso da sua forma, com seus poderes e habilidades. Depois que Joey e Daisy cumpriram com suas respectivas tarefas, Mike sabia que esperavam o mesmo dele. Assim que viu as armas inimigas despedaçadas, notando, por sua vez, a hesitação deles, tratou de cumprir o seu papel. O cyborg tentou seguir as instruções de Daisy, sobre como escolher o melhor alvo. Não tinha a menor ideia de como ela podia distinguir, num espaço de poucos segundos, quem seria o líder de um grupo. Uma coisa, no entanto, ele foi capaz de notar, um dos soldados aprimorados abaixando a cabeça, ao ver sua arma em pedaços no chão. Foi nele que deu o primeiro tiro com seu feixe de energia, mirando certeiramente na cabeça. O segundo tiro foi em outro soldado, embora este tenha sido mais ágil, com Mike atingindo-o apenas no ombro.
O papel de todos tinha sido bem determinado. Joey tinha uma função defensiva, enquanto Daisy e Mike partiam para a ofensiva. A função de Ioiô era inicialmente diferente. Com sua velocidade, ela passou pelos soldados aprimorados e entrou no container, confirmando o que havia dentro. Quando saiu, sua função ganhou um ar tão ofensivo quanto o de Mike e Daisy. Em verdade, ela poderia ter acabado com a luta rapidamente, mas infelizmente eles tinham apenas cinco das bombas de estilhaço que haviam sido confiscadas da Hidra. Não foi nada difícil para ela colocá-los em cinco dos soldados aprimorados. O efeito foi imediato, quando os corpos deles começaram a se desintegrar diante de todos, chegando a parar a luta momentaneamente.
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O sorriso que Marcus Scarlotti ostentava se desmanchou em poucos minutos, depois que aquele quarteto desceu do teto. Mesmo abalado pela bomba sonora, ele viu como este grupo liquidou a maioria dos soldados aprimorados. Aos poucos ele foi se recuperando, ainda mais rápido que seus companheiros. O mercenário tinha algo bem claro em sua mente, jamais voltaria para o lugar de onde fora resgatado. A morte era um destino melhor para ele. Foi com base nesses sentimentos que forçou ao máximo os seus sentidos. Precisava se recuperar para entrar na luta. Seus longos anos de experiência lhe permitiram perceber quem comandava o quarteto. Seus companheiros ainda estavam fora de combate, mas ele já estava em condição de agir. Muito provavelmente era o medo terrível de ser levado de volta para o buraco onde o jogaram que lhe deu as condições de uma recuperação mais rápida. Seja como for, ele trata de pegar sua arma e apontar para a mulher que liderava o grupo responsável por destruir toda a operação que comandava. Um tiro certeiro na cabeça dela, e ele acreditava que seria capaz de mudar o resultado da luta.
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Bobbi e Hunter foram rápidos em conseguir um frágil abrigo quando os soldados aprimorados começaram a atacar. Ambos tinham sido desarmados, mas no meio da confusão, conseguiram recuperar parte de seu armamento. Não foi nada fácil para os dois ver metade das tropas de russos e americanos serem massacradas em pouco mais de um minuto. A ação deles, atirando contra os soldados aprimorados, desviando-lhes a atenção, permitiu aos russos e americanos sobreviventes se entrincheirar junto com os dois espiões renegados. Uma rápida aliança contra um inimigo em comum se formou entre todos, mas esta logo sofreu um duro golpe, quando um tiro de bazuca atingiu o frágil abrigo onde estavam. Caída no chão, tonta e sangrando, Bobbi viu os soldados aprimorados vindo em sua direção. Por um breve segundo acreditou que seria o fim, até que uma explosão mudou tudo.
A espiã renegada olhou para o seu companheiro, caído próximo a ela, ambos sorrindo, ao entender o que significava aquela explosão. Os dois também viram os quatro objetos caindo. Eles sabiam bem o que eram, tratando de proteger seus ouvidos da melhor maneira possível. A explosão da bomba sonora, portanto, não os pegou de surpresa. Ao mesmo tempo, ambos sabiam qual era o papel que lhes era destinado. Bobbi foi a primeira a notar o perigo, percebendo a figura de Marcus Scarlotti, não só prematuramente recuperado da explosão, mas já pronto para intervir na luta. Hunter também notou a intenção do mercenário. Os dois atiraram ao mesmo tempo, suas balas atingindo certeiramente a cabeça dele.
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Apenas quatro dos soldados aprimorados ainda estavam de pé. Daisy sabia que a luta devia ser resolvida logo. Um olhar seu para Ioiô confirmou que só precisavam encurralar os inimigos dentro do container. Foi dessa forma que agiram, cabendo a Daisy com seus poderes e Mike com seus feixes de energia, forçá-los a buscar abrigo naquele lugar. Certamente esperavam usar o soro para aumentar suas forças e voltarem ao ataque. O que não contavam é que a inumana velocista já havia plantado várias bombas lá dentro. Assim que foram encurralados dentro do container, Daisy usa seu poder para fechar a porta, com Joey derretendo o metal e soldando-a. Daisy deu o sinal para sua colega colombiana e uma forte explosão foi ouvida, contida pela estrutura de aço.
Deter os soldados aprimorados não era a única coisa a fazer. Havia também os mercenários comandados por Scarlotti, já quase recuperados dos efeitos da bomba sonora, bem como os sobreviventes entre os russos e americanos. Coube a Ioiô a tarefa de desarmá-los, o que foi feito rapidamente, com todos sendo rendidos por Bobbi e Hunter. Os representantes dos compradores do soro, por sua vez, ao ver como tudo se desenrolara, tentaram fugir, cabendo a Daisy, Joey e Mike fechar-lhes a rota de fuga com seus poderes. Em poucos minutos toda a situação estava controlada. Os representantes dos compradores, os soldados russos e americanos sobreviventes, bem com os mercenários comandados por Scarlotti, todos reunidos juntos. Daisy queria interrogar os mercenários, quem sabe arrancar algo útil deles. Ela não teve esse tempo, pois uma nova e violenta explosão os pegou de surpresa, envolvendo toda a base num inferno de fogo, com estilhaços de metal voando em todas as direções.
WASHINGTON D.C.
24° MÊS
A casa de Desmond Norton ainda continuava com a mesma aparência da noite de sua morte. Hank fizera questão de mantê-la, uma das formas de garantir que o suicídio de seu amigo não fosse descoberto. Ele raramente a visitou ao longo dos meses. No entanto, foi para lá que se dirigiu, vindo direto do trabalho. Estava na casa quando reviu novamente o resultado final da luta. Ele estava sozinho, não podendo surpreender ninguém com a sua reação, ao ver seus sonhos destruídos. Qualquer outro no lugar dele ficaria furioso, descontando essa fúria nos móveis e objetos que estivessem por perto. Não foi isso que o homem conhecido como Senhor H fez.
Hank não era um homem de grandes gestos emocionais. O homem que muitos conheciam como Senhor H não chorou, não blasfemou contra um deus no qual nunca acreditara, não xingou a má sorte e não quebrou nada. Ele apenas ficou olhando tudo o que planejara por tanto tempo, o legado que queria deixar, ser destruído. Em sua mente não havia lugar para raiva, tristeza ou lamentos, mas apenas para cálculos, planos e projeções. Em vez de quebrar o que estivesse diante dele, se dedicava a pensar sobre suas opções de agora em diante. Estava triste, é certo, mas era uma tristeza calma, conformada, que aceitava o revés, enquanto pensava no que faria dali para frente.
Nem tudo o que vira no vídeo era derrota. Ficou aliviado quando Marcus Scarlotti levou dois tiros certeiros na cabeça. Era o único ali que tratara pessoalmente com Desmond Norton, mais de uma vez. Os soldados aprimorados que morreram tiveram um contato mínimo com ele, mas também foi melhor nenhum ter sobrevivido à luta. Também fora cuidadoso em não manter contato com os representantes dos compradores, nenhum deles tendo condições de descrevê-lo para seus possíveis perseguidores. Havia, no entanto, o celular de Scarlotti, bem como o sinal de satélite que lhe permitiu ver em tempo real, tudo o que aconteceu na base. Ele nada podia fazer com o celular, mas um contador de tempo automático tinha como função garantir que não sobrasse qualquer pista a seu respeito para ser rastreada. Tudo o que precisava fazer era parar de enviar regularmente a senha que o desligaria. Quando as imagens desapareceram do seu computador, Hank sabia que a explosão ocorrera.
FRONTEIRA RÚSSIA/OSSÉTIA DO SUL
BASE MILITAR AVANÇADA RUSSA
24° MÊS
A explosão foi forte, fazendo surgir um fogo que se espalhava rapidamente. Foi tudo muito rápido e intenso. Ainda assim, a primeira preocupação foi com os estilhaços de metal. Daisy gritou para Joey e este fez o seu melhor esforço, conseguindo barrar os estilhaços, jogando-os para longe de todos, auxiliado pelo poder da jovem inumana. Mike não precisou de nenhuma ordem para usar um feixe de energia e abrir um enorme buraco na parede. Bobbi, Hunter e Ioiô conduziram todos os demais para fora, enquanto Daisy continuava usando o seu poder, agora para retardar o avanço do fogo. Um barulho assustador indicou que o teto ameaçava desabar. Não havia muito mais o que fazer e todos correram o máximo que puderam, enfrentando o frio e a neve que caia. Uma vez do lado de fora, tudo o que fizeram foi assistir horrorizados, o fogo consumindo toda a base, ao mesmo tempo em que ouviam novas explosões.
— Estão todos bem? – Daisy fez a pergunta não só para sua equipe, ela tendo sido a última a sair da base.
— Estamos todos bem – foi Bobbi quem respondeu – o que você acha que foi isso? – Daisy não responde, em vez disso ele se dirige até onde estão os mercenários que trabalhavam com Scarlotti.
— Comecem a falar – ela não se dirige a nenhum deles em particular, os quatro mercenários olhando para aquela jovem mulher, bem menor que qualquer um daqueles homens – falem – um dos mercenários cometeu o erro de rir. No segundo seguinte, caiu no chão coberto de neve, gritando em agonia e se contorcendo, enquanto se ouvia o barulho de ossos quebrando – depois que eu quebrar cada um dos ossos dele, eu vou fazer o mesmo com os ossos de cada um de vocês, até alguém começar a falar – ela gritou.
— O Scarlotti nos fez guardar algumas caixas no local de onde veio a explosão – um dos mercenários começou a falar. Ele tem um tom de voz assustado, pois Daisy ainda continua usando seu poder no seu colega caído – ele disse que era para o caso de um imprevisto, ninguém sabia que eram bombas – os outros fazem o sinal de concordância. Daisy se afasta deles, livrando o mercenário caído de sua agonia.
— Talvez isso aqui nos ajude – ainda impressionado com o que vira, Hunter mostra um celular para ela – é o celular do Scarlotti. Vi ele falando com alguém enquanto estávamos lá, então tratei de pegá-lo, antes de fugirmos da explosão.
— Vamos voltar para a nave – Daisy ainda tinha uma expressão sombria em seu rosto ao tomar essa decisão.
— E esse pessoal todo? – Ioiô aponta para os representantes dos que queriam comprar o soro, bem com para os mercenários – não podemos simplesmente deixá-los soltos – Daisy se dirige ao grupo citado por Ioiô, todos agora bem assustados ao vê-la se aproximar.
— Entrem naquele avião – ela aponta para o jato que viera com os representantes dos compradores do soro – entrem logo – ela grita, fazendo a terra tremer junto a eles. Todos começam a entrar no avião, bastante assustados – menos você – ela aponta para o mercenário que havia respondido a sua pergunta antes – você vem conosco, Hunter.
— Vamos lá colega – ele agarra o mercenário – você foi o feliz sorteado para nos dar algumas respostas.
Os outros mercenários carregam o sujeito que Daisy torturou para o avião. Assim que estão dentro, ela olha para Joey, que nem precisa ouvir qualquer ordem, apenas usando o seu poder para selar a porta do jato. Feito isso, Daisy se volta para os americanos e russos.
— Eles são problema de vocês agora.
— Esse problema foi resolvido – Bobbi se dirige a Daisy – e quanto a nós?
— Nós temos uma caçada para fazer – a jovem inumana caminha para a nave em que vieram, sendo seguida pelo restante do time, e o mercenário que agora é prisioneiro deles.
WASHINGTON D. C.
DOIS DIAS DEPOIS
Os dias passaram lentamente para Hank. Ele olhou para o extenso corredor, um dos muitos daquele lugar, enquanto via os outros dois funcionários indo para as suas casas, depois de um dia inteiro arquivando relatórios. Ambos eram jovens, tendo vindo trabalhar ali após a saída de Desmond. O homem que era conhecido fora desse espaço como Senhor H quase não conversava com eles, preferindo manter-se distante. Ao saírem, deixaram o ambiente bem silencioso, e era assim que Hank gostava. Ele ainda esperou uns 10 minutos para ter certeza de que ninguém voltaria por ter esquecido algo. Após essa espera, voltou para sua mesa, abrindo um velho laptop, um que pegou numa das prateleiras do lugar, voltando a conferir a gravação de tudo o que aconteceu na base russa. Nos últimos dois dias, ele reviu aquelas imagens várias vezes.
Durante esse período, Hank também se dedicou a refazer todos os seus passos como Desmond Norton nos últimos meses. Ele verificou todas as aparições públicas, os contatos com pessoas, locais que frequentou, e onde havia câmeras, além, é claro, de sua estadia em Genebra e Moscou. Tinha certeza de que as chances de chegarem até ele eram mínimas. Desde a noite em que encontrara seu amigo morto, quando decidiu que tomaria o lugar dele, Hank fez o que precisava fazer. A começar pela aparência física. Desmond era completamente careca, enquanto Hank não tinha o menor sinal de calvície, além de barba e bigode. Desde o dia em que assumira a identidade do amigo, ele sempre se apresentava no trabalho com bigode, peruca e barba falsas.
No entanto, é na gravação que ele tem se concentrado mais. Sua prioridade era o quarteto, cuja entrada em cena, pusera todo o seu plano a perder. Hank sabia que existia um grupo fora do governo no seu encalço, mas não imaginava que comportavam inumanos. Não houve registro de nada disso no ataque ao laboratório no Novo México. Mais uma vez ele foi ludibriado em antecipar as ações dos inimigos, com isso lhe custando muito caro. A maior parte da grande fortuna que acumulou vendendo informações foi investida neste projeto que afundara na base russa. Ele contava com o dinheiro da venda do soro para iniciar de verdade o que seria o seu legado.
De fato, a questão financeira não era o maior problema para Hank. O dinheiro que esperava conseguir com a venda dos lotes de soro era apenas um meio para um fim. Hank não tinha o mesmo objetivo dos antigos chefes da Hidra, menos ainda era um capitalista ganancioso. Seu objetivo não era poder ou riqueza. Ao fim de sua vida, o que ele realmente queria, era olhar para trás e ver que realizara o que sempre foi o seu sonho. Ele queria ter feito algo que seria lembrado muito depois de sua morte. Um legado que manteria o seu nome, não o faria ser esquecido. Poder e riqueza nada significavam para ele, não diante da realização deste sonho.
Hank aproveitara bem aqueles dois meses de suas férias acumuladas, gastando sem limites o dinheiro que ganhou com sua primeira venda de informações. Entretanto, não passava por sua cabeça fazê-lo de novo. Todo dinheiro que ganhasse seria para produzir o máximo possível de mais soro, milhões pelo menos. Não para vender, pelo menos não a grande maioria, e sim para distribuir quase tudo indiscriminadamente. Se dependesse dele, cada ser humano no mundo teria o seu soro. Era isso que queria. Sua frustração maior com o que acontecera na base russa foi ter perdido a chance de deixar esse seu legado; aquele algo importante de que sempre quisera fazer parte.
Hank era um homem frio e racional. A frustração da perda é algo com que está mais do que acostumado a lidar. Mais um sonho acalentado que se perdera, não seria capaz de derrubá-lo. Ele não era Desmond, não iria sucumbir à própria desesperança. Talvez não deixasse legado nenhum, provavelmente morreria na obscuridade em que sempre vivera. Pouco importa. Não era aquele o momento de pensar nisso. Ninguém sabia nada sobre o Senhor H, que esse seja o seu consolo então. Manter-se livre, garantir que nada se descubra sobre o vilão de nome ridículo que criara. Mergulhar no anonimato para, quem sabe, retornar mais adiante. Acima de tudo, manter-se seguro. Ele tinha consciência que a sua melhor chance era apagar qualquer pista que pudesse levar até a sua pessoa. Era preciso voltar ao obscurantismo em que sempre vivera, para o anonimato que sempre fora o seu espaço seguro. Qualquer descoberta tinha que parar em Desmond Norton.
Uma vez decidido isso, deixando de lado qualquer tipo de autopiedade, Hank voltou a concentrar-se de novo na gravação. Tratou de rever a cena que mais o desagradava, o momento em que o container foi explodido, junto com todo o carregamento do soro, com vários soldados aprimorados dentro dele. Isso ia contra o que americanos e russos queriam, uma conclusão que despertou um alerta em Hank. Por que destruir o container se o objetivo de ambos os governos era se apoderar do soro? Algo ali não estava batendo direito para ele. Se esse grupo não estava a serviço dos governos americano e russo, a quem estão eles respondiam? Qual era a verdadeira agenda deles nesta história?
Hank reparou mais uma vez na mulher que aparecia e desaparecia, como que por encanto. Foi só no quadro a quadro que percebeu a sua movimentação em super velocidade, e mesmo assim foi muito difícil. Foi o mesmo quadro a quadro que lhe permitiu perceber o sinal sútil da outra mulher, que foi dela a ordem para explodir o container. Hank a reconheceu de imediato; era a mesma que fora torturada por um de seus soldados aprimorados. A ex-agente da S.H.I.E.L.D. que se encontrava foragida. As duas mulheres eram inumanas, assim como o rapaz de traços latinos que parou as balas com uma espécie de campo de força. Nenhuma indicação, nenhuma evidência ou prova, apenas o instinto é que levou Hank a decidir descobrir quem esses três eram.
ESTADOS UNIDOS
LOCAL DESCONHECIDO
DIA ANTERIOR
— Vocês fizeram uma bagunça e tanto naquela base russa, agente Johnson – a voz de Nick Fury tinha um tom nada satisfeito – o que aconteceu com a nossa infiltração discreta? Afinal, que Guerreiros Secretos são vocês se todo mundo os veem em ação?
— O segredo da missão já tinha ido para o ralo a muito tempo, senhor – Daisy encarou firmemente o mau-humor de Fury – não só já sabiam da nossa ida, como já estavam preparados para o fato de que russos e americanos queriam ficar com todo o soro. Alguém do seu lado vazou tudo para o tal do Senhor H.
— O que eu sei é que a essa hora o comandante americano está fazendo um relatório para os seus superiores – a voz de Fury ainda tinha um tom bem contrariado.
— Espero que ele tenha tido a decência de dizer que só está vivo graças a nós – interveio Bobbi.
— Eu posso garantir, agente Morse, que os interrogadores dele estarão muito mais interessados no fato de todo o carregamento do soro ter se perdido.
— Nós só contivemos os soldados aprimorados no container – disse Daisy – que culpa nós temos que eles explodiram tudo tentando sair? – o ar de inocência que Daisy emula em seu rosto, junto com suas mãos voltadas para trás, quase arranca um ligeiro sorriso de Nick Fury. Ele e Maria Hill olham um para o outro.
— Me parece uma ótima explicação, senhor – Maria Hill se dirige a Fury.
— É bom que pense assim, agente Hill, pois será você que terá de encarar os figurões em Washington com esta explicação – Fury olhou direto para ela ao falar.
— Eu já estive em situações piores, senhor – Maria Hilll respondeu – é verdade que em praticamente todas elas foi o senhor também que me colocou – Fury fez uma cara de zangado, mas nada disse, se voltando para Daisy.
— Eu vou lhe fazer uma última pergunta, agente Johnson, e pense bem antes de responder – ele faz uma breve pausa e continua – além desse mercenário que capturaram, vocês encontraram algo mais que possa nos ajudar a pegar esse Senhor H? – a jovem inumana olha para Fury por uns breves segundos, e só então lhe entrega o celular que Hunter tirara de Marcus Scarlotti.
— Hunter encontrou-o com o líder dos mercenários – ela disse – talvez consiga alguma coisa daí – Fury olhou para ela com desconfiança, mas colocou o celular no bolso de seu casaco.
— Eu estou dissolvendo esta equipe – Fury disse – agentes Morse e Hunter voltam para o status
anterior. É claro que vou providenciar alguma cobertura para os dois. Joey e Elena assinaram o tratado de Sokovia, então voltam para baixo das asas do Coulson. Mike volta para o trabalho normal dele na Fundação Stark – ele se volta para Daisy – quanto a você agente...
— Eu me cuido bem sozinha, obrigada – ela falou de forma bem enfática. Nick Fury olhou para ela por alguns segundos e depois fez um gesto de adeus. Ele e Maria Hill, esta conduzindo o mercenário que foi capturado na Rússia, entraram na nave e foram embora. As seis figuras observam o veículo decolando, apenas para vê-lo desaparecer, poucos segundos depois.
WASHINGTON D. C.
DOIS DIAS DEPOIS
Hank chegou para o trabalho com um ar cansado. Não cometeu o desatino de virar a noite, mas ficara até muito tarde em suas buscas. Ao voltar para casa, teve que lidar com a insônia, pois sentia cada vez mais que precisava descobrir sobre o quarteto que destruíra a sua operação. Na verdade, uma nova revisão do vídeo mostrou a Hank que se tratava de um sexteto, ao verificar melhor a atuação do casal que matara Scarlotti. Seu interesse maior, no entanto, era sobre os inumanos. Ele já descobrira a identidade dos três, agora precisava descobrir suas respectivas trajetórias de vida. O homem conhecido lá fora como Senhor H respirou fundo e olhou para aqueles corredores que pareciam infinitos. Tudo o que precisava estava ali, bastava procurar. Para qualquer outro seria uma agulha num palheiro, um trabalho tedioso, uma tarefa impossível. Para Hank, era apenas aquilo que ele fazia melhor.
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Os relatórios estavam acumulados em sua mesa. Era tarde da noite quando Hank deu por finalizada a sua busca. Ele já tinha rastreado toda a trajetória dos três inumanos. Joey Guttierez e Elena Rodrigues foram fáceis de encontrar, uma vez que assinaram o tratado de Sokovia. A trajetória deles seguiu uma linha reta, desde o momento em que se revelaram inumanos. O maior interesse de Hank recaiu sobre a jovem, que ele tinha certeza agora, comandara o grupo que destruiu todo o seu projeto. Daisy Johnson, vulgo Tremor. Uma inumana declarada fugitiva. Havia algo nela que gritava para todos os instintos de Hank. Certamente tinha a ver com o fato de um dos seus homens a ter torturado em busca de informações. Sua trajetória, ao contrário de seus companheiros, nada tinha de regular. Nenhuma indicação, nenhuma evidência ou prova, apenas o instinto é que levou Hank a decidir descobrir tudo o que pudesse sobre ela.
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